quinta-feira, outubro 12, 2023
A Dor no Amor
O amor é doloroso porque gera o caminho para a felicidade. O amor é doloroso porque ele transforma; o amor é mutação. Cada transformação vai ser dolorosa, porque o velho tem de ser deixado para poder vir o novo. O velho é familiar, seguro, estável, o novo é absolutamente desconhecido. A pessoa estará se movendo em um oceano inexplorado. Não se pode usar a mente com o novo, ao passo que, com o velho, a mente é hábil. A mente pode funcionar somente com o velho - com o novo, a mente é completamente inútil.
Consequentemente, surge o medo e, ao deixar o velho, o confortável, o mundo seguro, o mundo de conveniência, surge a dor. É a mesma dor que a criança sente quando sai do útero da mãe. É a mesma dor que o pássaro sente quando sai do ovo. É a mesma dor que o pássaro vai sentir quando tentar voar pela primeira vez.
O medo do desconhecido, a segurança do conhecido, a insegurança do desconhecido e a imprevisibilidade do desconhecido fazem com que a pessoa fique muito assustada.
E como a transformação vai ser do ser para um estado de não ser, a agonia é muito profunda. Mas não se pode ter êxtase sem passar pela agonia. Se o ouro quer ser purificado, tem que passar pelo fogo.
O amor é fogo.
É por causa da dor do amor que milhões de pessoas vivem uma vida sem amor. Elas também sofrem, e seu sofrimento é inútil. Sofrer no amor não é sofrer em vão. Sofrer no amor é criativo, e conduz a níveis mais elevados de consciência. Sofrer sem amor é um desperdício total, não leva ninguém a lugar algum, e mantém as pessoas em movimento no mesmo círculo vicioso.
O homem que não tem amor é narcisista, fechado. Ele conhece apenas a si mesmo. E quanto ele pode conhecer de si mesmo, se não conhece o outro, uma vez que somente o outro pode funcionar como um espelho? Nunca vai conhecer a si mesmo sem conhecer o outro. O amor é fundamental também para o autoconhecimento. A pessoa que não conheceu o outro em amor profundo, em paixão intensa, em êxtase total, não será capaz de saber quem é, porque não vai ter o espelho para ver seu próprio reflexo.
O relacionamento é um espelho - quanto mais puro o amor, mais elevado; quanto mais limpo o espelho, melhor o espelho. Porém, o amor mais elevado exige que a pessoa esteja aberta. O amor mais elevado exige que a pessoa esteja vulnerável. Ela tem que abandonar sua armadura, e isso é doloroso. É necessário que não esteja constantemente alerta. Tem que abandonar a mente calculista. Tem que se arriscar. Tem que viver perigosamente. O outro pode machucá-la, e é esse o medo de estar vulnerável. O outro pode rejeitá-la, e é esse o medo de estar apaixonada.
O reflexo que a pessoa vai encontrar no outro, de seu próprio eu, pode ser feio, e é essa a ansiedade. Portanto, deve evitar o espelho. Porém, o fato de evitar o espelho não significa que a pessoa vai ficar bela. Ao evitar a situação,a pessoa também não crescerá. O desafio tem que ser aceito.
É preciso amar. Este é o primeiro passo em direção a Deus, e não pode ser ignorado. Aqueles que tentam ignorar o passo do amor nunca chegarão a Deus. Isso é absolutamente necessário, porque a pessoa se torna ciente de sua totalidade somente quando é provocada pela presença do outro, quando sua presença é realçada pela presença do outro, quando ela é tirada de seu mundo narcisista e fechado, para céu aberto.
O amor é um céu aberto. Estar apaixonado é poder voar. Porém, com certeza, o céu infinito gera medo.
Além disso, abandonar o ego é muito doloroso, porque o homem foi ensinado a cultivar o ego. Ele acha que o ego é o seu único tesouro. Protege-o, decora-o, sempre lhe dá polimento, e quando o amor bate à porta, tudo o que é preciso para se apaixonar é colocar o ego de lado, e, sem dúvida, é doloroso. Trata-se de um trabalho de uma vida inteira, é tudo o que ele criou - esse ego feio, essa ideia de que "eu sou separado da existência".
Essa ideia é feia porque é falsa. Essa ideia é ilusória, mas a nossa sociedade é baseada nessa ideia de que cada pessoa é uma pessoa, não uma presença.
A verdade é que não há nenhuma pessoa em todo o mundo, há somente a presença. O ser humano nao é - não como um ego, separado do todo. O todo penetra nele, o todo respira nele, pulsa nele, o todo é a sua vida.
O amor dá ao homem a primeira experiência de estar em sintonia com algo que n~eo é o seu ego. O amor lhe dá a primeira lição de que é possível entrar em harmonia com alguém que nunca fez parte do seu ego. Se pode estar em harmonia com uma mulher, se pode estar em harmonia com um amigo, com um homem, se pode estar em harmonia com seus filhos ou com a mãe, por que não pode estar em harminia com tooos os seres humanos? E se estar em harmonia com uma única pessoa lhe dá tanta alegria, qual será o resultado se estiver em harmonia com todos os seres humanos, por que não pode ficar em harmonia com animais, pássaros e árvores? Daí, então,um passo leva a outro.
O amor é uma escada. Começa com uma pessoa e termina com a totalidade. O amor é o princípio, Deus é o fim. Ter medo do amor, ter medo das dores crescentes do amor, é permanecer fechado em uma cela escura.
O homem moderno está vivendo em uma cela escura, e isso é narcisista. O narcisismo é a maior obsessão da mente moderna.
E depois há problemas, problemas que não têm sentido. Há problemas que são criativos, uma vez que levam a pessoa à consciência mais elevada. Há problemas que não a levam a lugar nenhum, simplesmente a mantém presa, simplesmente a mantém em sua velha bagunça.
O amor gera problemas. Esses problemas podem ser evitados, evitando-se o amor. Mas esses são problemas muito essenciais! É preciso que eles sejam enfrentados, encarados, é preciso que sejam vivenciados, é necessário que se passe por eles e que se vá além. E para se ir além é preciso passar por eles. O amor é a única coisa que vale a pena. Tudo o mais é secundário. Tudo mais é apenas um meio, enquanto o amor é o fim. Portanto, qualquer que seja a dor, permita-se amar.
Se a pessoa não se permite amar, assim como muita gente, ela fica presa consigo mesma. Consequentemente, sua vida não é uma peregrinação, sua vida não é um rio que segue para o oceano; pelo contrário, sua vida é uma poça suja com água parada, e logo não haverá nada além de sujeira e lama. Para que seja mantida limpa é necessário mantê-la fluindo. Um rio permanece limpo porque eu fluxo é contínuo. O fluxo é o processo que o mantém continuamente virgem.
Um amante continua a ser um virgem. Todos os amantes são virgens. As pessoas que não amam não podem continuar virgens, e, portanto, tornam-se dormentes, estagnadas, e começam a feder, mais cedo ou mais tarde; na verdade, mais cedo do que mais tarde, pois não têm para onde ir. A vida delas está morta.
A Terra inteira se tornou um hospício. A humanidade toda está sofrendo de uma espécie de neuroso. E essa neurose é proveniente da estagnação narcisista do homem. Todo mundo está preso na própria ilusão de ter um eu separado, e é por isso que as pessoas enlouquecem. E essa loucura é sem sentido, improdutiva, sem criatividade. Ou as pessoas começam a cometer suicídio. Esses suicídios também são improdutivos, sem criatividade.
Não se pode cometer suicídio tomando veneno, pulando de um penhasco ou atirando em si mesmo, mas é possível cometer um suicídio que passe por um processo muto lento, e é isso o que acontece. Poucas pessoas cometem suicídio de repente. Outras se decidem por um suicídio lento, e morrem aos poucos, bem devagar. Mas a tendência a se tornar suicida virou quase um fenômeno universal.
Isso não é modo de vida, e a razão, a razão fundamental, é que as pessoas esqueceram a linguagem do amor. Não são mais corajosas o suficiente para entrar nessa aventura chamada amor.
O amor é o maior koan zen.
É doloroso, mas não deve ser evitado. Aquele que o evita terá evitado a maior oportunidade de crescer. É preciso entrar no amor, sofrer de amor, porque, por meio do sofrimento, vem um grande êxtase. Sim, há agonia, mas é a partir da agonia que nasce o êxtase. Sim, o indivíduo terá de morrer como um ego, e se pode morrer como um ego, poderá nascer como Deus, como um Buda. E o amor vai lhe dar o primeiro gostinho do tao, do sufismo, do zen. O amor dará a você a primeira prova de que Deus existe, de que a vida não é sem sentido.
Aqueles que dizem que a vida é sem sentido são aqueles que não conheceram o amor. Tudo o que dizem é que faltou amor em suas vidas.
Que haja dor, que haja sofrimento. Atravessem a noite escura, e vão chegar a um belo nascer do sol. É no ventre da noite escura que o sol evolui. É através da noite escura que a manhã chega.
Toda minha abordagem aqui é de amor. Ensino o amor, só amor, nada mais. Podem esquecer Deus, isso é apenas uma palavra vazia. Podem esquecer orações, porque são apenas rituais impostos por outros. O amor é a oração natural, não imposta por ninguém. O homem nasce com ele.
O amor é o verdadeiro Deus, não o Deus dos teólogos, mas o Deus de Buda, de Jesus, de Maomé, o Deus dos sufis. O amor é um tariqa, um método, para matar o indivíduo como um indivíduo separado e ajudá-lo a se tornar o infinito.
É preciso que o homem desapareça como uma gota de orvalho e transforme-se no oceano, mas terá que passar pela porta do amor.
E, com certeza, quando ele começa a desaparecer como uma gota de orvalho, após ter vivido tanto tempo como uma gota de orvalho, dói, porque provavelmente ele pensou: "Sou isso, e agora isso está acontecendo. Estou morrendo". Ele não está morrendo, o que está morrendo é apenas uma ilusão. Ele se identificou com a ilusão, é verdade, mas a ilusão ainda é uma ilusão. E apenas quando a ilusão se for é que ele será capaz de ver quem ele é. E essa revelação leva-o para o pico supremo de alegria, de felicidade, de celebração.
Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.
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