sábado, novembro 10, 2007

 

O Amor Abre os Olhos

Fonte: Omraam Mikhaël Aïvanhov, Acerca do Invisível, Edições Prosveta, Lisboa, 1988.

Ao perguntarmos "Por que você se preocupa tanto em desenvolver a clarividência?" muitos respondem: "É para ajudar todos aqueles que têm problemas e que sofrem. Graças à clarividência, é possível adverti-los, dar-lhe conselhos...". Não, não se ajudará os humanos "vendo" os seus problemas ou advertindo-os acerca dos perigos que os ameaçam.

Primeiro porque não é pelo fato de se ver os acontecimentos chegar que se pode impedir que eles se realizem. E depois, na vida quotidiana muitas vezes é preferível não ver o que se passa na cabeça ou no coração das pessoas. Sim, não se consegue ajudá-las se se tiver os olhos demasiado abertos, muitas vezes é preferível não ver nada. A ignorância faz com que se continue a amá-los, a ser simpático para com eles e a querer fazer-lhes bem.

Também não acrediteis que se, como acontece com muitos médiuns, sentirdes as dores ou os desgostos das pessoas, podereis ajudá-las mais. Para compreender os outros e ajudá-los não é necessário sentir e viver exatamente o que eles vivem, pois isso é uma forma de simpatia que muitas vezes nos mantém no plano astral. Mais vale tentar elevar-se até o plano mental para refletir, para raciocinar. Se se estiver suficientemente atento, se se souber escutar, se se souber observar a partir de alguns elementos que se descobriu acerca das pessoas, é possível, com o treino, advinhar o que elas são, o que sentem, o que pensam, aquilo de que necessitam, sem se ser afetado. Certos seres têm assim uma penetração psicológica que é uma forma de clarividência. Quando as pessoas se contentam em servir sem compreender e sem conhecer, não só são vulneráveis, como não podem ser úteis aos outros.

A verdadeira clarividência em relação aos seres provém da capacidade de nos esquecermos um pouco de nós próprios. Julgar-se o centro do mundo fazendo convergir tudo para si, para os seus interesses, para as suas satisfações, ao ponto de quase ninguém mais existir, é o meio mais seguro de se ficar ou de se permanecer cego.

Muitos problemas e até tragédias poderiam ser evitados nas famílias precisamente se nelas reinasse um pouco menos de egoísmo. Tomemos, por exemplo, um marido que, totalmente dominado pelas suas ambições profissionais ou políticas, passa o tempo fora de casa em viagens e em reuniões. Quando regressa a casa, cansado, preocupado, beija distraidamente a mulher e nem sequer se preocupa em saber nada sobre as suas atividades, as suas preocupações, os seus desejos. Está tão dominado pelas suas próprias questões que não vê que ela está a mudar, porque também está fatigada, sente-se aborrecida, gostaria de ter uma vida diferente. Uma noite, quando regressa a casa, ele descobre, estupefato, que a mulher se foi embora, e não compreende qual foi o motivo. Então, que irá fazer esse marido cego? Consultará uma vidente para lhe perguntar se a mulher regressará! Ele tinha tudo à frente dos olhos para ver o que estava prestes a acontecer, mas não viu nada, e agora a vidente é que deverá ver em seu lugar!

Outras vezes são o pai e a mãe que, ocupados com os seus próprios problemas, não vêem o que se passa com os filhos, até ao dia em que descobrem, espantados, que, em vez de irem à escola, eles passam o tempo na rua e no cinema, participam de atividades obscuras ou se drogam. Se tivessem sido um pouco menos egocêntricos, teriam sentido os perigos que os filhos corriam.

Evidentemente, ao ouvir-me dizer que, para nos tornarmos clarividentes, devemos ocupar-nos dos outros, vós ficais decepcionados, pois esperáveis outra coisa. Pois bem, o método que vos dou é o melhor, é aquele que pode de fato ser-vos útil; consiste em escutar os outros, em compreendê-los, em respeitá-los e até em amá-los, se conseguirdes. É deste modo que vos tornareis realmente perspicazes, intuitivos.

Uma criança, enquanto é muito pequenina, não tem outras preocupações que não sejam alimentar-se, tocar nos objetos que a cercam e apropriar-se deles, ser o centro das atenções, e, se não consegue o que quer, chora e bate o pé. A criança é um monstrozinho de egoísmo. Sim, mas nessa idade é normal, é natural. Os adultos, o pai, a mãe, compreendem que não lhe podem exigir outra coisa. Mas se a criança mantém esse mesmo comportamento quando é maior, ralham-lhe, chegam a dar-lhe alguns tapas, pois é necessário que ela mude e deixe de pensar somente em si. Mais tarde sentirá a necessidade de formar um casal, depois de ter filhos... Por que terá a Inteligência Cósmica arranjado assim as coisas? Para levar os humanos a ocuparem-se de outros seres que não eles próprios, começando por um marido, ou uma esposa, e pelos filhos. Mas quantos compreenderam esta lição que a Inteligência Cósmica pretende dar-lhes? Quantos são capazes de se esquecer verdadeiramente de si próprios para pensar na sua família?

Quanto àqueles que o conseguiram, eles devem ainda saber que o círculo da família não é o objetivo a ter em conta. Esse objetivo está em pensar na coletividade: a família ajuda o indivíduo a sair de si mesmo; mas ela não deve, por seu lado, limitá-lo e absorvê-lo inteiramente. Cada indivíduo deve ir mais longe, ver mais além e tentar pensar na grande família, que é a humanidade. Do mesmo modo que ama a sua família, o discípulo esforça-se por amar todos os outros seres como se estes fizessem também parte dessa família. É então que ele sente despertar em si uma outra consciência, uma outra visão: torna-se clarividente, verdadeiramente clarividente.

A verdadeira clarividência, o homem só a obtém quando o seu coração começa a amar. Sim, a verdadeira clarividência, os verdadeiros olhos, encontram-se no coração; encontram-se também no intelecto, mas mais ainda no coração. Quando amais alguém, que vedes nele(a)? Coisas que habitualmente ninguém consegue ver. Diz-se que o amor é cego. Não, o amor abre os olhos. O homem que ama uma mulher acha-a semelhante a uma divindade... e não lhe digam que ele está enganado! Aliás, será que ele está realmente enganado? Aparentemente, sim. Mas, na realidade, se alguém parece exagerar a beleza do ser que ama, é porque vê esse ser tal como Deus o criou, ou tal como será no fim da sua evolução, quando regressar ao seio do Eterno.

Ainda não se compreendeu, pois, o poder grandioso do amor: é o amor que abre os olhos. Se alguém quer tornar-se vidente, deve começar pelo amor. E os vossos olhos abrir-se-ão...

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