segunda-feira, novembro 05, 2007
Lições das Estações do Ano
No hemisfério norte, as estações do ano são mais bem definidas do que no hemisfério sul, e constituem um fundamento da sabedoria oriental. A primavera representa o início de um novo ciclo; o verão é considerado, pelos chineses, como o auge, o momento da plenitude; o outono, no Oriente, representa a época do declínio. Com a queda da temperatura, nessa época, os animais começam a se preparar para a época de estagnação (hibernação). A Natureza, agora, produz os últimos frutos que os animais e os homens precisam ingerir e estocar para suportar o frio que se aproxima.
O inverno é o momento do recolhimento, da introspecção, da hibernação. A vida se paralisa. Rios e lagos se congelam e as árvores perdem as folhas. Os animais hibernam em suas tocas, as pessoas permanecem em suas casas e se mantêm aquecidas com a lenha guardada no outono. E, com a chegada da primavera, inicia-se um novo ciclo.
A Mutação
Heráclito, filósofo grego do Século IV a.C., dizia: "Não há nada permanente, a não ser a mudança". Para os taoístas chineses, nada permanece inalterado na vida, tudo é um processo de contínua transformação. Nas páginas do I Ching - O Livro das Mutações, lemos que: "Tudo sofre mutação; a única coisa que nunca muda é a mutação". Por essa frase, podemos perceber que mutação é um dos principais fundamentos do Taoísmo.
O ser humano passa por um processo análogo ao das estações do ano. Nossa vida pode ser entendida como um ciclo completo de mudanças, em que a primavera corresponde à infância, à fase inicial da vida; o verão se refere à juventude, ao auge da força e da virilidade; o outono representa a meia-idade, o declínio do vigor e das capacidades físicas; o inverno é a velhice, a estagnação das funções vitais e o recolhimento.
As plantas e os animais não agem contra a Natureza. Eles se adaptam naturalmente às mudanças das estações do ano e das fases da vida. Não questionam nem resistem à realidade. Segundo os orientais, resistir às transformações é entrar em atrito com a principal lei da Natureza, a mutação, e as conseqüências desse atrevimento ou dessa teimosia podem ser danosas para a nossa saúde física, mental e emocional.
Os Ciclos
Mutações não significam términos definitivos. Os chineses aprenderam que o mundo não acaba quando chega a estagnação do inverno, pois, quando chega a primavera novamente, a vida recomeça em toda sua exuberância. A Natureza se desenrola em contínuos retornos e não em movimentos lineares isolados e estanques. Nem em círculos fechados. A vida é um fluxo constituído de ciclos, assim como acontece com as estações do ano. Ciclo é outro conceito básico que os taoístas desenvolveram contemplando a Natureza.
A cada primavera a árvore se renova e os galhos ganham novos brotos que se transformam em novos galhos no decorrer do ano. Isso faz com que a árvore sempre cresça um pouco mais ao término de cada ciclo. Ao longo do ano, o tronco também aumenta seu diâmetro e as raízes ficam mais profundas para poder retirar mais nutrientes de que a árvore precisa para crescer.
Mutação e ciclo são necessários para que aconteça a renovação da vida. Existe um ditado chinês que diz: "Sempre a primavera, nunca as mesmas flores". Todos os anos a primavera chega, sem falha, mas a cada primavera brotam novas flores. Apesar da repetição, a Natureza não se repete. Nem poderia. A repetição, pura e simples, significaria não só estagnação, mas um ciclo vicioso em que não haveria possibilidade de desenvolvimento, de evolução. Num círculo fechado, nada se renova, nem se desenvolve. Círculo não representa o ciclo da Natureza. A Natureza não caminha em círculos, mas em ciclos constantes, em que cada retorno representa uma evolução, um passo a mais, um degrau acima da fase anterior. Evolução e renovação não acontecem em forma circular, mas em espiral (na forma de uma mola helicoidal). Num círculo, tudo volta ao mesmo ponto, mas numa espiral o retorno ao ponto (reta) de referência se dá em outro nível, num patamar acima.
As atividades biológicas como respiração, batimento cardíaco, digestão, caminhada, constituem ciclos funcionais de renovação. Numa caminhada, a alternância dos passos direito e esquerdo também é um ciclo, um processo que permite o avanço.
A repetição sem alterar os fatores envolvidos nos leva ao desgaste e à degeneração. Sem ciclo não há renovação. Se nos colocarmos dentro de uma caixa fechada, poderemos morrer asfixiados porque não existe renovação do ar. Quando respiramos sempre o mesmo ar, a atmosfera fica viciada. Sem renovação não há crescimento.
A Impermanência
Os conceitos de mutação e ciclo nos levam a outro fundamento da sabedoria chinesa: a impermanência. Nem sempre estamos conscientes dessa realidade. O ser humano costuma ter necessidade de coisas duradouras, constantes, permanentes. Isso nos dá segurança, tranqüilidade, uma certeza de continuidade.
Nós, seres humanos, somos apegados às pessoas, às coisas e às situações. É comum querer que as coisas sejam permanentes. Muitas vezes, preferimos a ilusão do duradouro à realidade da mutação e da impermanência. Queremos que a vida seja do jeito que idealizamos e não do jeito que ela é. Lidar com a impermanência é um exercício de aceitação da realidade.
Desejar que um objeto, uma pessoa, uma situação, ou uma parte da vida nunca se altere, é aleijar a existência. Como nada dentro da Natureza existe de forma isolada, tentar manter algo inalterado é impedir que ele continue seu processo de evolução. Pior: todas as coisas que estão interligadas com esse algo também serão prejudicadas.
A Natureza nos mostra a todo instante que a impermanência é um fato e uma necessidade. Pode ser uma realidade difícil de ser aceita, mas é a realidade. A consciência da impermanência exige de nós o acolhimento da realidade e o exercício de se desapegar das pessoas, dos objetos e das situações. Das idéias e ilusões também. É interessante notar como as idéias e as ilusões são coisas das mais difíceis de se renunciar nesta vida. Mas ilusões são ilusões e não a realidade.
Referência:
[1] Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
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