quarta-feira, fevereiro 15, 2023

 

Diferença entre "liberdade de" e "liberdade para"


 Fonte: Osho, Liberdade: A coragem de ser você mesmo, Editora Cultrix, São Paulo.

A "liberdade de" é comum, mundana. O homem sempre tenta se livrar das coisas. Ela não é criativa. É um aspecto negativo da liberdade. A "liberdade para" é criatividade. Você tem uma certa visão que gostaria que se materializasse e quer liberdade para fazer isso.

A "liberdade de" é sempre do passado e a "liberdade para" é sempre para o futuro.

A "liberdade para" é uma dimensão espiritual, pois você está avançando para o desconhecido e talvez, um dia, para o incognoscível.. Ela lhe dará asas. A "liberdade de" pode, no máximo,  tirar as suas algemas. Ela não é necessariamente benéfica - e toda a História é uma prova disso.

Ainda não houve uma revolução no mundo que não tenha fracassado e pela simples razão de que as pessoas que fazem a revolução têm um determinado tipo de habilidade e as pessoas que constroem um país, que criam um país, que incutem responsabilidade no povo, pertencem a um grupo diferente. Elas não participam da destruição, da matança. Mas não conseguem subir ao poder. O poder vai para as mãos daqueles que participaram da luta. Por isso, naturalmente, toda revolução está intrinsicamente fadada a fracassar, a menos que o que estou dizendo fique claro.

A revolução se divide em duas partes, a "revolução de"  e a "revolução para" - e é preciso que haja os dois tipos de revolucionário: aqueles que se empenham pelo primeiro tipo de revolução - que é a "liberdade de" - e aqueles que entrarão em ação quando o trabalho do primeiro tipo de revolucionário tiver acabado, em prol da "liberdade para". Mas é difícil lidar com isso. Quem seria capaz?  Todo mundo tem sede de poder. Quando os revolucionários saem vitoriosos, o poder é deles; eles não o passam para mais ninguém e o pais vira um caos.

É por isso que um não prego a revolução; eu prego a rebelião. A revolução é das massas; a rebelião é do indivíduo. O indivíduo muda a si mesmo. Ele não liga para a estrutura do poder; ele simplesmente trata de mudar o seu próprio ser, de dar à luz um novo homem dentro de si.

O que há de mais maravilhoso nisso é que, na rebelião1, os dois tipos de revolucionário podem participar, pois, na rebelião, há muito para se destruir e muito para se criar. As coisas têm de ser destruídas para que se possa criar algo novo, então ela atrai os dois tipos - aqueles que estão interessados na destruição e aqueles que estão interessados na criatividade.

Trata-se de uma bela história mística. Um homem procura um mestre para perguntar até que ponto o homem é independente, livre. Ele é totalmente livre ou existe alguma limitação? Existe algo como o destino, a sorte, a sina, um Deus que cria uma limitação da qual não possamos nos libertar?

O místico responde à sua própria moda - não de forma lógica, mas existencial. Ele diz, "Levante-se".

O homem achou essa resposta meio idiota. "Estou fazendo uma pergunta simples e ele me pede para me levantar". Mas ele diz, "Vamos ver o que acontece". Ele se levanta.

E o místico diz, "Agora levante uma das pernas".

O homem, a essa altura, já estava achando que estava diante de um louco; o que aquilo tinha a ver com liberdade, independência? Mas agora que ele já estava ali... e devia haver uma multidão de discípulos, o mestre era tão respeitado! Não obedecê-lo seria desrespeitoso e não havia mal algum naquilo. Então ele levantou uma das pernas, ficando com um pé parado no ar e com o outro no chão.

E então o mestre disse, "Muito bem. Só mais uma coisa. Agora levante também o outro pé".

Isso é impossível! O homem disse, "Você está me pedindo algo impossível. O meu pé direito já está levantado. Não posso levantar o esquerdo também".

O mestre disse, "Mas você está livre. No início você podia ter levantado o pé esquerdo. Não havia nada que o obrigasse a levantar o direito. Você estava livre para escolher se queria levantar o pé esquerdo ou o pé direito. Eu não disse nada sobre isso, você decidiu. Você levantou o direito. Ao tomar essa decisão você fez com que ficasse impossível levantar o pé esquerdo. Não se preocupe com o destino, com a sorte, com Deus. Simplesmente pense em coisas simples".

Qualquer ação que você empreenda impede você de empreender outra que vá contra a primeira. Então toda ação gera uma limitação. Cada ato, cada decisão é uma limitação.

Você é totalmente livre antes de decidir, mas depois que tomou a sua decisão, fez a sua escolha, você cria uma limitação. Ninguém está impondo a decisão; trata-se da natureza das coisas - você não pode fazer coisas contraditórias ao mesmo tempo. E é bom que não possa; do contrário, você viveria num caos. Seria um imenso caos se você pudesse fazer coisas contraditórias ao mesmo tempo. Você ficaria louco. Essa é simplesmente uma medida de segurança existencial.

Basicamente, você é totalmente livre para escolher, mas depois que escolheu, a sua própria escolha cria uma limitação.

Se você quer se manter totalmente livre, não escolha. É aí que entra o ensinamento da consciência que não escolhe. Porque, no momento em que você escolhe, você perde a sua liberdade plena e fica sócom uma parte dela. Mas se você se mantém sem escolha, a sua liberdade continua sendo completa.

Só existe uma coisa que é totalmente livre: a consciência que não escolhe. Tudo o mais é limitado. Se a pessoa precisa de liberdade absoluta, então a consciência que não escolhe é a única saída.

E quando eu digo que, em vez de revolução, opte pela rebelião, estou aproximando você de um todo completo. Na revolução, você fatalmente ficará dividido: querendo se livrar de algo ou lutando por algo. Você não pode ter ambas as coisas porque elas exigem habilidades diferentes. Mas, na rebelião, as duas qualidades se combinam.

Quando um escultor faz uma estátua, ele está fazendo as duas coisas: está cortando a pedra - destruindo a pedra, como ela era - e está, ao destruí-la, criando uma bela estátua que não existia antes. A destruição e a criação caminham juntas, elas não estão divididas.

Rebelião é totalidade. A revolução precisa se tornar coisa do passado.

Eu não prego revoluções, eu prego a rebelião, e a diferença é grande. A revolução é política, a rebelião é religiosa. A revolução precisa que você se organize num partido, num exército, e lute contra os inimigos. Rebelião significa que você se rebelou como indivíduo; você simplesmente não segue mais com o rebanho. Pelo menos você não destrói a natureza.

Seja um dissidente. E a sua vida é curta: pode ser que você viva cinquente anos, sessenta anos, setenta anos - não dá para alimentar a esperança de que você consiga transformar o mundo, mas você pode alimentar a esperança de que ainda possa aproveitar e amar este mundo.

Aproveite a oportunidade desta sua vida para celebrar tanto quanto possível. Não a desperdice brigando e lutando.

Vocês têm de se tornar dissidentes. Por dissidente não quero dizer que você tenha de abandonar a sociedade e ir para as montanhas. Você continua a viver em sociedade, mas deixa de lado a ambição, deixa de lado a ganância, deixa de lado o ódio. Você vive em sociedade e é amoroso, vive em sociedade como um joão-ninguém. Aí você pode aproveitar a vida e celebrar. E celebrando e aproveitando a vida, você provocará marolas de êxtase que atingirão outras pessoas.

Você pode mudar o mundo inteiro, mas não por meio da luta - não desta vez. Agora chega! Temos de mudar este mundo celebrando, dançando, cantando, com música, com meditação, com amor. Não com luta.

O velho certamente tem de acabar para que o novo possa surgir, mas, por favor, não me interprete mal. É claro que o velho tem de acabar - mas o velho está dentro de você, não fora. Não estou falando da velha estrutura da sociedade; estou falando que a velha estrutura da sua mente tem de ser eliminada para que a nova surja. Uma única pessoa que transforme a si mesma passa a ser um fator desencadeante; muitas outras pessoas começam a mudar. A sua presença torna-se um agente catalizador.

Não sou contra nada nem ninguém. Não quero que você seja livre de alguma coisa, quero simplesmente que você seja livre. Veja a diferença: a "liberdade de" nunca é completa; esse "de" o mantém preso ao passado. A "liberdade de" nunca é liberdade de verdade.

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