quinta-feira, junho 13, 2024

 

Osho: Sobre Religiões

 Fonte consultada:  Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6

 Zorba, o Buda, não segue religiões...

As religiões estão necessariamente dividindo as pessoas, criando uma dualidade na mente humana. Esse é o jeito que elas têm de explorar você. Se você for uma pessoa inteira, religião nenhuma pode controlá-lo. Mas, se você estiver fragmentado, então toda a sua força está destruída, todo o seu poder, toda a sua dignidade é esfacelada. Depois disso você pode virar um cristão, hindu, muçulmano. Se deixarem que você fique assim, como chegou a este mundo - natural, sem nenhuma interferência dos supostos líderes religiosos, você terá liberdade, independência, integridade. Não pode ser escravizado. E todas as suas velhas religiões não estão fazendo nada além de escravizar você.

Para escravizá-lo, eles têm que criar um conflito dentro de você, de modo que você comece a brigar consigo mesmo. Quando você se volta contra você, duas coisas fatalmente acontecem. Primeiro, você se sentirá infeliz, pois nenhuma parte de você pode jamais sair vitoriosa, você sempre será derrotado. Segundo, você ficará com tanto sentimento de culpa que não se sentirá digno de ser chamado de um ser humano de verdade, autêntico. É isso o que os líderes religiosos querem. Essa sua pfofunda sensação de desmerecimento é o que faz deles líderes. Você não pode depender de si mesmo porque sabe que você não pode fazer nada sozinho. Você não pode fazer o que a sua natureza quer, pois a sua religião proíbe; também não pode fazer o que a sua religião quer, porque isso vai contra a sua natureza. Você se vê numa situação de total impotência: é preciso outra pessoa para assumir a responsabilidade por você.

A sua idade cronológica continua aumentando, mas a sua idade mental sofre um atraso, fica parada em torno dos 13 anos. Pessoas com esse atraso mental precisam muito de alguém que as guie, alguém que as leve a conhecer o objetivo da vida, o sentido da vida. Elas próprias são incapazes. Os líderes religiosos nunca poderiam ter pensado no encontro entre Zorba e Buda, pois esse seria o fim de sua liderança e o fim das suas pretensas religiões.

Zorba, o Buda, é o fim de todas as religiões. É o início de um novo tipo de religiosidade que não precisa de rótulos - nem Cristianismo, nem Judaísmo, nem Budismo. Ela consiste em simplesmente se alegrar, desfrutar esse imenso universo, dançar com as árvores, brincar na praia com as marolas, catar conchinhas só pelo prazer que isso dá. A maresia, o frescor da areia, o sol nascendo, uma boa caminhada - o que mais você quer? Para mim, isso é religião - ter prazer com o ar, ter prazer com o mar, ter prazer com a areia, ter prazer com o sol - porque não existe outro Deus que não seja a própria existência.

Não existe conflito entre Zorba e Buda. O conflito foi criado pelas chamadas religiões. Existe algum conflito entre o corpo e a alma? Existe algum conflito entre a sua vida e a sua consciência? Existe algum conflito entre a sua mão direita e a sua mão esquerda? É tudo uma coisa só, uma unidade orgânica.

O seu corpo não merece a sua condenação, mas a sua gratidão, pois ele é a coisa mais grandiosa da vida, a mais milagrosa, a maneira como ele funciona é simplesmente inacreditável. Todas as partes do seu corpo funcionam como uma orquestra. E a sua alma não é algo que esteja em oposição ao seu corpo. Se o seu corpo é a casa, a alma é o hóspede, e não há por que o hóspede e o anfitrião brigarem o tempo todo. Mas a religião não podia existir sem essa sua briga consigo mesmo.

Você é uma unidade orgânica - quer dizer, o seu materialismo não está em oposição à espiritualidade - que tem basicamente o propósito de banir todas as religiões organizadas da terra. Quando o seu corpo e a sua alma começarem a caminhar lado a lado, dançando juntos, você se transforma em Zorba, o Buda. A partir daí você pode aproveitar tudo o que existe nesta vida, tudo o que existe fora de você, e também pode aproveitar tudo o que existe dentro do seu ser.

Na realidade, o dentro e o fora operam em dimensões totalmente diferentes;  eles nunca entram em conflito. Mas milhares de anos de condicionamento - ouvindo as pessoas lhe dizendo que, se você quer o interior, tem de renunciar ao exterior - criaram raízes profundas dentro de você. Se você pode desfrutar o interior, qual o problema em desfrutar também o exterior? O prazer é o mesmo; ele é o elo de ligação entre o interior e o exterior.

Ouvir uma boa música, contemplar uma bela pintura ou admirar um dançarino como Nijinsky - tudo isso está fora de você, mas não é, de maneira alguma, um obstáculo para a sua alegria interior. Pelo contrário, é uma grande ajuda. Uma bela música pode começar a tocar as fibras do seu coração. O exterior e o interior não estão divididos. Trata-se de uma única energia, dois aspectos da mesma existência.

Zorba pode se transformar num Buda com mais facilidade que qualquer Papa. Não existe nenhuma possibilidade de o Papa, e de seus supostos santos, se tornarem realmente espirituais. Eles não conhecem nem mesmo as alegrias do corpo - como você pode achar que eles serão capazes de conhecer as alegrias sutis do espírito? O corpo é a escola onde você aprende a nadar, engolindo água.

Você precisa recordar a vida de Buda. Até os 29 anos, ele era um Zorba puro. Tinha as mulheres mais lindas do reino, dúzias delas. Todo o palácio era cheio de música e de dança. Ele tinha as melhores iguarias, as melhores roupas, lindos palácios, imensos jardins. Gozava muito mais a vida do que o pobre Zorba, o Grego. Dia após dia, esse príncipe chamado Sidarta vivia em meio ao luxo, cercado de tudo o que se pode imaginar. Ele vivia um mundo de sonho. Foi essa experiência que fez dele um Buda.

Este fato não costuma ser analisado dessa maneira. Ninguém dá atenção à essa primeira parte da vida dele - que é a sua própria base. Ele se enfastiou. Conheceu todos os prazeres do mundo exterior; agora ele queria algo mais, algo mais profundo, que não existia no mundo lá fora. Para ir mais fundo, você precisa mergulhar. Na idade de 29 anos, ele deixou o palácio no meio da noite e saiu em busca do espiritual. Ele era um Zorba saindo à cata de Buda.

Zorba, o Grego, nunca se tornou um Buda simplesmente porque sua condição de Zorba ficou incompleta. Ele era um belo homem, cheio de disposição, mas era pobre. Ele queria viver a vida plenamente, mas não teve oportunidade. Ele dançou, cantou, mas não conheceu as nuances mais elevadas da música. Não conheceu a dança em que o dançarino deixa de existir.

O Zorba dentro do Buda, conheceu o que havia de mais excelso e mais profundo no mundo exterior. Ciente de tudo isso, ele estava pronto para empreender a sua busca interior. O mundo era bom, mas não tão bom assim; algo ainda estava faltando. O mundo oferecia vislumbres momentâneos, e o Buda queria algo eterno. Todas as suas alegrias findavam com a morte, e ele queria conhecer algo que não acabasse com a morte.

É possível que você seja um Zorba e que pare nesse ponto. Mas também é possível que você não seja um Zorba e comece a buscar o Buda - neste caso, você não vai encontrá-lo. Só um Zorba pode encontrar o Buda; de outro modo, você não tem força suficiente: você não viveu no mundo exterior, você o evitou. Você é um escapista.

Para mim, ser um Zorba é o início da jornada, e tornar-se um Buda é o cumprimento da meta. Não crie uma cisão na sua vida, não condene nada que se refira ao corpo. Viva - não a contragosto - viva totalmente, intensamente.O próprio ato de viver o preparará para a outra busca. Você não tem de ser um asceta,não tem de abandonar a sua mulher, o seu marido, os seus filhos. Toda essa baboseira tem sido ensinada há séculos, e quantas pessoas - dos milhões de monges e freiras - quantas dessas pessoas floresceram? Nenhuma!

Viva a vida sem dividi-la. E primeiro vem o corpo, primeiro vem o seu mundo exterior. No momento que a criança nasce, ela abre os olhos, e a primeira coisa que ela vê é todo o panorama da existência em torno dela. Ela vê tudo, exceto ela mesma - isso é apenas para gente mais experiente. É para quem já viu tudo que havia para ver fora, viveu e se libertou.

A liberdade com relação ao mundo exterior não se conquista por meio do escapismo. Essa liberdade conquista-se vivendo a vida intensamente; depois disso, não há lugar nenhum para onde ir. Só uma dimensão ainda permanece, e é natural que você queira seguir nessa direção. Existe a sua condição de Buda, a sua iluminação.

Sem Zorba não existe Buda. Zorba, evidentemente, não é o fim. Ele é a preparação para o Buda. Ele é as raízes; Buda é o florescimento. Não destrua as raízes; do contrário, não haverá nenhuma flor. São as raízes que mandam a seiva para as flores. Todas as cores das flores vêm das raízes; e todo o perfume das flores vem das raízes.

Não divida. Raízes e flores são as duas extremidades de um único fenômeno.


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