Wednesday, July 05, 2017

 

O Portal da Morte


O que chamamos morte do corpo físico constitui um portal para uma outra dimensão, uma outra realidade. Abaixo apresento algumas passagens de um livro [1] de Geoffrey Hodson que trata desse assunto.

A aproximação da morte

Estão aqueles que morrem conscientes da aproximação da morte? A resposta é: "Geralmente, não". A falta de suprimento de sangue e, portanto, de oxigênio no cérebro, acarreta a inconsciência, um processo semelhante ao sono. Mesmo que tenha havido sofrimento na proximidade da morte, este sofrimento cessa antes do fim.

O que vemos quando o processo da morte é diretamente observado? À medida que a hora da dissolução se aproxima, vemos as forças vitais sendo retiradas das extremidades e centradas no coração e aí visíveis como uma brilhante luz dourada. Depois disso, a sensação nos membros inferiores é grandemente diminuída. Então, quando a morte fica mais próxima, as forças vitais retiram-se para o meio da cabeça, que é a rede da consciência egoica durante a vida física. 

A pessoa que está morrendo pode estar ou não ainda consciente fisicamente. Se inconsciente, no coma que precede a morte, ela será visível à visão clarividente em seu veículo superfísico. Este veículo é construído de matéria muito mais sutil que o éter e, em linhas gerais, lembra quase exatamente o corpo físico; é, de fato, sua contraparte. Ele difere em aparência do físico, pois a substância com a qual é construído tem luz própria, de modo que brilha como se a luz viesse de seu interior, e é cercado por uma atmosfera visível (aura) como luz em constante mudança de cores. Existe uma ciência de correlação dos estados de consciência com as cores da aura.

O cordão prateado

A aura será visível em torno da pessoa agonizante que, fisicamente inconsciente, está então fora de seu corpo físico e flutuando acima dele, mas a ele ligado por uma corrente de forças que brilham com uma delicada luz prateada. Esta corrente flui entre as cabeças do corpo físico e do superfísico, assim ligando-as. Enquanto continuar fluindo há sempre a possibilidade do despertar físico. Uma vez rompida, o que se dá no momento da morte, não há mais possibilidade de retorno. Quando chega o  exato momento da morte, o cordão prateado rompe-se, e o homem ergue-se como se liberado de uma tração gravitacional.

A vida passada é revista

Em quase todos os casos o homem está inconsciente da morte como está do sono. Ele passa, por assim dizer, com um suspiro, deste mundo para o próximo. Geralmente ele está empenhado num processo de revisão, no qual passam ante seus olhos mentais os acontecimentos da vida que acabou, em perspectiva clara, causas e efeitos, sucessos e seus resultados, omissões e suas consequências, sendo vistos e correlatados. Este processo de revisão é muito importante, pois daí destila-se uma certa sabedoria - o fruto da vida encerrada. É por esta razão que deveríamos mental, emocional e fisicamente ficar quietos  na câmara da morte, de modo que, por excesso de pesar, não venhamos a perturbar o ser amado neste importante processo. Ele está agora vivendo em seu corpo mais sutil, o corpo da emoção, e está, portanto, altamente sensível às forças do pensamento e da emoção. Calmamente e com autocontrole, nossos pensamentos devem ser dirigidos para ele, com amor, com bênçãos e votos de progresso interior nos mundos mais sutis.

O despertar após a morte

Finda a revisão, segue-se geralmente um período de completa inconsciência que pode durar de trinta e seis a quarenta e oito horas, variando com o indivíduo. O despertar ocorre e o falecido, frequentemente ainda inconsciente do que aconteceu, olha ao seu redor. Em quase todos os casos algum amigo ou parente espera-o; ou, se não há ninguém para dar-lhe as boas-vindas, então algum membro do grande grupo dos auxiliares cujo trabalho é receber os recém-chegados, vai ter com ele. Tais auxiliares são membros de um grupo altamente treinado para esta função de dar assistência aos novos que chegam. Com as boas-vindas, explicam a mudança, ajudam para que se estabeleçam tão confortavelmente quanto possível. 

Lá não é uma terra estranha

O mundo para o qual nossos amigos foram, e para o qual iremos, não é uma terra estranha, porque vamos lá todas as noites enquanto nosso corpo físico dorme. O sono foi, com muita propriedade, chamado o irmão gêmeo da morte. Enquanto o corpo físico dorme, ficamos despertos no corpo que usaremos após a morte. Nossos sonhos são, em parte, memórias confusas de nossa vida nesse outro mundo, que trazemos de volta ao acordar. A diferença entre o sono e a morte está no fato de que, no sono, o "cordão prateado", que nos liga ao corpo físico, não é partido. Na morte, o cordão é partido, e como não temos mais laço com o corpo físico, não voltamos mais para ele. O mundo superfísico e o estado de consciência em que se ingressa na morte consistem em duas divisões ou planos da natureza: o emocional ou astral, e o mental. 

Influência do temperamento e do caráter

As condições nas quais uma pessoa se encontra depois da morte dependem grandemente de seu temperamento (e crenças) e da natureza da vida que levou no plano físico. Cada um de nós vê o mundo ao seu redor através das janelas de seu temperamento. O indivíduo amigável e alegre, desperta após a morte num mundo alegre, amigável; enquanto o centrado em si mesmo, pode acordar num mundo um tanto isolado, enfadonho e triste - não que esse mundo seja isolado, mas porque o indivíduo egocêntrico não consegue inspirar nem dar amizade. Felizmente, a dor, o enfado e o isolamento que tais pessoas criaram para si próprias, força-as a mudarem de atitude em relação à vida.

O cientista depois da morte

Os recém-chegados revelam uma tendência a procurar, depois da morte, as formas sublimadas que mais os atraíram na Terra. Assim, o investigador científico, cujo ideal na Terra era a procura da verdade, verifica que pode seguir a verdade lá como o fez aqui. Ele verifica também que suas investigações são muito mais frutíferas porque, deixando o mundo de matéria mais densa, está mais consciente na substância mais sutil, e mais próximo do mundo das causas. É na consciência mais elevada e no mundo das causas que residem a verdade e a compreensão. As forças circulantes, das quais o mundo físico é um produto ilusório, são visíveis como tal no mundo que se segue. Os grandes engenheiros do Logos, os Seres que fazem circular essas forças, operando e administrando os processos e as leis da Natureza - as Hostes Angélicas - podem ser vistas em operação, e o investigador científico encontra-se assim numa região em que seu trabalho é muito mais frutífero do que foi na Terra.

Os negócios deixados para trás

Todos que ingressam na morte verificam que o pensamento é uma força poderosa, potente para afetar a vide de outros, bem como um auxílio para si próprio, se ele a usar devidamente. A vida depois da morte pode, certamente, ser o começo de uma liberdade mais admirável, porque as fatigantes necessidades de negócios que, sem dúvida para nosso próprio bem, mantêm-nos atarefados aqui e tendem a acorrentar nossos pensamentos e emoções às coisas materiais, não mais existem. O ramo da alimentação, por exemplo, embora uma das principais causas dos negócios e do esforço pessoal no plano físico, deixa de ter qualquer importância na vida após a morte, porque toda a nutrição de nossos corpos sutis é automaticamente tirada da atmosfera. Lá, como aqui, o ar é carregado com a força vital de Deus, emanada através do Sol, e contém todo o necessário ao sustento nesse mundo. Todo o processo de sua absorção e assimilação é tão inconsciente como o respirar no plano físico. Consequentemente, o alimento não é uma fonte de atividade comercial. A roupa é feita pelo pensamento. Posto que a matéria do próximo mundo responde instantaneamente ao pensamento, pensar-se vestido é ficar vestido. O transporte não depende do trabalho dos outros. Nos mundos superfísicos nos movemos impulsionados pelo pensamento. Pensar alguém num lugar é deslocar-se para esse lugar. A habitação, a quarta das grandes fontes de negócios e de esforço humano no plano físico é também criada, no mundo vizinho, pelo pensamento. Lá, como aqui, as pessoas se reúnem em casas e cidades que são formas-pensamento. A privacidade é tão necessária na vida após a morte quanto na Terra, mas não um abrigo exigido pelo clima, pois as nossas condições climáticas adversas não se reproduzem lá. 

A vida nos mundos intermediários é transitória

Não há permanência em qualquer dessas condições e estados de consciência. Toda pessoa que morre de morte natural passa pelos mundos da emoção e da mente com velocidades variáveis, até que o centro de vida e de percepção, que estivera encarnado no corpo físico, seja retirado para sua fonte, que é o Ego no Corpo Causal. Há exceções, mas esta é a regra geral, e o tempo gasto no mundo astral após a morte depende muito do grau de espiritualidade ou materialismo no caráter e nos interesses do falecido. O ideal, naturalmente, é passar tão rapidamente quanto possível pelos mundos da emoção e do pensamento analítico para ingressar na beatitude da vida celestial e, mais tarde, na completa reabsorção no Eu Superior.

O amor é imortal

Será que o passamento significa a separação final, ou será que, de algum modo e em algum lugar, nós e aqueles a quem amamos nos encontraremos outra vez? A Teosofia afirma que, seguramente, aqueles que se amam irão se encontrar. Nada - nem a morte, nem o renascimento - pode quebrar os laços do verdadeiro amor. O amor é imortal e é, além de tudo, a mais poderosa força do universo. O encontro é, portanto, assegurado de maneira absoluta a todos aqueles que verdadeiramente amam. Se morrermos, poucos meses após a morte, iremos diretamente à presença do ser amado que nos precedeu.

O suicídio

Certos desvios do normal ocorrem em casos de suicídio e morte súbita e prematura. Quando cometidos por motivos abnegados, depois de passado o choque, que geralmente acompanha a morte súbita, a pessoa se acomoda às novas condições descritas anteriormente. Nesses casos, geralmente não há coma, e não há tempo para a pessoa se reajustar gradualmente às novas condições de vida. Aqueles que tomam suas vidas por motivo de fuga, a fim de escapar de condições inaceitáveis, podem mergulhar em inconsciência imediatamente ao deixar o corpo físico, e assim permanecer até o tempo da morte natural. Eles então despertam e se tornam sujeitos às leis e condições apropriadas. É este fato de despertar só quando o termo natural da vida física teria chegado ao fim que sugere haver um tempo fixado para a morte natural de cada um de nós, dependendo parcialmente de nossa conduta.  A experiência daqueles que cometem o terceiro tipo de suicídio é menos invejável ainda. Grosseiros e sensuais, eles deram fim a sua existência física na plenitude da vida, levados pela paixão do medo. Seus desejos fortes os conservam amarrados à Terra. Eles podem ver a réplica em matéria sutil do plano físico e vivem num meio mundo - entre este e o seguinte. Levados por desejos e paixões que não podem satisfazer, procuram, para seu alívio, entrar em lugares de permissividade sensual no plano físico e tentam unir sua consciência com o dos ébrios e sensuais que por aí vivem. Em tais circunstâncias, pessoas do plano físico sentem intensificação de seus desejos, de modo que o relacionamento, mesmo que ignorem tal coisa, pode lhes ser tão prejudicial quanto para as almas amarradas à Terra que procuram satisfação através deles. O suicídio é sempre um erro. Temporariamente o suicídio resolve certos problemas, é verdade, mas também cria outros novos.

O purgatório

A pessoa que morre presa de um vício autocriado sofre muito após a morte física. Ela está então vivendo em seu corpo emocional e, consequentemente, sentindo seus desejos com uma intensidade que lhe era ainda desconhecida quando a matéria do corpo físico os reduzia ou os abafava. Se existe o Inferno em algum lugar, então é nessa condição de ânsia forte e insatisfeita. O inferno não é um lugar; é um estado de consciência, bem como o é o Céu. Alguém pode estar em qualquer um deles, conforme a condição de sua consciência, onde quer que seu corpo esteja. Este sofrimento não é imposto como uma punição após um julgamento por uma autoridade externa; é algo autogerado, como é todo sofrimento e toda alegria. Ambos "colheitas" automáticas de "semeaduras" anteriores. O sofrimento causado por desejo insatisfeito não é algo permanente. O sofrimento post-mortem, resultante de vício não sobrepujado, dura somente o tempo da energia despendida em sua permissividade continuada. Quando isso se extingue, o homem fica livre e entra na vida normal post-mortem. As condições imediatamente além-túmulo podem ser tomadas como purgatoriais. Não se pode admitir acidentes no sentido usual da palavra. Todas as experiências do homem através do ciclo de vida, que consiste na descida ao nascimento, vida física, morte e ascensão ou retorno são autogeradas segundo a lei de causa e efeito. Não é aceita como possível a mais leve injustiça a qualquer ser humano. O homem é seu próprio legislador, o decretador de seu destino físico. A morte súbita pode causar um choque temporário. Uma catástrofe pode causar pânico. O conhecimento dos erros cometidos na Terra e a voz da consciência podem torturar a mente. Pode haver um vício não neutralizado, obrigações não cumpridas, conflitos psicológicos e complexos não resolvidos, desejos profundos nunca satisfeitos, e estes podem causar e causam sofrimento temporário após a morte. Felizmente há auxílio disponível: auxiliares que recebem, confortam e guiam aqueles que necessitam, e eles encontram na vida depois da morte uma continuação e uma extensão dos serviços que prestavam, ou queriam prestar na Terra.

O soldado depois da morte

Às vezes soldados que são mortos assumem a tarefa de ajudar os recém-chegados e, não raro no princípio, dão atendimento a seus próprios camaradas que vêm logo em seguida. No momento da morte normal, o falecido geralmente se empenha numa revisão de sua vida que se extingue. Na morte súbita, entretanto, não há, em muitos casos, nem revisão, nem pausa para descanso. Um instante apenas separa a consciência neste mundo da consciência no próximo. Conhecimento, faculdade, experiência, poderes adicionais e a oportunidade de satisfazer os desejos e as aspirações da vida precedente, que normalmente seria retardado até o próximo renascimento - estas são algumas das vantagens imediatamente adquiridas pelo soldado morto quando ele aceita o privilégio especial do renascimento imediato. A memória instintiva que surge no raro caso da reencarnação chamada de imediata pode ser bastante clara e detalhada, devido ao fenômeno raro de terem sido conservados os corpos astral e mental da última encarnação (pela renúncia ao período celestial ou Devachan), e não terem sido substituídos por outros novos vomo é o caso normal. Normalmente, o período entre vidas variam de 4 a 2.300 anos (geralmente de 4 a 40 anos no plano astral ou "purgatorial", seguido de zero a 2.300 anos no plano mental ou "celestial"), dependendo principalmente da duração da vida e do estágio evolutivo daquela alma.

  [continua]

Referência:
 [1] Geoffrey Hodson, Através do Portal da Morte, Editora Teosófica, 2013. ISBN: 978-85-7922-095-1. www.editorateosofica.com.br.

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