terça-feira, setembro 19, 2023
O Animal e o Divino
O homem é um dilema porque é uma dualidade. O homem não é um ser único: ele é o passado e o futuro. O passado significa o animal e o futuro significa o divino. E entre os dois está o presente, entre os dois está a existência do homem, dividida, separada em direções diametralmente opostas.
Se o homem olha para trás, ele é um animal. É por isso que a ciência não consegue acreditar que o homem seja alguma coisa mais que não apenas outro animal; afinal, a ciência investiga somente o passado. Charles Darwin e outros estão certos de que o homem nasce dos animais. É verdade em relação ao passado, mas não em relação à totalidade do homem.
A religião olha para o possível, aquilo que pode acontecer no futuro e ainda não aconteceu. A ciência disseca a semente e não consegue achar nenhuma flor lá. A religião é visionária, sonha e é capaz de enxergar o que ainda não aconteceu: a flor. É claro, aquela flor não pode ser encontrada dissecando-se a semente.
A religião olha para o possível e acha que o homem não é um animal, e sim divino: o homem é Deus. E ambos são verdadeiros. O conflito é infundado. O conflito entre a ciência e a religião é fútil. As direções, os métodos de trabalho, os campos de atuação de ambas são totalmente diferentes.
A ciência sempre reduz tudo à fonte, enquanto a religião sempre pega um voo em direção ao objetivo. O homem é tanto um quanto o outro, e é por isso que ele é um dilema, uma ansiedade constante: ser ou não ser, ser isso ou ser aquilo?
A guerra dá uma oportunidade para o homem se tornar animal, e é por isso que a guerra tem tanta atração. A violência exerce grande atração, vide as guerras e os filmes.
É preciso que se entenda uma lei fundamental: nada pode retroceder. No máximo, pode-se fingir, no máximo, pode-se enganar, mas nada pode voltar para trás, porque o tempo não se move para trás. O tempo sempre vai em frente. Não se pode transformar um velho em uma criança, isso é impossível. A árvore não pode regredir à condição da semente original, é impossível. A evolução é contínua, e não há nenhuma forma de evitá-la ou forçá-la a regredir.
O homem é Deus em potencial e, a menos que se torne um Deus real, não haverá nenhuma possibilidade de satisfação. E, ao se tornar divino, o que fazer com o animal?
A solução mais simples que apareceu repetidamente ao longo dos séculos é a seguinte: reprimir o animal. Ou então, reprimir o divino, através da violência, através das drogas, ou seja, esquecer o divino. Esta é uma solução, embora nunca seja bem-sucedida, pois, pela própria natureza das coisas, está fadada a fracassar.
Reprimir o animal! Mas o homem não pode reprimir o animal, porque o animal tem uma energia enorme. O animal foi todo o seu passado e tem milhares de anos. Ele tem raízes profundas no homem, e este não pode se ver livre dele tão facilmente, apenas num piscar de olhos. Estará sendo simplesmente estúpido.
E o animal é a base do homem, é sua própria fundação. O homem nasce como um animal, e não é diferente de nenhum outro animal. Pode parecer diferente, mas não é, pois o fato de ter nascido homem não o torna diferente.
99% das pessoas religiosas têm feito algo completamente errado, ou seja, têm seguido exatamente a mesma lógica que é seguida pelas pessoas violentas, pelos alcoólatras. O mesmo tipo de lógica: esqueça o animal. Muitas técnicas foram desenvolvidas para esquecer o animal: entoar mantras para que se esqueça o animal, tornar-se ocupado enquanto se entoa o mantra, e seguir repetindo: "Rama, Rama, Rama, Rama." Repetir tão rápido que a mente como um todo fique repleta de vibração desta única palavra: "Rama". Essa é simplesmente uma forma de evitar o animal, embora ele esteja lá.
Pode-se prosseguir entoando o "Rama" durante séculos... o animal não vai ser alterado por meio de um truque tão simples. Não se pode enganar o animal. Vai permanecer apenas uma religiosidade muito superficial. Basta raspar qualquer homem religioso para se encontrar o animal dentro dele.
O homem vai à igreja, o homem lê a Bíblia, o homem entoa mantras, o homem faz orações, mas é tudo formal. O coração não está na ação. E o animal dentro dele ri dele e o ridiculariza. O homem pode prosseguir com seus mantras por horas, mas quando uma mulher bonita passa, de repente, toda a entonação desaparece e ele esquece tudo sobre Deus.
Qualquer coisinha que seja é suficinete! O homem é insultado e há raiva, o animal está pronto para se vingar e o homem está furioso. Na verdade, as pessoas religiosas ficam mais zangadas do que quaisquer outras pessoas, porque estas não se reprimem tanto.
Mahatma Gandhi escreveu que, mesmo aos setenta anos, ele ainda tinha sonhos sexuais. Ele esclareceu: "Durante o dia tornei-me disciplinado, e o dia inteiro nem mesmo um único pensamento sobre sexo vem a mim, Porém, à noite, estou inconsciente, de modo que toda a disciplina e todo o controle desaparecem".
A visão de Sigmund Freud é muito valiosa: para saber sobre um homem é preciso conhecer seus sonhos, e não sua vida acordado. A vida enquanto o homem está acordado é pseudo. Sua vida real se declara em seus sonhos, porque os sonhos são mais naturais, uma vez que não há repressão, não há disciplina, não há controle. Por isso, a psicanálise não se importa com a vida desperta. Basta observar a razão: a vida enquanto a pessoa está acordada é tão pseudo (falsa) que a psicanálise não acredita nela de jeito nenhum. É inútil. A psicanálise penetra nos sonhos, porque os sonhos são muito mais verdadeiros do que a chamada vida em que se está acordado.
É irônico que a vida em que se está acordado, que é tida como a vida real, não seja considerada pelos psicanalistas como real, e sim mais irreal do que os sonhos. Os sonhos são muito mais reais, porque a pessoa não está lá para distorcê-los, uma vez que está em sono profundo, a mente consciente está adormecida e o inconsciente está livre para dizer o que quiser. E o inconsciente é a sua mente verdadeira: o inconsciente é nove décimos da mente total, nove vezes maior do que a mente consciente.
E o que a pessoa faz quando luta com a sua sexualidade, com sua raiva, com a sua ganância? Continua jogando-as no inconsciente, na escuridão do porão, e achando que, ao deixar de vê-las, está se livrando delas. No entanto, não está se livrando...
Que seja compreendido de uma vez por todas: nenhuma energia pode jamais ser reprimida. A energia pode ser transformada, mas nunca reprimida.
A verdadeira religião consiste em alquimia, em técnicas e métodos de transformação.
A verdadeira religião consiste não em reprimir o animal, mas em purificá-lo, elevá-lo ao divino, usando-o como veículo para seguir em direção ao divino. Ele pode se tornar um veículo poderosíssimo, porque é energia.
O sexo pode ser usado como uma grande energia, pode ser usado como veículo até a própria porta de Deus. No entanto, se a pessoa o reprime, ela vai ficar cada vez mais enrolada...
Se a pessoa reprimir o sexo, fica irritada, pois toda a energia que se transformaria no sexo se transforma em raiva. E é melhor fazer sexo do que ficar irritado. No sexo pelo menos há algo de amor, enquanto na raiva há apenas pura violência, nada mais.
Se o sexo é reprimido, a pessoa se torna violenta - em relação aos outros ou a si mesma. Estas são as duas possibilidades: ou vai se tornar sádica e torturar os outros, ou vai se tornar masoquista e torturar a si mesma. Mas haverá sempre tortura.
Ao longo dos séculos, os soldados nunca tiveram permissão para ter relações sexuais. Por que? Porque, se os soldados tivessem permissão para ter relações sexuais, não reuniriam raiva suficiente dentro de si, violência suficiente dentro de cada um. O sexo para eles seria uma libertação, eles se tornariam mansos, e uma pessoa mansa não pode lutar. Deixe que o soldado tenha fome de sexo para que ele seja obrigado a lutar melhor. Na verdade, a violência dele é um substituto para sua sexualidade.
E Sigmund Freud está certo novamente quando diz que todas as armas são nada mais do que símbolos fálicos: a espada, a faca, a baioneta, não são nada além de símbolos fálicos. O soldado não teve permissão para entrar no corpo de alguém, no corpo de alguma mulher. Agora ele está louco para entrar, agora ele é capaz de fazer qualquer coisa. Um grande desejo pervertido entrou em seu ser agora. Sexo reprimido: ele gostaria de entrar no corpo de alguém por meio de uma baioneta, por meio de uma espada...
Ao longo dos séculos, o soldado foi forçado a reprimir seus desejos sexuais.
Pense um instante: aquele que quiser lutar vai ter que deixar de fazer sexo por alguns dias. Pode perguntar a Muhammad Ali (antigamente Cassius Clay) e a outros boxeadores: antes da luta, durante alguns dias, eles têm de se tornar celibatários. É uma obrigação! Pode perguntar aos competidores olímpicos, durante alguns dias, eles têm de deixar de fazer sexo. Isso dá um impulso, dá uma grande violência, torna os competidores capazes de lutar. Eles correm mais rápido, atacam mais rápido, porque a energia de luta está fervendo por dentro. Daí o soldado ter sido reprimido.
Basta permitir que todos os exércitos do mundo sejam satisfeitos sexualmente para que haja paz. Basta permitir que as pessoas tenham satisfação sexual para que haja menos conflitos. Se o amor se espalhar, a guerra desaparecerá - os dois não podem coexistir.
A transformação é o caminho. As pessoas não devem reprimir nada. Se a sexualidade está lá, não deve ser reprimida, pois, do contrário, cria-se uma nova complexidade, que vai ser mais difícil resolver...
Para aqueles que forem capazes de vir para a sexualidade natural, espontânea, as coisas serão muito simples, de um modo que nem se pode imaginar. E, depois, a energia resultante é também natural, e essa energia natural não cria nenhum obstáculo para a transformação. A transformação pode ocorrer se, primeiro, a pessoa aceitar o seu ser natural.
O que quer que seja natural é bom. Sim, é possível obter mais, mas isso só será possível se a pessoa aceitar sua natureza como um todo, se acolhê-la, se não se sentir culpada em relação a ela. Ser culpado, sentir-se culpado, é não ser religioso. No passado, foi dito exatamente o contrário: as pessoas devem se sentir culpadas para que sejam religiosas. E eu digo: sintam-se culpados e nunca serão religiosos.
Abandonem a culpa!
O homem é tudo aquilo que Deus fez dele. O homem é tudo aquilo que a existência fez dele.
O sexo não é criação do homem: é um presente de Deus!
Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.
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