segunda-feira, maio 20, 2024

 

Sobre Leonardo da Vinci (1452 - 1519)

Fonte consultada: Walter Isaacson, Leonardo da Vinci, 1. ed. - Rio de Janeiro; Editora Intrínseca, 2017. ISBN: 978-85-510-0257-5.

Para uma referência temporal, o Brasil foi descoberto pelos portugueses no ano de 1500.  Leonardo da (localidade de) Vinci, nasceu em Vinci em 1452 e foi morar em Florença em 1464, em Milão em 1482, novamente em Florença em 1500, novamente em Milão em 1506, em Roma em 1513 e na França em 1516, onde morreu em 1519. Era filho de Ser Piero da Vinci com Caterina Lippi.

Leonardo se sentia confortável com o fato de ser um tanto desajustado: filho ilegítimo (bastardo), gay (nunca se casou), vegetariano, canhoto (escrevia de forma espelhada, vista corretamente com um espelho), muito disperso e, às vezes, herético.

Uma anotação em um de seus cadernos: "Um homem que pratique coito de forma agressiva e apreensiva produzirá filhos irritadiços e desonestos, mas, se o coito for praticado com grande amor e desejo de ambas as partes, os filhos serão dotados de um grande intelecto, serão espirituosos, joviais e adoráveis".

Leonardo foi basicamente um autodidata. Disse: "Os objetos de minhas investigações requerem experiência, e não as palavras de outras pessoas" e "A paixão intelectual extingue a sensualidade".

Na época de Leonardo, o florim (de Florença), conhecido pela pureza de seu ouro, era a moeda-padrão em toda a Europa e cerca de um terço da população de Florença era alfabetizada, a taxa mais alta da Europa.  A catedral de Florença era a mais bela da Itália. Na década de 1430, ela foi coroada com o maior domo da Europa, constuído pelo arquiteto Filippo Brunelleschi, um triunfo tanto da arte quanto da engenharia. A cúpula da catedral - uma estrutura autoportante de quase quatro milhões de tijolos - é, até hoje, a maior cúpula de alvenaria do mundo. Quando Leonardo lá chegou, a população de Florença era de quarenta mil pessoas, mais ou menos o número que manteve por um século, porém bem abaixo das cerca de cem mil que viveram ali em 1300, antes da Peste Negra e das ondas de epidemia subsequentes.

Os produtores teatrais fiorentinos criaram mecanismos engenhosos chamados ingegni para mudar cenários, mover adereços de forma assombrosa e transformar palcos em pinturas vivas. Daí derivaram as palavras engenharia, engenheiro e engenho.

Leonardo sentia-se romântica e sexualmente atraído por homens (sexualidade passiva) e, ao contrário de Michelangelo (seu contemporâneo), parecia não se incomodar com isso.

Segundo Leonardo, "os olhos são as janelas da alma", "os movimentos da alma são conhecidos através dos movimentos do corpo". Os movimentos do corpo devem ser o anúncio dos movimentos da mente. Leonardo se tornou vegetariano devido à paixão que sentia por todas as criaturas. "Ele preferia vestir-se com linho, para não usar algo morto". Os cadernos de Leonardo contêm passagens literárias condenando o consumo de carne.

Conforme envelhecia, Leonardo passou a cultivar uma longa barba, que "chegava até o meio do peito e era bem-ajeitada e cacheada".

"A natureza deu sensibilidade à dor aos organismos vivos com poder de movimento a fim de preservar as partes que podem ser destruídas pelo movimento", escreveu. "A dor não é necessária às plantas".

Leonardo fez inúmeras medições do corpo humano chegando a conclusões deste tipo:

- O comprimento dos dois braços de um homem é igual a altura do homem.

- A distância entre a linha do cabelo e a ponta do queixo é de um décimo da altura do homem.

- A distância entre a parte inferior do queixo e o topo da cabeça é de um oitavo da altura do homem.

- A distância entre a parte superior do peito até o topo da cabeça é de um sexto da altura do homem.

- A distância entre a parte superior do peito até a linha do cabelo é de um sétimo da altura do homem.

- A largura máxima dos ombros é de um quarto da altura do homem.

- A distância entre o peito e o topo da cabeça é de um quarto da altura do homem.

- A distância entre o cotovelo e a ponta dos dedos é de um quarto da altura do homem.

- A distância entre o cotovelo e a axila é de um oitavo da altura do homem.

- O comprimento da mão é de um décimo da altura do homem.

- A raiz do pênis fica no meio da altura do homem.

- O pé possui um sétimo da altura do homem

- Entre o umbigo e os genitais há um rosto de comprimento...

Essas proporções estão mostradas no seu "O Homem Vitruviano".

O homem vitruviano de Leonardo.

Leonardo procurava identificar padrões na natureza e teorizá-los por meio de analogias. Como exemplo, ele fez uma correlação entre os galhos de uma árvore e as artérias do corpo humano, analogia que ele também aplicava aos rios e seus alluentes. "Todos os galhos de uma árvore, ao longo de sua altura, quando postos lado a lado, mostram-se iguais em espessura ao tronco que os sustenta", escreveu. "Todos os afluentes de um rio, ao longo de seu curso, se possuem a mesma rapidez, são iguais ao corpo da corrente principal". Esta conclusão ainda hoje é conhecida como "a regra de Da Vinci", e se mostrou verdadeira em situações em que os galhos não são muito espessos: o total da área de corte transversal de todos os galhos em um ponto é igual à área de corte transversal do tronco ou de galhos logo abaixo deste ponto.

As conexões que Leonardo fazia entre disciplinas serviam de guia para suas investigações. A analogia entre redemoinhos na água e turbulência no ar, por exemplo, forneceu a estrutura para estudar o voo dos pássaros.

Uma observação importante feita por ele acabou auxiliando tanto seus estudos sobre o voo quanto os sobre o fluxo das águas. "A água não pode ser comprimida como o ar". Em outras palavras, uma asa se debatendo compactará o ar em um espaço menor e, como resultado, a pressão do ar debaixo da asa será maior do que a pressão do ar rarefeito acima dela. "Se o ar não pudesse ser comprimido, os pássaros não seriam capazes de sustentar a si mesmos no ar que é golpeado por suas asas". A batida de asas para baixo empurra o pássaro para cima e para a frente.

Ele também descobriu que a pressão que o pássaro exerce sobre o ar é correspondida por uma pressão igual e oposta que o ar exerce sobre o pássaro: "A mesma força exercida pelo objeto sobre o ar é exercida pelo ar sobre o objeto". Duzentos anos depois, Newton formularia uma versão mais refinada dessa ideia em sua terceira lei do movimento: "Para toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade".

De forma ainda mais premonitória, ele fez uma indicação do que viria a ser conhecido, mais de duzentos anos depois, como o princípio de Bernoulli: quando o ar (ou qualquer fluido) corre mais depressa, ele exerce menos pressão. Leonardo desenhou um corte transversal da asa de um pássaro, mostrando que a parte superior dela é mais curvada do que a inferior (isso também se aplica às asas de um avião, que segue o mesmo princípio). O ar que passa pela parte superior e curvada da asa precisa percorrer um caminho mais longo do que o ar que passa pela parte inferior. Dessa forma, o ar que passa pela parte de cima precisa se deslocar mais depressa. A diferença de velocidade faz com que o ar que passa pela parte de cima da asa exerça menos pressão  do que aquele na parte de baixo, ajudando assim o pássaro (ou o avião) a voar. "O ar que passa acima dos pássaros é menos denso do que o comum", escreveu. 

A conclusão a que Leonardo chegou de que não há linhas visíveis delimitando de forma precisa os contornos na natureza foi impulsionada pelas observações que ele fez como pintor e pelo seu conhecimento matemático. Entretanto, havia outro motivo: seu estúdo da óptica. A princípio ela havia pensado, assim como os outros, que os raios de luz convergiam em um único ponto dentro do olho. Contudo, logo passou a se sentir desconfortável com essa ideia, pois um ponto, assim como uma linha, é um conceito matemático sem tamanho ou existência física no mundo real. "Se todas as imagens que chegam ao olho convergissem em um ponto matemático, que já se provou ser indivisível, então todas as coisas no universo pareceriam uma coisa só, indivisível", ponderou. "Os verdadeiros contornos dos corpos opacos jamais são vistos com precisão", escreveu. "Isso acontece porque a faculdade visual não se concentra em um ponto; ela está difusa por toda extensão da pupila [na realidade, da retina] do olho."

[continua]

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