sexta-feira, outubro 13, 2023

 

O cultivo e descarte do ego

O ego não pode ser abandonado. É como a escuridão, não se pode abandonar a escuridão, pode-se, apenas, introduzir a luz. No momento em que há luz, a escuridão deixa de estar presente. Pode-se dizer que esse é o caminho do abandono da escuridão, mas não literalmente. A escuridão não existe, a escuridão é a ausência de luz. Por isso, não se pode fazer nada diretamente para ela. Pode-se apenas fazer algo para a luz, seja introduzi-la ou eliminá-la. Se for a escuridão o que se deseja, apaga-se a luz; se não se quer escuridão, acende-se a luz. O ego não pode ser abandonado.

A meditação pode ser aprendida. A meditação funciona como uma luz, a meditação é a luz.

Torne-se luz e você não vai encontrar o ego em lugar algum.

Aquele que quiser abandonar o ego vai estar em apuros, pois quem é essa pessoa que deseja abandoná-lo? É o próprio ego, que agora joga um novo jogo, o jogo chamado espiritualidade, religião, autorealização. Quem está fazendo essa pergunta? É o próprio ego, enganando a pessoa. E quando o ego pergunta, que pode ser abandonado, naturalmente a pessoa pensa: "Esse não pode ser o ego. Como o ego pode solicitar o seu próprio suicídio?" É assim que o ego a engana.

A natureza da pessoa não tem dúvidas, não precisa de respostas. Sua natureza é absolutamente clara, cheia de luz. Não conhece escuridão, nunca encontrou nenhuma escuridão.

Ela não precisa abandonar o ego. Basta olhar dentro de si, procurar onde está, é preciso, primeiro, encontrá-lo. Não deve se preocupar com sua natureza nesse momento. Basta olhar para dentro, procurar pelo ego, e não vai encontrá-lo. Em vez disso, ela encontrará sua própria natureza, luminosa, perfumada como uma flor de lótus.  Não depara com tal beleza em nenhum outro lugar. É a experiência mais bela da vida. E, depois de ter visto sua própria lótus de luz, sua própria lótus florescendo, o ego está acabado, para sempre. Daí não vai fazer essas perguntas sem sentido.

"Como distinguir", você diz, "entre o que é o ego e o que é a minha verdadeira natureza?"

Ou o ego está lá, e, então, a verdadeira natureza não é conhecida, ou a verdadeira natureza é conhecida, e, então, não há nenhum ego. Não se pode ter os dois, portanto, não se pode fazer nenhuma distinção, não se pode distingui-los, e eles não podem estar presentes juntos. Somente um pode estar presente. 

Neste exato momento, a pessoa que fez a pergunta é toda ego, portanto, não se preocupe em fazer distinçao. Se não houvesse ego, a pergunta não teria surgido. A natureza não conhece dúvidas, a natureza é êxtase, não um problema. 

Vai parecer muito paradoxal, mas isso é verdade: antes que seja possível livrar-se do ego é preciso alcançá-lo. Apenas uma fruta madura cai no chão. O amadurecimento é tudo.

Um ego imaturo não pode ser jogado, não pode ser destruído. E se lidar com um ego imaturo para destruí-lo e dissolvê-lo, todo o esforço terá sido em vão. Em vez de destruí-lo, vai encontrá-lo mais fortalecido, sob novas formas, sutis. 

Isso é algo básico a ser entendido: o ego deve chegar a um pico, deve ser forte, deve ter atingido uma integridade, e somente depois é possível dissolvê-lo.

Um ego fraco não pode ser dissolvido. E isso se torna um problema.

No Oriente,todas as religiões pregam a ausência de ego. Portanto, no Oriente, todo mundo é contra o ego desde o princípio. Devido a essa postura, o ego nunca se torna forte, nunca chega a umm ponto de integração a partir do qual pode ser descartado. Nunca está maduro. Portanto, no Oriente,  é muito difícil dissolver o ego, quase impossível.

No Ocidente, toda a tradição ocidental de religião e psicologia propõe, prega, convence as pessoas a terem egos fortes, porque, se não tiverem um ego forte, como podem sobreviver? A vida é uma luta, e se a pessoa é desprovida de ego, ela será destruída. Depois, quem vai resistir? Quem vai lutar? Quem vai competir? E a vida é uma contínua competição.

A psicologia ocidental diz: alcance o ego, seja forte nele. Mas, no Ocidente, é muito fácil dissolver o ego. Portanto, sempre que um buscador ocidental chegar a um entendimento de que o ego é o problema, ele pode dissolvê-lo com facilidade, com mais facilidade do que qualquer buscador oriental.

Esse é o paradoxo: no Ocidente, o ego é ensinado, enquanto no Oriente ensina-se a ausência de ego. No entanto, no Ocidente é fácil dissolver o ego, enquanto no Oriente é muito difícil.

Esta vai ser uma tarega difícil para as pessoas: primeiro, alcançar o ego e, depois, livrar-se dele, porque só é possível livrar-se de algo que se possui. Se a pessoa não o possui, como pode perdê-lo? Só pode ser pobre, se for rica. Se não for rica, sua pobreza não pode ter aquela beleza que Jesus prega: "Seja pobre de espírito." Sua pobreza não poderá ter aquele significado que teve para Gautama Buda, quando ele se tornou um mendigo.

Apenas um homem rico, um homem realmente rico, pode ser pobre. Apenas ter riquezas não é suficiente para ser realmente rico. A pessoa ainda pode ser pobre. Se a ambição ainda estiver lá, ela é pobre. O que ela possui não é a questão. Se ela tem o suficiente, consequentemente, o desejo desaparece. Quando se tem riqueza o bastante, o desejo desaparece.

O desaparecimento do desejo é o critério da condição de já estar suficiente. Com isso, a pessoa é rica e, consequentemente, pode abandonar o desejo e tornar-se um mendigo, como Buda. E então sua pobreza é rica, sua pobreza tem um reino próprio.

E o mesmo acontece com tudo. Upanishads, Lao Tzu, Jesus ou Buda - todos ensinam que o conhecimento é inútil. Apenas obter cada vez mais conhecimento não é de muita ajuda. Não só não é de muita ajuda como também pode se tornar uma barreira. O conhecimento não é necessário, mas isso não significa que o homem deva permanecer ignorante. Sua ignorância não será real.

A ignorância é atingida quando o indivíduo reúne o suficiente de conhecimento e o descarta. Daí a pessoa se torna ignorante de fato, como Sócrates, que pôde dizer: "Só sei uma coisa: é que não sei."

Esse conhecimento, ou essa ignorância - chame-a como quiser - , é totalmente diferente, a qualidade é diferente, a dimensão mudou. Se a pessoa é simplesmente ignorante porque nunca alcançou qualquer conhecimento, sua ignorância não pode ser sábia, não pode ter sabedoria, ela é apenas ausente de conhecimento. E o anseio vai estar no interior: como adquirir mais conhecimento? Como adquirir mais informações?

Quando a pessoa sabe muito, ou seja, conhece as escrituras, conhece o passado, a tradição, sabe tudo o que é possível saber, de repente, torna-se consciente da futilidade de tudo isso, de repente, torna-se consciente de que isso não é conhecimento. Isso é algo emprestado!

Esta não é a sua própria experiência, isso não é o que ela veio a conhecer. Outros podem tê-la conhecido, e a pessoa simplesmente a coletou. A compilação feita por ela é mecânica. Não surgiu a partir da pessoa, não representa um crescimento. É só lixo coletado de outras portas,emprestado, morto.

É bom lembrar que o conhecimento é vivo apenas quando a pessoa conhece, quando se trata de sua experiência direta e imediata. Porém, quando fica sabendo a partir dos outros, trata-se apenas de memória, não de conhecimento. A memória é morta. Quando a pessoa reúne muito - como, por exemplo, as riquezas do conhecimento, as escrituras, tudo em seu entorno, bibliotecas condensadas em sua mente - e, então, torna-se consciente de que está só carregando o fardo dos outros, e de que nada lhe pertence, de que ela própria não conheceu, ela pode descartar, pode descartar todo esse conhecimento.

A partir desse descarte, surge um novo tipo de ignorância dentro dela. Essa ignorância não é a ignorância do ignorante, é a ignorância do homem sábio, da sabedoria.

Somente um homem sábio pode dizer: "Eu não sei". Porém, ao dizer "Eu não sei" ele não tem anseio por conhecimento, ele simplesmente constata um fato. E quando consegue dizer de coração aberto "Eu não sei", nesse exato momento seus olhos se abrem e as portas do conhecimento estão abertas.

Essa ignorância é linda, mas é alcançada através do conhecimento.

E o mesmo acontece com o ego: você só pode perdê-lo se o possuir.

O que eu ensino vai parecer contraditório, mas é a verdade da vida. A contradição é inerente à vida.

Ensino as pessoas a serem egocêntricas, pra que possam se tornar pessoas sem ego.

Ensino as pessoas a serem egocêntricas perfeitas. Não se deve esconder o egoísmo, pois, do contrário, vai surgir a hipocrisia. E não se deve lutar com o fenômeno imaturo. Deixem-no amadurecer, ajudem-no. Levem-no para o auge! Não tenham medo, não há nada a temer. É assim que se percebe a agonia do ego.

Quando chegarem ao seu auge, não vão precisar de um Buda ou de mim para lhes dizer que o ego é o inferno.

As pessoas vão saber disso, porque o auge do ego será o pico das experiências infernais delas, será um pesadelo.

Só se alcança o conhecimento por meio do sofrimento.

Não se pode jogar nada fora só pelo argumento lógico. Pode-se jogar algo fora somente quando isso se tornou tão doloroso que não pode mais ser carregado.

Se o ego não se tornou tão doloroso, então ele pode ser carregado. É natural! Não posso persuadir a pessoa a abandoná-lo. Mesmo que ela se convença, ela vai escondê-lo.

Nada imaturo pode ser jogado fora. A fruta verde se apega à árvore e a árvore se apega à fruta verde. Se ela for forçada a se separar, será deixada para trás  uma grande ferida. Essa cicatriz permanecerá, a ferida ficará para sempre verde e ela vai sempre se sentir magoada. É importante lembrar que tudo tem um tempo para crescer, para ficar maduro, para cair na terra e se dissolver. O ego também tem um tempo. Ele precisa ficar maduro.

Portanto, ningém deve ter medo de ser egocêntrico. Todas as pessoas são, caso contrário, todos teriam desaparecido há muito tempo.

Esse é o mecanismo da vida: a pessoa tem que ser egocêntrica, tem que lutar, à sua maneira, tem que lutar com muitos milhares de desejos em torno de si, tem que lutar, tem que sobreviver.

O ego é uma medida de sobrevivência. Para mim, o ego faz parte do crescimento natural.

Mas isso não significa que o ser humano tem que permanecer com o ego para sempre. É um crescimento natural e, depois, há um segundo passo, quando ele tem de ser descartado. Isso também é natural. No entanto, o segundo passo só pode ser dado quando o primeiro passo estiver chegado ao seu auge, no clímax, quando o primeiro passo tiver chegado ao seu pico.

Por isso, ensino os dois, ou seja, ensino o egocentrismo e ensino a ausência de ego.

[continua]

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6. 

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