terça-feira, julho 01, 2008

 

A Cura dos Apegos

"O apego é causa de sofrimento"
"Aceite as mudanças e confie"

Nada termina

Sabemos que o apego é um obstáculo que um dia todos teremos de superar. Ele surge quando não compreendemos o lado interno da vida, quando não estamos em contato com a essência das coisas. Por falta desse contato, ficamos habituados, acostumados à forma externa que reveste toda e qualquer essência, e nos apegamos a ela.

Em nosso convívio com os demais, é como se considerássemos somente o corpo, o rosto, a personalidade das pessoas, esquecendo-nos de que em sua verdadeira essência elas são almas, e de que, como almas, estão presentes em todos os lugares.

Muitos de nós gostaríamos de nos tornar mais desapegados. Mas como fazer isso? Como encontrar a essência das coisas, como não nos prender a aparências?

Temos muitos vícios de pensamento e hábitos de linguagem, e chegamos a dizer coisas que, se pensássemos melhor, veríamos que não correspondem à realidade. Dizemos, por exemplo: "Aquela espécie de pássaros desapareceu"; ou: "Aquele homem morreu"; ou ainda: "A antiga civilização grega deixou de existir", e assim por diante. Na verdade, é um engano dizer que as coisas acabam ou morrem, pois não é isso o que de fato acontece: na verdade, é a essência das coisas que transmigra, que sai de uma forma e entra em outra. E quando a essência transmigra, a forma da qual se retirou fenece.

Portanto, nada acabou quando uma espécie de pássaros já não é vista no plano físico. E nada acabou quando se diz impropriamente que uma pessoa morreu. Tampouco a essência da antiga civilização grega acabou só porque terminou aquele período áureo da história da Terra, nem a Atlântida acabou por não existir mais como continente físico e visível.

Dentro das novas espécies de pássaros que vão surgindo permanece a essência das espécies extintas; e dentro das pessoas que estão nascendo hoje encontra-se a essência que habitava corpos de outras épocas.

Na arquitetura atual está presente, de certo modo, a essência das civilizações anteriores, mesmo que não haja delas nenhum elemento concreto. Quanto à Atlântida, está ainda viva em cada pessoa que permanece emotiva, poia a essência daquela civilização sempre foi a emotividade.

Assim, podemos perceber que a essência de todas as formas desaparecidas transmigra para outras que podem ser mais perfeitas. Nada se perde, tudo evolui. Ter consciência disso é o primeiro passo para nos desapegarmos das formas externas, concretas. Depois, numa segunda etapa, desapegamo-nos de coisas mais sutis como, por exemplo, as afetivas.

Desapego da atividade

A vida pode levar-nos a mudar de atividade externa freqüentemente. em certas circunstâncias podemos ficar numa profissão algum tempo e depois ir para outra bem diferente. Mas, se o que nos move é a intenção de evoluir e de servir melhor, e não alguma predileção pela forma externa do trabalho, podemos perceber continuidade, mesmo quando passamos para uma atividade aparentemente oposta. Nossa intenção de servir e de melhorar, e não a forma externa das atividades, é o fio que as pode interligar, dando-nos impressão de coerência e harmonia, e não de percalços e contrastes.

Se consideramos as mudanças com superficialidade, como se fossem incômodas, as transformações podem parecer-nos drásticas. Entretanto, se as vemos com mais atenção, percebemos que não há diferença alguma entre as várias atividades quando as exercermos com o mesmo espírito. O espírito com que se fazem as coisas, isso é o importante - e não tanto o que se faz. O espírito, a intenção, é o que traz unidade.

Assim, pouca importância tem saber quais foram as nossas atividades passadas, assim como pode ter pouca importância saber sobre nossas vidas anteriores. As diversas fases nada mais são que breves momentos de uma extensa trajetória evolutiva.

Há pessoas que se distraem e se contentam rememorando fatos transcorridos e tentando descobrir o que fizeram em vidas passadas, mas o importante é aquilo que não muda, vida após vida, e que une todas as nossas encarnações. É a busca da nossa essência interior que nos desvela a meta da existência, a ligação de todos os fatos e episódios que vivemos, por mais variados que sejam.

A perpétua existência

Convivem harmoniosamente no Universo energias que constroem e energias que destroem. As primeiras criam e alimentam formas - uma atividade, a encarnação de uma pessoa, os ciclos de uma civilização, por exemplo. As últimas possibilitam que a essência abandone as formas que já não lhe correspondem, que estejam limitando sua expressão. Destroem para libertar.

Ambas as energias são necessárias para que a vida prossiga seu curso. Se não houvesse a energia que a certa altura destrói nosso corpo, que é apenas a forma externa que tomamos em determinada encarnação, como seria possível para a essência que o habita continuar um ciclo criativo numa próxima vida e progredir?

Terminado um ciclo, a essência precisa de formas mais perfeitas para manifestar-se de novo. Em termos planetários, se não houvesse a energia que provoca cataclismos e faz com que uma civilização desapareça, como a essência daquela civilização poderia reaparecer de maneira mais perfeita em outra, posterior?

Como poderia o espírito que nos move realizar um trabalho de crescente qualidade, se a certa altura não surgisse outra forma para ele animar?

A superação dos apegos

Uma lição de desapego foi vivida pelo filósofo Krishnamurti quando seu irmão, de quem se sentia muito próximo, desencarnou. Os dois eram companheiros, e muito unidos. Krishnamurti sentiu fortemente a sua falta. Não tinha mais a sua presença física, não via mais diante de sei a sua forma humana. Sofreu muito, porque até então não havia aprendido a perceber a essência invisível do amado irmão.

Numa bela poesia que escreveu sobre essa passagem de sua vida, Krishnamurti relata como tentou inutilmente amenizar seu sentimento de perda. Percorreu os lugares onde passeavam juntos, e em nenhum deles conseguia reencontrar o irmão. Depois, começou a procurá-lo no rosto de todas as pessoas, mas não o via em nenhum. Procurou o irmão em todas as coisas e recantos, nas casas em que tinham morado, e em lugar algum o achava.

Cansado de penar pela sua ausência, foi então que num momento de inspiração se voltou para dentro de si mesmo e descobriu, em seu próprio coração, a presença do seu irmão, imperecível.

Desse modo, curado de suas profundas dores, teve uma experiência totalmente inesperada como acréscimo: também no próprio coração descobriu todos os seres que os homens chamam de vivos e todos os que chamam de mortos.

A cura dos apegos soluciona os mais diversos problemas. Podemos então encontrar resposta para muitas perguntas: "Como perceber a essência do que nos rodeia?" "Como não perder a harmonia e a beleza que conhecemos em antigas civilizações?" "Como não perder o amor dos que desencarnam?" "Como não nos sentirmos inativos se nosso trabalho termina ou é interrompido, ou se ficamos impossibilitados de trabalhar por algum motivo?" "Se perdemos bens materiais, como não nos sentirmos roubados do que já passou, do que possuímos em épocas de fartura?" "Como, enfim, encontrar a essência das coisas?"

A resposta para todas essas perguntas é uma só: ir para dentro do próprio coração, para dentro do próprio ser. Lá a consciência da alma, que é universal, desde sempre nos aguarda.

"Como faço para me desapegar de uma idéia?" Vá para dentro, para o seu coração. "Como faço para me desapegar de minha atual maneira de ser?" Vá para o seu coração. "Como faço para me soltar do que me prende?" Vá para o seu coração, na direção do seu centro. "Como faço para transcender os meus defeitos?" Vá para a sua essência, para o seu coração. "Como faço para superar os meus complexos?" Vá para o seu coração, para dentro de si, para o seu ser profundo. "Como faço com essa enfermidade que os médicos não sabem tratar?" Busque luz em seu coração. "Como faço com meus filhos, que não sei educar?" Vá para dentro do seu ser, e lá encontrará o amor para tratá-los. "Como faço para preencher o vazio que sinto em minha vida?" Vá para o seu coração. "Como faço para resolver a minha insegurança, os meus medos?" Vá para o seu coração.

É no coração que se curam os apegos, porque ali está a essência de tudo (átomo Nous, nosso átomo permanente alojado no ventrículo esquerdo do coração). Ali nada nos falta.

Se vou para o meu centro, encontro a essência não só de uma casa, mas também a de um irmão, a de uma espécie de pássaro, a de uma roupa que estou usando. É então que as várias aparências se equivalem, e tanto faz se um pássaro canta aqui ou acolá, tanto faz se moro aqui ou acolá, tanto faz se vejo diante de mim um irmão consangüíneo ou outro ser, porque posso amar a todos igualmente.

As dificuldades são resolvidas de forma simples quando nos é dado penetrar a essência das coisas, quando enfim conhecemos a força universal do próprio coração.

Fonte: Palestra de Trigueirinho de 1983, Irdin Editora, São Paulo, 1997.

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