quarta-feira, outubro 11, 2023
Medo do Amor
O amor sempre gera medo, porque o amor é a morte, uma morte maior do que a morte comum, que todos conhecem.
Em uma morte comum, o corpo morre, mas não se trata de uma morte realmente. O corpo é como um vestido: quando está ultrapassado e velho, a pessoa o troca por um novo. Não se trata de morte, é apenas uma mudança: uma mudança de vestido ou uma mudança de residência. Mas a pessoa continua, a mente continua, exatamente a mesma velha mente em corpos novos, exatamente o mesmo velho vinho em garrafas novas. Muda a forma, mas não a mente, muda o formato, mas não a mente. Portanto, a morte comum não é uma morte real, o amor, sim, é uma morte real: o corpo não morre, mas a mente morre, o corpo continua a ser o mesmo, mas o ego desaparece.
Se a pessoa ama, ela vai ter que abandonar todos os conceitos que tem sobre si mesma. Se a pessoa ama, não pode ser o ego, porque o ego não permitirá que ame. Eles são antagônicos. Se escolher o ego, não poderá escolher o amor. Se escolher o amor, terá que abandonar o ego. Daí o medo.
Um medo maior do que a morte se apodera da pessoa sempre que ela está apaixonada. É por isso que o amor desapareceu do mundo. Raramente, muito raramente, é que acontece o fenômeno em que o amor ataca.
O que chamam de amor é apenas uma moeda falsa: as pessoas a inventaram porque é muito difícil viver sem amor. É difícil porque, sem amor, a vida não tem poesia. Sem amor, a árvore existe, mas nunca há flores. Sem amor, as pessoas não podem dançar, não podem comemorar, não podem se sentir agradecidas, não podem orar. Sem amor, os templos são apenas casas comuns, e, com amor, uma casa comum é transformada, transfigurada em um templo. Sem amor, resta às pessoas somente possibilidades, gestos vazios.
Com amor, pela primeira vez, a pessoa se torna substancial. Com amor, pela primeira vez, surge nela a alma. O ego cai, mas surge a alma.
É impossível viver sem amor, então a humanidade criou um truque. A humanidade inventou um truque, um artifício. O artifício é o seguinte: vier um falso amor, de modo que o ego continue por conta própria. Nada é mudado, e a pessoa pode jogar o jogo de estar apaixonada: ela pode continuar pensando que ama, pode continuar acreditando que ama. Mas ao olhar para o seu amor vai ver o que acontece com ela. Nada além de sofrimento, nada além do inferno, nada além de conflito, briga, violência.
As pessoas devem examinar profundamente suas relações amorosas. Elas se parecem mais com relações de ódio do que de amor. É melhor chamá-las de relações de ódio do que de relações de amor. Entretanto, tendo em vista que todo mundo vive da mesma maneira, as pessoas ninca têm percepção disso. Todo mundo carrega a moeda falsa, e as pessoas nunca têm percepção disso. A verdadeira moeda do amor é muito cara: só se pode comprá-la ao custo de perder a si mesmo. Não existe outra maneira.
Portanto, a questão é bastante relevante.
O ego é uma entidade falsa, apenas uma noção, uma nuvem no céu do ser, apenas fumaça, nada substancial, um sonho. O amor exige que a pessoa abandone aquilo que ela não tem, e o amor está pronto para lhe dar aquilo que ela tem e que sempre teve. O amor dá a ela sua alma de volta, enquanto o ego continua a esconder a pessoa de sua alma. E o medo está lá. O medo é natural, mas é preciso ir, apesar do medo.
Seja corajosa, não seja covarde. A verdadeira coragem do ser é testada somente quando surge o amor. A pessoa nunca sabe de que tipo de coragem ela é feita antes de amar. Na vida comum, no mercado, fazendo isto e aquilo, no mundo da ambição e da política do poder, a verdadeira coragem nunca é realmente testada. Nunca ninguém passa pelo fogo.
O amor é o fogo.
Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.
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