segunda-feira, julho 07, 2008
O Matrimônio Superior
A busca da união
Ainda que as aparências tentem mostrar o contrário, a união é algo misterioso para a maioria. Que força move as pessoas à procura de uma complementação? Por que elas se sentem sós ou incompletas? E por que a união com outras pessoas, grupos ou idéias é quase sempre imperfeita e efêmera? Estes são alguns pontos que buscaremos esclarecer agora, ao abordar a união de um ponto de vista amplo, digamos, universal.
Podemso considerar esta nossa conversa um trabalho pré-matrimonial, pois vamos fazer aqui uma espécie de preparação nupcial interior. Mas, para nós, as palavras matrimônio e núpcias terão um sentido espiritual e não a conotação que normalmente é atribuída a elas.
Preparar nossas núpcias espirituais ou internas significa harmonizar os diferentes níveis da nossa pessoa, alinhando-os com a alma, ou eu superior, que está em um nível supra-humano.
Vivemos em diferentes níveis. Agimos no nível físico, ao mesmo tempo que sentimos e pensamos. Temos aí os três níveis do viver humano, ou seja, os três níveis da personalidade: o físico, o emocional e o mental.
Ao procurarmos unir a ação com o sentimento e o pensamento, estaremos alinhando esses corpos; e, na medida em que isso for acontecendo, ou seja, na medida em que formos vivendo de forma integrada e harmoniosa, nossa personalidade irá sendo absorvida pelo eu superior (ou alma) - nosso núcleo de consciência no nível supra-mental, mais profundo do que a mente pensante e analítica.
Assim, gradualmente, nossa personalidade passa a ser a expressão desse núcleo mais elevado, a alma. Esse fato interno, extremamente renovador e necessário para a evolução do ser, é o que chamamos de matrimônio interior.
Todos estamos destinados a efetuar a união interna, ou a nos casar no sentido místico, pois esse matrimônio faz parte do caminho de toda alma. Na verdade, é a alma que promove esse matrimônio, porque ele atrai a personalidade chamando-a para a unificação.
No princípio, quando ainda não compreendemos esse processo, buscamos diferentes experiências de união com pessoas ou coisas - sempre, porém, experiências externas a nós. É que nessa etapa a nossa necessidade de união interna, com nossa própria alma, é interpretada como desejo de união com algo ou com alguém externo a nós.
Nessa fase, na maioria das vezes, nossos corpos encontram-se desalinhados: predominam as forças de um ou de outro. Algumas pessoas ficam mais submetidas às forças do corpo mental, outras às do emocional. Há também os que se vêem muito envolvidos com as forças ainda mais densas do plano físico.
Nessa situação de não-alinhamento entre os níveis da personalidade, enquanto fazemos determinada ação, desejamos outra coisa ou queremos estar em outro lugar, e assim nossa mente vagueia de pensamento em pensamento. Em outras palavras, nosso ser vive fragmentado, disperso em várias direções.
Ao adotarmos a busca da união, assumimos conscientemente não só o alinhamento dos nossos corpos entre si, mas também destes com o eu superior, porque é ele que custodia o propósito real, espiritual e evolutivo para nossas vidas. É bom termos sempre isto presente, pois assim podemos colaborar com o processo.
Como a alma é núcleo de vontade, amor e inteligência puros, ao assumirmos esse propósito, buscaremos agir de acordo com nossos sentimentos e idéias mais elevados e, de maneira concentrada e inteligente, depositaremos nessa ação o nosso afeto e amor. Assim, amorosamente, vamos alinhando os três corpos entre si.
Mas para alinhá-los com o eu superior - e colaborarmos enfim para a almejada união - ofertamo-nos a esse nosso núcleo profundo de consciência, nossa alma, ou Deus dentro de nós.
Quando sentimos necessidade de nos unirmos a outra pessoa, a alguma idéia ou coisa, de certa forma já estamos no caminho da unificação, pois nossas energias superiores estão nos atraindo para a busca da união. Entretanto,, no início da trajetória ainda não percebemos que estamos sendo conduzidos ao matrimônio interno, para o qual temos realmente vocação, e assim, à custa de decepções, ou de fugaz felicidade ou de bastante sofrimento, nos enlaçamos em uniões superficiais. No entanto, com o tempo e com a experiência, reconhecemos que estamos, sim, destinados à união, porém não dessa maneira fragmentada e com o que nos é externo.
Compreendemos finalmente que nossa busca é na direção das nossas núpcias internas, da união dos nossos níveis pessoais com os transpessoais e universais. Daí por diante, o relacionamento com nossos semelhantes ganha muito em qualidade, pois encontra sua maior força: a fraternidade.
Na busca do matrimônio interno, podemos adotar diferentes formas de vida - a solitária, a em colaboração com um outro ser , ou a grupal. Vejamos algo sobre essas formas para eventualmente chegarmos a reconhecer qual é o nosso caminho no momento.
Em qualquer dos três caminhos estamos expostos a ilusões. Os que buscam fazer a união sozinhos, na chamada vida solitária, podem confundir-se em determinado momento ao pensar que por estarem nessa busca individualmente precisam se isolar de tudo e de todos. Podem sentir-se pessoas separadas das demais, e esse é um dos perigos da vida solitária, que é muito benéfica, se sadia.
Os que estão no caminho de buscar o matrimônio interno em colaboração com outro ser, podem pretender que seu parceiro ou parceira seja igual a si, ou achar que ele próprio tem de corresponder ao que é dele esperado. Ambos podem enganar-se pensando que vão unificar-se, tornando-se uma só coisa, ou que deixarão de ser entes separados, sob certos aspectos.
Por natureza, o ego humano é separatista, e por isso não pode existir união perfeita nos níveis de personalidade. Se as pessoas que têm como tarefa trilhar o caminho a dois, em colaboração, se libertassem desses enganos e vissem nessa trajetória uma oportunidade de um ajudar o outro a realizar, em primeiro lugar, a união em si próprio, haveria equilíbrio e harmonia nas uniões e a família não teria decaído tanto como núcleo social e espiritual. Como vemos, o matrimônio acontece dentro de nós e não só fora, socialmente.
Devido à expectativa dos parceiros de tornarem-se um só, inseparáveis, a maior parte dos casamentos converte-se em campo de árduo conflito e de contínuo esforço de ajustamento, o que exige muita dedicação e espírito de doação de ambas as partes, isso se considerarmos os melhores casos. Na maioria, o que acontece são as rupturas, quase sempre traumatizantes.
O terceiro caminho para as núpcias internas é a vida grupal e nele também nos expomos a ilusões. Podemos, por exemplo, achar que o grupo é apenas o grupo externo, o das pessoas no plano físico, e isso pode deixar-nos muito apegados ao lado tangível da vida, às pessoas presentes, e conseqüentemente nos tornar sectários em confronto com outros grupos que tenham a mesma intenção.
Na verdade, a harmonia entre esses grupos facilitaria o matrimônio interno de todos os seres que os compõem, pois a força invocadora de um grupo integrado numa consciência universal é muito maior que a de um grupo isolado. E a alma, como sabemos, é sensível a essa invocação.
Se os membros de um grupo trabalharem no alinhamento dos próprios corpos da personalidade e destes com a própria alma, então eles, juntos, estarão realizando um matrimônio grupal. Cada um realiza esse trabalho no próprio ser, individualmente - pois isto é algo entre cada ser e sua alma - mas todos se ajudam mutuamente, procurando exteriorizar em grupo a energia do eu superior.
Um grupo físico é composto de almas que integram outro grupo muito maior, invisível e interno, com consciência mais abrangente e com uma atividade que se estende por várias dimensões, sendo a material a mais limitada. Esse grupo interno é constituído por almas que estão fazendo um trabalho semelhante, de união com as respectivas personalidades, porém nos planos mais internos da vida; ou por almas que já transcenderam essa etapa e se preparam para uniões com níveis ainda mais profundos do ser.
É quando esquecemos que um grupo não é só um fato externo e objetivo que vemos nossos companheiros de outros grupos como antagonistas ou concorrentes. Na linha científica, na artística, na educacional, na religiosa ou na econômica há antagonismo entre grupos por causa dessa incompreensão.
Se nos considerarmos "eus superiores" e não só pessoas humanas, vamos descobrir nossa realidade mais profunda, e também que somos, sim, parte de um grupo, porém interno e universal, grupo que em certos casos até transcende os limites da órbita terrestre.
Portanto, nas três modalidades de matrimônio é preciso que nos consideremos almas em evolução, e assim nos manteremos enfocados em um nível elevado, espiritual. De outro modo, vendo-nos apenas como pessoas humanas, separadas das demais, corremos o risco de nos iludirmos e, com isso, desperdiçarmos importante oportunidade de crescimento e de serviço em determinada encarnação.
A forma pela qual decidimos empreender a busca da união - sozinhos, em colaboração com outro ou em grupo - é algo muito importante, que pode influir definitivamente em nosso destino.
Por isso, essa decisão não é para ser tomada com base só no que se passa com a personalidade. É o eu superior, por viver na consciência universal, que sabe como conduzir cada encarnação.
Perguntas como: "Devo permanecer solteiro? Devo me casar? Devo fazer essa união grupalmente?" não encontram respostas corretas e adequadas em nossa esfera humana. Para a escolha certa, tendências e afinidades pouco valem, já que estas são circunstâncias, e as circunstâncias, passageiras.
É bom saber que uma personalidade já equilibrada e amadurecida, em princípio não apresenta preferência por nenhuma dessas três formas de busca, pois já sabe que elas conduzem à mesma meta, que é interior. Neste caso, uma ou outra dessas situações é tida como um serviço, isto é, o indivíduo coloca-se sempre na posição em que pode servir melhor.
Além disso, o nosso mundo superior tem formas inusitadas de nos esclarecer a respeito dos passos que devemos dar, mas humanamente nem sempre entendemos suas mensagens.
Ao nos responder sobre essas questões de união, por exemplo, o eu superior pode omitir informações que, embora esperadas por nós, podem ser consideradas supérfluas quando vistas a partir de um nível de consciência mais elevado.
Se não obtemos uma resposta clara a essas perguntas, mas ao mesmo tempo não surge uma possibilidade de casamento, nem de vida grupal, então podemos concluir que a busca é para ser feita individualmente.
Muitas vezes a resposta está implícita em certas circunstâncias da vida, e se torna óbvia quando permanecemos serenos e imparciais.
Evidentemente, nunca devemos ficar ansiosos. Em certos casos, mesmo se tivermos de permanecer solteiros, poderão surgir ocasiões de casamento, dado que nas vidas passadas todos nós fizemos muitas ligações cármicas, e esses coligados podem cruzar de novo o nosso caminho. Mas esses encontros só são evolutivos quando vistos como ligações passadas que estão reaparecendo para serem transformadas ou sublimadas e não para aderirmos aos impulsos naturais, freqüentemente bem fortes. Trata-se, portanto, de provas para testar o nosso discernimento.
Como vemos, nesse campo humanamente pouco sabemos. Por outro lado, aquietados os desejos e as preferências superficiais, poderemos ouvir a silenciosa voz interior, indicando-nos com segurança o rumo certo a seguir.
Tudo o que de real e verdadeiro deve acontecer em nossa vida é regido por leis supra-humanas e porisso chega no momento exato e determinado. De nossa parte, é melhor não precipitar os fatos, mas aguardar com serenidade, para não agir em sentido oposto ao assinalado pelo eu interno.
Em outras palavras, isso significa que em nível de personalidade é sábio aceitar nossa condição atual (solteiros ou casados); a partir daí, as energias vão fazer o que tiver de ser feito, e emergirá maior clareza para continuar a busca ou para dar início a ela.
A atitude inicial de desapego, de aceitação básica, de invocação da vontade superior é imprescindível para que esse processo se dê harmoniosamente, sem mágoas e sem conflitos. O desapego, contrariamente às aparências, é uma atitude muito dinâmica, e não passiva como muitos crêem.
Diz-se que só compreendemos a função evolutiva de uma situação ou de uma prova depois que a aceitamos. Quando um fato trazido pelo destino de maneira compulsória é inteiramente aceito, o que acontece em seguida estará em consonância com nossa necessidade verdadeira de progredir espiritualmente, e isso é o que mais importa para nossas almas e para o destino cósmico do próprio ser.
Agora vamos dar um novo passo no preparo das nossas núpcias internas. Tentemos transcender a idéia humana de que somos nós que nesta vida fazemos nossas próprias experiências.
Se nos colocarmos num ponto de vista espiritual, poderemos perceber que é a Vida ou as energias que fazem experiências através de nós. É apenas uma falsa impressão, ou uma ilusão, acreditar que tudo o que pensamos, sentimos e fazemos acontece por nossa própria conta, sem respaldo do eu interior. Na realidade, somos pessoas vividas por uma energia sutil, que é a nossa essência interna.
Quando identificados só com a mente humana comum, dizemos: "Eu penso assim, eu sinto assim, eu faço assim". Essas são impressões superficiais de quem está numa etapa que, cedo ou tarde, terá que transcender e entrar na evolução supra-humana. Precisamente o matrimônio superior, interno, nos ajuda a efetivar isto. Ele é a porta que nos leva a uma dimensão nova e espiritual, e à manifestação da futura humanidade, mais sutil e universal em seu modo de amar.
Portanto, para os que buscam a união interna, já está se aproximando essa grande transformação na forma de ver a realidade: "somos vividos, há algo que vive em nós". No Novo Testamento, Paulo de Tarso diz: "Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim". Há milênios essa nova visão do viver está sendo reconhecida e preparada, e finalmente agora está ancorando como fato em nossa vida consciente. Então, nessa sintonia, diremos:"Ele - o eu superior - age em mim, sente em mim, pensa em mim, vive em mim".
Mas, para transcendermos a visão primária das etapas anteriores, é preciso abdicar de querer fazer, sentir e pensar como um ente separado; é preciso desistir da ilusão de querer manifestar algo egoísta, de querer se impor aos demais e a si mesmo como personalidade. Porém, ao mesmo tempo, é necessário aspirar a que a Vida passe a fluir com inteireza através de nós. Dessa maneira, conscientizamo-nos de que existe um destino superior para nossa existência e um plano para este planeta onde nos encontramos.
A mente universal, da qual saímos e para a qual retornaremos mais experientes, deve viver plenamente em nós que somos seus prolongamentos e canais pelos quais deve fluir, afim de que o mundo seja algo belo, mais evoluído, e a Terra inteira seja um planeta harmonioso, enfim, uma Nova Terra.
E para haver uma Nova Terra - conforme está destinado, profetizado e já ocorrendo - os seres humanos mais conscientes devem permitir que ela se manifeste. Nossa personalidade, nossos níveis conscientes, nossa mente e sentimento humanos e nossa ação física, precisam perceber que chegou a hora de eles se doarem, de se abrirem para que realidades sublimes possam exteriorizar-se.
No momento em que deixamos de ser o que vínhamos sendo para nos abrirmos ao que realmente somos num nível superior, as energias agirão em nós com liberdade. É isso que realmente transforma o mundo.
Para tanto, o caminho é começarmos a nos liberar por dentro - na consciência - de tudo o que julgamos ser. Feita esta renúncia, que é básica, devemos nos desapegar com coragem de hábitos e preferências, para podermos ser efetivamente aqui, no nível externo, o que somos nos níveis divinos do nosso ser interior.
Na nossa essência interna somos livres filhos de Deus, centelhas cósmicas. Então, quando nos abrimos para que as energias nos encontrem liberados como canais disponíveis para elas agirem, nossas possibilidades se ampliam. Agora, mais consciente, nos surpreendemos fazendo muitas coisas necessárias, para as quais éramos antes incapazes.
Quando nos dispomos ao Alto, emerge tanta ajuda, tanto suporte, que o verdadeiramente necessário se faz presente de modo inexplicável; e, depois de viver tal experiência, não podemos mais interromper essa contínua doação de nós mesmos. Renunciando a ser o que vínhamos sendo e deixando a Vida se manifestar em nós, tornamo-nos espectadores dos fatos da nossa existência. Assim, vemos os dias e os anos se sucederem sem tédio nem cansaço de nossa parte, e sem termos a impressão de que o tempo (que tanto atormenta alguns que não encontram esse caminho) está se esgotando. Integramo-nos então no eterno presente, que simplesmente é, que existe na eternidade.
E, quando finalmente o matrimônio interior se consuma em nós, passamos a viver como almas libertas da ilusão e do sofrimento material. A partir daí estamos fora das limitações que por tanto tempo experienciamos, livres para ser o que somos em nossa mais profunda essência.
Fonte: Palestra de Trigueirinho de setembro de 1983, Irdin Editora, São Paulo, 1997.
Podemso considerar esta nossa conversa um trabalho pré-matrimonial, pois vamos fazer aqui uma espécie de preparação nupcial interior. Mas, para nós, as palavras matrimônio e núpcias terão um sentido espiritual e não a conotação que normalmente é atribuída a elas.
Preparar nossas núpcias espirituais ou internas significa harmonizar os diferentes níveis da nossa pessoa, alinhando-os com a alma, ou eu superior, que está em um nível supra-humano.
Vivemos em diferentes níveis. Agimos no nível físico, ao mesmo tempo que sentimos e pensamos. Temos aí os três níveis do viver humano, ou seja, os três níveis da personalidade: o físico, o emocional e o mental.
Ao procurarmos unir a ação com o sentimento e o pensamento, estaremos alinhando esses corpos; e, na medida em que isso for acontecendo, ou seja, na medida em que formos vivendo de forma integrada e harmoniosa, nossa personalidade irá sendo absorvida pelo eu superior (ou alma) - nosso núcleo de consciência no nível supra-mental, mais profundo do que a mente pensante e analítica.
Assim, gradualmente, nossa personalidade passa a ser a expressão desse núcleo mais elevado, a alma. Esse fato interno, extremamente renovador e necessário para a evolução do ser, é o que chamamos de matrimônio interior.
Todos estamos destinados a efetuar a união interna, ou a nos casar no sentido místico, pois esse matrimônio faz parte do caminho de toda alma. Na verdade, é a alma que promove esse matrimônio, porque ele atrai a personalidade chamando-a para a unificação.
No princípio, quando ainda não compreendemos esse processo, buscamos diferentes experiências de união com pessoas ou coisas - sempre, porém, experiências externas a nós. É que nessa etapa a nossa necessidade de união interna, com nossa própria alma, é interpretada como desejo de união com algo ou com alguém externo a nós.
Nessa fase, na maioria das vezes, nossos corpos encontram-se desalinhados: predominam as forças de um ou de outro. Algumas pessoas ficam mais submetidas às forças do corpo mental, outras às do emocional. Há também os que se vêem muito envolvidos com as forças ainda mais densas do plano físico.
Nessa situação de não-alinhamento entre os níveis da personalidade, enquanto fazemos determinada ação, desejamos outra coisa ou queremos estar em outro lugar, e assim nossa mente vagueia de pensamento em pensamento. Em outras palavras, nosso ser vive fragmentado, disperso em várias direções.
Ao adotarmos a busca da união, assumimos conscientemente não só o alinhamento dos nossos corpos entre si, mas também destes com o eu superior, porque é ele que custodia o propósito real, espiritual e evolutivo para nossas vidas. É bom termos sempre isto presente, pois assim podemos colaborar com o processo.
Como a alma é núcleo de vontade, amor e inteligência puros, ao assumirmos esse propósito, buscaremos agir de acordo com nossos sentimentos e idéias mais elevados e, de maneira concentrada e inteligente, depositaremos nessa ação o nosso afeto e amor. Assim, amorosamente, vamos alinhando os três corpos entre si.
Mas para alinhá-los com o eu superior - e colaborarmos enfim para a almejada união - ofertamo-nos a esse nosso núcleo profundo de consciência, nossa alma, ou Deus dentro de nós.
Quando sentimos necessidade de nos unirmos a outra pessoa, a alguma idéia ou coisa, de certa forma já estamos no caminho da unificação, pois nossas energias superiores estão nos atraindo para a busca da união. Entretanto,, no início da trajetória ainda não percebemos que estamos sendo conduzidos ao matrimônio interno, para o qual temos realmente vocação, e assim, à custa de decepções, ou de fugaz felicidade ou de bastante sofrimento, nos enlaçamos em uniões superficiais. No entanto, com o tempo e com a experiência, reconhecemos que estamos, sim, destinados à união, porém não dessa maneira fragmentada e com o que nos é externo.
Compreendemos finalmente que nossa busca é na direção das nossas núpcias internas, da união dos nossos níveis pessoais com os transpessoais e universais. Daí por diante, o relacionamento com nossos semelhantes ganha muito em qualidade, pois encontra sua maior força: a fraternidade.
Os três matrimônios
Na busca do matrimônio interno, podemos adotar diferentes formas de vida - a solitária, a em colaboração com um outro ser , ou a grupal. Vejamos algo sobre essas formas para eventualmente chegarmos a reconhecer qual é o nosso caminho no momento.
Em qualquer dos três caminhos estamos expostos a ilusões. Os que buscam fazer a união sozinhos, na chamada vida solitária, podem confundir-se em determinado momento ao pensar que por estarem nessa busca individualmente precisam se isolar de tudo e de todos. Podem sentir-se pessoas separadas das demais, e esse é um dos perigos da vida solitária, que é muito benéfica, se sadia.
Os que estão no caminho de buscar o matrimônio interno em colaboração com outro ser, podem pretender que seu parceiro ou parceira seja igual a si, ou achar que ele próprio tem de corresponder ao que é dele esperado. Ambos podem enganar-se pensando que vão unificar-se, tornando-se uma só coisa, ou que deixarão de ser entes separados, sob certos aspectos.
Por natureza, o ego humano é separatista, e por isso não pode existir união perfeita nos níveis de personalidade. Se as pessoas que têm como tarefa trilhar o caminho a dois, em colaboração, se libertassem desses enganos e vissem nessa trajetória uma oportunidade de um ajudar o outro a realizar, em primeiro lugar, a união em si próprio, haveria equilíbrio e harmonia nas uniões e a família não teria decaído tanto como núcleo social e espiritual. Como vemos, o matrimônio acontece dentro de nós e não só fora, socialmente.
Devido à expectativa dos parceiros de tornarem-se um só, inseparáveis, a maior parte dos casamentos converte-se em campo de árduo conflito e de contínuo esforço de ajustamento, o que exige muita dedicação e espírito de doação de ambas as partes, isso se considerarmos os melhores casos. Na maioria, o que acontece são as rupturas, quase sempre traumatizantes.
O terceiro caminho para as núpcias internas é a vida grupal e nele também nos expomos a ilusões. Podemos, por exemplo, achar que o grupo é apenas o grupo externo, o das pessoas no plano físico, e isso pode deixar-nos muito apegados ao lado tangível da vida, às pessoas presentes, e conseqüentemente nos tornar sectários em confronto com outros grupos que tenham a mesma intenção.
Na verdade, a harmonia entre esses grupos facilitaria o matrimônio interno de todos os seres que os compõem, pois a força invocadora de um grupo integrado numa consciência universal é muito maior que a de um grupo isolado. E a alma, como sabemos, é sensível a essa invocação.
Se os membros de um grupo trabalharem no alinhamento dos próprios corpos da personalidade e destes com a própria alma, então eles, juntos, estarão realizando um matrimônio grupal. Cada um realiza esse trabalho no próprio ser, individualmente - pois isto é algo entre cada ser e sua alma - mas todos se ajudam mutuamente, procurando exteriorizar em grupo a energia do eu superior.
Um grupo físico é composto de almas que integram outro grupo muito maior, invisível e interno, com consciência mais abrangente e com uma atividade que se estende por várias dimensões, sendo a material a mais limitada. Esse grupo interno é constituído por almas que estão fazendo um trabalho semelhante, de união com as respectivas personalidades, porém nos planos mais internos da vida; ou por almas que já transcenderam essa etapa e se preparam para uniões com níveis ainda mais profundos do ser.
É quando esquecemos que um grupo não é só um fato externo e objetivo que vemos nossos companheiros de outros grupos como antagonistas ou concorrentes. Na linha científica, na artística, na educacional, na religiosa ou na econômica há antagonismo entre grupos por causa dessa incompreensão.
Se nos considerarmos "eus superiores" e não só pessoas humanas, vamos descobrir nossa realidade mais profunda, e também que somos, sim, parte de um grupo, porém interno e universal, grupo que em certos casos até transcende os limites da órbita terrestre.
Portanto, nas três modalidades de matrimônio é preciso que nos consideremos almas em evolução, e assim nos manteremos enfocados em um nível elevado, espiritual. De outro modo, vendo-nos apenas como pessoas humanas, separadas das demais, corremos o risco de nos iludirmos e, com isso, desperdiçarmos importante oportunidade de crescimento e de serviço em determinada encarnação.
A decisão
A forma pela qual decidimos empreender a busca da união - sozinhos, em colaboração com outro ou em grupo - é algo muito importante, que pode influir definitivamente em nosso destino.
Por isso, essa decisão não é para ser tomada com base só no que se passa com a personalidade. É o eu superior, por viver na consciência universal, que sabe como conduzir cada encarnação.
Perguntas como: "Devo permanecer solteiro? Devo me casar? Devo fazer essa união grupalmente?" não encontram respostas corretas e adequadas em nossa esfera humana. Para a escolha certa, tendências e afinidades pouco valem, já que estas são circunstâncias, e as circunstâncias, passageiras.
É bom saber que uma personalidade já equilibrada e amadurecida, em princípio não apresenta preferência por nenhuma dessas três formas de busca, pois já sabe que elas conduzem à mesma meta, que é interior. Neste caso, uma ou outra dessas situações é tida como um serviço, isto é, o indivíduo coloca-se sempre na posição em que pode servir melhor.
Além disso, o nosso mundo superior tem formas inusitadas de nos esclarecer a respeito dos passos que devemos dar, mas humanamente nem sempre entendemos suas mensagens.
Ao nos responder sobre essas questões de união, por exemplo, o eu superior pode omitir informações que, embora esperadas por nós, podem ser consideradas supérfluas quando vistas a partir de um nível de consciência mais elevado.
Se não obtemos uma resposta clara a essas perguntas, mas ao mesmo tempo não surge uma possibilidade de casamento, nem de vida grupal, então podemos concluir que a busca é para ser feita individualmente.
Muitas vezes a resposta está implícita em certas circunstâncias da vida, e se torna óbvia quando permanecemos serenos e imparciais.
Evidentemente, nunca devemos ficar ansiosos. Em certos casos, mesmo se tivermos de permanecer solteiros, poderão surgir ocasiões de casamento, dado que nas vidas passadas todos nós fizemos muitas ligações cármicas, e esses coligados podem cruzar de novo o nosso caminho. Mas esses encontros só são evolutivos quando vistos como ligações passadas que estão reaparecendo para serem transformadas ou sublimadas e não para aderirmos aos impulsos naturais, freqüentemente bem fortes. Trata-se, portanto, de provas para testar o nosso discernimento.
Como vemos, nesse campo humanamente pouco sabemos. Por outro lado, aquietados os desejos e as preferências superficiais, poderemos ouvir a silenciosa voz interior, indicando-nos com segurança o rumo certo a seguir.
Tudo o que de real e verdadeiro deve acontecer em nossa vida é regido por leis supra-humanas e porisso chega no momento exato e determinado. De nossa parte, é melhor não precipitar os fatos, mas aguardar com serenidade, para não agir em sentido oposto ao assinalado pelo eu interno.
Em outras palavras, isso significa que em nível de personalidade é sábio aceitar nossa condição atual (solteiros ou casados); a partir daí, as energias vão fazer o que tiver de ser feito, e emergirá maior clareza para continuar a busca ou para dar início a ela.
A atitude inicial de desapego, de aceitação básica, de invocação da vontade superior é imprescindível para que esse processo se dê harmoniosamente, sem mágoas e sem conflitos. O desapego, contrariamente às aparências, é uma atitude muito dinâmica, e não passiva como muitos crêem.
Diz-se que só compreendemos a função evolutiva de uma situação ou de uma prova depois que a aceitamos. Quando um fato trazido pelo destino de maneira compulsória é inteiramente aceito, o que acontece em seguida estará em consonância com nossa necessidade verdadeira de progredir espiritualmente, e isso é o que mais importa para nossas almas e para o destino cósmico do próprio ser.
Que somos nós?
Agora vamos dar um novo passo no preparo das nossas núpcias internas. Tentemos transcender a idéia humana de que somos nós que nesta vida fazemos nossas próprias experiências.
Se nos colocarmos num ponto de vista espiritual, poderemos perceber que é a Vida ou as energias que fazem experiências através de nós. É apenas uma falsa impressão, ou uma ilusão, acreditar que tudo o que pensamos, sentimos e fazemos acontece por nossa própria conta, sem respaldo do eu interior. Na realidade, somos pessoas vividas por uma energia sutil, que é a nossa essência interna.
Quando identificados só com a mente humana comum, dizemos: "Eu penso assim, eu sinto assim, eu faço assim". Essas são impressões superficiais de quem está numa etapa que, cedo ou tarde, terá que transcender e entrar na evolução supra-humana. Precisamente o matrimônio superior, interno, nos ajuda a efetivar isto. Ele é a porta que nos leva a uma dimensão nova e espiritual, e à manifestação da futura humanidade, mais sutil e universal em seu modo de amar.
Portanto, para os que buscam a união interna, já está se aproximando essa grande transformação na forma de ver a realidade: "somos vividos, há algo que vive em nós". No Novo Testamento, Paulo de Tarso diz: "Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim". Há milênios essa nova visão do viver está sendo reconhecida e preparada, e finalmente agora está ancorando como fato em nossa vida consciente. Então, nessa sintonia, diremos:"Ele - o eu superior - age em mim, sente em mim, pensa em mim, vive em mim".
Mas, para transcendermos a visão primária das etapas anteriores, é preciso abdicar de querer fazer, sentir e pensar como um ente separado; é preciso desistir da ilusão de querer manifestar algo egoísta, de querer se impor aos demais e a si mesmo como personalidade. Porém, ao mesmo tempo, é necessário aspirar a que a Vida passe a fluir com inteireza através de nós. Dessa maneira, conscientizamo-nos de que existe um destino superior para nossa existência e um plano para este planeta onde nos encontramos.
A mente universal, da qual saímos e para a qual retornaremos mais experientes, deve viver plenamente em nós que somos seus prolongamentos e canais pelos quais deve fluir, afim de que o mundo seja algo belo, mais evoluído, e a Terra inteira seja um planeta harmonioso, enfim, uma Nova Terra.
E para haver uma Nova Terra - conforme está destinado, profetizado e já ocorrendo - os seres humanos mais conscientes devem permitir que ela se manifeste. Nossa personalidade, nossos níveis conscientes, nossa mente e sentimento humanos e nossa ação física, precisam perceber que chegou a hora de eles se doarem, de se abrirem para que realidades sublimes possam exteriorizar-se.
No momento em que deixamos de ser o que vínhamos sendo para nos abrirmos ao que realmente somos num nível superior, as energias agirão em nós com liberdade. É isso que realmente transforma o mundo.
Para tanto, o caminho é começarmos a nos liberar por dentro - na consciência - de tudo o que julgamos ser. Feita esta renúncia, que é básica, devemos nos desapegar com coragem de hábitos e preferências, para podermos ser efetivamente aqui, no nível externo, o que somos nos níveis divinos do nosso ser interior.
Na nossa essência interna somos livres filhos de Deus, centelhas cósmicas. Então, quando nos abrimos para que as energias nos encontrem liberados como canais disponíveis para elas agirem, nossas possibilidades se ampliam. Agora, mais consciente, nos surpreendemos fazendo muitas coisas necessárias, para as quais éramos antes incapazes.
Quando nos dispomos ao Alto, emerge tanta ajuda, tanto suporte, que o verdadeiramente necessário se faz presente de modo inexplicável; e, depois de viver tal experiência, não podemos mais interromper essa contínua doação de nós mesmos. Renunciando a ser o que vínhamos sendo e deixando a Vida se manifestar em nós, tornamo-nos espectadores dos fatos da nossa existência. Assim, vemos os dias e os anos se sucederem sem tédio nem cansaço de nossa parte, e sem termos a impressão de que o tempo (que tanto atormenta alguns que não encontram esse caminho) está se esgotando. Integramo-nos então no eterno presente, que simplesmente é, que existe na eternidade.
E, quando finalmente o matrimônio interior se consuma em nós, passamos a viver como almas libertas da ilusão e do sofrimento material. A partir daí estamos fora das limitações que por tanto tempo experienciamos, livres para ser o que somos em nossa mais profunda essência.
Fonte: Palestra de Trigueirinho de setembro de 1983, Irdin Editora, São Paulo, 1997.
Marcadores: matrimônio, Trigueirinho
Comments:
<< Home
eu nunca havia entendido o 'eu superior' como um "guia". e que somos resultado dessa sinergia.
algumas mensagens são tão providenciais. veio a calhar para mim.
adoro esse blog.
PAZ E LUZ!
Postar um comentário
algumas mensagens são tão providenciais. veio a calhar para mim.
adoro esse blog.
PAZ E LUZ!
<< Home

