segunda-feira, outubro 16, 2023

 

A Simplicidade

Ser um Buda, ser iluminado, é o fenômeno mais comum. Quando digo "comum", quero dizer: tem que ser assim. Se parece muito extraordinário é por culpa do homem, é porque ele cria muitas dificuldades, e as adora.

Primeiro, ele cria o obstáculo, depois, tenta atravessá-lo. E então se sente bastante eufórico. Em primeiro lugar, não há nenhum obstáculo. Porém, como o ego dele não vai se sentir bem, ele tem que criar um longo caminho para chegar ao ponto que era o mais próximo, o mais íntimo. E ele nunca tinha perdido!

Portanto, o homem não deve procurar algo misterioso. Deve apenas ser simples e inocente. E, com isso, toda a existência se abre para ele. O homem não vai enlouquecer, ele pode simplesmente sorrir para o absurdo da coisa toda que estava tão perto, mas não pôde alcançá-la. E não havia nenhum obstáculo. Foi um milagre como ele continuou perdendo.

É preciso olhar para a mente, a mente é o problema. A mente quer algo especial. E, devido a esse desejo, a mente continua a criar coisas especiais. Na realidade, não há nada de especial: ou toda a realidade é especial ou nada é especial.

Portanto, não deseje o misterioso. Na verdade, não se deve desejar nada. Basta ficar à vontade, em casa, com a realidade como ela é.

Seja comum, ser comum é maravilhoso, porque assim não há tensão, não há angústia. Ser comum é muito misterioso, porque é bem simples.

Para mim, meditação é um lazer, um jogo, não uma tarega. Mas para as pessoas continua a ser uma tarefa, pois pensam em termos de trabalho. Vai ser bom compreender a diferença entre trabalho e lazer.

O trabalho é orientado para uma finalidade, e não é suficiente por si só. Deve levar a algum lugar, a alguma felicidade, a algum objetivo, ter alguma finalidade. É uma ponte, um meio. Em si, não tem sentido. O significado está escondido no objetivo.

O lazer é totalmente diferente. Não há objetivo para ele, ou ele próprio é o objetivo. A felicidade não está além dele, fora dele, basta estar nele para estar feliz. O lazer não vai propiciar ao homem nenhuma felicidade fora dele, não há significado além dele, tudo o que está lá é intrínseco, interno. A pessoa se diverte não por causa de alguma razão, mas porque aproveita o aqui e agora. Não tem finalidade alguma.

É por isso que somente as crianças conseguem de fato brincar. Quanto mais as pessoas crescem, menor a sua capacidade de brincar. É devido a ter cada vez mais objetivos que as pessoas cada vez mais perguntam: "Por que eu deveria apreciar momentos de lazer?"  Cada vez mais elas se tornam orientadas para finalidades: alguma coisa deve ser alcançada por meio disso, pois, por si só, o lazer não tem sentido. O valor intrínseco perde o sentido para elas. Somente as crianças podem, porque não pensam no futuro. Elas podem estar aqui eternamente.

O trabalho é tempo, enquanto o lazer é atemporal.

A meditação deve ser como desfrutar do lazer, e não orientada para objetivos. Não se deve meditar para alcançar algo, pois, dessa forma, todo o sentido é perdido. Não se pode meditar se a intenção for meditar tendo em vista um objetivo. Só é possível meditar se for para desfrutar da meditação em si, e se divertir, se nada tiver que ser alcançado a partir dela, se for belo em si.

A meditação por amor à meditação... daí ela se torna atemporal. E, consequentemente, o ego não pode aparecer.

Sem desejo, a pessoa não pode se projetar para o futuro, sem desejo, a pessoa não pode ter expectativas, e, sem desejo, nunca ficará desapontada. Sem desejo, o tempo realmente desaparece: a pessoa se move de um momento de eternidade para outro momento de eternidade. Não há nenhuma sequência... e, portanto, ela nunca perguntará por que não está acontecendo nada.

Para mim, não cheguei a conhecer o mistério ainda. O próprio lazer é o mistério; o  fato de ser atemporal e desprovido de desejo é o mistério. E ser comum é o "objetivo", se me permitem usar a palavra. Ser comum é o objetivo.

Se a pessoa pode ser comum, ela está liberada; consequentemente, não há nenhum sansara para ela, nenhum mundo para ela.

O mundo inteiro é uma luta para ser extraordinário. Alguns tentam na política, alguns tentam na economia, alguns tentam na religião. Mas a cobiça permanece a mesma. 

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6. 

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