sexta-feira, julho 19, 2024

 

A Teia da Vida

No Oriente diz-se que o Universo é semelhante a uma teia de aranha. Se você tocar num único fio, toda a teia sentirá a vibração. Tocando em uma única folha de grama, você terá tocado na maior estrela, a estrela mais longínqua, porque o todo é um organismo uno, e nada está separado. Foi simplesmente a ignorância que criou a concepção do ego.

E assim o ser humano vive numa espécie de autoexílio. Construímos uma pequena bolha ao redor de nós mesmos, nos blindamos, nos alienamos. E, desse  modo, sofremos, permanecemos infelizes. Assim, não conseguimos encontrar sentido ou significado para a vida. Nós nos sentimos sem chão para nos apoiarmos, sem uma base que nos sustente. Como se fôssemos algo acidental, desnecessário, como se a vida seguisse funcionando da mesma maneira, estando nós aqui ou não. Isso nos gera uma imensa ferida. Perdemos a confiança, a crença em nós mesmos. Nós nos tornamos algo sem sentido. inútil; passamos a viver como se tvéssemos vindo à existência por acaso.

E todo esse absurdo surge porque elaboramos a ideia do ego. O ego é uma tentativa de desconectar você do todo e, embora não se possa separar dessa totalidade, você pode viver acreditando que conseguiu fazer isso. Sua crença é a causa do seu inferno. Abandone a crença no ego e imediatamente você perceberá mensagens trocadas entre você e o todo, continuamente, a cada momento, dia após dia. Desse modo, toda a existência se torna um livro que se abre, a verdadeira Bíblia. Você já não precisa mais de velhas e deterioradas escrituras, pode simplesmente observar ao redor e passar a ler a própria vida. Haverá, então, sermões em todos os lugares, livros sagrados por toda parte, músicas por onde estiver.

Ninguém é uma ilha. Isso deve ser lembrado como uma das verdades fundamentais da vida. Estou enfatizando porque tendemos a esquecer isso. Todos compomos uma força vital que é parte de uma única existência oceânica. Fundamentalmente, a possibilidade do amor emerge por sermos, no fundo de nossas raízes, uma unidade. Se não fôssemos um só, não existiria a possibilidade do amor.

Fonte: Osho, Pérolas de sabedoria: mensagens sobre a existência - Tudo o que você tem é este momento exato, não o desperdice, Editora Planeta do Brasil - São Paulo, 2021. ISBN: 978-65-5535-612-0.

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segunda-feira, outubro 16, 2023

 

A Simplicidade

Ser um Buda, ser iluminado, é o fenômeno mais comum. Quando digo "comum", quero dizer: tem que ser assim. Se parece muito extraordinário é por culpa do homem, é porque ele cria muitas dificuldades, e as adora.

Primeiro, ele cria o obstáculo, depois, tenta atravessá-lo. E então se sente bastante eufórico. Em primeiro lugar, não há nenhum obstáculo. Porém, como o ego dele não vai se sentir bem, ele tem que criar um longo caminho para chegar ao ponto que era o mais próximo, o mais íntimo. E ele nunca tinha perdido!

Portanto, o homem não deve procurar algo misterioso. Deve apenas ser simples e inocente. E, com isso, toda a existência se abre para ele. O homem não vai enlouquecer, ele pode simplesmente sorrir para o absurdo da coisa toda que estava tão perto, mas não pôde alcançá-la. E não havia nenhum obstáculo. Foi um milagre como ele continuou perdendo.

É preciso olhar para a mente, a mente é o problema. A mente quer algo especial. E, devido a esse desejo, a mente continua a criar coisas especiais. Na realidade, não há nada de especial: ou toda a realidade é especial ou nada é especial.

Portanto, não deseje o misterioso. Na verdade, não se deve desejar nada. Basta ficar à vontade, em casa, com a realidade como ela é.

Seja comum, ser comum é maravilhoso, porque assim não há tensão, não há angústia. Ser comum é muito misterioso, porque é bem simples.

Para mim, meditação é um lazer, um jogo, não uma tarega. Mas para as pessoas continua a ser uma tarefa, pois pensam em termos de trabalho. Vai ser bom compreender a diferença entre trabalho e lazer.

O trabalho é orientado para uma finalidade, e não é suficiente por si só. Deve levar a algum lugar, a alguma felicidade, a algum objetivo, ter alguma finalidade. É uma ponte, um meio. Em si, não tem sentido. O significado está escondido no objetivo.

O lazer é totalmente diferente. Não há objetivo para ele, ou ele próprio é o objetivo. A felicidade não está além dele, fora dele, basta estar nele para estar feliz. O lazer não vai propiciar ao homem nenhuma felicidade fora dele, não há significado além dele, tudo o que está lá é intrínseco, interno. A pessoa se diverte não por causa de alguma razão, mas porque aproveita o aqui e agora. Não tem finalidade alguma.

É por isso que somente as crianças conseguem de fato brincar. Quanto mais as pessoas crescem, menor a sua capacidade de brincar. É devido a ter cada vez mais objetivos que as pessoas cada vez mais perguntam: "Por que eu deveria apreciar momentos de lazer?"  Cada vez mais elas se tornam orientadas para finalidades: alguma coisa deve ser alcançada por meio disso, pois, por si só, o lazer não tem sentido. O valor intrínseco perde o sentido para elas. Somente as crianças podem, porque não pensam no futuro. Elas podem estar aqui eternamente.

O trabalho é tempo, enquanto o lazer é atemporal.

A meditação deve ser como desfrutar do lazer, e não orientada para objetivos. Não se deve meditar para alcançar algo, pois, dessa forma, todo o sentido é perdido. Não se pode meditar se a intenção for meditar tendo em vista um objetivo. Só é possível meditar se for para desfrutar da meditação em si, e se divertir, se nada tiver que ser alcançado a partir dela, se for belo em si.

A meditação por amor à meditação... daí ela se torna atemporal. E, consequentemente, o ego não pode aparecer.

Sem desejo, a pessoa não pode se projetar para o futuro, sem desejo, a pessoa não pode ter expectativas, e, sem desejo, nunca ficará desapontada. Sem desejo, o tempo realmente desaparece: a pessoa se move de um momento de eternidade para outro momento de eternidade. Não há nenhuma sequência... e, portanto, ela nunca perguntará por que não está acontecendo nada.

Para mim, não cheguei a conhecer o mistério ainda. O próprio lazer é o mistério; o  fato de ser atemporal e desprovido de desejo é o mistério. E ser comum é o "objetivo", se me permitem usar a palavra. Ser comum é o objetivo.

Se a pessoa pode ser comum, ela está liberada; consequentemente, não há nenhum sansara para ela, nenhum mundo para ela.

O mundo inteiro é uma luta para ser extraordinário. Alguns tentam na política, alguns tentam na economia, alguns tentam na religião. Mas a cobiça permanece a mesma. 

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6. 

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sexta-feira, outubro 13, 2023

 

O cultivo e descarte do ego

O ego não pode ser abandonado. É como a escuridão, não se pode abandonar a escuridão, pode-se, apenas, introduzir a luz. No momento em que há luz, a escuridão deixa de estar presente. Pode-se dizer que esse é o caminho do abandono da escuridão, mas não literalmente. A escuridão não existe, a escuridão é a ausência de luz. Por isso, não se pode fazer nada diretamente para ela. Pode-se apenas fazer algo para a luz, seja introduzi-la ou eliminá-la. Se for a escuridão o que se deseja, apaga-se a luz; se não se quer escuridão, acende-se a luz. O ego não pode ser abandonado.

A meditação pode ser aprendida. A meditação funciona como uma luz, a meditação é a luz.

Torne-se luz e você não vai encontrar o ego em lugar algum.

Aquele que quiser abandonar o ego vai estar em apuros, pois quem é essa pessoa que deseja abandoná-lo? É o próprio ego, que agora joga um novo jogo, o jogo chamado espiritualidade, religião, autorealização. Quem está fazendo essa pergunta? É o próprio ego, enganando a pessoa. E quando o ego pergunta, que pode ser abandonado, naturalmente a pessoa pensa: "Esse não pode ser o ego. Como o ego pode solicitar o seu próprio suicídio?" É assim que o ego a engana.

A natureza da pessoa não tem dúvidas, não precisa de respostas. Sua natureza é absolutamente clara, cheia de luz. Não conhece escuridão, nunca encontrou nenhuma escuridão.

Ela não precisa abandonar o ego. Basta olhar dentro de si, procurar onde está, é preciso, primeiro, encontrá-lo. Não deve se preocupar com sua natureza nesse momento. Basta olhar para dentro, procurar pelo ego, e não vai encontrá-lo. Em vez disso, ela encontrará sua própria natureza, luminosa, perfumada como uma flor de lótus.  Não depara com tal beleza em nenhum outro lugar. É a experiência mais bela da vida. E, depois de ter visto sua própria lótus de luz, sua própria lótus florescendo, o ego está acabado, para sempre. Daí não vai fazer essas perguntas sem sentido.

"Como distinguir", você diz, "entre o que é o ego e o que é a minha verdadeira natureza?"

Ou o ego está lá, e, então, a verdadeira natureza não é conhecida, ou a verdadeira natureza é conhecida, e, então, não há nenhum ego. Não se pode ter os dois, portanto, não se pode fazer nenhuma distinção, não se pode distingui-los, e eles não podem estar presentes juntos. Somente um pode estar presente. 

Neste exato momento, a pessoa que fez a pergunta é toda ego, portanto, não se preocupe em fazer distinçao. Se não houvesse ego, a pergunta não teria surgido. A natureza não conhece dúvidas, a natureza é êxtase, não um problema. 

Vai parecer muito paradoxal, mas isso é verdade: antes que seja possível livrar-se do ego é preciso alcançá-lo. Apenas uma fruta madura cai no chão. O amadurecimento é tudo.

Um ego imaturo não pode ser jogado, não pode ser destruído. E se lidar com um ego imaturo para destruí-lo e dissolvê-lo, todo o esforço terá sido em vão. Em vez de destruí-lo, vai encontrá-lo mais fortalecido, sob novas formas, sutis. 

Isso é algo básico a ser entendido: o ego deve chegar a um pico, deve ser forte, deve ter atingido uma integridade, e somente depois é possível dissolvê-lo.

Um ego fraco não pode ser dissolvido. E isso se torna um problema.

No Oriente,todas as religiões pregam a ausência de ego. Portanto, no Oriente, todo mundo é contra o ego desde o princípio. Devido a essa postura, o ego nunca se torna forte, nunca chega a umm ponto de integração a partir do qual pode ser descartado. Nunca está maduro. Portanto, no Oriente,  é muito difícil dissolver o ego, quase impossível.

No Ocidente, toda a tradição ocidental de religião e psicologia propõe, prega, convence as pessoas a terem egos fortes, porque, se não tiverem um ego forte, como podem sobreviver? A vida é uma luta, e se a pessoa é desprovida de ego, ela será destruída. Depois, quem vai resistir? Quem vai lutar? Quem vai competir? E a vida é uma contínua competição.

A psicologia ocidental diz: alcance o ego, seja forte nele. Mas, no Ocidente, é muito fácil dissolver o ego. Portanto, sempre que um buscador ocidental chegar a um entendimento de que o ego é o problema, ele pode dissolvê-lo com facilidade, com mais facilidade do que qualquer buscador oriental.

Esse é o paradoxo: no Ocidente, o ego é ensinado, enquanto no Oriente ensina-se a ausência de ego. No entanto, no Ocidente é fácil dissolver o ego, enquanto no Oriente é muito difícil.

Esta vai ser uma tarega difícil para as pessoas: primeiro, alcançar o ego e, depois, livrar-se dele, porque só é possível livrar-se de algo que se possui. Se a pessoa não o possui, como pode perdê-lo? Só pode ser pobre, se for rica. Se não for rica, sua pobreza não pode ter aquela beleza que Jesus prega: "Seja pobre de espírito." Sua pobreza não poderá ter aquele significado que teve para Gautama Buda, quando ele se tornou um mendigo.

Apenas um homem rico, um homem realmente rico, pode ser pobre. Apenas ter riquezas não é suficiente para ser realmente rico. A pessoa ainda pode ser pobre. Se a ambição ainda estiver lá, ela é pobre. O que ela possui não é a questão. Se ela tem o suficiente, consequentemente, o desejo desaparece. Quando se tem riqueza o bastante, o desejo desaparece.

O desaparecimento do desejo é o critério da condição de já estar suficiente. Com isso, a pessoa é rica e, consequentemente, pode abandonar o desejo e tornar-se um mendigo, como Buda. E então sua pobreza é rica, sua pobreza tem um reino próprio.

E o mesmo acontece com tudo. Upanishads, Lao Tzu, Jesus ou Buda - todos ensinam que o conhecimento é inútil. Apenas obter cada vez mais conhecimento não é de muita ajuda. Não só não é de muita ajuda como também pode se tornar uma barreira. O conhecimento não é necessário, mas isso não significa que o homem deva permanecer ignorante. Sua ignorância não será real.

A ignorância é atingida quando o indivíduo reúne o suficiente de conhecimento e o descarta. Daí a pessoa se torna ignorante de fato, como Sócrates, que pôde dizer: "Só sei uma coisa: é que não sei."

Esse conhecimento, ou essa ignorância - chame-a como quiser - , é totalmente diferente, a qualidade é diferente, a dimensão mudou. Se a pessoa é simplesmente ignorante porque nunca alcançou qualquer conhecimento, sua ignorância não pode ser sábia, não pode ter sabedoria, ela é apenas ausente de conhecimento. E o anseio vai estar no interior: como adquirir mais conhecimento? Como adquirir mais informações?

Quando a pessoa sabe muito, ou seja, conhece as escrituras, conhece o passado, a tradição, sabe tudo o que é possível saber, de repente, torna-se consciente da futilidade de tudo isso, de repente, torna-se consciente de que isso não é conhecimento. Isso é algo emprestado!

Esta não é a sua própria experiência, isso não é o que ela veio a conhecer. Outros podem tê-la conhecido, e a pessoa simplesmente a coletou. A compilação feita por ela é mecânica. Não surgiu a partir da pessoa, não representa um crescimento. É só lixo coletado de outras portas,emprestado, morto.

É bom lembrar que o conhecimento é vivo apenas quando a pessoa conhece, quando se trata de sua experiência direta e imediata. Porém, quando fica sabendo a partir dos outros, trata-se apenas de memória, não de conhecimento. A memória é morta. Quando a pessoa reúne muito - como, por exemplo, as riquezas do conhecimento, as escrituras, tudo em seu entorno, bibliotecas condensadas em sua mente - e, então, torna-se consciente de que está só carregando o fardo dos outros, e de que nada lhe pertence, de que ela própria não conheceu, ela pode descartar, pode descartar todo esse conhecimento.

A partir desse descarte, surge um novo tipo de ignorância dentro dela. Essa ignorância não é a ignorância do ignorante, é a ignorância do homem sábio, da sabedoria.

Somente um homem sábio pode dizer: "Eu não sei". Porém, ao dizer "Eu não sei" ele não tem anseio por conhecimento, ele simplesmente constata um fato. E quando consegue dizer de coração aberto "Eu não sei", nesse exato momento seus olhos se abrem e as portas do conhecimento estão abertas.

Essa ignorância é linda, mas é alcançada através do conhecimento.

E o mesmo acontece com o ego: você só pode perdê-lo se o possuir.

O que eu ensino vai parecer contraditório, mas é a verdade da vida. A contradição é inerente à vida.

Ensino as pessoas a serem egocêntricas, pra que possam se tornar pessoas sem ego.

Ensino as pessoas a serem egocêntricas perfeitas. Não se deve esconder o egoísmo, pois, do contrário, vai surgir a hipocrisia. E não se deve lutar com o fenômeno imaturo. Deixem-no amadurecer, ajudem-no. Levem-no para o auge! Não tenham medo, não há nada a temer. É assim que se percebe a agonia do ego.

Quando chegarem ao seu auge, não vão precisar de um Buda ou de mim para lhes dizer que o ego é o inferno.

As pessoas vão saber disso, porque o auge do ego será o pico das experiências infernais delas, será um pesadelo.

Só se alcança o conhecimento por meio do sofrimento.

Não se pode jogar nada fora só pelo argumento lógico. Pode-se jogar algo fora somente quando isso se tornou tão doloroso que não pode mais ser carregado.

Se o ego não se tornou tão doloroso, então ele pode ser carregado. É natural! Não posso persuadir a pessoa a abandoná-lo. Mesmo que ela se convença, ela vai escondê-lo.

Nada imaturo pode ser jogado fora. A fruta verde se apega à árvore e a árvore se apega à fruta verde. Se ela for forçada a se separar, será deixada para trás  uma grande ferida. Essa cicatriz permanecerá, a ferida ficará para sempre verde e ela vai sempre se sentir magoada. É importante lembrar que tudo tem um tempo para crescer, para ficar maduro, para cair na terra e se dissolver. O ego também tem um tempo. Ele precisa ficar maduro.

Portanto, ningém deve ter medo de ser egocêntrico. Todas as pessoas são, caso contrário, todos teriam desaparecido há muito tempo.

Esse é o mecanismo da vida: a pessoa tem que ser egocêntrica, tem que lutar, à sua maneira, tem que lutar com muitos milhares de desejos em torno de si, tem que lutar, tem que sobreviver.

O ego é uma medida de sobrevivência. Para mim, o ego faz parte do crescimento natural.

Mas isso não significa que o ser humano tem que permanecer com o ego para sempre. É um crescimento natural e, depois, há um segundo passo, quando ele tem de ser descartado. Isso também é natural. No entanto, o segundo passo só pode ser dado quando o primeiro passo estiver chegado ao seu auge, no clímax, quando o primeiro passo tiver chegado ao seu pico.

Por isso, ensino os dois, ou seja, ensino o egocentrismo e ensino a ausência de ego.

[continua]

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6. 

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quinta-feira, outubro 12, 2023

 

A Dor no Amor

O amor é doloroso porque gera o caminho para a felicidade. O amor é doloroso porque ele transforma; o amor é mutação. Cada transformação vai ser dolorosa, porque o velho tem de ser deixado para poder vir o novo. O velho é familiar, seguro, estável, o novo é absolutamente desconhecido. A pessoa estará se movendo em um oceano inexplorado. Não se pode usar a mente com o novo, ao passo que, com o velho, a mente é hábil. A mente pode funcionar somente com o velho - com o novo, a mente é completamente inútil.

Consequentemente, surge o medo e, ao deixar o velho, o confortável, o mundo seguro, o mundo de conveniência, surge a dor. É a mesma dor que a criança sente quando sai do útero da mãe. É a mesma dor que o pássaro sente quando sai do ovo. É a mesma dor que o pássaro vai sentir quando tentar voar pela primeira vez.

O medo do desconhecido, a segurança do conhecido, a insegurança do desconhecido e a imprevisibilidade do desconhecido fazem com que a pessoa fique muito assustada.

E como a transformação vai ser do ser para um estado de não ser, a agonia é muito profunda. Mas não se pode ter êxtase sem passar pela agonia. Se o ouro quer ser purificado, tem que passar pelo fogo.

O amor é fogo.

É por causa da dor do amor que milhões de pessoas vivem uma vida sem amor. Elas também sofrem, e seu sofrimento é inútil. Sofrer no amor não é sofrer em vão. Sofrer no amor é criativo, e conduz a níveis mais elevados de consciência. Sofrer sem amor é um desperdício total, não leva ninguém a lugar algum, e mantém as pessoas em movimento no mesmo círculo vicioso.

O homem que não tem amor é narcisista, fechado. Ele conhece apenas a si mesmo. E quanto ele pode conhecer de si mesmo, se não conhece o outro, uma vez que somente o outro pode funcionar como um espelho? Nunca vai conhecer a si mesmo sem conhecer o outro. O amor é fundamental também para o autoconhecimento. A pessoa que não conheceu o outro em amor profundo, em paixão intensa, em êxtase total, não será capaz de saber quem é, porque não vai ter o espelho para ver seu próprio reflexo.

O relacionamento é um espelho - quanto mais puro o amor, mais elevado; quanto mais limpo o espelho, melhor o espelho. Porém, o amor mais elevado exige que a pessoa esteja aberta. O amor mais elevado exige que a pessoa esteja vulnerável. Ela tem que abandonar sua armadura, e isso é doloroso. É necessário que não esteja constantemente alerta. Tem que abandonar a mente calculista. Tem que se arriscar. Tem que viver perigosamente. O outro pode machucá-la, e é esse o medo de estar vulnerável. O outro pode rejeitá-la, e é esse o medo de estar apaixonada.

O reflexo que a pessoa vai encontrar no outro, de seu próprio eu, pode ser feio, e é essa a ansiedade. Portanto, deve evitar o espelho. Porém, o fato de evitar o espelho não significa que a pessoa vai ficar bela. Ao evitar a situação,a pessoa também não crescerá. O desafio tem que ser aceito.

É preciso amar. Este é o primeiro passo em direção a Deus, e não pode ser ignorado. Aqueles que tentam ignorar o passo do amor nunca chegarão a Deus. Isso é absolutamente necessário, porque a pessoa se torna ciente de sua totalidade somente quando é provocada pela presença do outro, quando sua presença é realçada pela presença do outro, quando ela é tirada de seu mundo narcisista e fechado, para céu aberto.

O amor é um céu aberto. Estar apaixonado é poder voar. Porém, com certeza, o céu infinito gera medo.

Além disso, abandonar o ego é muito doloroso, porque o homem foi ensinado a cultivar o ego. Ele acha que o ego é o seu único tesouro. Protege-o, decora-o, sempre lhe dá polimento, e quando o amor bate à porta, tudo o que é preciso para se apaixonar é colocar o ego de lado, e, sem dúvida, é doloroso. Trata-se de um trabalho de uma vida inteira, é tudo o que ele criou - esse ego feio, essa ideia de que "eu sou separado da existência".

Essa ideia é feia porque é falsa. Essa ideia é ilusória, mas a nossa sociedade é baseada nessa ideia de que cada pessoa é uma pessoa, não uma presença.

A verdade é que não há nenhuma pessoa em todo o mundo, há somente a presença. O ser humano nao é - não como um ego, separado do todo. O todo penetra nele, o todo respira nele, pulsa nele, o todo é a sua vida.

O amor dá ao homem a primeira experiência de estar em sintonia com algo que n~eo é o seu ego. O amor lhe dá a primeira lição de que é possível entrar em harmonia com alguém que nunca fez parte do seu ego. Se pode estar em harmonia com uma mulher, se pode estar em harmonia com um amigo, com um homem, se pode estar em harmonia com seus filhos ou com a mãe, por que não pode estar em harminia com tooos os seres humanos? E se estar em harmonia com uma única pessoa lhe dá tanta alegria, qual será o resultado se estiver em harmonia com todos os seres humanos, por que não pode ficar em harmonia com animais, pássaros e árvores? Daí, então,um passo leva a outro.

O amor é uma escada. Começa com uma pessoa e termina com a totalidade. O amor é o princípio, Deus é o fim. Ter medo do amor, ter medo das dores crescentes do amor, é permanecer fechado em uma cela escura.

O homem moderno está vivendo em uma cela escura, e isso é narcisista. O narcisismo é a maior obsessão da mente moderna.

E depois há problemas, problemas que não têm sentido. Há problemas que são criativos, uma vez que levam a pessoa à consciência mais elevada. Há problemas que não a levam a lugar nenhum, simplesmente a mantém presa, simplesmente a mantém em sua velha bagunça.

O amor gera problemas. Esses problemas podem ser evitados, evitando-se o amor. Mas esses são problemas muito essenciais! É preciso que eles sejam enfrentados, encarados, é preciso que sejam vivenciados, é necessário que se passe por eles e que se vá além. E para se ir além é preciso passar por eles. O amor é a única coisa que vale a pena. Tudo o mais é secundário. Tudo mais é apenas um meio, enquanto o amor é o fim. Portanto, qualquer que seja a dor, permita-se amar.

Se a pessoa não se permite amar, assim como muita gente, ela fica presa consigo mesma. Consequentemente, sua vida não é uma peregrinação, sua vida não é um rio que segue para o oceano; pelo contrário, sua vida é uma poça suja com água parada, e logo não haverá nada além de sujeira e lama. Para que seja mantida limpa é necessário mantê-la fluindo. Um rio permanece limpo porque eu fluxo é contínuo. O fluxo é o processo que o mantém continuamente virgem.

Um amante continua a ser um virgem. Todos os amantes são virgens. As pessoas que não amam não podem continuar virgens, e, portanto, tornam-se dormentes, estagnadas, e começam a feder, mais cedo ou mais tarde; na verdade, mais cedo do que mais tarde, pois não têm para onde ir. A vida delas está morta.

A Terra inteira se tornou um hospício. A humanidade toda está sofrendo de uma espécie de neuroso. E essa neurose é proveniente da estagnação narcisista do homem. Todo mundo está preso na própria ilusão de ter um eu separado, e é por isso que as pessoas enlouquecem. E essa loucura é sem sentido, improdutiva, sem criatividade. Ou as pessoas começam a cometer suicídio. Esses suicídios também são improdutivos, sem criatividade.

Não se pode cometer suicídio tomando veneno, pulando de um penhasco ou atirando em si mesmo, mas é possível cometer um suicídio que passe por um processo muto lento, e é isso o que acontece. Poucas pessoas cometem suicídio de repente. Outras se decidem por um suicídio lento, e morrem aos poucos, bem devagar. Mas a tendência a se tornar suicida virou quase um fenômeno universal.

Isso não é modo de vida, e a razão, a razão fundamental, é que as pessoas esqueceram a linguagem do amor. Não são mais corajosas o suficiente para entrar nessa aventura chamada amor.

O amor é o maior koan zen.

É doloroso, mas não deve ser evitado. Aquele que o evita terá evitado a maior oportunidade de crescer. É preciso entrar no amor, sofrer de amor, porque, por meio do sofrimento, vem um grande êxtase. Sim, há agonia, mas é a partir da agonia que nasce o êxtase. Sim, o indivíduo terá de morrer como um ego, e se pode morrer como um ego, poderá nascer como Deus, como um Buda. E o amor vai lhe dar o primeiro gostinho do tao, do sufismo, do zen. O amor dará a você a primeira prova de que Deus existe, de que a vida não é sem sentido.

Aqueles que dizem que a vida é sem sentido são aqueles que não conheceram o amor. Tudo o que dizem é que faltou amor em suas vidas.

Que haja dor, que haja sofrimento. Atravessem a noite escura, e vão chegar a um belo nascer do sol. É no ventre da noite escura que o sol evolui. É através da noite escura que a manhã chega.

Toda minha abordagem aqui é de amor. Ensino o amor, só amor, nada mais. Podem esquecer Deus, isso é apenas uma palavra vazia. Podem esquecer orações, porque são apenas rituais impostos por outros. O amor é a oração natural, não imposta por ninguém. O homem nasce com ele.

O amor é o verdadeiro Deus, não o Deus dos teólogos, mas o Deus de Buda, de Jesus, de Maomé, o Deus dos sufis. O amor é um tariqa, um método, para matar o indivíduo como um indivíduo separado e ajudá-lo a se tornar o infinito.

É preciso que o homem desapareça como uma gota de orvalho e transforme-se no oceano, mas terá que passar pela porta do amor.

E, com certeza, quando ele começa a desaparecer como uma gota de orvalho, após ter vivido tanto tempo como uma gota de orvalho, dói, porque provavelmente ele pensou: "Sou isso, e agora isso está acontecendo. Estou morrendo". Ele não está morrendo, o que está morrendo é apenas uma ilusão. Ele se identificou com a ilusão, é verdade, mas a ilusão ainda é uma ilusão. E apenas quando a ilusão se for é que ele será capaz de ver quem ele é. E essa revelação leva-o para o pico supremo de alegria, de felicidade, de celebração. 

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6. 

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quarta-feira, outubro 11, 2023

 

Medo do Amor


O amor sempre gera medo, porque o amor é a morte, uma morte maior do que a morte comum, que todos conhecem.

Em uma morte comum, o corpo morre, mas não se trata de uma morte realmente. O corpo é como um vestido: quando está ultrapassado e velho, a pessoa o troca por um novo. Não se trata de morte, é apenas uma mudança: uma mudança de vestido ou uma mudança de residência. Mas a pessoa continua, a mente continua, exatamente a mesma velha mente em corpos novos, exatamente o mesmo velho vinho em garrafas novas. Muda a forma, mas não a mente, muda o formato, mas não a mente. Portanto, a morte comum não é uma morte real, o amor, sim, é uma morte real: o corpo não morre, mas a mente morre, o corpo continua a ser o mesmo, mas o ego desaparece.

Se a pessoa ama, ela vai ter que abandonar todos os conceitos que tem sobre si mesma. Se a pessoa ama, não pode ser o ego, porque o ego não permitirá que ame. Eles são antagônicos. Se escolher o ego, não poderá escolher o amor. Se escolher o amor, terá que abandonar o ego. Daí o medo.

Um medo maior do que a morte se apodera da pessoa sempre que ela está apaixonada. É por isso que o amor desapareceu do mundo. Raramente, muito raramente, é que acontece o fenômeno em que o amor ataca.

O que chamam de amor é apenas uma moeda falsa: as pessoas a inventaram porque é muito difícil viver sem amor. É difícil porque, sem amor, a vida não tem poesia. Sem amor, a árvore existe, mas nunca há flores. Sem amor, as pessoas não podem dançar, não podem comemorar, não podem se sentir agradecidas, não podem orar. Sem amor, os templos são apenas casas comuns, e, com amor, uma casa comum é transformada, transfigurada em um templo. Sem amor, resta às pessoas somente possibilidades, gestos vazios.

Com amor, pela primeira vez, a pessoa se torna substancial. Com amor, pela primeira vez, surge nela a alma. O ego cai, mas surge a alma.

É impossível viver sem amor, então a humanidade criou um truque. A humanidade inventou um truque, um artifício. O artifício é o seguinte: vier um falso amor, de modo que o ego continue por conta própria. Nada é mudado, e a pessoa pode jogar o jogo de estar apaixonada: ela pode continuar pensando que ama, pode continuar acreditando que ama. Mas ao olhar para o seu amor vai ver o que acontece com ela. Nada além de sofrimento, nada além do inferno, nada além de conflito, briga, violência.

As pessoas devem examinar profundamente suas relações amorosas. Elas se parecem mais com relações de ódio do que de amor. É melhor chamá-las de relações de ódio do que de relações de amor. Entretanto, tendo em vista que todo mundo vive da mesma maneira, as pessoas ninca têm percepção disso. Todo mundo carrega a moeda falsa, e as pessoas nunca têm percepção disso. A verdadeira moeda do amor é muito cara: só se pode comprá-la ao custo de perder a si mesmo. Não existe outra maneira.

Portanto, a questão é bastante relevante.

O ego é uma entidade falsa, apenas uma noção, uma nuvem no céu do ser, apenas fumaça, nada substancial, um sonho. O amor exige que a pessoa abandone aquilo que ela não tem, e o amor está pronto para lhe dar aquilo que ela tem e que sempre teve. O amor dá a ela sua alma de volta, enquanto o ego continua a esconder a pessoa de sua alma. E o medo está lá. O medo é natural, mas é preciso ir, apesar do medo.

Seja corajosa, não seja covarde. A verdadeira coragem do ser é testada somente quando surge o amor. A pessoa nunca sabe de que tipo de coragem ela é feita antes de amar. Na vida comum, no mercado, fazendo isto e aquilo, no mundo da ambição e da política do poder, a verdadeira coragem nunca é realmente testada. Nunca ninguém passa pelo fogo.

O amor é o fogo.

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6. 


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quarta-feira, setembro 27, 2023

 

Como resolver problemas do ego

 A primeira coisa a ser entendida é que nenhum problema enraizado no ego pode ser solucionado sem que se transcenda o ego. Pode-se protelar o problema, pode-se conceder um pouco de normalidade, pode-se criar um pouco de normalidade em relação a ele, pode-se diluir o problema,  mas não se pode solucioná-lo. Pode-se fazer com que o homem funcione de forma mais eficiente na sociedade através da psicanálise, mas ela nunca dá solução a um problema. E sempre que um problema é protelado, alterado, cria um outro problema. Ele simplesmente muda de lugar, mas permanece presente. Uma nova erupção virá, mais cedo ou mais tarde, e quando a nova erupção do velho problema ocorrer, será mais difícil protelá-lo e alterá-lo.

A psicanálise é um alívio temporário, porque ela não pode conceber nada que transcenda o ego. Um problema pode ser solucionado somente quando a pessoa pode ir além dele. Se ele não puder ir além dele, então, ela é o problema. Nesse caso, quem vai solucioná-lo? Como alguém poderá solucioná-lo? Portanto, a pessoa é o problema, ou seja, o problema não é algo separado dela.

Yoga, tantra e todas as técnicas de meditação baseiam-se em um fundamento diferente. Dizem que os problemas estão presentes, que os problemas estão em torno da pessoa, mas que a pessoa nunca é o  problema. A pessoa pode transcendê-los, pode olhar para eles como um observador que olha de cima da colina para o vale embaixo.

Esse ser que observa a si mesmo pode ser uma solução para o problema. Realmente, apenas testemunhar um problema já é metade da solução, pois quando a pessoa pode testemunhar um problema, quando pode observá-lo  de forma imparcial, quando não está envolvida nele, ela pode estar ao lado e olhar para o problema. A própria clareza que vem desse testemunho lhe dá a pista, a chave secreta. E quase todos os problemas estão lá, porque não há uma forma clara pra compreendê-los.

Soluções não são necessárias. O que se necessita é clareza.

Um problema devidamente compreendido está resolvido, porque um problema surge através de uma mente que não compreende.

Você cria o problema porque não o compreende. Então, a questão não é solucionar o problema, a questão é criar maior compreensão. E se houver maior compreensão e maior clareza, e o problema puder ser enfrentado de forma imparcial, observado como se não pertencesse a você, como se pertencesse a outra pessoa, se você puder criar uma distância entre o problema e você - somente então o problema poderá ser resolvido. 

A meditação cria uma distância, dá à pessoa uma perspectiva. Ela vai além do problema. O nível de consciência muda.

Através da psicanálise a pessoa permanece no mesmo nível. O nível nunca muda, a pessoa está ajustada no mesmo nível novamente. Sua percepção, sua consciência, sua capacidade de testemunhar não mudam. À medida que  entra na meditação, ela se desloca cada vez mais alto. E pode olhar de cima para seus problemas. Eles agora estão no vale, e a pessoa se deslocou para uma colina. A partir dessa perspectiva, dessa altura, todos os problemas parecem diferentes. E quanto mais a distância cresce, mais a pessoa se torna capaz de observá-los, como se eles não lhe pertencessem.

É bom lembrar que quando um problema não lhe pertence, você sempre pode dar conselhos de como resolvê-lo. Quando o problema pertence a outra pessoa, quando é o outro que está com dificuldade, você é sempre sábio, e pode dar conselhos muito bons. No entanto, se o problema pertence a você mesmo, você simplesmente não sabe o que fazer. O que aconteceu? O problema é o mesmo, mas agora é você que está envolvido nele. Quando se tratava de um problema de outra pessoa, você tinha uma distância a partir da qual podia olhar para o problema de forma imparcial. Todo mundo é bom conselheiro para os outros, mas quando acontece consigo mesmo, toda a sabedoria é perdida em função da perda do distanciamento.

Alguém morreu e a família encontra-se angustiada: uma pessoa que não é da família pode dar bons conselhos. Pode dizer que a alma é imortal, pode dizer que nada morre e que a vida é eterna. No entanto, quando morre alguém que essa pessoa ama, que significa algo para ela, que era próxima, íntima, ela bate no peito sem parar de chorar. Agora ela não consegue dar o mesmo conselho para si, ou seja, que a vida é imortal e que ninguém nunca morre. Agora isso parece absurdo.

Portanto, é bom que as pessoas lembrem que elas podem fazer papel de bobas quando estiverem aconselhando os outros. Quando uma pessoa diz a alguém cujo ente querido morreu que a vida é imortal, ele vai achar isso estúpido.  A pessoa está falando um absurdo para ele. Ele sabe qual é a sensação de perder um ente querido. Nenhuma filosofia pode dar consolo. E ele sabe por que a pessoa está dizendo isso: porque o problema não é dela. A pessoa pode se dar o luxo de utilizar sua sabedoria,  ele, não.

Atraves da meditação a pessoa transcende seu eu comum.

Surge uma nova questão para ela, a partir da qual pode olhar para as coisas de uma maneira nova. É criada a distância. Os problemas estão lá, mas agora estão muito longe, como se acontecessem com outro alguém. Embora agora ela possa dar bons conselhos a si mesma, não há necessidade. A própria distância vai torná-la uma pessoa sábia.

Assim, toda a técnica de meditação consiste em criar uma distância entre os problemas e a pessoa.

Em um determinado momento ela se encontra tão envolvida com seus problemas que não consegue pensar, não consegue contemplar, não consegue enxergar através deles, não consegue testemunhá-los.

A psicanálise ajuda somente no reajuste. Não é uma transformação, isso é uma coisa.

E a outra coisa é: na psicanálise a pessoa se torna dependente.

As pessoas  precisam de um especialista, e o especialista vai fazer tudo. Vai levar três anos, quatro anos, ou até cinco anos, se o problema for muito profundo, e a pessoa vai se tornar dependente, não vai crescer. Em vez disso, pelo contrário, ela se tornará cada vez mais dependente. Vai precisar desse psicanalista todo dia, ou duas ou três vezes por semana. Ao sentir falta dele, passará a se sentir perdida. Se parar a psicanálise, se sentirá perdida. A psicanálise se torna intoxicante, torna-se viciante.

Ela começa a ser dependente de alguém, alguém que é um especialista. Ela pode lhe contar seu problema e ele vai solucioná-lo. Ele vai discuti-lo, e trará as raízes inconscientes do problema. Mas ele irá realizar isso, ou seja, a solução vai ser feita por outro alguém.

É importante lembrar que um problema resolvido por terceiros não vai dar mais maturidade à pessoa. Um problema resolvido por um terceiro pode dar alguma maturidade a ele mesmo, mas não pode dar maturidade à pessoa, que pode se tornar mais imatura. Portanto, sempre que houver um problema, ela vai precisar de algum conselho de um especialista, algum conselho profissional. E não acho que mesmo os psicanalistas amadureçam através dos problemas dos outros, uma vez que eles também fazem psicanálise como pacientes de outros psicanalistas. Eles têm seus próprios problemas. Eles resolvem os problemas das pessoas, mas não conseguem resolver os próprios problemas. Novamente é a questão do distanciamento.

O próprio Wilhelm Reich tentou, repetidas vezes, ser analisado por Sigmund Freud. Freud recusou-se a nalisá-lo, e ele, então, a vida inteira, sentiu-se magoado por ter sido recusado por Freud. E os freudianos, freudianos ortodoxos, nunca aceitaram Reich como especialista, porque ele nunca fez psicanálise como paciente.

Todo psicanalista vai a outro especialista para cuidar dos próprios problemas. É o que ocorre com a profissão médica. Se o médico está doente, ele não pode diagnosticar em causa própria. Ele está tão próximo que tem medo, então ele vai a outro médico. O cirurgião não pode operar o próprio corpo, ou pode? Não há distanciamento. É difícil operar o próprio corpo. Mas também é difícil quando a esposa está realmente doente e tem que ser feita uma cirurgia séria. Nesse caso, ele não pode realizar a cirurgia, porque sua mão vai tremer. O grau de intimidade é tão grande que ele terá medo, e não poderá ser um bom cirurgião. Ele vai ter que aceitar conselhos, e chamar algum outro cirurgião para realizar a cirurgia da esposa. 

O que está acontecendo? Ele está na ativa, tem feito muitas cirurgias. E, agora, o que está acontecendo? Não pode fazer isso no filho ou na esposa, porque o distanciamento é muito pequeno, na verdade, é como se não houvesse distância, Sem distanciamento, o médico não consegue ser imparcial. Dessa forma, um psicanalista pode ajudar os outros, mas quando ele estiver com problemas, terá que aceitar conselhos, terá que ser analisado por outro psicanalista. E é realmente estranho que até uma pessoa como Wilhelm Reich tenha enlouquecido no final.

Veja a vida de Sigmund Freud. Ele é o pai e fundador da psicanálise, ele prosseguiu falando sobre problemas de forma muito profunda. Entretanto, na visão dele, nem um único problema foi solucionado. Nem um único problema solucionado! O medo era um problema tão grande para Freud como para ninguém mais. Ele era muito medroso e nervoso. A ira era um problema tão grande para ele como para ninguém mais. Ele ficava tão irritado que chegava a perder os sentidos quando tinha um acesso de raiva. E, embora esse homem conhecesse muito sobre a mente humana, quando era ele que estava em causa, esse conhecimento parecia inútil.

O próprio Jung desmaiava quando estava com ansiedade profunda, ele também tinha ataques. Qual é o problema? O problema está no distanciamento. Eles pensavam sobre os problemas, mas não tinham se desenvolvido na conscientização. Eles pensavam intelectualmente, profundamente, de forma lógica, e concluíram alguma coisa. Às vezes, essas conclusões podiam estar certas, mas não é essa a questão. Eles não se desenvolveram na conscientização, não se transformaram de forma alguma em um super-homem. E, a menos que a pessoa transcenda a humanidade, os problemas não podem ser resolvidos, podem apenas ser ajustados.

Freud disse, nos últimos dias de vida, que o homem é incurável. No máximo, pode-se ter esperança de que ele possa se ajustar; nada mais que isso. Esse é o máximo! O homem não pode ser feliz, fiz Freud. No máximo, pode-se arranjar uma forma para que ele não seja muito infeliz. Isso é tudo. Mas ele não pode ser feliz, ele é incurável. Que tipo de solução pode vir desse tipo de atitude? E isso após uma experiência de quarenta anos com seres humanos! Ele conclui que o homem não pode ser ajudado, que o homem é naturalmente - ou seja, por natureza - infeliz, e que continuará infeliz.

Mas no Oriente [yoga] é dito que o homem pode ser trancendido. Não é o homem que é incurável, é sua consciência mínima (muito pequena) que cria os problemas. O crescimento da consciência, o aumento da consciência, contribui com a redução dos problemas. Eles existem na mesma proporção; se há um mínimo de consciência, há um máximo de problemas; se há um máximo de consciência, há um mínimo de problemas.

Com consciência total, os problemas simplesmente desaparecem, da mesma forma que o sol nasce de manhã e as gotas de orvalho desaparecem. Com a consciência total não há problemas, porque, com ela, os problemas não podem surgir. No máximo, a psicanálise pode ser uma cura, mas os problemas vão continuar a aparecer, pois ela não atua de forma prevventiva.

A meditação (yoga) vai a uma profundidade maior. Ela muda a pessoa, de modo que não possam ocorrer problemas. A psicanálise lida com os problemas, ao passo que a meditação lida com a pessoa, diretamente, sem se preocupar nem um pouco com os problemas. É por isso que o maior dos psicólogos orientais - Buda, Mahavira ou Krishna - não fala sobre problemas. Devido a isso, a psicologia ocidental acha que a psicologia é um fenômeno novo. Mas não é!

Somente na primeira metade do século XX, pode ser provado cientificamente, por Freud, que existe algo como o inconsciente. Porémj, Buda falava sobre isso 25 séculos antes. No entanto, Buda nunca procurava solucionar qualquer problema, porque, segundo dizia, os problemas eram infinitos. Aquele que for combater todos os problemas nunca será realmente capaz de resolvê-los. É preciso lidar com o próprio homem. E simplesmente esquecer os problemas.

Lidar com o próprio ser e ajudá-lo a crescer. À medida que o ser cresce, à medida que se torna mais consciente, os problemas vão se soltando e a pessoa não precisa se preocupar com eles.

Por exemplo, uma pessoa é  esquizofrênica, rachada, dividida. A psicanálise irá lidar com essa divisão, vai fazer com que essa divisão possa ser trabalhada, vai ajustar esse homem para que ele possa ter um comportamento normal, de modo que ele possa viver em sociedade de forma tranquila. A psicanálise enfrentará o problema, a esquizofrenia. Caso esse homem venha a Buda, Buda não falará sobre o estado esquizofrênico. Ele dirá: "Medite para que o seu ser interior se torne único. Quando o ser interior se tornar único, a divisão vai desaparecer na periferia". A divisão está lá, mas não é a causa, é só o efeito. Em algum lugar profundo no ser há uma dualidade, e ela provocou a rachadura na periferia.

Cimenta-se a rachadura, mas a divisão interna permanece. Depois, a rachadura vai aparecer em algum outro lugar. Então, cimenta-se essa outra rachadura e, em seguida, em algum outro lugar ela aparecerá. Portanto, ao se tratar um problema psicológico, surge imediatamente outro problema e, depois, trata-se outro e surge um terceiro. 

Isso é bom na opinião dos profissionais, porque eles vivem fora disso. Mas isso não serve de ajuda.

No Ocidente, será necessário ir além da psicanálise, e a menos que o Ocidente obtenha os métodos de crescimento da consciência, de crescimento interior do ser, de expansão da consciência, a psicanálise não pode servir de muita ajuda.

Não me preocupo com os problemas das pessoas. Há milhões, e é simplesmente inútil solucioná-los, porque as pessoas são as criadoras e permanecem intocadas. Eu resolvo um problema e a pessoa cria outros dez. A pessoa não pode ser derrotada, porque o criador permanece atrás dos problemas. E enquanto continuo resolvendo problemas, apenas desperdiço minha energia.

Vou colocar de lado os problemas das pessoas, vou simplesmente penetrá-los. O criador deve ser mudado. E, uma vez mudado o criador, os problemas na periferia se soltam. Agora ninguém está cooperando com eles, ninguém está ajudando a criá-los, ninguém está desfrutando deles. As pessoas podem achar esta palavra estranha, mas devem lembrar bem que desfrutam de seus problemas, e que é por isso que elas os criam. Elas gostam de seus problemas por muitos motivos.

[continua]

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6. 

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domingo, setembro 24, 2023

 

A Loucura

A loucura é de dois tipos, mas a psiquiatria moderna tem conhecimento de apenas um deles. E o fato de ela não conhecer o outro tipo faz com que o seu conhecimento sobre a loucura seja muito desigual, errôneo, deficiente e prejudicial também.

O primeiro tipo de loucura de que os psiquiatras têm conhecimento corresponde a cair abaixo da mente racional. Quando a pessoa não consegue lidar com as realidades, quando as realidades são intoleráveis, quando se tornam insuportáveis, a loucura é uma maneira de fugir para o próprio mundo subjetivo, de modo que ela possa esquecer as realidades que estão presentes. Ela cria o próprio mundo subjetivo, começa a viver em uma espécie de mundo imaginário, e começa a sonhar até mesmo de olhos abertos, de modo que consiga evitar as realidades que se tornaram intolerantes e que são insuportáveis. Isso é um refúgio, a pessoa cai abaixo da mente racional. Isso é um retorno para a mente animal. Isso é mergulhar no inconsciente.

Há outras pessoas que lidam com a mesma coisa de outras maneiras. O alcoólatra lida por meio do álcool. Bebe demais, torna-se completamente inconsciente. Esquece o mundo inteiro e todos os problemas e ansiedades: a esposa, os filhos, o mercado, as pessoas. Ele passa para o seu inconsciente com a ajuda do álcool. Esse é um tipo temporário de loucura, que vai embora após algumas horas.

E sempre que há momentos difíceis no mundo, as drogas se tornam muito importantes. Depois da Segunda Guerra Mundial, as drogas se tornaram de grande importância em todo o mundo, particularmente nos países que viram a guerra, nos países que se tornaram conscientes de que as pessoas estavam sentadas em um vulcão que poderia entrar em erupção a qualquer momento. O mundo inteiro viu Hiroshima e Nagasaki sendo queimadas em questão de segundos, 100 mil pessos queimadas em cinco segundos. Agora, a realidade está difícil de suportar. E é por isso que a nova geração, a geração mais jovem, passou a se interessar por drogas.

Em tempos de estresse e tensão, as pessoas começam a usar drogas. E isso sempre foi assim. É uma maneira de criar uma loucura temporária. E por loucura quero dizer cair abaixo da mente racional, porque somente a mente racional pode estar ciente dos problemas. Ela não conhece nenhuma solução, conhece somente problemas. Assim, se os problemas são controláveis, e a pessoa consegue conviver com eles, ela permanece sã. Quando a pessoa percebe que isso se torna insuportável, ela enlouquece.

A insanidade é um processo incorporado para evitar problemas, realidades, ansiedades e situações de estresse.

As pessoas os evitam de muitas maneiras. Alguém vai se tornar alcoólatra, alguém vai tomar LSD, algúém vai fumar maconha. E há outras pessoas que não são corajosas, e que vão ficar doentes. Essas vão ter câncer, tuberculose, paralisia e, depois, podem dizer ao mundo: "O que eu posso fazer? Estou paralisada. Se não posso enfrentar as realidades, não é de minha responsabilidade. Agora estou paralisada..." ou "Se o meu negócio está degringolando, o que posso fazer? Estou com câncer".

Estas são maneiras de as pessoas protegerem o ego, maneiras pobres, maneiras lastimáveis, mas, ainda assim, maneiras de proteger o ego.

Onde quer que a vida se torne tensa em demasia, todas essas coisas vão acontecer. As pessoas vão ter doenças estranhas, doenças incuráveis. E essas doenças são incuráveis porque há um grande apoio interno à pessoa para a doença, e se a pessoa não cooperar com a medicina e com o médico, não há possibilidade de curá-la. Ninguém pode curar uma pessoa contra ela própria: é bom lembrar disso como uma verdade fundamental.

Se por parte da pessoa houver um investimento profundo no câncer, se ela quiser que o câncer esteja presente, porque a protege, isso lhe dará uma sensação de que é por causa do câncer que ela não é capaz de lutar no mercado, que ela não é capaz de competir, que é por causa do câncer. E se isso lhe dá satisfação, se esse investimento está presente, então ninguém poderá curá-la, porque ela vai continuar criando doenças. É uma doença psicológica, está enraizada em sua psicologia.

E todo mundo sabe disso. Os alunos começam a se sentir mal quando a prova se aproxima. Alguns alunos enlouquecem na hora da prova. E, após a avaliação, eles ficam bem novamente. Toda vez que têm prova, eles adoecem, com febre, com pneumonia, com hepatite, isso e aquilo. Qualquer um que observar, vai se surpreender. Por que na época de provas tantos alunos adoecem? E de repente, depois delas,  tudo volta ao normal? Isso é um truque, uma estratégia. Eles podem dizer para os pais: "O que posso fazer? Eu estava doente, foi por isso que não passei" ou "Eu estava doente, foi po isso que fiquei em terceiro. Caso contrário, a medalha de ouro com certeza seria minha". É uma estratégia.

Se a doença da pessoa é uma estratégia, então, não há como curá-la. Se o alcoolismo é uma estratégia, então, não há nenhuma maneira de curá-lo, porque a pessoa quer que o alcoolismo esteja presente. O ser humano é um criador, ele cria isso por conta própria, talvez não de forma consciente.

E, então, há a loucura, que é o último recurso. Quando tudo fracassa, eté mesmo o câncer, o álcool, a maconha, a paralisia, quando tudo realmente fracassa, o último recurso é enlouquecer.

Por isso é que a loucura acontece mais nos países do Ocidente do que no Oriente, porque no Oriente a vida ainda não é tão estressante. As pessoas são pobres, mas a vida não é tão estressante. As pessoas são tão pobres que não podem arcar com tanto estresse. As pessoas são tão pobres que não podem pagar psiquiatras, psicanalistas.

A loucura é um luxo. Só países ricos podem arcar com isso.

Esse é um tipo de loucura de que os psicólogos têm conhecimento: mergulhar abaixo da mente racional, mover-se para o inconsciente, abandonar a pouca consciência restante, que não era muita em um primeiro momento, uma vez que apenas um décimo da mente estava consciente. A pessoa estava exatamente como um iceberg, um décimo acima da superfície, nove décimos abaixo da superfície. Nove décimos de sua mente estavam inconscientes. A loucura significa abandonar aquele décimo consciente, de modo que todo o iceberg vá para baixo da superfície.

Mas há um outro tipo de loucura, também chamada assim em função de certa semelhança, que está além da mente racional comum. Uma cai abaixo da mente racional, enquanto a outra fica acima da mente racional, para cima. Em ambos os casos a mente racional está perdida: no primeiro, a pessoa fica inconsciente e, no segundo, fica superconsciente. Em ambos os casos a mente comum está perdida.

No primeiro caso, a pessoa fica totalmente inconsciente, e surge certa integridade nela. É possível observar: há certa integridade nas pessoas loucas, certa consistência, elas são uma unidade. Pode-se confiar em um louco. Ele não é dois, ele é único. É muito consistente, porque tem apenas uma mente, que é o inconsciene. A dualidade desapareceu. Além disso, é possível encontrar certa inocência em um louco. Ele é como uma criança. Ele não é astuto, não pode ser. Na verdade, ele teve de se tornar louco porque não podia se tornar astuto. Não podia lidar com um mundo astuto. Há de se encontrar certa simplicidade, certa pureza, em um louco.

Basta observar pessoas loucas para se apaixonar por elas. Elas têm uma espécie de unidade. Elas não são divididas, não são separadas, são uma unidade. É claro, elas são uma unidade contra a realidade, elas são uma unidade em seu mundo de sonhos, elas são uma unidade em suas ilusões, mas são uma unidade. A loucura tem uma consistência, uma união. Não há nenhuma dúvida nisso, é crença total.

E o mesmo vale para o caso com o outro tipo de loucura. O homem vai acima da razão, além da razão, torna-se completamente consciência, superconsciente. Na primeira loucura, o décimo que estava consciente é dissolvido nas nove partes, os nove décimos, que estavam inconscientes. Na segunda loucura, os nove décimos que não estavam conscientes começam a se mover para cima, e todos eles vêm paa a luz, acima da superfície. A mente, como um todo, se torna consciene.

Este é o significado de a palavra "Buda" tornar-se absolutamente consciente. Agora, esse homem também vai parecer louco, porque está consciente, completamente consciente. Ele estará autoconsciente, mais autoconfiante do que qualquer louco jamais poderá estar. Ele estará completamente integrado. Ele será um indivíduo, literalmente um "indivíduo", que significa indivisível. Ele não terá  nenhuma divisão.

Portanto, os dois são parecidos: o louco tem convicção e o Buda, confiança. E confiança e convicção são parecidas. O louco é uma unidade, completamente inconsciente; o Buda também é uma unidade, mas totalmente consciente. E a unicidade de ambos é semelhante. O louco abandonou a razão, o raciocínio, a mente, da mesma forma que o Buda, uma vez que ele também abandonou o raciocínio, a racionalidade, a mente. Embora isso seja semelhante, eles são polos opostos. Um caiu abaixo da humanidade e o outro se elevou acima da humanidade.

A psicologia moderna permanecerá incompleta caso não comece a estudar os Budas. Vai ficar incompleta, sua visão vai permanecer incompleta, parcial, e uma visão parcial é muito perigosa. Uma verdade parcial é muito perigosa, mais perigosa do que uma mentira, porque dá a impressão de que é o que está certo.

A psicologia moderna tem que dar um salto quântico. Tem que se tornar a psicologia dos Budas. Terá que ir fundo no sufismo, no zen, no tantra, na yoga, no tao. Somente depois é que será realmente psicologia. A palavra "psicologia" significa a ciência da alma. Portanto, ainda não é psicologia, ainda não é a ciência da alma.

Essas são as duas possibilidades: a pessoa pode ficar abaixo de si ou pode ficam acima de si.

Torne-se louco como Buda, Maomé, Cristo. Torne-se um louco como eu. E essa loucura tem uma grande beleza, porque tudo que é belo nasce dessa loucura, e tudo o que é poético flui dessa loucura. As maiores experiências da vida, os maiores ^wxtases da vida, nascem dessa loucura.

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6. 

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terça-feira, setembro 19, 2023

 

O Animal e o Divino


O homem é um dilema porque é uma dualidade. O homem não é um ser único: ele é o passado e o futuro. O passado significa o animal e o futuro significa o divino. E entre os dois está o presente, entre os dois está a existência do homem, dividida, separada em direções diametralmente opostas. 

Se o homem olha para trás, ele é um animal. É por isso que a ciência não consegue acreditar que o homem seja alguma coisa mais que não apenas outro animal; afinal, a ciência investiga somente o passado. Charles Darwin e outros estão certos de que o homem nasce dos animais. É verdade em relação ao passado, mas não em relação à totalidade do homem.

A religião olha para o possível, aquilo que pode acontecer no futuro e ainda não aconteceu. A ciência disseca a semente e não consegue achar nenhuma flor lá. A religião é visionária, sonha e é capaz de enxergar o que ainda não aconteceu: a flor. É claro, aquela flor não pode ser encontrada dissecando-se a semente.

A religião olha para o possível e acha que o homem não é um animal, e sim divino: o homem é Deus. E ambos são verdadeiros. O conflito é infundado. O conflito entre a ciência e a religião é fútil. As direções, os métodos de trabalho, os campos de atuação de ambas são totalmente diferentes.

A ciência sempre reduz tudo à fonte, enquanto a religião sempre pega um voo em direção ao objetivo. O homem é tanto um quanto o outro, e é por isso que ele é um dilema, uma ansiedade constante: ser ou não ser, ser isso ou ser aquilo?

A guerra dá uma oportunidade para o homem se tornar animal, e é por isso que a guerra tem tanta atração. A violência exerce grande atração, vide as guerras e os filmes.

É preciso que se entenda uma lei fundamental: nada pode retroceder. No máximo, pode-se fingir, no máximo, pode-se enganar, mas nada pode voltar para trás, porque o tempo não se move para trás. O tempo sempre vai em frente. Não se pode transformar um velho em uma criança, isso é impossível. A árvore não pode regredir à condição da semente original, é impossível. A evolução é contínua, e não há nenhuma forma de evitá-la ou forçá-la a regredir.

O homem é Deus em potencial e, a menos que se torne um Deus real, não haverá nenhuma possibilidade de satisfação. E, ao se tornar divino, o que fazer com o animal?

A solução mais simples que apareceu repetidamente ao longo dos séculos é a seguinte: reprimir o animal. Ou então, reprimir o divino, através da violência, através das drogas, ou seja, esquecer o divino. Esta é uma solução, embora nunca seja bem-sucedida, pois, pela própria natureza das coisas, está fadada a fracassar.

Reprimir o animal! Mas o homem não pode reprimir o animal, porque o animal tem uma energia enorme. O animal foi todo o seu passado e tem milhares de anos. Ele tem raízes profundas no homem, e este não pode se ver livre dele tão facilmente, apenas num piscar de olhos. Estará sendo simplesmente estúpido.

E o animal é a base do homem, é sua própria fundação. O homem nasce como um animal, e não é diferente de nenhum outro animal. Pode parecer diferente, mas não é, pois o fato de ter nascido homem não o torna diferente.

99% das pessoas religiosas têm feito algo completamente errado, ou seja, têm seguido exatamente a mesma lógica que é seguida pelas pessoas violentas, pelos alcoólatras. O mesmo tipo de lógica: esqueça o animal. Muitas técnicas foram desenvolvidas para esquecer o animal: entoar mantras para que se esqueça o animal, tornar-se ocupado enquanto se entoa o mantra, e seguir repetindo: "Rama, Rama, Rama, Rama." Repetir tão rápido que a mente como um todo fique repleta de vibração desta única palavra: "Rama". Essa é simplesmente uma forma de evitar o animal, embora ele esteja lá.

Pode-se prosseguir entoando o "Rama" durante séculos... o animal não vai ser alterado por meio de um truque tão simples. Não se pode enganar o animal. Vai permanecer apenas uma religiosidade muito superficial. Basta raspar qualquer homem religioso para se encontrar o animal dentro dele.

O homem vai à igreja, o homem lê a Bíblia, o homem entoa mantras, o homem faz orações, mas é tudo formal. O coração não está na ação. E o animal dentro dele ri dele e o ridiculariza. O homem pode prosseguir com seus mantras por horas, mas quando uma mulher bonita passa, de repente, toda a entonação desaparece e ele esquece tudo sobre Deus.

Qualquer coisinha que seja é suficinete! O homem é insultado e há raiva, o animal está pronto para se vingar e o homem está furioso. Na verdade, as pessoas religiosas ficam mais zangadas do que quaisquer outras pessoas, porque estas não se reprimem tanto.

Mahatma Gandhi escreveu que, mesmo aos setenta anos, ele ainda tinha sonhos sexuais. Ele esclareceu: "Durante o dia tornei-me disciplinado, e o dia inteiro nem mesmo um único pensamento sobre sexo vem a mim, Porém, à noite, estou inconsciente, de modo que toda a disciplina e todo o controle desaparecem".

A visão de Sigmund Freud é muito valiosa: para saber sobre um homem é preciso conhecer seus sonhos, e não sua vida acordado. A vida enquanto o homem está acordado é pseudo. Sua vida real se declara em seus sonhos, porque os sonhos são mais naturais, uma vez que não há repressão, não há disciplina, não há controle. Por isso, a psicanálise não se importa com a vida desperta. Basta observar a razão: a vida enquanto a pessoa está acordada é tão pseudo (falsa) que a psicanálise não acredita nela de jeito nenhum. É inútil. A psicanálise penetra nos sonhos, porque os sonhos são muito mais verdadeiros do que a chamada vida em que se está acordado.

É irônico que a vida em que se está acordado, que é tida como a vida real, não seja considerada pelos psicanalistas como real, e sim mais irreal do que os sonhos. Os sonhos são muito mais reais, porque a pessoa não está lá para distorcê-los, uma vez que está em sono profundo, a mente consciente está adormecida e o inconsciente está livre para dizer o que quiser. E o inconsciente é a sua mente verdadeira: o inconsciente é nove décimos da mente total, nove vezes maior do que a mente consciente.

E o que a pessoa faz quando luta com a sua sexualidade, com sua raiva, com a sua ganância? Continua jogando-as no inconsciente, na escuridão do porão, e achando que, ao deixar de vê-las, está se livrando delas. No entanto, não está se livrando...

Que seja compreendido de uma vez por todas: nenhuma energia pode jamais ser reprimida. A energia pode ser transformada, mas nunca reprimida.

A verdadeira religião consiste em alquimia, em técnicas e métodos de transformação.

A verdadeira religião consiste não em reprimir o animal, mas em purificá-lo, elevá-lo ao divino, usando-o como veículo para seguir em direção ao divino. Ele pode se tornar um veículo poderosíssimo, porque é energia.

O sexo pode ser usado como uma grande energia, pode ser usado como veículo até a própria porta de Deus. No entanto, se a pessoa o reprime, ela vai ficar cada vez mais enrolada...

Se a pessoa reprimir o sexo, fica irritada, pois toda a energia que se transformaria no sexo se transforma em raiva. E é melhor fazer sexo do que ficar irritado. No sexo pelo menos há algo de amor, enquanto na raiva há apenas pura violência, nada mais.

Se o sexo é reprimido, a pessoa se torna violenta - em relação aos outros ou a si mesma. Estas são as duas possibilidades: ou vai se tornar sádica e torturar os outros, ou vai se tornar masoquista e torturar a si mesma. Mas haverá sempre tortura.

Ao longo dos séculos, os soldados nunca tiveram permissão para ter relações sexuais. Por que? Porque, se os soldados tivessem permissão para ter relações sexuais, não reuniriam raiva suficiente dentro de si, violência suficiente dentro de cada um. O sexo para eles seria uma libertação, eles se tornariam mansos, e uma pessoa mansa não pode lutar. Deixe que o soldado tenha fome de sexo para que ele seja obrigado a lutar melhor. Na verdade, a violência dele é um substituto para sua sexualidade.

E Sigmund Freud está certo novamente quando diz que todas as armas são nada mais do que símbolos fálicos: a espada, a faca, a baioneta, não são nada além de símbolos fálicos. O soldado não teve permissão para entrar no corpo de alguém, no corpo de alguma mulher. Agora ele está louco para entrar, agora ele é capaz de fazer qualquer coisa. Um grande desejo pervertido entrou em seu ser agora. Sexo reprimido: ele gostaria de entrar no corpo de alguém por meio de uma baioneta, por meio de uma espada...

Ao longo dos séculos, o soldado foi forçado a reprimir seus desejos sexuais.

Pense um instante: aquele que quiser lutar vai ter que deixar de fazer sexo por alguns dias. Pode perguntar a Muhammad Ali (antigamente Cassius Clay) e a outros boxeadores: antes da luta, durante alguns dias, eles têm de se tornar celibatários. É uma obrigação! Pode perguntar aos competidores olímpicos, durante alguns dias, eles têm de deixar de fazer sexo. Isso dá um impulso, dá uma grande violência, torna os competidores capazes de lutar. Eles correm mais rápido, atacam mais rápido, porque a energia de luta está fervendo por dentro. Daí o soldado ter sido reprimido.

Basta permitir que todos os exércitos do mundo sejam satisfeitos sexualmente para que haja paz. Basta permitir que as pessoas tenham satisfação sexual para que haja menos conflitos. Se o amor se espalhar, a guerra desaparecerá - os dois não podem coexistir.

A transformação é o caminho. As pessoas não devem reprimir nada. Se a sexualidade está lá, não deve ser reprimida, pois, do contrário, cria-se uma nova complexidade, que vai ser mais difícil resolver...

Para aqueles que forem capazes de vir para a sexualidade natural, espontânea, as coisas serão muito simples, de um modo que nem se pode imaginar. E, depois, a energia resultante é também natural, e essa energia natural não cria nenhum obstáculo para a transformação. A transformação pode ocorrer se, primeiro, a pessoa aceitar o seu ser natural.

O que quer que seja natural é bom. Sim, é possível obter mais, mas isso só será possível se a pessoa aceitar sua natureza como um todo, se acolhê-la, se não se sentir culpada em relação a ela. Ser culpado, sentir-se culpado, é não ser religioso. No passado, foi dito exatamente o contrário: as pessoas devem se sentir culpadas para que sejam religiosas. E eu digo: sintam-se culpados e nunca serão religiosos.

Abandonem a culpa!

O homem é tudo aquilo que Deus fez dele. O homem é tudo aquilo que a existência fez dele.

O sexo não é criação do homem: é um presente de Deus!

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.


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sexta-feira, setembro 15, 2023

 

A Força de Vontade


A força de vontade é ensinada a todos como algo de grande valor. A toda criança se diz para ter força de vontade. E a força de vontade é algo contra a espontaneidade, de modo que não se pode ficar à vontade em uma situação repousante. Será que as flores têm que fazer muito esforço para florescer? As árvores têm uma ação vigorosa para crescer? Não há nenhuma ação.

Lao Tsé costumava dizer: "Olhe para as árvores, olhe para os rios, olhe para as estrelas, e você vai entender a 'ação sem ação'".

Com certeza, o rio está fluindo em direção ao oceano, mas não se pode chamar isso de ação, porque não há nenhuma vontade forçando-o para ir em direção ao oceano. Ele é muito tranquilo, não tem pressa, não tem urgência, não tem nem mesmo o anseio de que deva chegar, não disputa com outros rios que possam, talvez, chegar à frente dele. Ele simplesmente segue, cantando e dançando sua dança pelas montanhas, pelos vales, pelas planícies, sem se preocupar se atinge o objetivo ou não. Cada momento é tão belo e precioso! Quem se preocupa com o amanhã?

A força de vontade é usada para criar uma personalidade falsa na pessoa.

A força de vontade é outro belo nome para a entidade feia chamada ego.

Um dos grandes psicólogos do século XX, Alfred Adler, baseou toda a sua análise psicológica no simples fato de que todos os problemas do homem são provenientes da vontade de poder. Ele quer tornar-se alguém, alguém especial, alguém superior aos outros, alguém mais santo que os outros. Não importa se está no mercado ou no mosteiro, a luta é para estar no topo.

Quanto mais o homem luta, mais ele é bem-sucedido e mais distante fica de seu próprio ser, porque se torna cada vez mais tenso, cada vez mais preocupado. A vida torna-se uma agonia constante, em função do medo do fracasso. Mesmo que seja bem-sucedido, existe o medo de que alguém possa afastá-lo para longe de sua posição. Um homem que vive para alcançar algo pode nunca ter paz.

Assim, de um lado, criou-se essa ficção de ação vigorosa. Talvez as pessoas pensem que a meditação exige uma ação vigorosa. No entanto, é preciso apenas relaxamento. É preciso abandonar a própria mente, esquecer que há qualquer futuro, permitir que este momento seja suficiente por si só, e que o próximo momento vai cuidar de si mesmo.

Aquele que puder se alegrar neste momento será capaz de se alegrar mais no momento que está chegando, porque se tornará cada vez mais experiente em ser alegre, em dançar, em cantar. E vai ficar cada vez mais seguro de si, a ponto de não precisar ser outra pessoa. Quem quer que a pessoa seja, ela vai ser capaz de desfrutar do êxtase supremo, sem ser rica, sem estar no poder, sem ser mundialmente famosa, sem ser uma celebridade.

Você pode ser um zé-ninguém e, ainda assim, todos os tesouros da existência podem lhe pertencer, porque eles não estão fora de você. Você desconhece sua própria riqueza interior.

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.

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