domingo, outubro 21, 2007

 

Intuição e Intelecto

Fonte: Omraam Mikhaël Aïvanhov, Acerca do Invisível, Edições Prosveta, Lisboa, 1988.

A maioria das pessoas admite a existência de uma faculdade mental que está além da reflexão, do raciocínio, chamada intuição. Mas o que é realmente esta faculdade e como ela funciona, isso não é muito claro para a maioria das pessoas. Para compreender a natureza da intuição é preciso reportarmo-nos ao esquema dos diferentes corpos do homem, que os hindus nos apresentam.

Para os hindus, o nosso corpo físico é habitado e animado por vários corpos sutis, além do corpo físico das ações, que são: o corpo astral, portador das emoções, dos sentimentos; o corpo mental, suporte das idéias concretas, quer dizer, que têm uma relação com a matéria; o corpo causal, ou corpo mental superior, que permite ao homem aceder à compreensão das verdades sublimes, dos mistérios do Universo; o corpo búdico, portador, como o corpo astral, de emoções e de sentimentos, mas emoções e sentimentos divinos: o amor universal, a abnegação, o sacrifício; finalmente, o corpo átmico, portador dessa centelha imortal, que é a omnipotência de Deus.

Os três primeiros corpos, físico, astral e mental, estão mais ou menos igualmente desenvolvidos em todos os humanos atuais. Mas, quanto aos três corpos superiores, já não acontece isso, existindo uma grande diferença entre eles. Só certos filósofos, certos espiritualistas, conseguem elevar-se até ao plano mental superior, onde começam a viver na região sublime da luz. O seu cérebro refina-se a tal ponto que novos centros despertam neles, graças aos quais podem apreender a realidade das coisas. É isso o mundo da intuição. A intuição é uma visão, uma recepção instantânea, uma compreensão imediata e total desse mundo real, verídico, que está situado para além do próprio plano mental, pois no plano mental ocorrem ainda erros e ilusões.

Só se pode chegar até esse mundo da intuição através de práticas da mais alta espiritualidade. É preciso ter um alto ideal e sobretudo um Mestre, a fim de se ser guiado nesse caminho difícil, e, finalmente, uma vontade estável para praticar incansavelmente exercícios até se ser suficientemente desenvolvido para captar e apreender as realidades das regiões sublimes.

A intuição é uma forma de inteligência muito diferente da inteligência comum. Aqueles que trabalham muito com o intelecto chegam, é claro, a uma certa compreensão das coisas, mas mal conseguem aflorar esse mundo da intuição, onde o conhecimento é imediato e total; são-lhes necessários anos e anos de trabalhos, de reflexões, de cálculos, para fazer uma descoberta. Ao passo que aqueles que escolheram o caminho do espírito podem ligar-se diretamente a essas regiões sublimes. Mas para isso devem deixar de viver no tumulto das emoções e das paixões, que os impedem de ver mais claramente, e pôr ordem em todo o seu ser. É nesta paz e nesta harmonia que eles podem atingir a região da intuição, e nessa altura assemelham-se à superfície de um lago calmo e límpido onde todo o Céu vem refletir-se.

Vós direis: "Mas, então, para que serve o intelecto?". O intelecto é extremamente útil, pois permite-vos percorrer uma grande parte do caminho. Sim, mas chegado a um certo limite, ele abandona-vos, não pode levar-vos mais longe; ele diz-vos: "É uma região onde eu não posso guiar-te: é-me impossível ir mais longe. Eu trouxe-te até aqui, mas agora cabe a outras forças, a outras faculdades, a outras entidades, tomarem-te a seu cargo para te mostrarem o caminho". Reparai que é exatamente como em relação a certas viagens: vós começais por usar vosso carro para ir à estação do trem e lá entrais no comboio; chegados a um certo ponto, não podeis ir mais longe e precisais de tomar um barco; após algumas horas ou alguns dias, tendes de deixar também o barco; nesse momento, está um avião à vossa espera, e levantais vôo, voais pelos ares. Então, já compreendestes? O intelecto só vos serve para fazer uma parte do caminho interior que tendes a percorrer.

O intelecto é o instrumento que há de mais útil para preparar as condições, para desimpedir a via, para pôr as coisas no lugar, enquanto se espera que a intuição possa manifestar-se. Ele ajuda-vos a vigiar, a controlar o que se passa na vossa cabeça e no vosso coração, a eliminar os pensamentos e os sentimentos negativos e, pelo contrário, a conservar os pensamentos construtivos, benéficos, e a amplificá-los. Quando tiverdes assim introduzido em vós a paz e a pureza, que são as condições indispensáveis para entrar em contato com o Céu, outras correntes virão buscar-vos para vos levar até à região divina da luz infinita e do saber absoluto e, de súbito, tereis revelações. A intuição é isso: uma centelha, uma luz projetada, um saber que se capta do interior sem se dar conta de onde e de como ele chegou; mas sente-se uma certeza absoluta de que é assim e não de outra forma. As verdades, os conhecimentos, que recebemos através da intuição não falham, não são passíveis de erro.

Assim, a intuição é superior ao intelecto; ela tem, se quiserdes, a mesma precisão rápida e infalível que um computador em relação ao cérebro. Claro que o cérebro é superior: foi ele que construiu o computador, que lhe confiou os dados necessários, é ele que inicia e controla o seu funcionamento, e a resposta da máquina será sempre à medida da inteligência humana que lhe forneceu os dados; e como esta inteligência é limitada, a resposta será também limitada. Mas quando se trata de fazer rapidamente um cálculo ou uma operação muito complexa, o computador dá-vos a resposta certa em alguns segundos, ao passo que o cérebro teria necessitado de várias horas ou vários dias para chegar à solução.

Eu utilizei este exemplo do computador unicamente como uma imagem para vos mostrar que a intuição também vos dá a resposta num segundo, sem que vós saibais sequer porquê, como e por que meio as entidades celestes que vos responderam quiseram fazê-lo. É como se existisse em vós um ser cujo olhar é capaz de penetrar a realidade das coisas e de vos comunicar o que apreende, tomando em consideração não somente os elementos do plano físico, mas todos os elementos invisíveis e sutis que escapam à compreensão humana. Assim, a intuição é uma revelação de uma ordem superior ao intelecto; só podemos elevar-nos até esta região através da meditação, de um trabalho assíduo e da oração. Quando tiverdes conseguido introduzir em vós a ordem e a paz, todo o Céu virá refletir-se na superfície límpida da vossa consciência.

Os humanos recebem nas escolas uma instrução que os leva a contar muito mais com o intelecto que com a intuição. Isto está bem, só que serão necessários ao intelecto milhares de anos para ver, tocar e compreender a realidade do mundo divino ou a existência das entidades invisíveis. Ao passo que os espíritos intuitivos, os seres que trabalham segundo os métodos dos Iniciados, esses não têm necessidade de refletir e de tatear durante séculos para apreender, sentir e tocar a realidade.

É bom ter uma prática quotidiana deste mundo da intuição. Porisso, quando tiverdes um problema importante para resolver, procurai um sítio calmo e concentrai-vos... Tentai elevar-vos muito alto através do pensamento e, quando sentirdes que conseguistes atingir um certo ponto, colocai a questão que vos preocupa e esperai calmamente: haverá sempre uma resposta. Segundo o vosso grau de desenvolvimento, segundo o vosso trabalho, essa resposta chegará até vós de uma forma mais clara ou menos clara; talvez não passe de uma sensação vaga, difícil de interpretar, mas isso já será um indício. Então, não desistais, recomeçai a ligar-vos ao mundo da luz, voltai a colocar a questão: algum tempo depois sentireis em vós algo claro, uma certeza, e nesse momento já não restarão dúvidas, sabereis como devereis agir. Quanto mais desenvolvido o homem é, mais clara e precisa é a resposta que ele recebe.

Certas pessoas têm dons de clarividência, vêem formas, cores, entidades, mas esse ainda não é o grau de investigação mais elevado. O mais alto grau consiste em captar, em compreender as coisas pela intuição, sem ver nenhuma forma, nenhuma luz, nada. Sabe-se com uma certeza imediata e absoluta. Quantas pessoas vêem formas e cores que não conseguem interpretar corretamente! Então, para que lhes serve essa clarividência? A intuição, essa, é a fusão da inteligência com a sensibilidade, ela dá-nos o conhecimento completo, e neste sentido é superior à clarividência, pois a clarividência mais não é que ver o lado objetivo do plano astral ou mental: vós vedes e ficais aterrorizados ou maravilhados, experimentais sentimentos, mas sem ter o conhecimento nem a compreensão.

Um verdadeiro espiritualista nem sequer se ocupa daquilo que ele vê no plano astral, não trabalha para isso, está além disso, quer uma resposta superior. Quando recebe essa resposta da intuição, então sim, pode regressar às regiões da clarividência ou da clariaudiência. Mas primeiro deve visar o objetivo mais elevado, senão, essas visões, essas imagens flutuantes, prender-se-ão a ele, detê-lo-ão e impedi-lo-ão de ir mais longe, pois trata-se de um mundo extremamente confuso e de muitas misturas. Encontram-se nele imagens tão terríveis que já não se consegue atravessá-lo tranqüilamente para ir mais longe, mais alto, é-se obrigado a parar no caminho, fica-se quase bloqueado na sua evolução. Porisso, enquanto não se tem o poder de ficar ao abrigo desses perigos, é preferível atravessar rapidamente essas regiões de olhos fechados e começar a trabalhar para estimular a intuição.

Existem numerosos métodos para se desenvolver a intuição: pode-se praticar exercícios de concentração, de visualização, de contemplação. Podeis também concentrar-vos sobre o vosso Eu superior e imaginar que Ele vos comunica tudo o que vê, tudo o que sabe. Mas, mais uma vez, o meio mais eficaz, o menos perigoso, é trabalhar para obter o desinteresse e a pureza. Tentai nunca querer tirar partido das situações, nunca agir por interesse; só nessa condição é que tudo o que vos impede de ver claro desaparecerá e vós podereis conhecer as coisas e os seres na sua realidade.

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