domingo, janeiro 06, 2008
Lições do Bambu - 4
Limitar as limitações
Em termos sociais, a falta de limites pode gerar atitudes condenáveis, das mais leves como dar palpites onde não se é chamado, até delitos sérios como roubar recursos destinados aos aposentados da Previdência Social ou cometer atentados terroristas.
A Natureza faz que o bambu já tenha as divisões predefinidas desde o começo, quando ainda é apenas um broto. A quantidade de nós que existe no broto é a mesma quantidade que o caule terá quando crescer. A partir deste detalhe, os sábios aprenderam que os limites precisam ser ensinados desde a infância e não impostos apenas quando as crianças tiverem condições de entender as razões das limitações.
Na visão taoísta, limitação não implica em proibição, privação ou exclusão de algum aspecto da vida. Limitar não é cortar para sempre alguma coisa. Tanto é assim que eles dizem que "é preciso impor limites a tudo, até mesmo às limitações". Ser chefe de família econômico é uma coisa, ser um "tirano mão-de-vaca" é outra. Falar só o necessário num diálogo é uma coisa, ficar calado como uma múmia é outra. Quando alguém impõe limites exagerados à própria pessoa, o corpo acaba reagindo negativamente, ele se sente sufocado, angustiado, infeliz. Quando impomos limites sobre-humanos às outras pessoas, elas não suportam, se rebelam, entram em conflito aberto conosco e se afastam. O excesso de rigidez nos limites causa mais prejuízos do que benefícios, e o I Ching chama isso de "limitação amarga".
Limitação, seguindo o Taoísmo, significa moderação. Precisamos evitar os extremos, tanto para mais quanto para menos. Se o bambu tivesse divisões a cada centímetro, o caule seria rígido demais e numa situação de maior pressão iria quebrar. Se o bambu não tivesse nenhuma divisão, o talo seria flexível demais e também se quebraria. O bambu não tem divisões demais nem de menos, mas numa quantidade adequada para garantir flexibilidade sem rigidez.
Os mestres chineses defendem o conceito do Áureo Meio-termo, um meio-termo que é de ouro, como um conhecimento precioso. Para eles, uma coisa harmoniosa tem um pouco de cada coisa, como uma balança que tem pesos distribuídos de forma equilibrada. Uma pessoa saudável vive momentos de alegria e momentos de tristeza, em algumas situações é racional e em outras é emotiva; às vezes é idealista, às vezes é prática; às vezes volta-se para as coisas da alma, às vezes vivencia os prazeres materiais. Para os sábios o importante é a plenitude, a experiência de todas as coisas, e não a perfeição, especialmente se a perfeição implicar a mutilação dos aspectos naturais da vida. Daí a importância da moderação, dos limites corretos.
[continua]
Referência:
[1] Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
A Natureza faz que o bambu já tenha as divisões predefinidas desde o começo, quando ainda é apenas um broto. A quantidade de nós que existe no broto é a mesma quantidade que o caule terá quando crescer. A partir deste detalhe, os sábios aprenderam que os limites precisam ser ensinados desde a infância e não impostos apenas quando as crianças tiverem condições de entender as razões das limitações.
Na visão taoísta, limitação não implica em proibição, privação ou exclusão de algum aspecto da vida. Limitar não é cortar para sempre alguma coisa. Tanto é assim que eles dizem que "é preciso impor limites a tudo, até mesmo às limitações". Ser chefe de família econômico é uma coisa, ser um "tirano mão-de-vaca" é outra. Falar só o necessário num diálogo é uma coisa, ficar calado como uma múmia é outra. Quando alguém impõe limites exagerados à própria pessoa, o corpo acaba reagindo negativamente, ele se sente sufocado, angustiado, infeliz. Quando impomos limites sobre-humanos às outras pessoas, elas não suportam, se rebelam, entram em conflito aberto conosco e se afastam. O excesso de rigidez nos limites causa mais prejuízos do que benefícios, e o I Ching chama isso de "limitação amarga".
Limitação, seguindo o Taoísmo, significa moderação. Precisamos evitar os extremos, tanto para mais quanto para menos. Se o bambu tivesse divisões a cada centímetro, o caule seria rígido demais e numa situação de maior pressão iria quebrar. Se o bambu não tivesse nenhuma divisão, o talo seria flexível demais e também se quebraria. O bambu não tem divisões demais nem de menos, mas numa quantidade adequada para garantir flexibilidade sem rigidez.
Os mestres chineses defendem o conceito do Áureo Meio-termo, um meio-termo que é de ouro, como um conhecimento precioso. Para eles, uma coisa harmoniosa tem um pouco de cada coisa, como uma balança que tem pesos distribuídos de forma equilibrada. Uma pessoa saudável vive momentos de alegria e momentos de tristeza, em algumas situações é racional e em outras é emotiva; às vezes é idealista, às vezes é prática; às vezes volta-se para as coisas da alma, às vezes vivencia os prazeres materiais. Para os sábios o importante é a plenitude, a experiência de todas as coisas, e não a perfeição, especialmente se a perfeição implicar a mutilação dos aspectos naturais da vida. Daí a importância da moderação, dos limites corretos.
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Referência:
[1] Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
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