Friday, March 23, 2018
O Peixe Vivo
Existe uma antiga canção popular brasileira [1] com esse trecho de letra interessante:
Se você mora longe do litoral, você pode disponibilizar "água do mar" para seu corpo colocando diariamente algumas gramas de sal marinho integral [2] nos seus alimentos ou diluídos em um copo de água doce (de preferência, pura. Água de torneira é contaminada com milhares de substâncias químicas prejudiciais à saúde [3]). Se você sistematicamente não fornece ao corpo boa parte das 92 substâncias presentes na água do mar, seu corpo irá começar a reter os seus dejetos (fezes) para tentar extrair alguns daqueles elementos faltantes da sua alimentação bucal, que foi parar no intestino. Com isso, você começa a sofrer de prisão de ventre (constipação). Se, além disso, você toma pouca água, seu corpo irá reter mais ainda as fezes para extrair dela toda a água possível, fazendo com que suas fezes fiquem muito duras (agravando a prisão de ventre) e você fica numa condição chamada de desidratação [4].
Note os processos inversos: na salina separa-se o sal da água, evaporando-se a água do mar, e na sua casa você refaz a água do mar adicionando água ao sal marinho.
[2] Cuidado: muitas embalagens rotuladas de "sal marinho" são versões semelhantes ao sal de cozinha comum (sal de mesa = cloreto de sódio), contendo adição artificial de iodo. O sal marinho integral é aquele obtido diretamente pela evaporação da água do mar pelo sol, sem qualquer processamento adicional (a não ser o processo de empacotamento) ou inserção de qualquer produto químico (como iodo). Você vai encontrar esse produto saudável, aqui no Brasil, com o nome de "flor de sal". Veja, por exemplo, o artigo "Flor de Sal: o sal natural que faz bem pra saúde", em http://www.guiadenutricao.com.br/flor-de-sal/
[3] Dr. Ray D. Strand, O que seu médico não sabe sobre medicina nutricional pode estar matando você, M. Books do Brasil Editora Ltda., pg. 25, 2004. ISBN: 85-89384-45-4.
[4] Martin J. Lara, A Deficiência de Sal, Editora Hipocrática Hahnemanniana, Belo Horizonte - MG, 1ª Edição, outubro de 2006. ISBN: 85-87490-39-7.
Labels: água, água do mar, desidratação, fezes, peixes, prisão de ventre
Saturday, August 01, 2015
Genialidade, Longevidade e Sexo [ A Teoria Errada do Sigmund Freud ]
A nutrição tem uma influência profunda no processo de reprodução e na atividade sexual, sendo isso um fato biológico bem estabelecido: um aumento na nutrição aumenta a atividade reprodutiva e uma redução na nutrição diminui essa atividade. Regulando a dieta é possível diminuir e controlar a atividade procriativa e dessa forma limitar o nascimento de uma forma natural e sadia, sem lançar mão de métodos contraceptivos artificiais [1].
Pitágoras, que foi um fisiologista e um reformador moral, foi o primeiro a afirmar que comidas proteicas aumentam as inclinações sexuais e que uma dieta estritamente vegetariana de baixa proteína era essencial para todos aqueles que viviam em continência sexual e que desejassem experimentar os efeitos benéficos dessa prática que leva a uma melhor nutrição do cérebro e a uma elevação dos poderes intelectual e espiritual. Pitágoras ensinava que existia uma conexão direta entre o sêmen e o cérebro e que a perda do sêmen nas relações sexuais enfraquece o cérebro, enquanto a sua conservação melhora a nutrição do cérebro, já que as substâncias assim conservadas (devido à ausência da ejaculação do sêmen) agem como nutrientes do cérebro.
Nós hoje sabemos que isso é um fato fisiológico que a intuição de Pitágoras percebeu séculos atrás, já que a lecitina, uma gordura orgânica fosfatizada (rica no elemento químico fósforo, P) , que é o constituinte principal do cérebro e dos tecidos nervosos, é um componente essencial do sêmen e é perdido com ele, através da ejaculação. Isso significa que quanto maior a excreção seminal, mais lecitina é perdida do sangue e, consequentemente, do cérebro; por outro lado, a conservação do sêmen, através da continência sexual, leva a uma melhor nutrição de lecitina (fósforo orgânico) no cérebro e a um aumento da energia intelectual. Como uma dieta de baixa proteína diminui a tendência de excreção seminal, ela ajuda a conservar a lecitina para a nutrição do cérebro.
Como é razoável identificar a espiritualidade com a regeneração dos centros cerebrais superiores - as glândulas pituitária e pineal, esta última sendo o órgão mais rico em lecitina que qualquer outra parte do nosso corpo - nós podemos então entender a razão porque certas ordens religiosas têm sempre insistido na continência sexual como um requisito fundamental para aqueles que desejam viver uma vida espiritual.
Entre os pitagóricos, não apenas a carne mas todos os alimentos ricos em proteínas, inclusive proteínas vegetais concentradas, eram proibidos como inimigos para se alcançar o desejado estado de continência.
Pitágoras, que manteve seu vigor físico e mental durante um século de vida ativa, restringiu sua dieta para uma composta basicamente de vegetais, frutas e grãos; e o maior de seus seguidores, Apolônio de Tiana, que viveu cinco séculos depois dele, aderiu estritamente à dieta pitagórica de frutas e ervas como um meio de alcançar um estado de castidade por toda a vida, que ele conseguiu manter com sucesso durante sua longa vida de mais de um século.
De Pitágoras, Platão e Aristóteles aprenderam as doutrinas do vegetarianismo e da continência, às quais ambos aderiram durante toda a vida longa deles; e Aristóteles ensinou essas doutrinas ao seu pupilo, Alexandre o Grande, que foi um vegetariano estrito que vivia de frutas e vegetais.
Os antigos espartanos oferecem um exemplo de uma raça cujo vigor e saúde física exemplares estava associado tanto com uma dieta vegetariana com a um alto grau de castidade. Entre os espartanos, os casais casados não viviam juntos, com indulgência em relações sexuais frequentes, mas os sexos viviam separados em dormitórios separados. Plutarco, ao relatar a vida do rei espartano Lycurgus, refere-se à abstenção pelos espartanos de toda carne e álcool e ao fato de que a juventude de Esparta era casta antes e após o casamento, pois imediatamente após a concepção o marido deixava sua esposa e retirava-se para o dormitório dos homens e geralmente não a via mais até após o nascimento da criança, após o qual ele a visitava raramente. Os espartanos comiam em mesas comunitárias e as comidas servidas a eles, por ordem do rei Lycurgus, era estritamente vegetariana e havia abstinência completa do uso de bebidas alcoólicas.
Existe uma relação entre o consumo de certos alimentos (afrodisíacos) e uma maior atividade sexual, percebida desde a mais remota antiguidade. Os antigos egípcios proibiam seus sacerdotes de comerem peixes para que não se inflamassem suas paixões sexuais.
O método de controle de nascimento através da união sexual contida e não-orgásmica pode ser simples quando se adota uma dieta vegetariana de baixa proteína, mas se torna difícil ou quase impossível com uma dieta carnívora de alta proteína. A lista de estimulantes sexuais é muito longa, como bebidas alcoólicas, café, chá, chocolate, carnes, peixes, ostras, ovos, pimenta, mostarda, cebola, alho, sal. Obviamente, existem muitas pessoas que preferem essas coisas exatamente por causa desses efeitos estimulantes (afrodisíacos) nessa direção.
O tabaco é outro afrodisíaco potente, devido ao seu efeito irritante na membrana mucosa genital, que é o local da sensação sexual. Aqueles que trabalham em fábricas de tabaco comumente são atrapalhados por muitas emissões involuntárias de sêmen (polução noturna e diurna, saída de sêmen ao defecar, etc). O tabaco é mais prejudicial à mulher do que ao homem, já que o tabaco prejudica o aparelho genital feminino, produzindo esterilidade e câncer nesses órgãos.
Entre os chineses, o ginseng é muito usado como um revigorante sexual devido ao efeito bem conhecido dessa erva na vitalização das glândulas sexuais, sendo usado na China para a prevenção e a cura da impotência e da esterilidade. Afirma-se que os usuários chineses do ginseng nunca passam pelo climatério e estão aptos para gerarem filhos aos 60, 70, 80 e até os 90 anos de idade. No entanto, diferentemente da maioria dos afrodisíacos, o ginseng deve as suas propriedades invigorantes sexuais não à mera irritação ou estimulação mas à uma ação vitalizante das glândulas sexuais, evitando os seus declínios usuais depois de quatro décadas de vida.
Foram feitos experimentos de alimentação com homens que se submeteram a rações reduzidas de alimentos, particularmente com restrição da cota de proteínas, e observou-se uma redução acentuada da libido. Durante o período de guerra na Alemanha, foi observado que o suprimento restrito de comida foi responsável não apenas pela redução da libido nos homens, como também o aumento da cessasão da menstruação (amenorréia) nas mulheres.
Nenhum atleta de elite irá pensar em ter uma ejaculação nos dias que antecedem uma competição acirrada, não é mesmo? Isso porque o que se perde em uma ejaculação irá enfraquecer o seu sistema nervoso-muscular, que precisa estar na melhor condição possível. O taoísmo, voltado para a longevidade do ser humano, recomenda que o sexo deve ser praticado para a manutenção da saúde, porém sem chegar ao orgasmo ou à ejaculação [2].
Todas as secreções geradas pelas nossas glândulas endócrinas devem ser inseridas integralmente no nosso sangue, para manter nosso corpo na melhor condição de saúde possível. No entanto, a secreção de nossas glândulas endócrinas sexuais (gônadas) são parcialmente eliminadas do nosso corpo, através da ejaculação (masculina ou feminina) durante as relações sexuais. Isso leva, obviamente, à nossa decadência física ao longo do tempo.
Em vista das considerações acima, os problemas sexuais constituem apenas um problema bioquímico, e a moralidade sexual torna-se um ramo da bioquímica aplicada. O bioquímico sexual, desta forma, substitui o moralista, o psicoanalista (o psicólogo), o psiquiatra, o pastor, todos tentando resolver o problema sexual por meios puramente psíquicos, não reconhecendo sua origem física e química. Alterando as condições químicas do corpo, responsável pelas energias sexuais humanas, segundo direções socialmente construtivas e provedoras da saúde, as pessoas irão domar a força sexual para elevar o homem, e não deixá-lo como escravo dessa força. A bioquímica sexual irá substituir a moralidade sexual, e o cientista irá substituir o pastor/padre/sacerdote.
De acordo com a nova filosofia mecanicista do sexo aqui apresentada, a psicoanálise, assim como a psiquiatria, deve ser descartada por estar baseada na concepção dualística falsa de corpo e mente como sendo duas entidades separadas capazes de interagirem entre si; e contra a psicoanálise, que procura vincular efeitos físicos a causas psíquicas, nosso novo ponto de vista considera o fenômeno psíquico do sexo como derivado de processos bioquímicos e fisiológicos básicos e como sendo algo secundário ao invés de primário, não admitindo a existência de fatores puramente psíquicos, tal como "libido", "complexos", "memórias suprimidas", etc., como tendo qualquer existência real ou capaz de agir como causas do processo orgânico.
O freudianismo é, em grande medida, uma racionalização do comportamento sexual moderno, que procura prover uma justificação científica para nossas ações sexuais que são certamente não-naturais e são produtos da estimulação afrodisíaca dos alimentos. O principal erro deste culto fálico pseudo-científico é a superstição que Freud tinha e que vestiu de forma científica de que a abstinência sexual é algo prejudicial e a causa de desordens nervosas e mentais como resultado da "repressão sexual" que ela envolve e que a relação sexual é uma expressão normal da libido que é necessário para a saúde, cuja crença tem levado muitos médicos mal informados a aconselhar moços a visitarem prostitutas e arriscarem a pegar doenças venéreas como um mal menor que os supostos efeitos perniciosos da abstinência sexual. Esta crença não tem fundamentação científica e é desmentida pelas evidências científicas aqui apresentadas. Freud faz desse mito, na forma de sua doutrina da repressão, a pedra angular de seu edifício pseudo-científico. Ele próprio era um homem doente e neurastênico. É comum a fotografia dele fumando um charuto, um poderoso afrodisíaco. Toda sua filosofia do sexo, na maior parte, foi colorida pela influência bioquímica do seu vício pelo tabaco, sem ele estar ciente disso, e da sua dieta, o que não conseguiu manter a sua saúde.
Na realidade, a presente era neurótica pós-freudiana sofre não de repressão e abstinência sexual mas do oposto, de expressão sexual excessiva e indulgência excessiva em atividades sexuais. Em nenhum lugar dos trabalhos de Freud encontramos um aviso contra excessos sexuais como uma causa de doenças nervosas e insanidade, algo que é admitido como verdadeiro por eminentes autoridades. Ao invés de atribuir a neurastênia à sua verdadeira causa, isto é, à deficiência de lecitina e à resultante subnutrição das células nervosas, devido à perda de lecitina através do sêmen, Freud erradamente liga ela à repressão sexual ou pouca indulgência em atividade sexual e sua proposta cura é relações sexuais desinibidas. Divulgando e popularizando este ponto de vista, Freud elevou as superstições populares sem fundamentos e concepções erradas não-científicas para uma "teoria científica" que, à luz do conhecimento moderno da bioquímica sexual e da endocrinologia, deve ser jogado no lixo das teorias pseudo-científicas descartadas e vista como uma racionalização para agradar a consciência das pessoas modernas neuróticas que se excedem no sexo e para vender livros e abrir área de trabalho para psicólogos e psiquiatras, para extrair dinheiro da população.
No lugar da tentativa de Freud em vincular o fenômeno físico do sexo a uma causa psíquica, isto é, à expressão normal ou anormal de sua suposta libido, a visão mecanicista aqui mostrada de determinação bioquímica do sexo mostra que todos os fenômenos sexuais, tanto físicos como psíquicos, podem ser explicados como reações reflexas a estímulos químicos, como hormônios, toxinas, e produtos metabólicos que agem em zonas nervosas erógenas e em centros cerebrais e que evocam respostas na forma de comportamento sexual. Entre esses estímulos, o mais potente na determinação do comportamento sexual psicofísico do homem civilizado é a alimentação inadequada.
Referências:
[1] Raymond W. Bernard, Nutritional Sex Control and Rejuvenation, Literary Licensing, www.LiteraryLicensing.com.
[2] http://www.pistissophiah.org/gnose/taoismo_tao_do_amor.htm
Labels: continência sexual, ejaculação, Freud, genialidade, glândulas endócrinas, lecitina, longevidade, peixes, Pitágoras, proteína, sêmen, sexo, taoismo, vegetarianismo
Saturday, May 31, 2008
Perigos que vem do Mar
Perigo à mesa: peixes e camarões contaminados com mercúrio | |||||||||
| 29/05/2008 | |||||||||
| Roni Filgueiras
É o caso verificado no Amazonas. "As pesquisas do nosso laboratório, lideradas pelos biólogos João Paulo Torres e Wanderley Bastos, no rio Madeira, e Jean Remy Davee Guimarães, no rio Tapajós, mostram que 70% das espécies de peixes carnívoros da Amazônia, como o tucunaré e o pintado, têm concentrações acima de 500 ng/g (500 nanogramas por grama). Alguns chegam a acumular 4700 ng/g. Entre os detritívoros (que se alimentam de dejetos), como o curimbá e o curimatã, herbívoros e omnívoros, esse percentual cai para 20%", atesta Mauro Rebelo que lembra que para as populações ribeirinhas esses peixes são a principal fonte alimentar. Para efeito de comparação, cerca de 900 habitantes de Minamata, cidade na costa ocidental da Ilha de Kyushu, no Japão, morreram vítimas da contaminação deste metal provocada pelas atividades da Corporação Chisso, na década de 1950. O nível de mercúrio no organismo humano chegava a 60 ng/g, o que levava a convulsões, surtos de psicose, perda de consciência, febre alta, coma e, em alguns casos, morte. A contaminação por mercúrio na região Amazônia começou a chamar a atenção com a corrida do ouro, nos anos 1980, cujo ápice foi o garimpo de Serra Pelada, no Pará. Na época, o professor Wolfgang Pfeiffer fez uma pesquisa para estudar os níveis de contaminação de mercúrio na extração do ouro de aluvião do Rio Madeira e constatou que os peixes estavam envenenados. Na década de 90, com o fim da corrida do ouro, os níveis de mercúrio recrudesceram. Verificou-se, então, que o mercúrio não vinha somente da atividade extrativista, mas do próprio solo da floresta. Com o desmatamento para a pecuária e a plantação de soja, o solo ficou desprotegido e o mercúrio, que faz parte da composição da terra, foi levado para os rios com a lixiviação (processo de lavagem de solos pelas águas das chuvas carregando os sedimentos para outras áreas). Bastos, Torres e uma equipe de pesquisadores, incluindo Rebelo, pesquisaram 20 famílias que moravam às margens do Lago do Puruzinho, no Amazonas, próximo do município de Humaitá, divisa com Rondônia. São cerca de 200 pessoas que vivem numa economia de subsistência, pesca basicamente, sem luz elétrica nem água encanada. Por meio de testes (de fios de cabelo até leite materno), os cientistas descobriram que a população apresentava níveis de mercúrio acima do permitido. "Os níveis estavam entre 6 e 16 ng/g ou ppb (partes por bilhão, um em um bilhão, o mesmo que ng/g) de mercúrio, o que, segundo especialistas, seria suficiente para causar déficit de aprendizado, perda de sensibilidade nas extremidades, constrição do campo visual, danos no sistema nervoso central", enumera Rebelo, 37 anos, doutor em biofísica pela UFRJ (2001) e pós-doutor pela Università degli Studi del Piemonte Orientale, na Itália. Num único jovem foi detectado cerca de 30 ppb de mercúrio, revelou o biólogo. Apesar das evidências, os pesquisadores não encontraram danos aparentes na população ribeirinha do Amazonas. Apesar disso, aconselharam as grávidas a suspenderem o consumo de peixe durante a gestação. "É sabido que o mercúrio causa má-formação no sistema nervoso de fetos", disse Rebelo. Outra pesquisa, realizada por Wanderlei Bastos, da Universidade Federal de Rondônia, mapeou o Rio Madeira e confirmou os resultados da equipe de Puruzinho. "Foram estudados cerca de mil quilômetros de rio, visitaram os ribeirinhos, coletaram amostras de cabelo, peixe, sedimentos, água, a cada 25 quilômetros de rio", explicou o biólogo. O estudo, realizado entre 2004 e 2007, gerou uma tese defendida no final do ano passado. O grupo de pesquisa em que Rebelo atua dedica-se há dez anos a analisar as baías de Guanabara, Sepetiba e Ilha Grande, o sistema do Paraíba do Sul e Guandu, além dos reservatórios de Vigário e Ribeirão das Lages, no estado do Rio de Janeiro. Rebelo elegeu as coquilles saint-jacques (conhecidas ainda como vieira, vieira-de-mergulho e leque-do-mar) para o estudo sobre toxicidade. E os resultados também se aproximam dos encontrados na Amazônia e no Ceará. O Instituto de Ecodesenvolvimento da Ilha Grande, localizado na Baía de Sepetiba (uma ONG e laboratório que recebe financiamento da Petrobras para executar um projeto de repovoamento de moluscos na região), forneceu as coquilles saint-jacques para o projeto "Toxicocinética de zinco e cádmio no Nodipecten nodosus". "Queríamos investigar se o ambiente estava poluído, pois a coquille saint-jacques é resistente à contaminação, ela não acumula zinco, mas cádmio", explicou Rebelo. A investigação analisou a contaminação para nove metais pesados. "Encontramos apenas cádmio e zinco acima dos níveis basais." A Baía de Sepetiba sofreu durante quase 40 anos com as atividades da Ingá Metalúrgica (indústria produtora de óxido de zinco e zinco em pó), que despejou cádmio e zinco nas águas sem qualquer tratamento. A indústria faliu em 1998. E as suspeitas da contaminação surgiram durante as obras de ampliação do Porto de Sepetiba, que ficava ao lado da Ingá, nos anos 90. A dragagem acontecia em Itaguaí e os rejeitos supostamente deveriam acontecer longe da costa, mas teriam sido depositados em Mangaratiba. O caso foi parar na Justiça. "Hoje, este é um dos maiores passivos ambientais do país e o rejeito foi comprado pelo governo de Minas Gerais", recorda Rebelo. As cerca de 40 fazendas produtoras de vieiras da região da Baía da Ilha Grande criam esses animais engaiolados, deixando os moluscos confinados no mar, de onde eles extraem o fitoplâncton para sua alimentação. "Esses animais dão uma boa amostragem da poluição do ambiente", explica Rebelo. "Há fortes evidências de que a poluição proveniente dos rejeitos da Ingá esteja chegando à região, que produz 90% das vieiras que abastecem os restaurantes do Rio de Janeiro", calcula Rebelo. "Como não há na legislação brasileira limites de contaminação para todos os metais em pescados, usamos, então, os parâmetros da ONU que estipulam o limite de 1ppm (micrograma de cádmio por grama de coquille)." Como os coquilles chegam a acumular até 15 ppm, se uma pessoa ingerisse 20 vieiras, já se teria superado o teto de tolerância para ingestão diária de cádmio permitido. Os estudos de Rebelo e sua equipe querem justamente monitorar e prevenir desastres ambientais usando como referência de contaminação a fauna local. "Nossa linha de pesquisa principal é o estudo de mecanismos de toxicidade e detoxificação em invertebrados para o desenvolvimento de biomarcadores de contaminação que possam contribuir para o monitoramento costeiro e a qualidade dos ecossistemas adjacentes", explica Rebelo. "Estamos aplicando ferramentas de biologia molecular, como PCR em tempo real e microarranjos de DNA, para estudar esses mecanismos em nível molecular." A conclusão da pesquisa intitulada "Estudos de perfis de expressão gênica em bivalves expostos a
"As concentrações de mercúrio variavam de um lote para outro da mesma ração. Isso indica que a contaminação não aconteça no processo de produção da ração. A farinha de peixe já deve vir contaminada", sugere o biólogo Diogo Coutinho, estudante de mestrado e participante do projeto pela UFRJ. A hipótese é que os peixes comprados pelas fábricas beneficiadoras são de má qualidade e já chegam contaminados. "Peixes do topo da cadeia alimentar, mamíferos marinhos, animais que vivem em locais contaminados podem apresentar elevadas concentrações de mercúrio nos tecidos. E principalmente nas vísceras, que podem ser usadas também para fazer a farinha de peixe", explica. Segundo Coutinho, não há motivos para a população se alarmar, pois os índices de contaminação não representam perigo à saúde humana. Mas já não se pode falar o mesmo em relação aos animais. Mesmo sem ficar envenenados, estes animais sofrem com efeitos colaterais, como o baixo peso. Isso se dá, segundo as análises, porque o organismo do animal gasta energia para expelir o metal pesado, ficando, assim, abaixo do peso. "Realmente, os níveis de mercúrio encontrados nos camarões não são maléficos à nossa saúde, já que estão bem abaixo dos limites estipulados no Brasil (0,5 ng/g por dia de Hg). Mas as concentrações de mercúrio a que os camarões estão sendo submetidos, mediante a contaminação nas rações, estão sendo prejudiciais para os próprios camarões. Os nossos experimentos mostram justamente isso, que os animais estão acumulando o metal proporcionalmente às concentrações encontradas no alimento", conclui Coutinho. O estudo, que consumiu dois anos, foi feito em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), dentro do projeto Rede de Carcinicultura do Nordeste, apoiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. O objetivo dos biólogos, que realizaram a experiência no complexo estuário do Rio Jaguaribe, no Ceará, era revelar as variáveis da detoxificação (que significa a retirada de substâncias tóxicas do organismo, que difere da desintoxicação, que é a retirada de substâncias tóxicas do organismo por meio do uso de outros tóxicos). Mas, afinal, o que determina a legislação brasileira em relação à fiscalização das rações? "Não consta nenhuma resolução na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária, órgão responsável pelo controle sanitário da produção e da comercialização de produtos e serviços, inclusive dos ambientes, dos processos, dos insumos e das tecnologias) que obrigue as beneficiadoras de ração a informarem ao produtor a existência de contaminação de qualquer tipo no rótulo das rações. Parece também que a Anvisa não fiscaliza as rações, já que em todos os lotes amostrados por nosso grupo, foi encontrada contaminação pelo metal", alerta Coutinho. Uma solução para controlar as contaminações, ou pelo menos reduzi-las, seria a aquisição de peixes de procedência reconhecida por parte das fábricas de ração, aconselham os biólogos. "Além disso, as beneficiadoras deveriam passar a fazer avaliações periódicas nas rações fabricadas, para uma série de contaminantes, como por exemplo, o mercúrio. Com essas medidas, quem sai ganhando é o produtor, já que o prejuízo conseqüente da compra de rações de má qualidade vai pesar no seu bolso", indica Coutinho. Mesmo estando abaixo do nível tolerado pelo organismo, a ingestão de camarão contaminado com mercúrio só acarretaria efeitos nocivos nos seres humanos dependendo da dose. Segundo Coutinho, "para que essas concentrações pudessem representar um risco importante, o consumo deveria ser altíssimo". Neste momento, Mauro Rebelo se dedica a projetos de genomas para moluscos, uma pesquisa inédita no país. "A FAPERJ tem apoiado essa linha de pesquisa, nos beneficiando com diversos editais para jovens pesquisadores e agora vamos concorrer no edital de grupos de pesquisa emergentes. Apesar disso, os recursos ainda são parcos, pois essas técnicas são muito dispendiosas. Não existem projetos genomas para ostras, mexilhões e camarões e todo nosso trabalho aplicado depende do desenvolvimento de uma sólida base de conhecimento básico. Vamos continuar trabalhando." | |||||||||
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