Sunday, June 08, 2008
As Sete Verdades do Bambu
AS SETE VERDADES DO BAMBU
Depois de uma grande tempestade, o menino que estava passando férias na casa do seu avô, o chamou para a varanda e falou:
Vovô, corre aqui !
Me explica como esta figueira, árvore frondosa e imensa, que precisava de quatro homens para abraçar seu tronco se quebrou, caiu com vento e com chuva, e...
...este bambu tão fraco continua de pé ?
Filho, o bambu permanece em pé porque teve a humildade de se curvar na hora da tempestade. A figueira quis enfrentar o vento. O bambu nos ensina sete coisas. Se você tiver a grandeza e a humildade dele, vai experimentar o triunfo da paz em seu coração.
A primeira verdade que o bambu nos ensina, e a mais importante, é a humildade diante dos problemas, das dificuldades. Eu não me curvo diante do problema e da dificuldade, mas diante daquele, o único, o princípio da paz, aquele que me chama, que é o Senhor.
Segunda verdade: o bambu cria raízes profundas. É muito difícil arrancar um bambu, pois o que ele tem para cima ele tem para baixo também. Você precisa aprofundar a cada dia suas raízes em Deus na oração.
Terceira verdade: Você já viu um pé de bambu sòzinho? Apenas quando é novo, mas antes de crescer ele permite que nasça outros a seu lado (como no cooperativismo). Sabe que vai precisar deles. Eles estão sempre grudados uns nos outros, tanto que de longe parecem com uma árvore. Às vezes tentamos arrancar um bambu lá de dentro, cortamos e não conseguimos. Os animais mais frágeis vivem em bandos, para que desse modo se livrem dos predadores.
A quarta verdade que o bambu nos ensina é não criar galhos. Como tem a meta no alto e vive em moita, comunidade, o bambu não se permite criar galhos. Nós perdemos muito tempo na vida tentando proteger nossos galhos, coisas insignificantes que damos um valor inestimável. Para ganhar, é preciso perder tudo aquilo que nos impede de subirmos suavemente.
A quinta verdade é que o bambu é cheio de “nós” ( e não de eu’s ). Como ele é ôco, sabe que se crescesse sem nós seria muito fraco. Os nós são os problemas e as dificuldades que superamos. Os nós são as pessoas que nos ajudam, aqueles que estão próximos e acabam sendo força nos momentos difíceis. Não devemos pedir a Deus que nos afaste dos problemas e dos sofrimentos. Eles são nossos melhores professores, se soubermos aprender com eles.
A sexta verdade é que o bambu é ôco, vazio de si mesmo. Enquanto não nos esvaziarmos de tudo aquilo que nos preenche, que rouba nosso tempo, que tira nossa paz, não seremos felizes. Ser ôco significa estar pronto para ser cheio do Espírito Santo.
Por fim, a sétima lição que o bambu nos dá é exatamente o título do livro: ele só cresce para o alto. Ele busca as coisas do Alto. Essa é a sua meta.
C R É D I T O S
AUTOR: .......................
FONTE: Livro “Buscando as coisas do Alto”
IMAGENS: .................. Obtidas na Internet
MÚSICA: ...... “Flauta andina” (De bambu)
FORMATAÇÃO: ....................
Labels: bambu
Tuesday, February 12, 2008
Lições do Bambu - 8
O Fundamental é Invisível
O vazio é invisível. Esse detalhe é fundamental, apesar de óbvio. É fundamental porque mostra que as coisas mais importantes são invisíveis. Como o vazio do vaso ou o vazio entre as paredes da casa. Estendendo essa idéia para a vida humana, os sábios estabeleceram um critério de valor que os guiam em todas as suas ações. Eles sabem que existem coisas mais profundas do que a aparência. Para eles não importa se o copo é feito de cristal belga, com detalhes exclusivos ou filete de ouro na borda. O que importa é que exista um espaço vazio onde se pode colocar o líquido. Tudo que eles precisam é de um espaço vazio entre quatro paredes para colocar suas coisas e se abrigar. Não é a parte visível, a aparência externa, que mais valorizam, mas sim a parte interna, a parte invisível.
Os sábios não dão importância à roupa que as pessoas vestem. Eles olham para o invisível, para o lado interior das pessoas, olham para suas almas. Perceberam que o fundamental é invisível, assim como perceberam a importância do vazio do bambu.
O vazio do bambu é o vazio do universo
Para os mestres orientais, o vazio é universal, onipresente. Quando eles olhavam o espaço oco do bambu, sabiam que o vazio do caule do bambu é o mesmo vazio que existe fora do bambu. Quando olhavam uma xícara, percebiam que o vazio que está em seu interior se estendia para o espaço à sua volta, que se estendia para a sala, que se estendia para todo o ambiente externo. Quando olhavam a Natureza, percebiam o vazio entre as coisas. Percebiam que o Sol flutuava no céu, no vazio, que a Lua flutuava no escuro da noite, no vazio. Para eles tudo isso era o mesmo vazio e, assim como existe uma única água no planeta, existe um único vazio no universo. Diziam que a xícara existe no vazio, que eles próprios existiam no vazio, que os astros flutuam no vazio, que todo o universo é um grande vazio com apenas alguns pequenos pontos de matéria que se chamam estrelas, planetas, satélites, etc. Tudo nasce no (e do) vazio e tudo volta para o vazio.
Podemos imaginar o universo como uma grande sopa. Cada ingrediente da sopa é um "ser", uma coisa: uma rodela de cenoura, um pedaço de abobrinha, um planeta, uma lua ou uma estrela, não importa. E a água é o vazio onde cada uma dessas coisas flutua. Assim como todos os ingredientes estão mergulhados na água da sopa, todas as coisas do universo estão mergulhadas no vazio. O vazio permeia todas as coisas, é o vazio que une tudo, como a água da sopa. E aqui, mais uma vez, os sábios dizem que não existe separação entre uma coisa e outra, que tudo faz parte do todo, de um único todo. Para os orientais, tudo está unido pelo vazio. Nada está separado, tudo está ligado com tudo, tudo forma uma coisa só. Tudo é uma grande sopa...
Fonte: Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
Sunday, January 27, 2008
Lições do Bambu - 7
A MAIOR QUALIDADE DO BAMBU É O VAZIO INTERIOR
O bambu é uma planta simples, modesta, leve, resistente e flexível. Outro detalhe importante é o fato de ele ter o caule oco, vazio. Se o bambu tivesse o talo maciço, ele seria pesado, rígido e inflexível. Com isso, os taoístas perceberam que é o vazio que garante as qualidades do bambu. O vazio é um dos conceitos fundamentais do pensamento oriental. É porisso que os chineses e japoneses representam-no com tanta freqüência nas suas pinturas e sempre cercado de grandes espaços vazios no papel/tela.
Para a maioria das pessoas, o vazio tem um sentido negativo. Significa nulidade, inexistência, zero. "Pessoa vazia" é identificado como alguém inútil, destituído de inteligência e profundidade. "Cabeça oca" é alguém irresponsável, sem juízo, que não mede as conseqüências. Estar "vazio por dentro" é uma sensação de apatia, de que nada tem sentido, nada é interessante. "Minha vida é um vazio" é afirmação de quem viu o tempo passar sem ter realizado ou vivenciado nada que seja digno de nota ou que dê significado à sua existência.
Para os orientais é o oposto. Se o bambu tem suas virtudes por causa do caule oco, então o vazio tem um sentido positivo. O vazio é a origem de boas qualidades, é algo que se valoriza e permite a existência das coisas. Basta pensarmos de modo inverso: se o copo estiver cheio de farinha, não é possível utilizá-lo para tomar água. Se o elevador estiver lotado, não podemos entrar nele. Se nossa mente estiver entulhada de preocupações e de lixo, não podemos pensar direito. Se a agenda estiver cheia de compromissos, não podemos programar mais nada. Quando se está de "saco cheio", não existe possibilidade de curtir as coisas e as pessoas. Mas, se o copo estiver vazio, podemos colocar qualquer líquido que quisermos dentro dele. Se a mente estiver livre, podemos resolver os problemas sem aperto. Se a agenda tiver alguns momentos vagos, nosso dia-a-dia não será tão atropelado e podemos encaixar alguns compromissos de última hora ou aproveitar as brechas para fazer algo que nos dê prazer. Quando não estamos de "saco cheio", ou seja, quando estamos receptivos (vazios), podemo-nos relacionar de modo mais gratificante com todo mundo.
O vazio é uma necessidade. Ao fim de um dia exaustivo de trabalho, com clientes, colegas e fornecedores maçantes, prazos estourados e um congestionamento irritante no trânsito, tudo que queremos é chegar em casa, esticar as pernas no sofá, colocar uma música e esvaziar a mente. E qual é o objetivo da meditação, não importa de qual tradição seja, senão o de buscar a paz interior? Meditar é ir ao encontro do vazio.
Uma pessoa pretensiosa é toda "cheia de si" e ninguém gosta de estar ao lado de alguém assim. Todos gostam de conviver com pessoas modestas, receptivas, sem preconceitos, sem mania de ter resposta para tudo. Enfim, com pessoas "vazias", no sentido taoísta da palavra.
É desta forma que os sábios antigos viam o vazio. Não pela ausência, mas sim pelas possibilidades que ele abre, pelos benefícios que ele traz. É uma visão positiva e não negativa.
Um antigo texto chinês, o Tao Te Ching, diz: "O vaso é feito de argila, mas é o vazio que o torna útil. Abrem-se portas e janelas nas paredes de uma casa, mas é o vazio no seu interior que a torna habitável". De fato, num vaso, o que importa é o espaço vazio e não o formato ou o material do qual é feito. É no vazio do vaso que se coloca terra ou líquido, e não em suas paredes de contorno. Numa casa, moramos no espaço vazio entre as paredes e não nas paredes. Ninguém mora na parede da casa.
O planeta Terra é a nossa casa cósmica. Moramos no telhado dessa nossa casa. Seres humanos mais evoluídos (mais sábios) moram dentro dessa casa, no vazio interior de nossa Terra Oca...
Fonte: Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
Saturday, January 19, 2008
Lições do Bambu - 6
A não-ação como princípio
No Taoismo, existe a expressão wu-wei que se refere à não-resistência. Wu-wei significa deixar-se levar pelo movimento natural. Literalmente, wu-wei quer dizer "não-ação", mas não existe conotação de passividade, de ficar parado, de indolência. É uma postura "ativa" de seguir o fluxo dos acontecimentos, das forças em ação.
Nadar contra a corrente por teimosia ou inflexibilidade representa um desgaste de energia sem nenhuma função prática. Wu-wei significa não atritar com o movimento ou a ordem natural das coisas, é despender apenas a quantidade necessária de energia para realizar alguma coisa, nada mais do que isso. É ter a sabedoria de "se abandonar", de "deixar as coisas nas mãos do Universo (Deus)", de confiar na vida, de permitir ao que tiver de acontecer acontecer. Significa agir como a água, isto é, fluir, ir pelo caminho mais fácil, não brigar com os obstáculos, se entregar aos ciclos naturais.
A não-resistência não é algo tão simples quanto parece. Implica consciência, maturidade psicológica, entendimento lúcido da situação, percepção do momento adequado, segurança interior, flexibilidade, confiança e coragem. Sem essas disposições interiores, wu-wei será apenas um conceito e uma justificativa para preguiça, medo, fuga, negligência ou acomodação. Os taoístas concluiram que á a não-resistência que mantém a nossa integridade e evita que soframos perdas em situações tensas e naturais.
[continua]
Fonte: Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
Labels: bambu
Friday, January 18, 2008
Lições do Bambu - 5
O BAMBU CURVA-SE NO VENDAVAL PARA NÃO QUEBRAR
Flexibilidade é a capacidade de se adaptar às circunstâncias da vida, significa não ter posturas rígidas em termos físicos ou psíquicos. Uma pessoa de moral rígida demais também pode se "quebrar" como um carvalho ao vento. Ela pode seguir seus princípios com tanta dureza que as pessoas não conseguirão permanecer a seu lado. Não é raro uma pessoa de moral muito rígida se intrometer na vida alheia, ditar regras absurdas, criticar todo mundo, se tornar um guardião ensandecido da moral e dos bons costumes. Enfim, um tirano. Ou, no mínimo, um tremendo... chato! Tudo isso quebra o encanto da vida - e da própria pessoa.
Uma pessoa rígida não é feliz. Não se permite os prazeres normais da vida. Não balança leve e solta como o bambu ao vento. Ela fica dura, feito um tronco seco. Inflexível. Não se adapta às mudanças naturais, não revê seus conceitos, não aprende novas idéias, não descobre formas alternativas de resolver suas questões. Não vive uma relação nova, uma nova forma de se relacionar, não descobre novos prazeres. Não experimenta um itinerário diferente, um roteiro turístico inusitado, um restaurante novo, um prato desconhecido, um sabor exótico. E impede aos outros de viver essas alegrias.
O rigor da inflexibilidade pode estar presente em vários campos da vida. Podemos ser rígidos em termos de crenças, filosofia, política, métodos, educação, comportamento, valores, critérios, sentimentos. Em todas essas áreas, não importa qual seja, sofremos o mesmo risco de quebrar, se formos duros demais.
Segundo os sábios orientais, rigidez é sinal de morte (um cadáver é rígido). Uma pessoa rígida não vive, está morta, é como o tronco de uma árvore seca. Flexibilidade é sinal de vida. Uma planta viva é flexível, uma planta morta é rígida. Um bebê é flexível e cheio de vida, o idoso é mais duro e sem a mesma vivacidade da criança. O cadáver é rígido, daí a expressão latina morte rigens, rigidez da morte, rigidez cadavérica, que os médicos usam para descrever o estado gélido e teso de um corpo depois que o sangue pára de circular. O cadáver é frio. Uma pessoa rígida é fria: não demonstra sentimentos. Mas, no fundo, sofre por qualquer sinal de crítica ou de rejeição. E reage sendo mais rígida, mais inflexível.
Somente uma planta flexível consegue se curvar. Somente uma pessoa sábia e humilde é capaz de ser flexível e aprender com o comportamento do bambu. No geral, uma pessoa flexível vive mais e melhor.
[continua]
Fonte: Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
Labels: bambu
Sunday, January 06, 2008
Lições do Bambu - 4
Limitar as limitações
A Natureza faz que o bambu já tenha as divisões predefinidas desde o começo, quando ainda é apenas um broto. A quantidade de nós que existe no broto é a mesma quantidade que o caule terá quando crescer. A partir deste detalhe, os sábios aprenderam que os limites precisam ser ensinados desde a infância e não impostos apenas quando as crianças tiverem condições de entender as razões das limitações.
Na visão taoísta, limitação não implica em proibição, privação ou exclusão de algum aspecto da vida. Limitar não é cortar para sempre alguma coisa. Tanto é assim que eles dizem que "é preciso impor limites a tudo, até mesmo às limitações". Ser chefe de família econômico é uma coisa, ser um "tirano mão-de-vaca" é outra. Falar só o necessário num diálogo é uma coisa, ficar calado como uma múmia é outra. Quando alguém impõe limites exagerados à própria pessoa, o corpo acaba reagindo negativamente, ele se sente sufocado, angustiado, infeliz. Quando impomos limites sobre-humanos às outras pessoas, elas não suportam, se rebelam, entram em conflito aberto conosco e se afastam. O excesso de rigidez nos limites causa mais prejuízos do que benefícios, e o I Ching chama isso de "limitação amarga".
Limitação, seguindo o Taoísmo, significa moderação. Precisamos evitar os extremos, tanto para mais quanto para menos. Se o bambu tivesse divisões a cada centímetro, o caule seria rígido demais e numa situação de maior pressão iria quebrar. Se o bambu não tivesse nenhuma divisão, o talo seria flexível demais e também se quebraria. O bambu não tem divisões demais nem de menos, mas numa quantidade adequada para garantir flexibilidade sem rigidez.
Os mestres chineses defendem o conceito do Áureo Meio-termo, um meio-termo que é de ouro, como um conhecimento precioso. Para eles, uma coisa harmoniosa tem um pouco de cada coisa, como uma balança que tem pesos distribuídos de forma equilibrada. Uma pessoa saudável vive momentos de alegria e momentos de tristeza, em algumas situações é racional e em outras é emotiva; às vezes é idealista, às vezes é prática; às vezes volta-se para as coisas da alma, às vezes vivencia os prazeres materiais. Para os sábios o importante é a plenitude, a experiência de todas as coisas, e não a perfeição, especialmente se a perfeição implicar a mutilação dos aspectos naturais da vida. Daí a importância da moderação, dos limites corretos.
[continua]
Referência:
[1] Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
Labels: bambu
Thursday, December 27, 2007
Lições do Bambu - 3
Prazer e felicidade [1]
Quem se contenta com o suficiente é feliz. Não sente necessidade de um prazer atrás do outro. Não é movido por desejos. Está satisfeito. Quem não é feliz sente um vazio interior, é insatisfeito, sente falta de alguma coisa, procura satisfação pelos desejos, pelos prazeres, e nada é suficiente. Procura ter, ter, ter. Ter cada vez mais para tentar preencher o vazio interno. Quem é feliz é feliz, não precisa ser mais nada, não precisa de muito.
O bambu é uma planta muito simples
É impossível não reparar no design do bambu e nas suas características. O bambu chinês tem muita personalidade: é firme sem ser rígido, elegante sem ser chamativo, altivo sem ser arrogante. Mas ele é, acima de tudo, uma planta simples. O bambu é um modelo de simplicidade e porisso ele é tão apreciado pelos orientais. Eles gostam tanto, mas tanto do bambu, que até o comem... Os grandes artistas entendem, assim como os taoístas, que o essencial é simples. Simples como o bambu.
O bambu tem divisões que garantem a resistência
Antes de tratar da resistência do bambu, vamos falar sobre o cordão de varal. Isso vai nos ajudar a entender uma grande lição do bambu.
Se pegarmos meio metro de cordão de náilon e tentar esticar como se fosse um elástico, não vamos conseguir. As linhas entrelaçadas desse cordão são muito resistentes. Mas, se pegarmos um cordão de 30 metros, amarrarmos uma ponta numa pilastra e esticá-lo pela outra ponta, conseguiremos até dar um ou dois passos para trás, após ele estar esticado. Num cordão de 30 metros as fibras são bem compridas e porisso têm mais elasticidade do que num pedaço curto de meio metro. É porisso que o cordão comprido de varal cede com o peso da roupa pendurada.
O bambu não é um tubo que vai da raiz até o topo. Não é como uma mangueira de plástico (dessas de regar o jardim) em que o oco vaza de uma extremidade a outra. O bambu tem divisões - os "nós" - e o cuale total é formado por vários segmentos chamados de colmos. Se o talo do bambu não tivesse divisões, as fibras seriam compridas, iriam sem interrupções desde a raiz até o topo. Mas, se as fibras do bambu fossem tão compridas e sem divisões como o cordão do varal, elas iriam esticar demais e o caule poderia se dobrar com qualquer vento. Os nós do bambu têm a função de dividir e de limitar o comprimento das fibras do caule. Observando isso, os antigos chineses perceberam que o que dá resistência ao bambu são as divisões, os limites. Transpondo essa imagem para a realidade humana, os sábios perceberam que são os limites que garantem a integridade da vida. As limitações são necessárias para organizar adequadamente o mundo e para controlar as circunstâncias do cotidiano.
Segundo o I Ching - O livro das mutações, "a Natureza tem limites fixos para o verão e o inverno, para o dia e a noite, e são esses limites que dão sentido ao ano". O dia tem 24 horas, mas é dividido em períodos de claridade e de escuridão. Se houvesse apenas escuridão, os animais não conseguiriam absorver a energia solar necessária para a vida, as plantas não produziriam oxigênio e nós teríamos dificuldade de enxergar. Se tudo fosse claridade, não conseguiríamos repousar, a temperatura do planeta se elevaria demais, as células dos olhos não suportariam o excesso de estímulos luminosos. Se o inverno durasse os 12 meses do ano, a vida no planeta paralisaria, não haveria a renovação que a primavera possibilita a cada ciclo. Todas as estações (finitas) são etapas necessárias.
São os limites que garantem a resistência e a vida de tudo, desde uma simples planta, como o bambu, até a sobrevivência do planeta. Os ecologistas não se cansam de dizer que os recursos naturais não são eternos (são finitos) e que é preciso pôr limites às ações do homem. Se não houver uma preocupação com a vida sustentável, a humanidade chegará ao fim do limite e as conseqüências serão desastrosas.
Nada na vida é inesgotável e a falta de limites, em qualquer área, leva o ser humano à indefinição, à exaustão e, em alguns casos, até à autodestruição. O homem tem livre-arbítrio (limitado!), mas não tem possibilidades ilimitadas (para garantir a segurança do Universo...). Os limites autoimpostos com consciência são a base da ética e da formação do caráter. Segundo o I Ching, "são os limites definidos interiormente que permitem que possamos agir com desinteresse e com lealdade". Sem os limites aceitos por iniciativa própria, não somos capazes de comprometimentos com os nossos ideais, com as nossas relações afetivas, com as pessoas pelas quais somos responsáveis. Um homem que vive uma "síndrome de Don Juan", por exemplo, deseja possuir todas as mulheres do mundo e pode se envolver com várias parceiras ao mesmo tempo. Mas se em dado momento da vida desejar ter uma relação de compromisso verdadeiro com alguma pessoa, com intenção de constituir uma família, então ele precisará estabelecer, por sua própria decisão, limites mais bem definidos na sua vida afetiva. E esses limites devem ser expostos com clareza, devem ser nítidos e visíveis, como os nós do bambu.
[continua]
Referência:
[1] Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
Saturday, December 15, 2007
Lições do Bambu - 2
O Bambu cresce Reto e Satisfeito com seu Espaço
Ao contrário das outras árvores, o bambu chinês é humilde, precisa de pouco espaço, não é "espaçoso", não toma o lugar de ninguém. Não é como algumas pessoas que chegam, ocupam tudo, invadem nosso território, pegam nossas coisas, atrapalham, querem cada vez mais. Não. O bambu cresce reto, "na dele" [1].
Crescer reto é respeitar o espaço alheio. É não invadir, é não atrapalhar nem solicitar o outro por qualquer coisa, a toda hora. Para os taoístas, o espaço do outro é sagrado porque considera sagrado o seu próprio espaço. O sábio quer crescer com retidão, sem desvios, sem interferir na vida alheia, sem fazer intervenções no processo natural da outra pessoa. E para evitar ser invadido, não oferece ajuda nem dá opiniões se não for solicitado. "Ajuda sem que o outro peça é invasão".
O bambu está satisfeito com o pequeno espaço que lhe cabe. O sábio também não quer abraçar o mundo, não tem cobiça, não quer acumular nada, está satisfeito com o que tem. Tanto o bambu quanto o sábio não querem ocupar o espaço do outro, não fazem comparações, não competem, estão satisfeitos com o que têm porque possuem uma qualidade fundamental: o senso de suficiência.
Os chineses têm uma frase sobre o suficiente que é surpreendentemente simples e óbvia: "Quem se satisfaz com o suficiente sempre tem o suficiente". Aqui no Ocidente, o filósofo italiano Sêneca, em meados do Século 1 da nossa era, disse: "Só desejarás a justa medida das riquezas: primeiro, o necessário; segundo, o suficiente".
Se desejarmos alguma coisa, é porque estamos insatisfeitos com o que temos, porque achamos que o que temos não é suficiente. Desejar coisas, em si, não é um mal. Isso até ajuda a sociedade a progredir, nos traz conforto e prazer. Todos nós temos desejos, vontades, sonhos de consumo.
No entanto, se não houvesse tantos desejos, não haveria tantos consumidores compulsivos, não se destruiria tanto a Natureza atrás de matérias-primas. Não se poluiriam tanto o ar e as águas, não se acumulariam toneladas e toneladas de lixo no mundo. Não haveria tantas neuroses, tanta cobiça, tantos roubos, tanta violência, tanto sofrimento. O problema, enfim, não é o desejo em si, mas o consumismo desenfreado e a falta de percepção daquilo que é suficiente. Em termos ecológicos, aquele que deseja demais é, de forma direta ou indireta, um grande predador. Aquele que busca apenas o suficiente, ou algo próximo disso, contribui para um mundo sustentável e equilibrado.
Necessidade e Desejo
O bambu só deseja o suficiente, o necessário. O sábio também não quer nada além da sua necessidade. As tradições orientais são bem claras em apontar o desejo como a origem dos sofrimentos. Dizem que a realidade do ser humano é o sofrimento, que é causado pelo desejo, e o único modo de suprimir esse sofrimento é o desapego.
Fazer com que o desejo desapareça do coração do ser humano é uma utopia, um ideal romântico e ingênuo. Mas saber diferenciar o desejo da necessidade é algo viável e representa o primeiro passo para uma vida e um mundo mais saudável. Necessidade é uma carência primária que pode ser satisfeita, pode ser suprida com seu objeto primário. Atender a uma necessidade é atender a uma exigência básica, elementar.
Na necessidade, o que importa é a função primária, desprovida dos valores agregados e secundários. Se numa refeição sentimos sede, um pouco de água é suficiente. Nossa necessidade é de água. Tomar um champanhe francês de uma safra rara na refeição não é bem uma necessidade, mas um desejo. Roupa para se proteger do frio é uma necessidade e qualquer peça adequada para isso é suficiente. Já um "modelito" sofisticado de grife famosa, comprado numa loja badalada é um desejo.
O desejo, costuma ser dito, é "um poço sem fundo". Nunca termina, não é possível satisfazer. Quando matamos o desejo de alguma coisa, sentimos prazer, mas em seguida temos outro desejo. Se o desejo for grande, a função primária é insuficiente, isto é, a pessoa não se satisfaz com o suficiente e acaba despendendo muito dinheiro por causa disso. Muitas vezes, paga-se mais do que dinheiro, paga-se com a intranqüilidade, com a sensação de vazio interior, com compulsões consumistas, com dívidas enormes, com estresse, com surtos psicológicos, com doenças ou com a própria vida.
[continua]
Referência:
[1] Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
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Tuesday, December 11, 2007
Lições do Bambu
O Bambu enraíza-se bem Fundo antes de Crescer fora da Terra
Pouca gente no mundo já viu sementes de bambu. O bambu leva cerca de vinte anos para florir e produzir sementes. Algumas espécies podem demorar até cem anos para dar sua primeira florada! Isso significa que quatro gerações de seres humanos podem viver sem jamais ver suas flores e sementes. Como se percebe, o bambu não tem pressa nenhuma para fazer o que tem de ser feito.
O bambu, quando plantado por semente, tem uma maneira peculiar de brotar e crescer que chamou a atenção dos chineses e se tornou uma grande lição de sabedoria. A semente, depois de colocada no solo, demora muito tempo para apresentar sinais externos de que vai vingar. No início, a semente se transforma num bulbo e depois de algum tempo surge um pequeno broto. Esse broto permanece inalterado sob o solo por um longo período.
Passam-se meses e o broto não cresce. Passa-se um ano, dois anos e ainda não se percebe nenhum crescimento fora da superfície. Todo o desenvolvimento do bambu acontece debaixo da terra e ninguém vê. Durante um longo período, as raízes se aprofundam e se espalham pela terra, palmo a palmo, em silêncio. Três, quatro anos depois, as raízes continuam a construir uma rede compacta de ramificações, mas o broto permanece do mesmo tamanho. Somente depois que as raízes já atingiram dezenas de metros, ao longo de cinco anos de incessante trabalho, é que o broto começa a se projetar para fora da superfície. Aí, em pouco tempo, o bambu cresce vertiginosamente e atinge a altura de 25 metros!
Ilusão do sucesso imediato
Ao observar o comportamento do bambu, os chineses descobriram a importância da paciência e da determinação. Os taoístas dizem que "as plantas do pântano crescem rapidamente, mas são fáceis de serem arrancadas". Crescer em pouco tempo não significa estabilidade. Quanto mais rápido for o crescimento, menos estável será a planta, porque não haverá tempo para uma estruturação interna, para um enraizamento que dê segurança (ex: sucesso em um programa de televisão, como o BBB). Num paralelo à vida humana, se tivermos pressa, poderemos acabar construindo alguma coisa em cima de um solo movediço, sem firmeza, como num pântano. E todo o esforço será em vão.
Muitos ganham fama e uma grande soma de dinheiro em pouco tempo e perdem tudo em pouco tempo. O erro fatal é acreditar que o crescimento rápido e espetacular é mais importante do que construir uma base sólida. O trabalho de estruturação, assim como o enraizamento do bambu, é algo demorado, feito longe da vista das pessoas, no anonimato, mas só assim é possível desenvolver a convicção de estar construindo algo verdadeiro, duradouro e firme. Só assim é possível construir algo estável, bem enraizado.
Primeiro se funda o alicerce, depois se constroi a estrutura externa. Essa lição do bambu é válida para todos os campos da nossa vida, tanto no profissional, empresarial, pessoal, como no afetivo. Precisamos ter intenção e objetivos claros, plantar a semente no solo, iniciar o processo e ter determinação para esperar com paciência o momento certo para ver realizado o que se planejou. Sem paciência, nada é possível.
Paciência é fruto da confiança
O Taoísmo prega a paciência como uma das grandes virtudes da pessoa. A paciência é conseqüência da confiança. Todo o tempo de espera é tempo de crescimento e de aprendizagem. Ou, no mínimo, é uma oportunidade de exercitar a paciência, a perseverança e a determinação. "Os anos ensinam coisas que os dias desconhecem".
Se não temos confiança na vida e nos processos naturais, somos tomados pelo medo e pela angústia. Os sábios sabem que a tranqüilidade e a confiança na vida e na Natureza preservam o equilíbrio interior e permitem que as ações sejam mais eficientes e sábias.
O tempo é um aliado
Confie no futuro e viva o presente. Não se permita sofrer pensando em coisas que talvez possam acontecer, ou não, mais para a frente. A ansiedade atrapalha demais a vida das pessoas. Não adianta se preocupar demais com as coisas do futuro. O melhor é cuidar adequadamente das coisas possíveis do presente.
"O sábio não deixa seus pensamentos irem além da situação em que se encontra", diz o I Ching - O livro das mutações. "Os pensamentos devem se limitar à situação de fato, ao contexto atual da vida". "Todo pensar que vai além do momento presente, apenas faz sofrer o coração". Os sábios diziam que o tempo não é nosso inimigo, mas nosso aliado. Para nós, ocidentais, o tempo come as pessoas, consome nossas vidas. Interessante a palavra "Oriente" (como oposto a Ocidente): ela parace indicar que é lá que obtemos a correta Orientação, e aqui no Ocidente acabamos tendo muitos Acidentes...
Os chineses têm uma relação diferente com o tempo. Para eles, as coisas acontecem no tempo. Tudo se realiza porque existe o tempo. O presente é o tempo da realização, o momento em que as coisas estão sendo realizadas. Para os sábios orientais, nada é mais concreto do que o momento presente. O passado e o futuro são conceitos abstratos e irreais. Para eles, só existe o presente. Só se pode atuar de forma concreta no presente, nunca no passado ou no futuro. Tudo que aconteceu no passado é fato consumado, não há mais nada que se possa fazer. Podemos aprender com o passado, mas não podemos alterá-lo. O futuro ainda virá e o máximo que podemos fazer é preparar o terreno no agora, como quem prepara a terra para a lavoura, ou como quem planta uma semente de bambu. Os sábios confiam porque sabem que existe algo superior, que rege todos os fenômenos da vida.
[continua]
Referência:
[1] Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
