quinta-feira, outubro 18, 2007

 

Visão Limitada do Intelecto e Visão Infinita da Intuição

Fonte: Omraam Mikhaël Aïvanhov, Acerca do Invisível, Edições Prosveta, Lisboa, 1988.

A maior parte dos humanos rejeita todos os estados que os reaproximariam do mundo divino, considerando-os como anormais ou mesmo perigosos; querem confiar somente no intelecto. "Isto, sim, é sensato, tem-se a cabeça sobre os ombros".

Quando um professor vos dá explicações, serve-se de esquemas, de gráficos, graças aos quais o seguis passo-a-passo sem risco de vos perderdes. Contudo, não serão esses gráficos, esses esquemas, esses argumentos tão bem ordenados, tão claros, que impedirão esse mesmo professor de perder a cabeça noutras circunstâncias. Pois, se é um fato que os intelectuais dão provas de prudência, de disciplina, de objetividade, quando se trata dos seus trabalhos, uma vez afastados desses trabalhos, acham normal viverem na subjetividade e até entregarem-se à desordem e à agitação das paixões. Pois bem, nessa altura talvez fosse melhor desconfiarem e fazerem intervir um pouco mais o intelecto. Mas não, eles preferem desconfiar das sensações celestes, divinas, harmoniosas, das sensações que não perturbam, que não introduzem nenhum elemento nocivo no interior do ser. Que mentalidade esquisita!

Se estudarmos as estatísticas, veremos que é entre os intelectuais que se encontra o maior número de desequilibrados e de doentes mentais. O intelecto não protege os seres das perturbações psíquicas, pelo contrário. A vida não consiste exclusivamente em fazer observações, medições e cálculos, os homens não são máquinas e, para enfrentar as dificuldades e os choques da existência, para não se deixar levar e se destruir pelas paixões, para se descobrir a verdadeira realidade das coisas, o intelecto não é suficiente.

Como alguns daqueles que se dizem espiritualistas e místicos são, na realidade, pessoas bizarras, desequilibradas e fanáticas, os intelectuais tiraram conclusões apressadas sobre todos os espiritualistas e místicos. Mas isso não é honesto. Os verdadeiros místicos são seres sensatos: as suas maneiras, os seus gostos, os seus olhares, as suas palavras, os seus pensamentos, tudo está ordenado, tudo é harmonioso. Por que se há-de imaginar que o mundo do espírito, o mundo divino, só leva os seres a perder a cabeça, a imaginar que vêem o Senhor e falam com Ele, ou então que são o Cristo, a Virgem Maria, Joana D'Arc, etc.? Muitos, para escapar a essas elucubrações, preferiram tornar-se intelectuais empedernidos. Evidentemente, quem se lançar na vida espiritual sem guia, sem diretrizes, poderá ficar desequilibrado; foi o que aconteceu com muitos e, porisso, até certo ponto é compreensível que, perante tais exemplos, certas pessoas desconfiem do misticismo. Contudo, dar a preponderância ao intelecto também não é a solução.

O intelecto é uma faculdade que se desenvolveu no homem depois do coração, do sentimento. Permitindo-lhe observar, raciocinar, compreender, ela dá-lhe imensas possibilidades para trabalhar e para se desenvolver. De uma certa forma, pode dizer-se que o intelecto é uma faculdade ligada aos olhos: ver as coisas já é compreendê-las um pouco. Quantas vezes não sucede que, para dizer "Compreendo", se diz "Estou vendo"? A Natureza trabalhou milhões de anos no desenvolvimento do intelecto, mas não é ele que está destinado a ter a última palavra: a Natureza previu desenvolver no homem faculdades ainda muito superiores. O intelecto é limitado; para julgar, para tirar conclusões, ele baseia-se na aparência das coisas e na visão parcial que delas tem.

Falta, pois, ao intelecto o conhecimento sintético, e ele também não pode possuir um conhecimento do que é interior. Porisso ele não permite ao homem pronunciar-se corretamente sobre os seres e as situações, e isso origina inúmeros erros e mal-entendidos. Claro que, acumulando durante muito tempo um grande número de elementos, pode-se vir a ter uma visão razoável da totalidade, mas quanto tempo levará isso? E existirão sempre elementos sutis imponderáveis, que o intelecto não poderá apreender. Quando encontrais alguém, não podeis conhecer de imediato todos os seus defeitos, todas as suas qualidades e virtudes. Para isso é preciso contactardes com essa pessoa durante muito tempo. A única forma de conhecer instantaneamente um ser na sua totalidade é através da intuição, que é uma manifestação do espírito. A intuição não necessita de nenhum elemento para julgar: ela penetra instantaneamente no coração dos seres e das coisas e pronuncia-se de imediato sem nunca se enganar. Para ela nada fica escondido, só ela pode conhecer a realidade na sua totalidade.

Se a Inteligência Cósmica deu o intelecto aos humanos foi, evidentemente, para estes se servirem dele; infelizmente, eles fazem-no privando-se de outras possibilidades de exploração e de conhecimento mais sutis. Como são incapazes de utilizar as suas faculdades psíquicas para penetrar na anatomia e na fisiologia do corpo físico, são obrigados a dissecá-lo. Vós direis: "Como? Poder-se-ia conhecer a anatomia e a fisiologia de um homem ou de um animal sem o dissecar?" Sim. Com efeito, construiu-se toda a espécie de aparelhos aperfeiçoados para se ver o interior do corpo físico... Mas todos os aparelhos que o homem construiu mais não são que a correspondência, no plano físico, de aparelhos psíquicos ou espirituais que já existem nele, e se é obrigado a construí-los no exterior, é porque não sabe descobrir e fazer funcionar os que estão dentro de si. É por não terem desenvolvido a capacidade de conhecer a matéria através das suas faculdades intuitivas, que os "cientistas" são obrigados a dilacerá-la. Exatamente como as crianças que desfazem um brinquedo em pedaços para saber o que está lá dentro. E, assim, a ciência, que tanto se orgulha das suas descobertas, na realidade permanece numa fase de mentalidade infantil.

Só poder utilizar os cinco sentidos, dos quais o intelecto é o representante privilegiado, limita imensamente os humanos. Para conhecer o Universo, o Sol, os planetas ou mesmo o centro da Terra e as profundezas dos oceanos, eles precisam construir toda a espécie de engenhos, e enquanto esses engenhos não estiverem devidamente aperfeiçoados, escapar-lhes-ão inúmeros conhecimentos... E, mesmo que conseguissem aperfeiçoá-los, dado que para atingir certas regiões afastadas do espaço seriam necessários muitos mais anos que aqueles que a vida de um homem normalmente comporta, eis aí uma outra impossibilidade. Ao passo que, com os sentidos do mundo espiritual, pode-se penetrar instantaneamente em qualquer ponto do espaço e conhecer tudo.

O homem deve, pois, tornar-se cada vez mais consciente de que tem à sua disposição instrumentos muito superiores ao intelecto e aprender, no futuro, a pôr este um pouco de lado, e encará-lo somente como um instrumento de trabalho para o estudo e a exploração da matéria. Também na nossa vida quotidiana não é o intelecto que pode melhor guiar-nos: ele induzir-nos-á sempre em erro, não apenas porque tem uma percepção apenas parcial da realidade, mas principalmente porque no fundo de tudo o que ele empreende existe um certo propósito escondido, um interesse, um objetivo egoísta que acabará sempre por produzir aborrecimentos. O intelecto não foi feito para a generosidade, para a abnegação, para a renúncia, não foi criado para isso; ele só sabe dar a volta às situações em seu proveito. Se um dia ele se permite fazer um sacrifício, um gesto generoso, na manhã seguinte lamenta-o, acha que foi uma pena, que foi bastante idiota em escutar os conselhos do coração ou da alma.

Como é que se realizará a fraternidade entre todos os homens, como é que a Terra formará uma só família, como é que o mundo inteiro viverá em felicidade e em paz, se o intelecto não é capaz de conceber e de realizar? Ele não pode ir suficientemente alto para descobrir os verdadeiros meios, os verdadeiros remédios, as verdadeiras soluções. Aquilo que ele imagina, aquilo que ele propõe a partir da sua visão incompleta e egocêntrica das coisas é sempre algo defeituoso e só pode provocar mal-entendidos. É por isso que nunca nada está totalmente regularizado, que surgem sempre novos problemas. O intelecto nunca será um instrumento perfeito porque as regiões onde ele trabalha - as dos pensamentos e dos sentimentos comuns, vulgares - estão envoltas em poeiras e em brumas. Não lhe foi dada a visão clara das coisas, e se se confiar absolutamente nele, sem procurar mais alto outros instrumentos, outras faculdades que Deus nos deu também, nunca se encontrará as melhores soluções.

Está a chegar o momento de não mais vos deixardes fascinar pelas explorações do intelecto e de admitir a existência, em vós, de corpos espirituais, de estudar as suas diferentes possibilidades e de trabalhar finalmente para desenvolver a intuição, quer dizer, a inteligência superior do plano causal, que não tem agora qualquer propósito egocêntrico, mas, sim, sempre um fim heliocêntrico, teocêntrico. Nessa altura, em vez de fazerdes tudo em vosso proveito, começareis a colocar-vos ao serviço de Deus. Não é que Deus necessite do que quer que seja de você: Ele é tão rico e poderoso que não necessita de que se trabalhe para Ele. É por nós mesmos que esse trabalho nos é pedido, porque nos faz mudar de ponto de vista, de orientação, e somos nós mesmos que nos beneficiaremos, é em nós que haverá melhoras. Quando todas as energias convergem em direção a um outro centro, que não nós próprios, todos os processos, todas as funções e todas as vibrações mudam, e, em vez de permanecermos sem brilho, tornamo-nos luminosos, radiosos.

Evidentemente, não há que suprimir a atividade do intelecto. Deus quis que o ser humano desenvolvesse todas as possibilidades do cérebro; foi porisso que Ele o fez descer à matéria para a explorar. E nesta involução, os cinco sentidos ganharam tal importância que os homens perderam a noção do Céu, já não se comunicam com as entidades luminosas, já não pensam nelas, já nem sequer sentem a sua presença. Mas esta descida à matéria constituirá, contudo, uma aquisição extraordinária para a humanidade, pois os projetos do Eterno consistem em aperfeiçoar a criatura humana e, levando-a a passar através da matéria, através dos abismos, através da doença e da morte, fazê-la retornar em direção à vida, à ressureição, à luz, à liberdade absoluta, a fim de que ela conheça o seu Criador. Esta ascenção já começou, as correntes do Céu tornam-se mais poderosas e irá reencarnar um número cada vez maior de almas luminosas - filósofos, artistas, cientistas - que terão uma nova linguagem, que criarão novas obras, que proclamarão novos valores, que trarão uma nova visão do mundo, de forma a que sobre toda a Terra uma nova cultura venha a instalar-se, uma cultura que estabelecerá o Reino de Deus e a sua Justiça. Mas, para que isso aconteça, há que aprender a trabalhar com esses aparelhos muito mais aperfeiçoados, que são os órgãos dos corpos causal, búdico e átmico; numa palavra, trabalhar com o espírito, pois só ele poderá contemplar e apreender as realidades do mundo divino.

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