quinta-feira, agosto 15, 2024
Mente, Psicanálise e Meditação
No Ocidente, a psicanálise surgiu e se desenvolveu graças a Freud, Adler, Jung e Wilhelm Reich, para solucionar problemas oriundos da mente, como as frustações, os conflitos, a esquizofrenia e a loucura. Fazendo uma comparação com as técnicas de meditação, você poderia explicar as contribuições, limitações e deficiências do sistema de psicanálise com relação aos problemas humanos enraizados na mente?
Osho: Primeiro é preciso entender que nenhum problema enraizado na mente pode ser solucionado sem que se transcenda a mente. Você pode postergar o problema, pode devolver à pessoa uma certa normalidade, pode diluir o problema, mas não pode solucioná-lo. Você pode fazer com que a pessoa viva melhor em sociedade por meio da psicanálise, mas a psicanálise nunca resolve o problema. E sempre que um problema é postergado, é desviado, ele cria outro problema. Ele simplesmente muda de lugar, mas não desaparece. Ele irromperá novamente mais cedo ou mais tarde, e cada vez que isso acontece ficará mais difícil postergá-lo ou se desviar dele.
A psicanálise é um alívio temporário, porque ela é incapaz de conceber qualquer coisa que transcenda a mente. Um problema só pode ser resolvido quando você vai além dele. Se você não pode ir além dele, então você é o problema; ele não é algo que está separado de você.
A Ioga, o Tantra e todas as técnicas de meditação se baseiam numa premissa diferente. Eles dizem que os problemas estão do lado de fora, estão em torno de você, você nunca é o problema. Você pode transcendê-los; você pode olhar para eles como um observador olha para um vale, do alto de uma montanha. Este "eu testemunha" pode solucionar o problema. Na verdade, só testemunhar o problema já é quase o suficiente para resolvê-lo, pois, quando você testemunha um problema - quando você consegue observá-lo imparcialmente, quando não se vê envolvido por ele -, você é capaz de dar um passo para trás e olhar melhor para ele. A própria clareza que advém do testemunho dá a você uma indicação, uma chave secreta. E quase todos os problemas se originam da falta de clareza para entendê-los. Você não precisa de soluções, você precisa de clareza.
O problema entendido da maneira correta se resolve naturalmente, pois ele surge por meio da mente que não compreende. Você cria o problema porque você não compreende. Portanto, o básico não é solucionar o problema; o básico é criar mais entendimento. Com mais compreensão, com mais clareza, o problema pode ser encarado com mais imparcialidade - observando como se ele não pertencesse a você e, sim, a outra pessoa. O problema só será resolvido quando você conseguir criar uma distância entre você e o problema.
A meditação cria uma certa distância, dá a você uma perspectiva. Você vai além do problema. O seu nível de consciência muda. Com a psicanálise você continua no mesmo nível. O seu nível nunca muda; você volta a se ajustar ao mesmo nível. A sua percepção, a sua consciência, a sua capacidade de testemunhar não mudam. Quando você entra em meditação (sintonia com o divino), você voa cada vez mais alto. Você consegue olhar os problemas de um nível mais alto. Os problemas agora estão no vale e você, no alto de uma montanha. Dessa perspectiva, dessa elevação, todos os problemas parecem diferentes. E quanto maior é essa distância, mais capaz você é de observá-los como se não lhe pertencessem.
Lembre-se de uma coisa: quando um problema não lhe pertence, você consegue dar bons conselhos sobre como resolvê-lo. Quando o problema pertence a outra pessoa, quando alguém mais está em dificuldade, você sempre consegue demonstrar sabedoria. Você consegue dar bons conselhos; mas se o problema lhe pertence, você fica simplesmente sem saber o que fazer. O que acontece? O problema é o mesmo, mas você não está envolvido. Quando se trata do problema de outra pessoa, existe um certo distanciamento que lhe permite encará-lo com imparcialidade. Todo mundo é bom conselheiro quando o problema é dos outros, mas, quando o problema é seu, toda sabedoria se perde porque não há distanciamento.
Alguém morreu e a família está angustiada: você consegue dar bons conselhos. Consegue dizer que a alma é imortal, que ninguém morre de fato, que a vida é eterna. Mas, quando morre alguém que você ama, que significa muito para você, alguém próximo, íntimo, você se debulha em lágrimas. Você não consegue ser um bom conselheiro para si mesmo - dizer que a vida é imortal e ninguém morre. Isso fica parecendo absurdo.
Portanto, lembre-se, quando você está aconselhando os outros, você pode parecer um bobalhão. Se disser a alguém, que acabou de perder um ente querido que a vida é eterna, essa pessoa vai pensar que você é um idiota. Para ela você está dizendo bobagem. Ela sabe o quanto é duro perder um ser amado. Nenhuma filosofia vai lhe dar consolo. E ela sabe por que você está dizendo isso - porque o problema não é seu. Você pode bancar o sábio, mas ela não pode.
Por meio da meditação, você transcende o seu ser ordinário. Surge em você um novo platô, de onde você pode olhar as coisas de uma maneira nova. Cria-se uma distância. Os problemas continuam a existir, mas eles estão muito longe agora, como se acontecessem a outra pessoa. Agora você pode dar bons conselhos a si mesmo, embora isso nem seja necessário. A própria distância já faz com que você fique mais sábio.
Portanto, toda a técnica da meditação consiste em criar uma distância entre os problemas e você. Neste momento, do jeito quoe está, você está tão enredado nos seus problemas que você não consegue pensar, não consegue contemplar, não consegue exergar através deles e nem testemunhá-los.
A psicanálise só propicia um reajustamento. Ela não é uma transformação; esse é um ponto importante. Outro ponto: com a psicanálise, você fica dependente. Precisa de um especialista e esse especialista fará tudo. Ela durará três anos, quatro anos ou até cinco anos, se o problema for muito profundo, e você se tornará apenas um dependente - não estará crescendo. Pelo contrário, você estará se tornando cada vez mais dependente. Precisará dessa psicanálise todo dia, ou duas vezes por semana, ou três vezes por semana. Se perder uma sessão, você ficará perdido. Se interromper o tratamento, você ficará perdido. Ele se torna intoxicante, torna-se alcoólico. Você começa a depender de uma outra pessoa - alguém que é especialista. Você pode contar a essa pessoa o seu problema e ela o resolverá. Vocês discutirão a respeito e ela trará à tona as raízes inconscientes. Mas a outra pessoa fará tudo; a solução será dada por outra pessoa.
Lembre-se, um problema resolvido por outra pessoa não irá lhe proporcionar mais maturidade. Um problema resolvido por outra pessoa pode dar a ela mais maturidade, mas não a você. Você pode ficar mais imaturo ainda; depois disso, sempre que você tiver um problema, você vai precisar do conselho de um especialista, de um profissional. E eu acho que os seus problemas não trazem maturidade nem para os psicanalistas, porque eles fazem psicanálise com outros psicanalistas. Eles têm os seus próprios problemas não resolvidos. Eles solucionam os problemas de você, mas eles não conseguem resolver os próprios problemas. Mais uma vez, é uma questão de distanciamento.
Todo psicanalista procura outra pessoa para resolver os seus próprios problemas. Ele é como qualquer outro profissional de saúde. Se o próprio médico fica doente, ele não consegue se autodiagnosticar. A doença está tão próxima que ele fica com medo de errar e procura outra pessoa. Se você é cirurgião, você não pode operar o seu próprio corpo - ou pode? Não há distância. Não é fácil operar o próprio corpo. Mas também não é fácil ver a sua esposa muito doente, precisando passar por uma cirurgia delicada - você não pode operá-la porque a sua mão irá tremer. A intimidade é tão grande que você ficaria aterrorizado; não seria um bom cirurgião neste caso. Você teria que pedir a outra pessoa que operasse a sua mulher.
Por que isso acontece? Você é um bom cirurgião, já fez muitas cirurgias. Mas não pode operar nem a sua mulher e nem o seu filho, pois a distância não é grande o suficiente - é como se não houvesse distância nenhuma, e sem essa distância é impossível ser imparcial para resolver o problema. Por isso o psicanalista pode ajudar outras pessoas, mas precisa procurar ajuda, precisa de outro psicanalista, quando está com seus próprios problemas.
É estranho pensar que até uma pessoa como Wilhelm Reich tenha enlouquecido no fim da vida. Não dá para pensar em Gautama Buda ficando louco - acha que dá? Se alguém como Buda pudesse enlouquecer, então não haveria como escaparmos desse sofrimento. É inconcebíver pensar em Buda ficando louco.
Veja a vida de Sigmund Freud. Ele é o pai e fundador da psicanálise; estudou profundamente os problemas. Mas, no que diz respeito a ele próprio, nem um único problema foi solucionado. Nem um único problema foi solucionado! O medo era um problema para ele, assim como é para todo mundo. Ele tinha muito medo e estava sempre nervoso. A raiva também era um problema para ele, assim como é para qualquer pessoa. Os seus acessos de raiva eram tão fortes que ele chegava a ter síncopes. Esse homem sabia muito sobre a mente humana, mas, quando se tratava dele próprio, esse conhecimento parecia inútil.
Jung também saía de si quando estava muito preocupado; ele costumava ter ataques. Qual era o problema? A distância é sempre o problema. Eles viviam pensando em problemas, mas não tinham ampliado a sua consciência. Eles pensavam de modo intelectual, racional, lógico, e chegavam a uma conclusão.Às vezes essas conclusões podiam estar corretas, mas não é esse o ponto. Eles não cresceram do ponto de vista da consciência, não transcenderam em nenhum sentido. E, a menos que você transcenda, os problemas não podem ser resolvidos; eles só podem ser ajustados.
Freud disse, nos últimos dias da sua vida, que o homem é incurável. Segundo ele, podemos esperar, no máximo, que ele seja um ser ajustado; não nos resta outra esperança. Isso é o máximo! O homem não pode ser feliz, ele disse. Podemos, na melhor das hipóteses, dar um jeito para que ele não seja tão infeliz. Isso é tudo. Que tipo de solução pode resultar de uma atitude dessas? E ele disse isso depois de quarenta anos de experiência com seres humanos! Concluiu que não há nada que se possa fazer pelo ser humano, que somos infelizes por natureza e permaneceremos sempre nessa condição.
Do ponto de vista da meditação, não é o ser humano que é incurável; é a nossa consciência pequeníssima que cria todos os problemas. Expanda a consciência, aumente a consciência e os problemas irão diminuir. Eles existem na mesma proporção: se existir pouca consciência haverá muitos problemas; e se existir muita consciência, haverá poucos problemas. Com consciência total, os problemas simplesmente desaparecem, como o sol nasce pela manhã e seca as gotas de orvalho. Com consciência total, não existem problemas, pois eles nem sequer aparecem. A psicanálise pode, no máximo, ser uma cura, mas os problemas vão continuar surgindo, pois ela não é profilática.
[continua]
Fonte consultada: Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6
Marcadores: meditação, mente, Osho, psicanálise
segunda-feira, julho 22, 2024
Dúvida e Crença
A maneira como a ciência aborda a existência e a maneira como a religião faz isso eram, no passado, duas perspectivas separadas e inconciliáveis. Isso acontecia devido à insistência das velhas religiões em superstições, sistemas de crença, negação dos questionamentos e da dúvida. Na realidade, não existe nada de inconciliável entre ciência e religião, nem existe separação entre elas. Mas a religião insiste na crença - e a ciência não pode aceitá-la.
A crença está encobrindo a sua ignorância. Ela nunca revela a você a verdade; ela só lhe dá certos dogmas, certos credos, e você pode criar uma ilusão de conhecimento por meio deles. Mas esse conhecimento não passa de uma ilusão. Qualquer coisa quw se baseie apenas na crença é falsa. Como as religiões insistem continuamente na crença e o método básico da ciência é a dúvida, aconteceu a separação e elas se tornaram inconciliáveis. Tudo continuará desse jeito se a religião não enfrentar o desafio da dúvida.
Na minha maneira de ver, só existe a ciência, com duas dimensões. Uma dimensão enfoca a realidade exterior e a outra dimensão enfoca a realidade interior. Uma é objetiva, a outra é subjetiva. Os dois métodos não são diferentes, assim como não são as suas conclusões. E ambos têm a dúvida como ponto de partida.
A dúvida tem sido tão condenada que você se esqueceu da beleza que ela tem, da riqueza que ela tem.
A criança não nasce com nenhuma crença, ela nasce com uma consciência curiosa, incrédula, cética. A dúvida é algo natural, a crença não é. A crença é imposta pelos pais, pela sociedade, pelos sistemas educacionais, pelas religiões. Todas essas pessoas estão a serviço da ignorância, e têm feito isso há milhares de anos. Têm mantido a humanidade na escuridao e havia uma razão básica para isso: se a humanidade viver na escuridão, se nada souber sobre a realidade, é muito fácil explorá-la, escravizá-la, ludibriá-la, condená-la à miséria e à dependência.
As velhas religiões não estavam preocupadas com a verdade. Elas falavam sobre ela, mas estavam mais interessadas em manter a verdade longe dos olhos das pessoas. Até pouco tempo atrás elas tiveram êxito, mas agora todas estão agonizando. E quanto mais rápido perecerem, melhor. Afinal de contas, por que você precisa de uma crença? O saber dispensa a crença. Mas o cego acredita na luz; ele tem de acreditar, pois não enxerga. E a crença também mantém a pessoa religiosa cega. No momento em que você enxerga a luz, você não precisa mais acreditar nela; você a vê, sabe que ela existe. A crença só mostra a sua ignorância, a sua cegueira - mas, no entanto, lhe dá uma noção falsa de que você sabe algo.
[continua]
Fonte consultada: Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6
Marcadores: crença, dúvida, Osho
sexta-feira, julho 19, 2024
A Teia da Vida
No Oriente diz-se que o Universo é semelhante a uma teia de aranha. Se você tocar num único fio, toda a teia sentirá a vibração. Tocando em uma única folha de grama, você terá tocado na maior estrela, a estrela mais longínqua, porque o todo é um organismo uno, e nada está separado. Foi simplesmente a ignorância que criou a concepção do ego.
E assim o ser humano vive numa espécie de autoexílio. Construímos uma pequena bolha ao redor de nós mesmos, nos blindamos, nos alienamos. E, desse modo, sofremos, permanecemos infelizes. Assim, não conseguimos encontrar sentido ou significado para a vida. Nós nos sentimos sem chão para nos apoiarmos, sem uma base que nos sustente. Como se fôssemos algo acidental, desnecessário, como se a vida seguisse funcionando da mesma maneira, estando nós aqui ou não. Isso nos gera uma imensa ferida. Perdemos a confiança, a crença em nós mesmos. Nós nos tornamos algo sem sentido. inútil; passamos a viver como se tvéssemos vindo à existência por acaso.
E todo esse absurdo surge porque elaboramos a ideia do ego. O ego é uma tentativa de desconectar você do todo e, embora não se possa separar dessa totalidade, você pode viver acreditando que conseguiu fazer isso. Sua crença é a causa do seu inferno. Abandone a crença no ego e imediatamente você perceberá mensagens trocadas entre você e o todo, continuamente, a cada momento, dia após dia. Desse modo, toda a existência se torna um livro que se abre, a verdadeira Bíblia. Você já não precisa mais de velhas e deterioradas escrituras, pode simplesmente observar ao redor e passar a ler a própria vida. Haverá, então, sermões em todos os lugares, livros sagrados por toda parte, músicas por onde estiver.
Ninguém é uma ilha. Isso deve ser lembrado como uma das verdades fundamentais da vida. Estou enfatizando porque tendemos a esquecer isso. Todos compomos uma força vital que é parte de uma única existência oceânica. Fundamentalmente, a possibilidade do amor emerge por sermos, no fundo de nossas raízes, uma unidade. Se não fôssemos um só, não existiria a possibilidade do amor.
Fonte: Osho, Pérolas de sabedoria: mensagens sobre a existência - Tudo o que você tem é este momento exato, não o desperdice, Editora Planeta do Brasil - São Paulo, 2021. ISBN: 978-65-5535-612-0.
Marcadores: ego, infelicidade, Osho, vida
terça-feira, julho 16, 2024
Conhecimento e Religião
A verdadeira religião só pode ser uma só, assim como a ciência. Por exemplo, você não tem uma física muçulmana, uma física hindu, uma física cristã, isso é pura maluquice. Mas é o que as religiões têm feito - e elas fizeram deste mundo um hospício.
Se a ciência é uma só, então por que a ciência espiritual (religião) não é uma só também? A ciência explora o mundo objetivo e a religião explora o mundo subjetivo. O funcionamento delas é o mesmo, o que muda é a direção e a dimensão. Numa era mais iluminada não haverá nada parecido com a religião atual, haverá apenas duas ciências: a ciência objetiva e a ciência subjetiva. A ciência objetiva lida com as coisas e a ciência subjetiva lida com o ser.
O erro mais básico de todas as atuais religiões é que nenhuma delas teve coragem suficiente para aceitar que existem coisas que não sabemos. Elas todas fingem saber tudo, fingem que são oniscientes. Por que isso aconteceu? Porque, se admitirem que não sabem algo, colocarão um ponto de interrogação na mente dos fiéis. Se elas não sabem uma coisa, então quem sabe? Talvez elas não saibam outras coisas também. Quem garante? Para garantir, todas elas fingem que sabem tudo, que são oniscientes.
O que existe de mais belo na ciência é que ela não finge ser onisciente. A ciência aceita as suas limitações humanas. Ela sabe até que ponto sabe e está ciente de que existe muito mais a descobrir.
Esse é o maior erro de todas as religiões: elas têm enganado a humanidade alardeando que sabem tudo.
Mas todos os dias elas são desmascaradas, assim como a sua falta de conhecimento; por isso elas lutam tanto contra qualquer tipo de progresso do conhecimento.
Uma das maiores qualidades de um homem realmente religioso é o seu grande senso de humor. Só os idiotas são sérios; é inevitável que sejam sérios. Para ser capaz de rir você precisa de um pouquinho de inteligência.
Todas as religiões do mundo têm de fingir que sabem tudo. Se algo existe, elas sabem. E sabem com perfeição; não poderia ser de outro modo.
O erro básico cometido por todas as religiões é não ter coragem de aceitar que o conhecimento delas é limitado. Elas não são capazes de admitir a própria ignorância acerca de nenhuma questão. Têm sido tão arrogantes que continuam dizendo que sabem tudo e ficam criando histórias fictícias à guisa de conhecimento.
Nenhuma religião tem coragem de dizer, "Sabemos até certo ponto, mas há muita coisa que ainda não sabemos; talvez no futuro isso mude. E além desse conhecimento há um espaço que permanecerá incognoscível para sempre".
Se as religiões tivessem essa humildade, o mundo seria totalmente diferente. A humanidade não estaria nessa mixórdia; não haveria tanta angústia. No mundo todo as pessoas vivem angustiadas. O que há para dizer a respeito do inferno? Nós já estamos vivendo no inferno! Quanto mais sofrimento pode haver por lá? E as pessoas responsáveis por isso são consideradas religiosas. Elas continuam fingindo, encenando o mesmo teatro. Depois de séculos de ciência invadindo o território das religiões, destruindo sistematicamente o seu suposto conhecimento, vislumbrando novos fatos, novas realidades, o papa ainda é suposto infalível.
Um segundo ponto, é que todas essas religiões têm sido contra a dúvida. Elas, na verdade, têm medo da dúvida. Só um intelecto impotente pode ter medo da dúvida. pois a dúvida é um desafio, uma oportunidade de questionar.
Todas elas têm dizimado a dúvida e forçado a mente de todo mundo a pensar que, se você tem dúvida, você acabará indo para o inferno e sofrendo lá pela eternidade. "Nunca duvide". A crença é fundamental, a fé, a fé absoluta - não adianta ter só um pouco de fé, você precisa ter fé absoluta. O que elas estão pedindo aos seres humanos? Algo completamente desumano. Um ser humano inteligente - como ele pode acreditar totalmente? Contra que dúvida ele estaria lutando para poder acreditar totalmente?
Existe a dúvida e ela não é destruída pela crença. A dúvida só é eliminada pela experiência.
As religiões dizem: acredite. Eu digo: investigue. Elas dizem: não duvide. Eu digo: duvide inicialmente de tudo, duvide até o fim, até chegar, conhecer, sentir e vivenciar. Então não haverá mais necessidade de reprimir a dúvida; ela evapora naturalmente. Você não precisa mais acreditar, você sabe.
Mas é isso o que todas as religiões pregam - elimine a dúvida e acredite, não investigue.
No momento em que você elimina a dúvida, você destrói algo de imenso valor, pois é a dúvida que vai ajudá-lo a questionar e descobrir. Ao eliminar a dúvida, você corta a própria raiz do questionamento; ele deixa de existir.
No Japão existe uma técnica curiosa, chamada Bonsai: corta-se periodicamente a raiz de uma árvore que seria muito grande e ela fica sempre pequena (árvore-anã), mas continua envelhecendo. Existem árvores bonsai com centenas de anos!
Esta atividade de bonsai no Japão mostra o que as religiões têm feito com o homem. Elas têm cortado as suas raízes para que o homem não cresça - só envelheça. E a primeira raiz que elas cortam é a da dúvida; quando essa raiz é cortada, deixa de existir questionamento (que leva à evolução).
Aceite-se. Respeite-se. Deixe que a sua natureza siga o seu curso. Não force nada, não reprima nada. Duvide - porque a dúvida não é pecado, é um sinal de inteligência. Duvide e não pare de questionar até chegar a uma resposta.
Uma coisa eu posso dizer: quem questiona, chega a uma resposta. Isso é absolutamente certo; nunca deixou de acontecer. Ninguém terminou de mãos vazias depois de um questionamento autêntico.
Sem uma autêntica religiosidade, você só pode vegetar, não pode viver de verdade. Você continua sendo superficial, não consegue atingir nenhuma profundidade, nenhuma autenticidade. Você não sabe nada sobre as suas próprias profundezas. Você sabe de si mesmo por meio dos outros, do que eles dizem. Assim como você conhece o seu rosto fitando a sua imagem no espelho, você conhece a si mesmo por intermédio da opinião alheia; você não se conhece diretamente. E as opiniões das quais você depende são de pessoas que vivem em situação parecida à sua; elas também não se conhecem.
Essas religiões criaram uma sociedade de pessoas cegas e continuam insistindo em dizer que você não precisa de olhos. Jesus tinha olhos; então por que os cristãos precisam de olhos? Tudo o que você precisa fazer é acreditar em Jesus; ele o conduzirá ao paraíso, você só precisa segui-lo. Não lhe deixam pensar, porque pensando você pode se desviar. Se você pensar, você fatalmente se desviará do caminho que eles querem que você siga, pois isso atiçará a sua dúvida, aguçará o seu intelecto. E isso é muito perigoso para as chamadas religiões. Essas religiões querem você entorpecido, morto, arrastando-se pela vida; elas o querem sem nenhuma inteligência. Mas elas sabem muito bem camuflar tudo isso com uma linda palavra: fé. A fé nada mais é do que o suicídio da inteligência.
A verdadeira religião não pede que você tenha fé; a verdadeira religião pede que você vivencie. A verdadeira religião ajudará você a encontrar a verdade.
E, lembre-se, a minha verdade pode nunca ser a sua verdade, pois não há maneira de transferir a verdade de uma pessoa para outra. A verdade de Maomé é a verdade de Maomé; ela não será sua só porque você se tornou maometano. Para você, a verdade dele não passará de uma crença. Jesus podia ter sido apenas um fanático, um neurótico. Esse é um ponto com que todos os psiquiatras, psicólogos e psicanalistas concordam: que Jesus é um caso a se estudar. Declarar-se o único filho bem-amado de Deus, declarar "Eu sou o messias que veio para redimir este mundo dos seus pecados" - você acha isso normal?
A verdade se revela à inteligência superior. Mas, se desde a mais tenra idade você é ensinado a acreditar, isso o deixa incapacitado, você é destruído. Se, desde cedo, você é condicionado a ter fé, você perde a sua alma. Passa então a vegetar, não vive mais. E é exatemente isso o que milhões de pessoas estão fazendo ao redor do mundo: vegetando.
Que vida você pode ter? Você nem ao menos conhece a si mesmo. Você não sabe de onde veio, nem para onde vai, nem a finalidade de tudo isso. Quem impediu você de saber? Não foi o demônio, mas sim os papas, os sacerdotes, os padres, os rabinos eles, sim, são os verdadeiros demônios.
Nenhuma religião tem a coragem de dizer: "Existem coisas sobre as quais você pode perguntar; só não espere uma resposta. A vida é um mistério".
Todo o meu empenho aqui é ajudar você a voltar a ser um ignorante (desaprender o que te ensinaram errado).
As religiões fizeram de você uma pessoa instruída, e foi esse o mal. Elas lhe transmitiram com tanta facilidade e simplicidade todo o catecismo cristão que você é capaz de repeti-lo em uma hora, tal qual um papagaio. Mas você não chegará à verdade, a real, aquela que o cerca externa e interiormente. Esse catecismo não vai transmiti-la a você.
Mas deixar de lado todo o conhecimento que você aprendeu é o maior problema, porque ele alimenta o seu ego. O ego quer todo o conhecimento na mão dele. E quando digo que você precisa deixar de lado toda a sua erudição e se tornar novamente uma criança, eu quero dizer que você tem de começar do ponto em que o rabino ou o padre o desorientou.
Você tem de ser outra vez inocente, ignorante, alheio a tudo, para que as perguntas possam começar a aflorar outra vez. O questionamento volta então a ser vibrante e, isso acontecendo, você deixa de vegetar. A vida passa a ser uma exploração, uma grande aventura.
Fonte consultada: Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6
Marcadores: bonsai, ciência, conhecimento, dúvida, fé, Osho, religião
quinta-feira, junho 20, 2024
Uma Breve História da Religião
Fonte consultada: Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6
Sobre corpo e alma...
A religião passou por muitas fases. A primeira fase foi a mágica, e ela não terminou ainda. Muitas tribos aborígines ao redor do mundo ainda vivem nessa primeira fase da religião, que se baseia em rituais mágicos de sacrifício para os deuses. Trata-se de um tipo de suborno para que os deuses ajudem ou protejam você. Qualquer coisa que, aos seus olhos, tem valor - seja comida, roupas, seus filhos, ornamentos, o que for -, você oferece aos deuses. Não que algum deus receba alguma coisa, evidentemente; mas o sacerdote recebe - ele é o mediador, ele é que lucra com isso. E o mais estranho é que, durante pelo menos dez mil anos, essa religião mágica, ritualística, cativou a mente humana.
São muitas as falhas dessas religiões - 99 por cento das tentativas não dão em nada. Por exemplo, as chuvas não caem na época certa; então a religião mágica acredita que, fazendo um sacrifício ritual, os deuses ficarão satisfeitos e a chuva cairá. De vez em quando a chuva de fato cai - mas também cai na região em que as pessoas não estão apaziguando os deuses nem fazendo rituais. Ela cai até mesmo nas terras dos inimigos das pessoas que pediram a ajuda dos deuses.
O sacerdote certamente é muito mais astuto que as pessoas que ele está explorando. Ele sabe perfeitamente bem o que está realmente acontecendo. Os sacerdotes nunca acreditam em Deus, lembre-se, eles não podem acreditar, mas fingem que acreditam mais do que todo mundo. Eles têm de fazer isso, essa é a profissão deles. Quanto mais a fé, mais multidões ele atrai, por isso ele finge. Mas eu nunca conheci um sacerdote que acreditasse na existência de um Deus. Como ele pode acreditar? Todo dia ele vê que só raramente, por mera coincidência, um ritual ou uma prece é bem-sucedida! A maioria não surte nenhum efeito. Mas ele sabe como explicar isso aos pobres: "O ritual de vocês não foi feito da maneira certa. Vocês não estavam cheios de pensamentos puros enquanto o realizaram".
Ora, quem está cheio de pensamentos puros? E o que é um pensamento puro? Por exemplo, no ritual jainista, as pessoas têm de jejuar. Mas, enquanto elas realizam o ritual, elas estão pensando em comida - esse é um pensamento impuro. Ora, uma pessoa faminta pensando em comida... Eu não sei como um pensamento desses pode ser impuro. É o pensamento certo. Na verdade, a pessoa está errada em continuar o ritual numa hora dessas, ela devia correr para um restaurante!
No entanto, o padre tem uma explicação muito simples para justificar o fracasso do ritual. Deus nunca falha, ele está sempre pronto para proteger você - ele é o provedor, o criador, o mantenedor; ele nunca deixa você na mão. Mas você falha com ele! Embora você esteja fazendo a prece ou realizando o ritual, você está cheio de pensamentos impuros. E as pessoas sabem que o sacerdote está certo - eles realmente estavam pensando em comida, ou numa bela mulher que passava e de repente surgiu a idéia de que ela era bonita e brotou o desejo de possuí-la. Eles afugentaram os pensamentos, mas já era tarde demais; já havia acontecido. Todo mundo sabe que tem pensamentos impuros.
Ora, eu não vejo nada de impuro nisso. Se uma mulher bonita passa por um espelho, o espelho também refletirá a beleza da mulher - o espelho é "impuro"? A sua mente é um espelho, ela simplesmente reflete. E a sua tem consciência de tudo que está acontecendo à sua volta. Ela comenta, está sempre fazendo um comentário. A sua mente diz que a mulher é bonita - e, se você sente desejo pelo belo, eu não vejo nada demais nisso. Se você sentir desejo pelo feio, aí sim há alguma coisa errada; você é doente. A beleza tem de ser apreciada. Quando você vê uma bela pintura, você tem vontade de possuí-la. Quando você vê qualquer coisa bonita, o pensamento é quase automático, "Se essa coisa linda fosse minha..." Ora, esses pensamentos são naturais! Mas o sacerdote dirá, "A chuva não veio por causa dos seus pensamentos impuros" - e você fica absolutamente desarmado. Você sabe que teve "pensamentos impuros", fica com vergonha de si mesmo. Pois Deus está sempre certo.
Contudo, esses seus pensamentos também estavam passando pela sua cabeça nas ocasiões de sucesso, em que a chuva de fato caiu; você era a mesma pessoa de sempre. Se estava com fome, você estava pensando em comida; se estava com sede, você estava pensando em beber água. Esses pensamentos também lhe ocorreram quando a chuva veio, mas ninguém se incomodou com os seus "maus" pensamentos. O sacerdote começa a elogiar você, a sua grande austeridade, a sua prece fervorosa: "Deus ouviu as suas preces". E o seu ego fica tão inchado que você não diz, "Mas e os meus pensamentos 'impuros'?" Quem pensaria em mencionar pensamentos impuros se foi bem-sucedido e teve as suas preces atendidas?
A religião mágica é uma das mais primitivas que existem, mas ainda há resquícios dela na atual segunda fase; não há uma distinção muito clara entre uma e outra. A segunda fase é a pseudo-religião: o Hinduísmo, o Cristianismo, o Islamismo, o Judaísmo, o Jainismo, o Budismo, o Sikhismo - são mais de trezentos "ismos" ao todo. Estas são as pseudo-religiões. Elas foram um pouco mais longe do que a religião mágica.
A religião mágica é simplesmente ritualística. É um esforço para persuadir Deus a ajudar você. O inimigo vai invadir o seu país, não chove há muito tempo ou chove demais e os rios estão transbordando e as plantações estão sendo destruídas - sempre que você se vê em dificuldade, você pede ajuda a Deus. Mas a religião mágica não é uma disciplina imposta para você. Por isso as religiões mágicas não são repressoras. Elas ainda não estão interessadas na sua transformação, em mudar você.
As pseudo-religiões desviam a atenção de Deus e se voltam para você. Deus continua em cena, mas tem um papel mais secundário. Para o adepto da religião mágica, Deus está muito próximo; ele pode conversar com ele, pode persuadi-lo. As pseudo-religiões ainda carregam a idéia de Deus, mas agora ele está mais distante - muito mais distante. Agora, o único jeito de alcançá-lo não é realizando rituais, mas promovendo uma mudança significativa no seu estilo de vida. As pseudo-religiões começam a moldar você e a mudá-lo.
As religiões mágicas deixam que as pessoas sejam como são - é por isso que os adeptos dessas religiões são mais naturais, menos falsos, mas mais primitivos, rudes, incultos. As pessoas que pertencem às pseudo-religiões são mais sofisticadas, mais instruídas, mais educadas. A religião, para elas, não é apenas um ritual, é toda uma filosofia de vida.
O uso da repressão começa nesse ponto, na segunda fase da religião. Por que todos os religiosos usaram a repressão como estratégia básica? Para que? É muito importante entender esse fenômeno da repressão, porque as religiões sempre diferem uma da outra de um jeito ou de outro, num ou noutro aspecto. Não existem duas religiões que concordem em alguma coisa, a não ser no quesito repressão. Portanto, a repressão parece ser o maior recurso que elas têm nas mãos. O que fazem com ela?
A repressão é um mecanismo para escravizar você, para converter a humanidade a um regime de escravidão psicológica e espiritual. Muito antes de Sigmund Freud descobrir o fenômeno da repressão, as religiões já o usavam havia cinco mil anos, e com sucesso. A metodologia é simples - fazê-lo se voltar contra você mesmo. Depois que você se volta contra você mesmo, muitas coisas estão fadadas a acontecer. Primeiro, você vai se enfraquecer. Você nunca mais será a mesma pessoa forte que já foi um dia. Antes você era um só, agora você não é nem dois, mas muitos. Antes você era uma única entidade indivisa, completa; agora você é uma multidão. Você ouve a voz do seu pai dentro de você, vinda de um fragmento; ouve a voz da sua mãe, vinda de outro fragmento, e dentro de você eles ainda estão brigando entre si - embora possam nem estar mais neste mundo. Todos os seus professores têm um compartimento dentro de você, e todos os sacerdotes com que já cruzou, todos os monges, todos os bons samaritanos, moralistas - eles todos têm um lugar dentro de você, que são pequenas fortalezas. Seja quem for que o tenha impressionado, essa pessoa passa a ser um fragmento dentro de você. Agora você é muitas pessoas - mortas, vivas, fictícias, de livros que você leu, de escrituras sagradas - que não passam de uma ficção religiosa, como a ficção científica. Se você se voltar para dentro, vai descobrir que você está perdido em meio a uma grande multidão. Não consegue nem se reconhecer em meio a essa gente toda, nem saber qual é a sua face original. Eles todos fingem ser você, eles todos têm rostos iguais ao seu. Falam a sua língua e vivem brigando uns com os outros. Você vira um campo de batalha.
A força do indivíduo único acabou. Você está sempre num dilema. Aonde quer que você vá, será derrotado, e grandes parcelas do seu ser estarão contra você. Em tudo que fizer, você estará sempre contando com o apoio da minoria. Isso significa que a maioria vai querer uma revanche - e de fato vai dá-la.
O problema é que você não consegue fazer nada com base na sua integridade sem que alguém mais tarde não o condene, não diga que você é um burro, um idiota.
Então, a primeira coisa é que as pseudo-religiões acabaram com a integridade, com a inteireza, com a força do ser humano. Isso é necessário caso você queira escravizar as pessoas - pessoas fortes não podem ser escravizadas. E trata-se de uma escravidão muito sutil, tanto psicológica como espiritual. Você não precisa de algemas nem de correntes nem celas, nada disso - as pseudo-religiões têm esquemas muito mais sofisticados. E elas começam a entrar em ação desde o momento em que você nasce; não perdem tempo.
As religiões condenaram o sexo, condenaram o gosto pela comida - condenaram tudo de que você pode gostar - música, arte, canto, dança. Se observar este mundo afora e pesquisar todas as condenações de todas as religiões, você verá: juntas, elas condenaram o ser humano inteiro. Nenhuma partezinha dele foi deixada de fora.
Sim, cada religião só condenou um pedacinho - porque, se condenasse a pessoa toda, ela poderia simplesmente ficar histérica. Você tem de ter uma medida, para que ela se condene e sinta culpa, e depois queira se libertar dessa culpa e se disponha a pedir a sua ajuda. Você não pode condená-la a tal ponto que ela simplesmente fuja de você ou se jogue no mar e acabe com a própria vida. Isso não seria um bom negócio.
Depois que se sente culpado, você cai nas garras do sacerdote. Não pode mais fugir, porque ele é o único que pode livrar você das suas partes pecaminosas, que pode torná-lo capaz de se postar diante de Deus sem se envergonhar. Ele cria a ficção de Deus. Cria a ficção da culpa. Cria a ficção de que um dia você estará diante de Deus, por isso você deverá estar cristalino e puro, num estado em que possa se postar diante dele sem sentir medo ou vergonha.
Quando a religião se tornar científica, ela não irá mais para o plural (religiões). Nesse caso, ela será simplesmente religião e funcionará justamente ao contrário das pseudo-religiões. Sua função será livrá-lo de Deus, livrá-lo do céu e do inferno, livrá-lo do conceito de pecado original, livrá-lo da própria idéia de que você e a natureza estão separados - livrá-lo de qualquer tipo de repressão.
Com toda essa liberdade, você conseguirá compreender a expressão do seu ser natural, seja ela qual for. Não há por que se sentir envergonhado. O universo quer que você seja do seu jeito, é por isso que você é desse jeito. O universo precisa que você seja desse jeito, do contrário ele teria criado outra pessoa, não você. Portanto, no meu entender, não ser você mesmo é a única coisa irreligiosa que você pode fazer.
Seja você mesmo sem se impor condições, sem se prender por amarras - seja simplesmente você mesmo e você será religioso, porque será saudável, será inteiro. Você não precisa de sacerdote, não precisa de psicanalista, não precisa de ajuda de ninguém, pois você não está doente, não é defeituoso, não vive paralisado. Todo defeito e toda paralisia desaparecem quando você encontra a liberdade.
A religião verdadeira pode ser condensada em uma única frase: liberdade total para você mesmo (assim como Deus tem liberdade total).
Exprima o que você sente e o que pensa de todas as maneiras possíveis, sem sentir medo. Não há nada a temer, não há ninguém para puni-lo ou recompensá-lo. Se você expressar o seu ser da maneira mais verdadeira possível, no seu fluxo natural, você será imediatamente recompensado - não no amanhã, mas hoje, no aqui e agora.
Você só é punido quando vai contra a sua natureza. Mas essa punição é um auxílio, é simplesmente uma indicação de que você se distanciou da sua natureza, de que você se desviou um pouco, perdeu o rumo - então volte. A punição não é uma vingança, não! A punição é só um esforço da natureza para despertá-lo. "Ei, o que você está fazendo?" Alguma coisa está errada, alguma coisa está contra você. É por isso que surge a dor, a ansiedade, a angústia.
Quando você é natural e se expressa assim como as árvores e os pássaros - que têm mais sorte, porque nenhum pássaro nunca quis ser sacerdote e nenhuma árvore jamais teve a idéia de ser psicanalista -, assim como as árvores, os pássaros e as nuvens, você se sentirá em casa na existência.
E estar em casa é o ponto principal da religião.
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terça-feira, junho 18, 2024
O Caminho do Meio
Fonte consultada: Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6
Como equilibrar-se para manter o caminho do meio...
A vida consiste em extremos. A vida é uma tensão entre os opostos. Se você fica exatamente no meio o tempo todo, isso significa que você está morto. O meio é só uma possibilidade teórica; só de vez em quando você consegue ficar no meio, pois é uma fase transitória. É como andar na corda bamba; não dá para ficar o tempo todo no meio; se tentar, você cai.
Ficar no meio não é um estado estático, é um fenômeno dinâmico. Equilíbrio não é um substantivo, é um verbo; é equilibrar-se. O equilibrista que anda na corda bamba vai endireitando o corpo mais para a esquerda ou mais para a direita. Quando acha que pendeu demais para um lado e corre o risco de cair, ele imediatamente recupera o equilíbrio pendendo para o lado oposto. Na transição da esquerda paraa direita, aí sim, existe um momento em que o equilibrista está no meio. E, quando vai muito para a direita e fica com medo de cair, ele perde o equilíbrio e joga o seu peso para a esquerda, passando, por um instante, mais uma vez pelo meio.
O equilíbrio não é um substantivo, mas um verbo - é equilibrar-se. um processo dinâmico. Você não pode simplesmente ficar no meio. Você fica o tempo todo pendendo para a esquerda e para a direita; esse é o único jeito de ficar no meio.
Não evite os extremos e também não escolha nenhum deles. Continue aberto para as duas polaridades - essa é a arte, o segredo do equilíbrio. Sim, às vezes ficar extremamente feliz e outras vezes ficar extremamente triste - os dois sentimentos têm a sua beleza.
A mente faz escolhas; é aí que surge o problema. Não escolha. Seja o que for que aconteça e onde quer que você esteja - na direita ou na esquerda, no meio ou longe do meio - aproveite o momento em sua totalidade. Enquanto você está feliz, dance, cante, toque uma música - seja feliz! E, quando a tristeza chegar - porque ela sempre chega, tem de chegar, é inevitável, não dá para evitar... Se tentar evitá-la você destruirá todas as suas possibilidades de felicidade. O dia não pode existir sem a noite, o verão não pode existir sem o inverno. A vida não pode existir sem a morte. Deixe que essa polaridade cale fundo dentro de você - não há como evitá-la. Só uma pessoa morta pode permanecer num meio estático. A pessoa viva está em constante movimento - passa da raiva para a compaixão e da compaixão para a raiva novamente - e aceita ambos, sem se identificar com nenhum dos dois, mas se mantendo alheia e ao mesmo tempo envolvida; distante, mas comprometida.
O seu próprio esforço para ficar no meio, e ficar no meio para sempre, está criando uma ansiedade desnecessária em você. Na verdade, o desejo de ficar no meio para sempre é um outro extremo - a pior espécie de extremo, pois é algo impossível. Não pode ser alcançado. Pense num relogio antigo de pêndulo: se você segurar o pêndulo exatamente no meio, ele pára. O relógio só funciona enquanto o pêndulo está se movendo para lá e para cá, entre os dois extremos. Sim, ele sempre passa pelo meio, e existe um momento em que ele fica exatamente alí, mas não passa de um momento.
A vida tem de ser vivida em todas as suas dimensões, só assim ele é rica. O que está sempre à esquerda é pobre, o que está sempre à direita também é pobre e o que fica sempre no meio está morto! Se você está vivo, você não pode ficar sempre à esquerda, sempre à direita ou sempre no meio - você deve ficar em um constante movimento, num fluxo.
A vida contém duas coisas; traz uma grande dor e também um grande prazer. Dor e prazer são os dois lados de mesma moeda. Se você exclui um, você também tem de excluir o outro. Este tem sido um dos maiores mal-entendidos ao longo das eras, a idéia de que você tem de se livrar da dor e ter apenas prazer, que você tem de evitar o inferno e ficar com o céu, que você tem de evitar o negativo e ficar só com o positivo. Essa é uma grande ilusão. Isso não é possível pela própria natureza das coisas. O positivo e o negativo estão juntos, inevitavelmente juntos, inextricavelmente juntos. Eles são dois aspectos da mesma energia. Portanto, temos de aceitar os dois.
Inclua tudo, seja tudo. Quando você estiver na esquerda, não perca nada - aproveite! Estar na esquerda é algo que tem a sua própria beleza, uma beleza que você não encontrará quando estiver na direita. Será um cenário diferente. E, é verdade, ficar no meio traz um silêncio, uma paz, que você não encontrará nos extremos. Então, aproveite o máximo. Continue enriquecendo a sua vida.
E não se apegue a nada. Há pessoas que se apegam à tristeza também - os psicólogos as conhecem bem, elas são as masoquistas. Não param de criar situações em que possam viver infelizes para sempre. O sofrimento é a única coisa de que gostam, elas têm medo da felicidade. O sofrimento as faz se sentir em casa. Muitos masoquistas tornam-se religiosos, porque a religião dá uma grande proteção à mente masoquista. A religião proporciona uma bela racionalização para o masoquismo.
Se você for masoquista sem ser religioso, você se sentirá condenado e se sentirá doente, nervoso, e saberá que você não é normal. Você se sentirá culpado pelo que está fazendo da sua vida e tentará esconder o seu masoquismo. Mas, se o masoquista se tornar religioso, ele passa a exibir esse traço da sua personalidade com muito orgulho, pois ele deixa de ser masoquismo - passa a ser ascetismo, austeridade. É "autodisciplina", não tortura. Só os rótulos mudaram - mas agora ninguém pode chamar essa pessoa de anormal, ela é agora uma santa! Ninguém pode dizer que ela tem uma patologia; ela é devota, piedosa. Os masoquistas sempre se voltaram para a religião, ela exerce uma grande atração sobre eles. Na verdade,tantos masoquistas se voltaram para a religião ao longo das eras - e foi natural, esse movimento - que a religião acabou sendo dominada por eles. É por isso que a religião insiste tanto para que todas as pessoas sejam contra a vida, que a enxerguem como algo negativo. Ela é contra a vida (é melhor morrer, para ir para o céu...), contra o amor, contra a alegria - ela continua insistindo em afirmar que a vida é um sofrimento. Ao afirmar que a vida é um constante sofrimento, ela racionaliza o seu próprio apego ao sofrimento.
Eis uma bela estória:
No paraíso, numa tarde, nos seu mais famoso café, Lao-Tsé, Confúcio e Buda batiam um bom papo em volta de uma mesa. O garçom se aproximou segurando uma bandeja, onde havia três copos cheios de um suco chamado "Vida", e ofereceu a eles a bebida. Buda imediatamente fechou os olhos e recusou, dizendo "A vida é sofrimento".
Confúcio semicerrou os olhos - ele é adepto do caminho do meio, costumava pregar o meio-termo ideal - e pediu um copo ao garçom. Ele queria tomar um gole - mas só um gole, porque, se não provasse, como poderia saber se a vida é sofrimento ou não? Confúcio tem uma mente científica; ele não era propriamente um místico, ele tinha uma mente muito pragmática, muito materialista. Ele foi o primeiro behaviorista que o mundo conheceu, extremamente lógico. E parecia perfeitamente correto - ele disse, "Primeiro tenho de tomar um gole, para depois dizer o que eu acho". Ele tomou um gole e disse "Buda está certo, a vida é sofrimento".
Lao-Tsé pegou todos os três copos e disse, "A menos que a pessoa tome até o último gole, como ela poderá opinar a respeito?" Esvaziou os três copos e começou a dançar!
Buda e Confúcio lhe perguntaram, "Não vai dizer nada?" E ele respondeu, "Mas já estou respondendo - a minha dança e a minha música falam por mim!" A menos que você prove tudo, não pode dizer nada. E, depois que provar tudo, mesmo assim você não poderá dizer nada, porque não há palavras para descrever o que você sabe (tente explicar como é exatamente o gosto de uma banana para alguém que nunca comeu uma banana...).
Buda está num extremo. Confúcio está no meio. Lao-Tsé bebeu os três copos - o copo trazido para Buda, o copo trazido para Confúcio e o copo trazido para ele. Ele bebeu os três; viveu a vida em sua tridimensionalidade.
Eu penso como Lao-Tsé. Viva a vida de todas as maneiras possíveis; não escolha uma coisa em detrimento da outra, e não tente ficar no meio. Não tente se equilibrar - o equilíbrio não é algo que possa ser cultivado. O equilíbrio é algo que acontece quando você experimenta todas as dimensões da vida. O equilíbrio é algo que acontece; não é algo que você possa conseguir por meio do seu esforço. Se você conseguir se equilibrar por meio do esforço, esse equilíbrio será falso, forçado. E você continuará tenso, não conseguirá relaxar, pois como uma pessoa que está tentando se equilibrar no meio pode relaxar? Você viverá com medo de que, se relaxar, poderá pender para a direita ou para a esquerda. Você vai viver empertigado, e se isso acontecer, você deixará de aproveitar a oportunidade, toda a bênção da vida.
Não viva empertigado. Não viva a vida de acordo com princípios. Viva a vida em sua totalidade, sorva-a até a última gota! Sim, às vezes ela tem um gosto amargo - e daí? Esse gosto amargo é o que torna você capaz de apreciar a sua doçura.Você só será capaz de apreciar a doçura se tiver provado a amargura. Quem não sabe chorar, também não sabe rir. Quem não sabe apreciar uma boa risada, uma gargalhada, só consegue chorar lágrimas de crocodilo. Elas não podem ser verdadeiras, não podem ser autênticas.
Eu não ensino o caminho do meio, eu ensino o caminho total. A partir daí o equilíbrio vem naturalmente, e esse equilíbrio será extremamente belo e gracioso. Você não precisa forçá-lo, ele simplesmente vem. Indo graciosamente para a esquerda, para a direita, para o meio, aos poucos você atinge o equilíbrio, pois não se identifica com nenhum deles. Quando a tristeza vem, você sabe que ela passará; e quando a felicidade vem, você sabe que ela também passará. Nada permanece para sempre; tudo passa. A única coisa que subsiste é o seu testemunho. Esse testemunho traz o equilíbrio. Esse testemunho é o equilíbrio.
Marcadores: caminho do meio, equilíbrio, extremos, masoquismo, Osho
segunda-feira, junho 17, 2024
Entusiasmo, Sofrimento e Alegria
Fonte consultada: Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6
Como integrar os aspectos material e espiritual da vida...
Faça as coisas com o empenho de toda a sua alma, do modo mais intenso de que você for capaz.
Nada que você faça sem entusiasmo vai lhe dar alegria na vida. Só vai lhe trazer sofrimento, ansiedade, tortura e tensão, pois sempre que você faz alguma coisa sem entusiasmo, você se divide em duas partes, e essa é uma das maiores calamidades que já aconteceu aos seres humanos - eles estão todos divididos. O sofrimento que existe no mundo não é nenhuma surpresa; é um resultado natural da falta de entusiasmo na vida, de fazer as coisas só com uma parte do seu ser, enquanto a outra parte está resistindo, se opondo, lutando.
E qualquer coisa que você faça só com a metade do seu ser, vai lhe causar remorso, sofrimento e a sensação de qua a sua outra parte, que não estava participando, talvez estivesse certa - pois, ao seguir apenas uma parte, tudo o que você conseguiu foi uma vida de sofrimento. Mas eu lhe digo: se você tivesse seguido a sua outra parte, o resultado seria o mesmo. Não é uma questão de saber qual das partes seguir, é uma questão de saber se você a seguiu com todo o seu ser ou não. Agir com todo o seu ser é o que traz alegria. Até mesmo uma ação trivial, comum, quando executada com todo o seu ser, lhe dá um novo ânimo, um sentimento de plenitude, de satisfação, um profundo contentamento. E qualquer coisa feita sem entusiasmo, por melhor que seja, vai lhe causar sofrimento.
O sofrimento não é o resultado das suas ações, assim como a alegria também não é. A alegria surge quando você faz uma coisa de corpo e alma. Não importa o que você faça, você vai acabar sofrendo caso tenha feito aquilo de modo parcial. Viver uma vida sem entusiasmo é criar um inferno para si mesmo - e esse inferno vai ficando cada vez maior com o passar do tempo.
As pessoas perguntam, existe mesmo um inferno, existe mesmo um céu? - porque todas as religiões falam do céu e do inferno como se eles fizessem parte da geografia do universo. Eles não são fenômenos geográficos, eles estão na sua psicologia.
Quando a sua mente, quando o seu coração, quando o seu ser estiver sendo puxado em duas direções diferentes ao mesmo tempo, você está criando o seu inferno. E, quando você é total, é uno, uma unidade orgânica... nessa própria unidade orgânica, as flores celestiais começam a desabrochar em você.
As pessoas continuam preocupadas com seus atos. Que tipo de atitude é certa e que tipo de atitude é errada? O que é bom e o que é ruim? No meu entendimento, não é uma questão de saber que ato que você está praticando. Tudo depende da sua psicologia.
Se você pratica o ato de corpo e alma, ele é bom; se você está dividido, ele é ruim. Dividido você sofre; integrado, você dança, você canta, você celebra.
Marcadores: alegria, entusiasmo, Osho, sofrimento
quinta-feira, junho 13, 2024
Osho: Sobre Religiões
Fonte consultada: Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6
Zorba, o Buda, não segue religiões...
As religiões estão necessariamente dividindo as pessoas, criando uma dualidade na mente humana. Esse é o jeito que elas têm de explorar você. Se você for uma pessoa inteira, religião nenhuma pode controlá-lo. Mas, se você estiver fragmentado, então toda a sua força está destruída, todo o seu poder, toda a sua dignidade é esfacelada. Depois disso você pode virar um cristão, hindu, muçulmano. Se deixarem que você fique assim, como chegou a este mundo - natural, sem nenhuma interferência dos supostos líderes religiosos, você terá liberdade, independência, integridade. Não pode ser escravizado. E todas as suas velhas religiões não estão fazendo nada além de escravizar você.
Para escravizá-lo, eles têm que criar um conflito dentro de você, de modo que você comece a brigar consigo mesmo. Quando você se volta contra você, duas coisas fatalmente acontecem. Primeiro, você se sentirá infeliz, pois nenhuma parte de você pode jamais sair vitoriosa, você sempre será derrotado. Segundo, você ficará com tanto sentimento de culpa que não se sentirá digno de ser chamado de um ser humano de verdade, autêntico. É isso o que os líderes religiosos querem. Essa sua pfofunda sensação de desmerecimento é o que faz deles líderes. Você não pode depender de si mesmo porque sabe que você não pode fazer nada sozinho. Você não pode fazer o que a sua natureza quer, pois a sua religião proíbe; também não pode fazer o que a sua religião quer, porque isso vai contra a sua natureza. Você se vê numa situação de total impotência: é preciso outra pessoa para assumir a responsabilidade por você.
A sua idade cronológica continua aumentando, mas a sua idade mental sofre um atraso, fica parada em torno dos 13 anos. Pessoas com esse atraso mental precisam muito de alguém que as guie, alguém que as leve a conhecer o objetivo da vida, o sentido da vida. Elas próprias são incapazes. Os líderes religiosos nunca poderiam ter pensado no encontro entre Zorba e Buda, pois esse seria o fim de sua liderança e o fim das suas pretensas religiões.
Zorba, o Buda, é o fim de todas as religiões. É o início de um novo tipo de religiosidade que não precisa de rótulos - nem Cristianismo, nem Judaísmo, nem Budismo. Ela consiste em simplesmente se alegrar, desfrutar esse imenso universo, dançar com as árvores, brincar na praia com as marolas, catar conchinhas só pelo prazer que isso dá. A maresia, o frescor da areia, o sol nascendo, uma boa caminhada - o que mais você quer? Para mim, isso é religião - ter prazer com o ar, ter prazer com o mar, ter prazer com a areia, ter prazer com o sol - porque não existe outro Deus que não seja a própria existência.
Não existe conflito entre Zorba e Buda. O conflito foi criado pelas chamadas religiões. Existe algum conflito entre o corpo e a alma? Existe algum conflito entre a sua vida e a sua consciência? Existe algum conflito entre a sua mão direita e a sua mão esquerda? É tudo uma coisa só, uma unidade orgânica.
O seu corpo não merece a sua condenação, mas a sua gratidão, pois ele é a coisa mais grandiosa da vida, a mais milagrosa, a maneira como ele funciona é simplesmente inacreditável. Todas as partes do seu corpo funcionam como uma orquestra. E a sua alma não é algo que esteja em oposição ao seu corpo. Se o seu corpo é a casa, a alma é o hóspede, e não há por que o hóspede e o anfitrião brigarem o tempo todo. Mas a religião não podia existir sem essa sua briga consigo mesmo.
Você é uma unidade orgânica - quer dizer, o seu materialismo não está em oposição à espiritualidade - que tem basicamente o propósito de banir todas as religiões organizadas da terra. Quando o seu corpo e a sua alma começarem a caminhar lado a lado, dançando juntos, você se transforma em Zorba, o Buda. A partir daí você pode aproveitar tudo o que existe nesta vida, tudo o que existe fora de você, e também pode aproveitar tudo o que existe dentro do seu ser.
Na realidade, o dentro e o fora operam em dimensões totalmente diferentes; eles nunca entram em conflito. Mas milhares de anos de condicionamento - ouvindo as pessoas lhe dizendo que, se você quer o interior, tem de renunciar ao exterior - criaram raízes profundas dentro de você. Se você pode desfrutar o interior, qual o problema em desfrutar também o exterior? O prazer é o mesmo; ele é o elo de ligação entre o interior e o exterior.
Ouvir uma boa música, contemplar uma bela pintura ou admirar um dançarino como Nijinsky - tudo isso está fora de você, mas não é, de maneira alguma, um obstáculo para a sua alegria interior. Pelo contrário, é uma grande ajuda. Uma bela música pode começar a tocar as fibras do seu coração. O exterior e o interior não estão divididos. Trata-se de uma única energia, dois aspectos da mesma existência.
Zorba pode se transformar num Buda com mais facilidade que qualquer Papa. Não existe nenhuma possibilidade de o Papa, e de seus supostos santos, se tornarem realmente espirituais. Eles não conhecem nem mesmo as alegrias do corpo - como você pode achar que eles serão capazes de conhecer as alegrias sutis do espírito? O corpo é a escola onde você aprende a nadar, engolindo água.
Você precisa recordar a vida de Buda. Até os 29 anos, ele era um Zorba puro. Tinha as mulheres mais lindas do reino, dúzias delas. Todo o palácio era cheio de música e de dança. Ele tinha as melhores iguarias, as melhores roupas, lindos palácios, imensos jardins. Gozava muito mais a vida do que o pobre Zorba, o Grego. Dia após dia, esse príncipe chamado Sidarta vivia em meio ao luxo, cercado de tudo o que se pode imaginar. Ele vivia um mundo de sonho. Foi essa experiência que fez dele um Buda.
Este fato não costuma ser analisado dessa maneira. Ninguém dá atenção à essa primeira parte da vida dele - que é a sua própria base. Ele se enfastiou. Conheceu todos os prazeres do mundo exterior; agora ele queria algo mais, algo mais profundo, que não existia no mundo lá fora. Para ir mais fundo, você precisa mergulhar. Na idade de 29 anos, ele deixou o palácio no meio da noite e saiu em busca do espiritual. Ele era um Zorba saindo à cata de Buda.
Zorba, o Grego, nunca se tornou um Buda simplesmente porque sua condição de Zorba ficou incompleta. Ele era um belo homem, cheio de disposição, mas era pobre. Ele queria viver a vida plenamente, mas não teve oportunidade. Ele dançou, cantou, mas não conheceu as nuances mais elevadas da música. Não conheceu a dança em que o dançarino deixa de existir.
O Zorba dentro do Buda, conheceu o que havia de mais excelso e mais profundo no mundo exterior. Ciente de tudo isso, ele estava pronto para empreender a sua busca interior. O mundo era bom, mas não tão bom assim; algo ainda estava faltando. O mundo oferecia vislumbres momentâneos, e o Buda queria algo eterno. Todas as suas alegrias findavam com a morte, e ele queria conhecer algo que não acabasse com a morte.
É possível que você seja um Zorba e que pare nesse ponto. Mas também é possível que você não seja um Zorba e comece a buscar o Buda - neste caso, você não vai encontrá-lo. Só um Zorba pode encontrar o Buda; de outro modo, você não tem força suficiente: você não viveu no mundo exterior, você o evitou. Você é um escapista.
Para mim, ser um Zorba é o início da jornada, e tornar-se um Buda é o cumprimento da meta. Não crie uma cisão na sua vida, não condene nada que se refira ao corpo. Viva - não a contragosto - viva totalmente, intensamente.O próprio ato de viver o preparará para a outra busca. Você não tem de ser um asceta,não tem de abandonar a sua mulher, o seu marido, os seus filhos. Toda essa baboseira tem sido ensinada há séculos, e quantas pessoas - dos milhões de monges e freiras - quantas dessas pessoas floresceram? Nenhuma!
Viva a vida sem dividi-la. E primeiro vem o corpo, primeiro vem o seu mundo exterior. No momento que a criança nasce, ela abre os olhos, e a primeira coisa que ela vê é todo o panorama da existência em torno dela. Ela vê tudo, exceto ela mesma - isso é apenas para gente mais experiente. É para quem já viu tudo que havia para ver fora, viveu e se libertou.
A liberdade com relação ao mundo exterior não se conquista por meio do escapismo. Essa liberdade conquista-se vivendo a vida intensamente; depois disso, não há lugar nenhum para onde ir. Só uma dimensão ainda permanece, e é natural que você queira seguir nessa direção. Existe a sua condição de Buda, a sua iluminação.
Sem Zorba não existe Buda. Zorba, evidentemente, não é o fim. Ele é a preparação para o Buda. Ele é as raízes; Buda é o florescimento. Não destrua as raízes; do contrário, não haverá nenhuma flor. São as raízes que mandam a seiva para as flores. Todas as cores das flores vêm das raízes; e todo o perfume das flores vem das raízes.
Não divida. Raízes e flores são as duas extremidades de um único fenômeno.
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domingo, junho 09, 2024
Fé, Crença e Dúvida
Fonte: Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6
A fé de uma semente de mostarda pode remover montanhas...
Eu não acredito na crença. Minha filosofia é baseada no saber, e saber é uma dimensão totalmente diferente da crença. Ela tem início na dúvida, não na crença. No momento em que você acredita em algo, você pára de fazer perguntas. A crença é um dos piores venenos para a inteligência humana (você acredita em vacinas?)
Todas as religiões se baseiam na crença; só a ciência se baseia na dúvida. E eu gostaria que a inquirição religiosa também fosse científica, baseada na dúvida, pois desse modo não precisaríamos acreditar (em muitos mentirosos, controladores da nossa sociedade); poderíamos, desta forma, algum dia conhecer a verdade do nosso ser, e a verdade de todo o universo.
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terça-feira, novembro 21, 2023
Pensamento do dia
"A questão não é ir para o céu, é aprender a estar no céu aonde quer que você esteja"
Osho
Marcadores: Osho, pensamento
terça-feira, outubro 31, 2023
Confiança no caminho
Se você puder confiar, uma coisa ou outra sempre irá acontecer e ajudará no seu crescimento. Suas necessidades serão supridas. Tudo aquilo que for necessário numa determinada época, ser-lhe-á dado, nunca antes. Você somente o recebe quando precisa, e não há sequer um único momento de atraso. Quando você o necessita, você o recebe, imediatamente, instantaneamente! Essa é a beleza da confiança. Pouco a pouco você vai aprendendo como a existência dá a você, como a existência cuida de você. Você não está vivendo em uma existência indiferente. Ela não o ignora. Você está preocupado desnecessariamente; tudo é provido. Uma vez que você descubra a chave de perceber isso, toda preocupação desaparece.
Abaixo vão algumas observações de Osho sobre o conto sufi chamado Mojud: O Homem com a Vida Inexplicável.
Acreditando no impossível, o impossível torna-se possível
Na realidade, as coisas são impossíveis somente porque você não tem a coragem de acreditar. Cada pensamento pode tornar-s uma coisa, e tudo que acontece dentro da consciência pode criar sua realidade externa. Tudo que acontece exteriormente precisa primeiro acontecer interiormente. A semente está absorta no interior e a árvore manifesta-se no exterior.
Se você tem um coração que confia, nada é impossível. Mas você precisa ter um coração confiante. Uma mente confiante não adiantará, porque estruturalmente a mente não pode confiar. Ela é incapaz de confiar. A mente só pode duvidar, desconfiar; a dúvida é algo natural para a mente, é intrínsica à mente. A cabeça nada pode fazer a não ser duvidar. Para a mente, crer não é possível, a mente pode apenas duvidar. A dúvida cresce da mente como as folhas crescem das árvores.
A crença surge no coração. O coração não pode duvidar, só pode confiar. Assim, quando digo que crer pode tornar coisas impossíveis em possíveis, refiro-me a crer pelo coração - um coração inocente, o coração de uma criança que não sabe como dizer "não", que conhece apenas o "sim" - mas não o "sim" contra o "não".
Não que a criança diga "não" por dentro e "sim" por fora, pois isso é da cabeça. Essa é a maneira da cabeça, sim por fora, não por dentro, não por fora, sim por dentro. A cabeça é esquizofrênica. Nunca é total e una.
Quando o coração diz "sim" ele simplesmente diz "sim". Não existe conflito, não existe divisão. O coração está integrado com seu sim; essa é a verdadeira crença, confiança. É um fenômeno do coração. Não é um pensamento, mas um sentimento, e essencialmente, nem mesmo um sentimento, mas um estado de ser. No início, a confiança é um sentimento; em seu florescimento final é um estado de ser.
As chamadas "crenças" permanecem na cabeça, nunca se tornam seus sentimentos, e não podem se tornar seu ser. E a menos que algo se torne seu ser, ele é apenas um sonho inútil. É um desperdício de energia.
Mas, para crer, é necessário arriscar. Você ficará surpreso ao saber disso: a dúvida é muito covarde. Comumente se ouve que as pessoas corajosas duvidam e que as covardes crêem. Isso também é verdade, num certo sentido. A crença mental é covarde, e você conhece apenas os que crêem mentalmente, assim isso corresponde à realidade. Se você entrar nas mesquitas, nas igrejas, nos templos, os encontrará cheios de covardes. Mas a crença real não é covarde, e sim uma grande coragem; ela é heróica.
A dúvida vem do medo; então como pode ser valente? A dúvida está enraizada no medo. Ela cresce porque existe um desejo ardente de defender a si mesmo,de proteger a si mesmo, de estar seguro. Você pode confiar somente se estiver pronto para penetrar na insegurança, no inexplorado, para navegar no desconhecido sem mapa algum. Confiança significa imensa coragem, e somente uma pessoa corajosa pode ser religiosa, porque somente uma pessoa corajosa pode dizer "sim".
Dúvida é defesa. E mesmo que você seja defendido por ela, você permanece estagnado, não pode se mover - porque cada movimento traz medo, porque cada movimento é um movimento para o desconhecido, para o não-familiar. A dúvida é um subproduto do medo, lembre-se disso.
Então o que é crer? Crer é um subproduto do amor. Somente aqueles que sabem amar sabem crer. O amor vem do coração, e a crença também. A dúvida vem da cabeça, e o medo também. A pessoa que vive na cabeça permanece covarde. Na verdade, por ser covarde, ele mora na cabeça. Ela tem medo de mover-se para o coração porque nunca sabe onde ele a levará.
O coração é um aventureiro, o explorador dos mistérios, o descobridor de tudo que está oculto. O coração está sempre em peregrinação. Ele nunca se satisfaz... tem um descontentamento interno, um descontentamento espiritual. O coração nunca se acomoda em lugar algum. Está profundamente apaixonado pelo movimento, pelo dinamismo.
O coração somente se satisfaz quando chega ao supremo, além do qual não há objetivo. O mundano não pode satisfazê-lo. O coração nunca é convencional, está sempre em revolução. Está sempre saltando de um estado a outro. Está sempre tateando, sempre arriscando. Está sempre disposto a arriscar tudo que tem pelo desconhecido. Seu desejo é conhecer aquilo que verdadeiramente é; e Deus nada mais é do que isto.
O coração anseia pela aventura, pelo perigo, pelo inexplorado, pelo desconhecido, pelo inseguro. Ele almeja a experiência oceânica; quer se dissolver, desaparecer na totalidade. A cabeça é receosa, receia morrer, desaparecer.
Quando você confia, seu inconsciente começa a revelar muitas coisas para você. Ele revela a si mesmo apenas para a mente confiante, para o ser confiante, para a consciência confiante. Religião é a fragrância desta confiança... impecável, absoluta.
O ateísmo é um ato de fraqueza, de impotência. Ele é decadente. Uma sociedade torna-se ateísta somente quando está morrendo, quando perdeu o vigor e a juventude. Quando uma sociedade é jovem, viva e vigorosa, ela almeja o desconhecido, anseia pelo perigo. Ela tenta viver perigosamente, porque essa é a única maneira de verdadeiramente viver.
O ateísmo é sempre covarde. A pessoa realmente corajosa com certeza se tornará religiosa, e a pessoa religiosa certamente é corajosa. Assim, se você encontrar uma pessoa religiosa covarde, então saiba que algo está errado. Uma pessoa covarde não pode ser religiosa. Sua religião nada mais é que uma defesa, uma armadura. Seu sim não está vindo do amor e da coragem, seu sim está vindo do medo. Se fosse possível dizer não, ela diria não. Seu sim está vindo porque a morte está presente, a doença está presente, o perigo está presente. Assim, ela pensa: "O que tenho a perder? Por que não crer? Por que não orar?" Sua oração é falsa, sua oração nada mais é que uma expressão do medo. O medo a leva ao templo, à igreja e ao sacerdote.
Dizer "não" é dizer não às próprias raízes. Se a árvore diz não à terra, qual será seu destino? Ela estará cometendo suicídio. Se a árvore diz não ao sol, qual será seu destino? Ela estará cometendo suicídio. A árvore não pode dizer não ao sol, não pode dizer não à terra. Ela tem que dizer sim ao sol, à terra, aos ventos, às nuvens. Tem que permanecer continuamente numa atitude de sim. Só então pode florescer, permanecer verde e viva, crescer.
O homem está enraizado na existência. Dizer "não" é envenenar seu próprio sistema. Para quem você está dizendo não? - para sua própria terra, para seu próprio céu, para seu próprio sol. Você começará a ficar paralizado. A pessoa realmente corajosa olha ao redor, sente, vê que "Sou parte desta totalidade." Percebendo isso, relaxa no sim, permanece no fluxo. E, pelo seu sim, está pronta a arriscar qualquer coisa, tudo que for necessário.
Procurando, buscando Deus, a verdade, a felicidade suprema, surge várias vezes este momento - arriscar. Toda astúcia estará contra isso. A mente inteira estará contra isso. É melhor arriscar tudo. Se houver apenas uma possibilidade muito, muito pequena de obter amor, mesmo assim deve-se arriscar tudo. E deve-se arriscar tudo repetidamente, muitas vezes, antes que se alcance o amor supremo, Deus.
Comumente procuramos e buscamos Deus apenas dentro de limites: aquilo que é permitido pelas nossas atuais condições, sem nada arriscar. Você está ganhando dinheiro, está tendo sucesso na vida, pode dispensar uma hora para o templo ou para a meditação. De vez em quando pode orar também. Ou pelo menos durante a noite, antes de ir para a cama, pode repetir a mesma oração por dois minutos ecair no sono, e sentir-se muito bem porque está "praticando religião".
Religião não é praticar, é ser. Ou está presente por vinte e quatro horas em seu ser, espalhada por todo ele, ou não está, de forma alguma. Apenas uma oração noturna, antes de ir para a cama, é uma espécie de tapeação que você está fazendo consigo mesmo.
Esse tipo de religião parcial não ajuda. A pessoa tem que estar nela totalmente, e os covardes não podem fazer isso. Assim, deixe-me lembrá-lo: religião é apenas para os valentes, para os vigorosos, para aqueles que têm a alma forte. Não é para os fracos, não é para aqueles que estão sempre negociando. Não é para a mente negociante, é para os jogadores que podem arriscar.
Todo homem é um homem de brilhantes perspectivas, porque todo homem tem Deus como seu florescimento supremo
[continua]
Referência: Osho, Mojud : O Homem com a Vida Inexplicável, Editora Madras.
Marcadores: arriscar, ateísmo, cabeça, confiança, coração, dúvida, existência, medo, Osho, religião
