quarta-feira, setembro 20, 2023

 

A Terapia do Abraço

Por que o abraço é uma ferramenta terapêutica tão incrivelmente eficaz?

O homem precisa ser necessário. É uma das necessidades mais fundamentais dos seres humanos. Se uma pessoa não tiver carinho, ela começa a morrer.

A menos que uma pessoa sinta que é importante para alguém, pelo menos para alguém, toda a sua vida se torna insignificante.

Por isso, o amor é a maior terapia que existe. O mundo precisa de terapia porque nele está faltando amor.

Em um mundo realmente repleto de amor, nenhuma terapia será necessária, de jeito nenhum, pois o amor será o suficiente, mais do que suficiente. O abraço é apenas um gesto de amor, de calor humano, de carinho. A própria sensação do calor que flui da outra pessoa derrete muitas doenças no ser humano, derrete o ego frio e gelado. Faz com que o homem volte a ser criança.

Os psicólogos sabem bem que se uma criança não for abraçada e beijada ela sentirá falta de carinho. Assim como o corpo precisa de alimento, a alma precisa de amor. É possível suprir todas as necessidades básicas de uma criança, dar a ela todos os confortos físicos, mas, se faltam abraços, ela não vai crescer e se tornar um ser  humano completo.  No fundo, ela vai permanecer triste, sem carinho, negligenciada, ignorada. Ela recebeu cuidados, mas não recebeu carinho.

O amor é nossa conexão, o amor é nossa raiz.

Assim como o homem respira - pois para o corpo é absolutamente essencial, e se parar de respirar ele deixa de existir -, da mesma forma o amor é a respiração interior. A alma vive por meio do amor.

A análise não vai fazer isso. A inteligência e a clareza, o conhecimento e a formação acadêmica não vão fazer isso. A pessoa pode saber tudo o que existe sobre terapia, pode tornar-se um especialista, porém, se não souber a arte do amor, permanecerá apenas na superfície do milagre da terapia.

No momento em que começar a sentir pelo paciente, por aquele que está sofrendo... de cem casos, noventa pessoas estão sofrendo, basicamente, porque não foram amadas. Se a pessoa começa a sentir a necessidade de amor do paciente, e se puder preencher essa necessidade, haverá uma mudança quase mágica na condição dele.

O amor é, certamente, o fenômeno mais terapêutico.

Sigmund Freud tinha muito medo disso, tanto assim... abraçar estava fora de questão, ele não estava nem mesmo preparado para enfrentar o paciente, pois, ao ouvir sobre o seu sofrimento, ao ouvir seus pesadelos interiores, ele poderia começar a se sentir indulgente. Seus olhos poderiam ficar marejados, lágrimas poderiam começar a fluir, ou, talvez, em um momento de descuido, ele poderia segurar a mão do paciente.

Ele tinha tanto medo de algum relacionamento de amor entre o terapeuta e o paciente que criou um certo artifício: o paciente tem que se deitar no divã e o psicanalista tem que sentar atrás do divã, de modo que eles não se encarem.

É bom lembrar de uma coisa: é de frente um para o outro que o amor cresce. O amor entre os animais não pode crescer porque eles fazem amor sem se encarar, de modo que não há amizade, não há relacionamento de parentesco. Depois que terminam o ato sexual, seguem seus caminhos, separadamente, sem nem mesmo dizer um "obrigado", um "adeus" ou "vejo você em breve"! Os animais não são capazes de criar amizade, família, sociedade, pelo simples fato de que, quando fazem amor, não olham nos olhos um do outro, não olham na cara um do outro, como se o ato de amor fosse algo praticamente mecânico. Não há nenhum elemento humano nisso.

O homem criou toda uma dimensão de múltiplos tipos de relacionamentos porque ele é o único animal que faz amor frente a frente com o parceiro. Por isso, os olhos começam a se comunicar, por isso as expressões faciais se tornam uma linguagem sutil. Daí as mudanças de humor e de emoções, ou seja, a alegria, o êxtase, o brilho orgástico e o aumento da intimidade.

A intimidade é necessária, é um requisito básico.

Por isso, é bom fazer amor com a luz acesa, não na escuridão, ou pelo menos à meia´luz, uma luz de vela. Fazer amor no escuro é algo animal dentro de si, evitando encarar o outro... uma estratégia para evitar.

Sigmund Freud tinha muito medo do amor, ele tinha medo do seu próprio amor reprimido. Ele queria criar a psicanálise como se fosse uma ciência. Não é uma ciência, nunca vai ser uma ciência! É uma arte, e é muito mais próxima do amor do que da lógica.

É por isso que eu amo muito Wilhelm Reich. Ele é o homem que transformou a cara de toda a psicanálise ao se envolver com o paciente. Descartou o divã, descartou essa indiferença imparcial. Ele é um revolucionário muito maior do que Sigmund Freud. E Sigmund Freud, que realmente tinha medo de suas próprias repressões, permaneceu o convencional.

Na verdade, em função de os psicanalistas terem seus próprios problemas, às vezes até mais do que o próprio paciente, pode-se compreender o medo de Sigmund Freud. No que me diz respeito, eu gostaria de fazer uma declaração categórica sobre isso: a menos que um indivíduo esteja realmente desperto, iluminado, ele não pode ser um terapeuta autêntico, um terapeuta de verdade.

Somente um Buda pode ser um terapeuta de verdade, porque ele não tem problemas herdados. Ele pode se fundir e mesclar com o paciente, pois, para ele, na verdade, o paciente não é nenhum paciente.

Essa é a diferença entre a relação que existe entre um paciente e seu terapeuta e a relação entre um discípulo e um mestre. O discípulo não é um paciente, o discípulo é uma pessoa querida, um ente querido. O mestre não é apenas um observador, ele se tornou um participante. Eles perderam suas entidades separadas, tornaram-se uma única entidade, e essa unicidade ajuda.

Abraçar é apenas um gesto de unicidade, e até mesmo o gesto ajuda.

Então, a pessoa que perguntou está certa. Ela perguntou: "Por que o abraço é uma ferramenta terapêutica tão incrivelmente eficaz?" Ele é. e é só um gesto. Se isso é verdade, e não é apenas um gesto, pois o coração também está nele, pode ser uma ferramenta mágica, pode ser um milagre. Pode transformar toda a situação de forma imediata.

Algumas coisas sobre isso devem ser entendidas. Uma delas é: a ideia de que a criança morre e o homem se torna adolescente, depois, o adolescente morre e o homem se torna jovem, e assim sucessivamente, e assim por diante, está errada. A criança nunca morre, nada morre. A criança está lá, sempre está lá, envolta em outras experiências, envolta na adolescência, depois, na juventude, depois, na meia-idade, depois, na velhice, mas a criança está sempre lá.

O ser humano é exatamente como uma cebola, camada sobre camada, mas se a cebola for descascada, logo serão encontradas camadas mais frescas por dentro. Basta ir mais fundo para encontrar cada vez mais camadas frescas. O mesmo vale para o homem: ao ir fundo nele sempre é possível encontrar a criança inocente, e entrar em contato com essa criança inocente é terapêutico.

O abraço proporciona um contato imediato com a criança. Se ao abraçar alguém com calor humano, amor, esse não for somente um gesto impotente, se for significativo, importante, verdadeiro, se o coração estiver fluindo através desse abraço, entra-se imediatamente em contato com a criança, com a criança inocente. E quando a criança inocente vem à tona, mesmo que por um único momento, faz uma grande diferença, pois a inocência dela é sempre saudável e por inteiro, não é corrompida. Chega-se ao núcleo mais íntimo da pessoa, onde nenhuma corrupção jamais entrou; chega-se ao núcleo virgem, e só de fazer com que o núcleo virgem pulse novamente com vida já é o suficiente. Com esse abraço você dá início e desencadeia um processo de cura.

Toda criança é tão fresca, tão viva, tão cheia de entusiasmo que sua própria vivacidade a torna saudável.

Se você puder tocar a criança no paciente, de alguma forma... e o abraço é simplesmente uma das coisas mais importantes.

A análise é o caminho da mente, o abraço é o caminho do coração. A mente é a causa de todas as doenças e o coração é a fonte de toda a cura.

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-s da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.

Marcadores: , , , , ,


Comments: Postar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?