terça-feira, fevereiro 12, 2008
Lições do Bambu - 8
O Fundamental é Invisível
O vazio é invisível. Esse detalhe é fundamental, apesar de óbvio. É fundamental porque mostra que as coisas mais importantes são invisíveis. Como o vazio do vaso ou o vazio entre as paredes da casa. Estendendo essa idéia para a vida humana, os sábios estabeleceram um critério de valor que os guiam em todas as suas ações. Eles sabem que existem coisas mais profundas do que a aparência. Para eles não importa se o copo é feito de cristal belga, com detalhes exclusivos ou filete de ouro na borda. O que importa é que exista um espaço vazio onde se pode colocar o líquido. Tudo que eles precisam é de um espaço vazio entre quatro paredes para colocar suas coisas e se abrigar. Não é a parte visível, a aparência externa, que mais valorizam, mas sim a parte interna, a parte invisível.
Os sábios não dão importância à roupa que as pessoas vestem. Eles olham para o invisível, para o lado interior das pessoas, olham para suas almas. Perceberam que o fundamental é invisível, assim como perceberam a importância do vazio do bambu.
O vazio do bambu é o vazio do universo
Para os mestres orientais, o vazio é universal, onipresente. Quando eles olhavam o espaço oco do bambu, sabiam que o vazio do caule do bambu é o mesmo vazio que existe fora do bambu. Quando olhavam uma xícara, percebiam que o vazio que está em seu interior se estendia para o espaço à sua volta, que se estendia para a sala, que se estendia para todo o ambiente externo. Quando olhavam a Natureza, percebiam o vazio entre as coisas. Percebiam que o Sol flutuava no céu, no vazio, que a Lua flutuava no escuro da noite, no vazio. Para eles tudo isso era o mesmo vazio e, assim como existe uma única água no planeta, existe um único vazio no universo. Diziam que a xícara existe no vazio, que eles próprios existiam no vazio, que os astros flutuam no vazio, que todo o universo é um grande vazio com apenas alguns pequenos pontos de matéria que se chamam estrelas, planetas, satélites, etc. Tudo nasce no (e do) vazio e tudo volta para o vazio.
Podemos imaginar o universo como uma grande sopa. Cada ingrediente da sopa é um "ser", uma coisa: uma rodela de cenoura, um pedaço de abobrinha, um planeta, uma lua ou uma estrela, não importa. E a água é o vazio onde cada uma dessas coisas flutua. Assim como todos os ingredientes estão mergulhados na água da sopa, todas as coisas do universo estão mergulhadas no vazio. O vazio permeia todas as coisas, é o vazio que une tudo, como a água da sopa. E aqui, mais uma vez, os sábios dizem que não existe separação entre uma coisa e outra, que tudo faz parte do todo, de um único todo. Para os orientais, tudo está unido pelo vazio. Nada está separado, tudo está ligado com tudo, tudo forma uma coisa só. Tudo é uma grande sopa...
Fonte: Roberto Otsu, A Sabedoria da Natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os Ensinamentos Essênios, Editora Ágora, 2006.
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