sábado, dezembro 15, 2007
Lições do Bambu - 2
O Bambu cresce Reto e Satisfeito com seu Espaço
Ao contrário das outras árvores, o bambu chinês é humilde, precisa de pouco espaço, não é "espaçoso", não toma o lugar de ninguém. Não é como algumas pessoas que chegam, ocupam tudo, invadem nosso território, pegam nossas coisas, atrapalham, querem cada vez mais. Não. O bambu cresce reto, "na dele" [1].
Crescer reto é respeitar o espaço alheio. É não invadir, é não atrapalhar nem solicitar o outro por qualquer coisa, a toda hora. Para os taoístas, o espaço do outro é sagrado porque considera sagrado o seu próprio espaço. O sábio quer crescer com retidão, sem desvios, sem interferir na vida alheia, sem fazer intervenções no processo natural da outra pessoa. E para evitar ser invadido, não oferece ajuda nem dá opiniões se não for solicitado. "Ajuda sem que o outro peça é invasão".
O bambu está satisfeito com o pequeno espaço que lhe cabe. O sábio também não quer abraçar o mundo, não tem cobiça, não quer acumular nada, está satisfeito com o que tem. Tanto o bambu quanto o sábio não querem ocupar o espaço do outro, não fazem comparações, não competem, estão satisfeitos com o que têm porque possuem uma qualidade fundamental: o senso de suficiência.
Os chineses têm uma frase sobre o suficiente que é surpreendentemente simples e óbvia: "Quem se satisfaz com o suficiente sempre tem o suficiente". Aqui no Ocidente, o filósofo italiano Sêneca, em meados do Século 1 da nossa era, disse: "Só desejarás a justa medida das riquezas: primeiro, o necessário; segundo, o suficiente".
Se desejarmos alguma coisa, é porque estamos insatisfeitos com o que temos, porque achamos que o que temos não é suficiente. Desejar coisas, em si, não é um mal. Isso até ajuda a sociedade a progredir, nos traz conforto e prazer. Todos nós temos desejos, vontades, sonhos de consumo.
No entanto, se não houvesse tantos desejos, não haveria tantos consumidores compulsivos, não se destruiria tanto a Natureza atrás de matérias-primas. Não se poluiriam tanto o ar e as águas, não se acumulariam toneladas e toneladas de lixo no mundo. Não haveria tantas neuroses, tanta cobiça, tantos roubos, tanta violência, tanto sofrimento. O problema, enfim, não é o desejo em si, mas o consumismo desenfreado e a falta de percepção daquilo que é suficiente. Em termos ecológicos, aquele que deseja demais é, de forma direta ou indireta, um grande predador. Aquele que busca apenas o suficiente, ou algo próximo disso, contribui para um mundo sustentável e equilibrado.
Necessidade e Desejo
O bambu só deseja o suficiente, o necessário. O sábio também não quer nada além da sua necessidade. As tradições orientais são bem claras em apontar o desejo como a origem dos sofrimentos. Dizem que a realidade do ser humano é o sofrimento, que é causado pelo desejo, e o único modo de suprimir esse sofrimento é o desapego.
Fazer com que o desejo desapareça do coração do ser humano é uma utopia, um ideal romântico e ingênuo. Mas saber diferenciar o desejo da necessidade é algo viável e representa o primeiro passo para uma vida e um mundo mais saudável. Necessidade é uma carência primária que pode ser satisfeita, pode ser suprida com seu objeto primário. Atender a uma necessidade é atender a uma exigência básica, elementar.
Na necessidade, o que importa é a função primária, desprovida dos valores agregados e secundários. Se numa refeição sentimos sede, um pouco de água é suficiente. Nossa necessidade é de água. Tomar um champanhe francês de uma safra rara na refeição não é bem uma necessidade, mas um desejo. Roupa para se proteger do frio é uma necessidade e qualquer peça adequada para isso é suficiente. Já um "modelito" sofisticado de grife famosa, comprado numa loja badalada é um desejo.
O desejo, costuma ser dito, é "um poço sem fundo". Nunca termina, não é possível satisfazer. Quando matamos o desejo de alguma coisa, sentimos prazer, mas em seguida temos outro desejo. Se o desejo for grande, a função primária é insuficiente, isto é, a pessoa não se satisfaz com o suficiente e acaba despendendo muito dinheiro por causa disso. Muitas vezes, paga-se mais do que dinheiro, paga-se com a intranqüilidade, com a sensação de vazio interior, com compulsões consumistas, com dívidas enormes, com estresse, com surtos psicológicos, com doenças ou com a própria vida.
[continua]
Referência:
[1] Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
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