terça-feira, outubro 23, 2007

 

O Acesso ao Mundo Invisível

Fonte: Omraam Mikhaël Aïvanhov, Acerca do Invisível, Edições Prosveta, Lisboa, 1988.

Para penetrar no mundo invisível, existem diferentes vias. A meditação é, a par da oração, uma das mais acessíveis. Mas meditar pressupõe uma certa preparação. Alguém que quer meditar sem possuir ainda uma disciplina interior, começa por vaguear pelas regiões inferiores do plano astral, onde remove, à sua passagem, toda a espécie de camadas obscuras povoadas por entidades que muitas vezes são hostis para com os humanos, e assim torna-se presa de visões estranhas que não têm relação alguma com o objetivo da sua meditação.

Antes de meditar, há que começar por pôr em ordem o seu ser psíquico, senão, mesmo este exercício tão útil e salutar, pode tornar-se perigoso. E as pessoas que têm faculdades mediúnicas estão particularmente expostas a esses perigos. Ninguém deve lançar-se no caminho da espiritualidade sem tomar previamente certas precauções. O espiritualista tem de apaziguar, dominar, orientar, todas as tendências que nele existam, tem de ter como único objetivo aperfeiçoar-se, obter a sabedoria e a pureza, conhecer a verdade. Esse objetivo superior é como um diapasão, e no momento em que todas as partículas do seu ser se sintonizam com esse diapasão, vibram em harmonia, as experiências que essa pessoa faz no mundo invisível são realmente benéficas. Caso contrário, a espiritualidade torna-se uma aventura arriscada. Não deveis imaginar que se entra no mundo invisível como e quando vos apetece; esse mundo é território de inúmeras criaturas que não vos deixarão passear na sua região como vos apetecer. É exatamente como se decidirdes ir passear em certas florestas selvagens, ficareis expostos aos ataques dos animais que lá se encontram: feras, serpentes, insetos venenosos... e, se não souberdes proteger-vos, estareis à sua mercê.

Vós direis: "Como? A partir do momento em que queremos entrar em contato com o Céu, as nossas experiências só podem ser-nos benéficas!". Não; todos aqueles que querem penetrar no mundo divino, sem para isso estarem previamente preparados, correm riscos: as entidades luminosas não suportam a intromissão de indivíduos que tentam entrar na sua morada transportando todos os detritos e todos os miasmas da terra e, então, começam a afastá-los e a declarar-lhes guerra. Não se pode violentar o mundo espiritual. Se quereis aproximar-vos das entidades celestes, deveis preparar-vos adotando uma atitude sagrada: peça a essas entidades sublimes autorização para penetrar na sua região a fim de admirar a sua beleza e a sua pureza, e glorificar o Senhor; então, sim, ganhareis a sua amizade e não sereis rejeitados nem combatidos.

Infelizmente, os humanos, que são educados de forma a não respeitar nada, a mostrar-se grosseiros e violentos para com aqueles com quem se relacionam - parece que é assim que se tem sucesso na vida! -, mantêm a mesma atitude para com os espíritos luminosos. Em vez de compreenderem que é preferível tentar ganhar a sua amizade, a sua confiança, através da humildade, do respeito, da prática das virtudes, procuram impôr-se a todo o custo. Apresentam-se tal como são e o Céu deve aceitá-los. Pois bem, não é assim que as coisas se passam; o Céu não os aceita. Portanto, atenção!, pois se fordes afastados do território dos espíritos luminosos ireis parar no dos espíritos tenebrosos, que ficarão bastante contentes por lá terem presas fáceis bem ao seu alcance, e vós sereis suas vítimas.

O estudo da Árvore Sefirótica*, que é uma representação das diferentes regiões do Universo, mas também uma representação das diferentes regiões psíquicas do homem, ajudar-vos-á a compreender melhor o itinerário que deve seguir aquele que quer ter acesso ao mundo invisível. Começando por baixo, a primeira séfira é Malkut, que representa o plano físico, material, a terra. Para além de Malkut, encontra-se Iésod, a região da lua, e além de Iésod encontra-se Tiphéret, a região do sol. Deixando Malkut, deixa-se o plano físico para se entrar no plano psíquico: Iésod. Sim, Iésod é o início da vida psíquica e nisso ela representa um progresso em relação a Malkut, o plano físico. Mas a vida psíquica é feita inicialmente de regiões brumosas, de formas vagas e indeterminadas: assim é a parte inferior de Iésod, que não foi ainda visitada pela luz de Tiphéret, o sol, a razão, o espírito.

Iésod já é uma região muito mais sutil que Malkut, mas a parte que está mais próxima de Malkut ainda é muito húmida, demasiadamente brumosa, poeirenta, é a região das ilusões, das alucinações. É necessário, pois, atravessá-la rapidamente para ir além dela até se descobrir o mundo da luz, Tiphéret, a região do sol: é lá que começa o verdadeiro trabalho espiritual. Muitos dos chamados espiritualistas, videntes ou místicos, andaram a chafurdar nas regiões inferiores de Iésod; faltavam-lhes os conhecimentos que lhes teriam permitido ultrapassar essas regiões e encontrar a clareza e, porisso, muitos acabaram mal.

Todos aqueles que quiserem penetrar no mundo espiritual sem estar preparados encontraram diante de si esse ser terrível a que se chama, na Ciência Iniciática, o Guardião do Umbral. Na realidade, esse ser terrível está neles próprios. É formado pela acumulação de todas as suas tendências inferiores: as cobiças, a sensualidade, a agressividade, etc.; ele barra-lhes o caminho, não as deixa penetrar nessas regiões enquanto não tiverem merecido o direito de aceder a elas.

No seu romance "Zanoni", Bulwer Lytton relata as provas de um discípulo, Glyndon, que, ansioso por aceder aos mistérios sem estar ainda perfeitamente preparado, transgride as ordens do seu Mestre, Mejnour, e aspira o elixir que lhe daria o conhecimento e a imortalidade. Após alguns segundos de êxtase, vê aparecer um monstro horrendo, o Guardião do Umbral, e cai sem sentidos. Durante anos, essa visão horrível persegue-o, ele abandona os seus trabalhos e erra como um infeliz através do mundo, até que Zanoni o liberta finalmente dos seus tormentos.

Na realidade, todos nós teremos de encontrar um dia o Guardião do Umbral e de o enfrentar: ele está na nona séfira, Iésod, pronto a ameaçar com a sua força espantosa o adepto presunçoso que procura aventurar-se nas regiões espirituais sem ter trabalhado suficientemente a pureza, o autodomínio, a coragem. Só o discípulo armado de conhecimentos, que foi capaz de dominar os seus instintos inferiores, conseguirá vencer o Guardião do Umbral. Um olhar basta: "Vai-te!" e ele desaparece, deixando-lhe o caminho livre.
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* O conjunto completo das partes da Árvore Sefirótica, partindo de baixo para cima, são: Malkout, Iésod, Hod, Netzach, Tiphéret, Gébourah, Hésed, Binah, Hokmah e Kéther.
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