sexta-feira, junho 04, 2010
Repressão e Controle
É difícil você mostrar os sentimentos e ser simplesmente quem você é porque, durante milhares de anos, disseram-lhe para reprimir os seus sentimentos. Isso se tornou parte do seu inconsciente coletivo. Durante milhares de anos, disseram-lhe para não ser você mesmo. Seja Jesus, seja Buda, seja Krishna, mas nunca seja você mesmo. Seja outra pessoa. Ao longo das eras você foi ensinado com tanta constância, com tanta persistência, que hoje isso está no seu sangue, nos seus ossos, no seu próprio cerne.
Uma profunda auto-rejeição passou a fazer parte de você. Todos os sacerdotes o condenam. Acusam-no de ser um pecador, de nascer em pecado. Sua única esperança é que Jesus possa salvá-lo ou Krishna possa vir salvá-lo, mas, se depender só de você, não há nenhuma esperança. Você não pode salvar a si mesmo, outra pessoa terá que fazer isso. Você está condenado; tudo o que pode fazer é rezar para Jesus, para Krishna, pedindo que o salvem. No que lhe diz respeito, você é simplesmente inútil, não passa de pó e nada mais. Você não tem valor nenhum, foi reduzido a uma coisa vil, um ser desprezível. É por causa disso que é tão difícil e assustador mostrar os seus próprios sentimentos. Você foi ensinado a ser hipócrita.
A hipocrisia tem as suas vantagens e qualquer coisa que traga vantagens parece ter valor. Dizem que a honestidade é a melhor política. Até a honestidade se tornou mera política, porque traz vantagens. E se não trouxer? Então a desonestidade é a melhor política. A religião também se tornou uma boa política. Trata-se de um tipo de seguro para o outro mundo. Você está se preparando para o outro mundo sendo virtuoso, indo à igreja, fazendo donativos aos pobres. Você está abrindo uma conta bancária no paraíso, para que, ao ir para lá, seja recebido com grande alegria, por anjos clamando "Aleluia!" e dançando, tocando harpa. O saldo da conta bancária que você terá lá depende de quantos atos virtuosos você tenha praticado aqui. A religião também se tornou um negócio, e a sua realidade é reprimida.
E as pessoas reprimidas são muito respeitadas. Você as considera santas; na verdade elas são apenas esquizofrênicas. Deveriam receber tratamento, precisam de terapia - e você as reverencia! Elas geralmente não estão tentando enganar você, elas enganam a si mesmas. São pessoas reprimidas.
Não há nada errado com os seus sentimentos, e nada errado com você! Não é preciso repressão ou destruição, é preciso que você aprenda a arte de harmonizar as suas energias. Você tem de se tornar uma orquestra. Se você não sabe tocar os instrumentos musicais, você só fará barulho, deixará os vizinhos malucos. Mas, se conhece a arte de tocar os instrumentos, você criará uma sinfonia, pode criar uma música celestial. Pode criar algo que vai além deste mundo.
A vida também é um grande instrumento. Você tem que aprender a tocá-lo. Não há nada que precise ser extirpado, destruído, reprimido, rejeitado. Tudo o que a existência lhe deu é belo. Se você não está sendo capaz de usar de maneira bela o que ela lhe deu, isso simplesmente indica que você ainda não chegou à maestria. Todos nós tomamos a nossa vida como um fato consumado; ela não é! O que recebemos foi uma mera possibilidade. Estamos recebendo apenas um potencial para a vida; temos de aprender a realizar esse potencial.
É preciso lançar mão de todos os recursos possíveis para que você possa aprender a usar a raiva de modo que ela se torne compaixão, use o sexo de maneira que ele se torne amor, use a ganância de modo que ela se torne um compartilhar. Toda a energia que você tem pode se tornar seu oposto polar, porque o oposto polar está sempre contido nessa energia.
O seu corpo contém a alma, a matéria contém a mente. O mundo contém o paraíso, o pó contém o divino. Você tem de descobri-lo, e o primeiro passo rumo a essa descoberta é aceitar você mesmo, alegrar-se em ser você mesmo. Você não tem de ser alguém como Jesus, não! Você não tem de ser alguém como Buda nem como ninguém. Você tem de ser apenas você mesmo. A existência não quer cópias; ela adora a nossa unicidade. E você só pode se oferecer para a vida sendo um fenômeno único. Você pode ser aceito como uma oferenda, mas apenas se for um fenômeno único. Se for uma imitação de Jesus, de Krishna, de Cristo, de Buda, de Maomé - não vai adiantar. Os imitadores sempre acabam rejeitados.
Seja você mesmo, seja você de verdade. Respeite-se. Ame-se. E então comece a observar todos os tipos de energia dentro de você - você é um vasto universo! E pouco a pouco, quando for se tornando mais consciente, você será capaz de pôr ordem na casa, colocar tudo no seu devido lugar. Você está de pernas para o ar, é verdade, mas não há nada de errado com o seu ser. Você não é um pecador - basta uma leve arrumadinha e você se tornará um belo fenômeno.
Repressão é viver uma vida que não era para você viver. Repressão é fazer coisas que você nunca quis fazer. Repressão é ser uma pessoa que você não é, repressão é uma maneira de destruir a si mesmo. Repressão é suicídio - um suicídio muito lento, claro, mas um envenenamento lento e constante. Expressão é vida; repressão é suicídio.
Quando você vive uma vida reprimida, você simplesmente não vive. Vida é expressão, criatividade, alegria. Quando você vive do jeito que a existência quer que viva, você vive de um jeito natural.
Não tenha medo dos sacerdotes. Ouça os seus próprios instintos, ouça o seu corpo, ouça o seu coração, ouça a sua inteligência. Dependa apenas de si mesmo, siga a sua espontaneidade e você nunca se perderá. E seguindo espontaneamente a sua vida natural, um dia você com certeza chegará às portas do divino.
A sua natureza é o divino dentro de você. A força que impulsiona essa natureza é a força da vida dentro de você. Não ouça aqueles que o envenenam, ouça o impulso interior da natureza. Sim, a natureza não é suficiente, mas o superior vem por meio do inferior. O lótus cresce do lodo. Por meio do corpo, cresce a alma; por meio do sexo, cresce o transcendente.
Os sacerdotes têm lhe ensinado a reprimir o inferior. E eles são muito lógicos, só se esqueceram de uma coisa - a vida não tem lógica! Eles são muito lógicos e isso agrada você. É por isso que você lhes deu ouvidos e os seguiu ao longo das eras. Agrada a sua razão pensar que, se quer atingir o superior, você não deve ouvir o inferior. Parece lógico. Se quer subir, então não desça - é tudo muito racional. O único problema é que a vida não é racional (é um mistério).
Existe uma polaridade na vida. A vida não é lógica, a natureza não é lógica. A natureza dá o sono aos mendigos que trabalham o dia todo, que andam de um lado para o outro sob o sol escaldante, pedindo esmolas. A natureza dá um bom sono aos trabalhadores, aos operários, aos lenhadores. Eles passam o dia inteiro trabalhando arduamente e ficam exaustos. Por causa dessa exaustão, à noite eles caem num sono profundo.
Essa é a polaridade. Quanto mais energia você gasta, de mais sono você precisa, porque você só pode acumular energia quando dorme profundamente. Se você esgotar a sua energia, você cria uma situação em que cairá num sono profundo. Se você não fizer nada o dia inteiro, então não há necessidade de sono. Você não usou nem mesmo a energia que já recebeu, então para que receber mais? Só recebe energia que a usa.
Se você quer ser autenticamente verdadeiro, então você terá de arriscar. A repressão é uma maneira de evitar o risco. Por exemplo, você foi ensinado a nunca ficar com raiva, e acha que uma pessoa que nunca sente raiva com certeza será muito amorosa. Você está errado. A pessoa que nunca fica com raiva também não será capaz de amar. A raiva e o amor andam de mãos dadas, eles vêm no mesmo pacote. A pessoa que realmente ama às vezes ficará realmente com raiva. Na verdade, você se sentirá grato pelo fato de ela ter ficado com raiva. Já reparou? Se você ama uma pessoa e faz alguma coisa que a deixa realmente zangada, você se sente grato ao ver que ela o ama tanto a ponto de ter ficado com raiva. Do contrário, por que ficaria? Se o seu filho vai se jogar de um abismo, você vai ficar impassível? Não vai gritar? A sua energia não vai entrar em ebulição? Você vai continuar sorrindo? Não é possível!
A repressão é um truque para deixar você aleijado. Um truque para destruí-lo, para enfraquecê-lo. Colocá-lo contra si mesmo. Criar um conflito dentro de você; e sempre que um homem está em conflito consigo mesmo, é claro que ele fica mais fraco.
A sociedade fez um jogo e tanto. Ela colocou você contra si mesmo, porisso você está sempre travando uma batalha interior. Não tem energia para fazer mais nada. Você consegue ver isso acontecendo em você? Essa briga constante? A sociedade transformou-o numa pessoa dividida, deixou-o esquizofrênico e confuso. Você está desnorteado. Não sabe quem é, não sabe para onde está indo, não sabe o que está fazendo aqui. Não sabe nem por que está aqui. Isso deixou você realmente confuso. E dessa confusão nascem grandes líderes - Adolf Hitler, Mao Zedong, Josef Stalin. Dessa confusão nasce o papa e milhares de outras coisas. Mas você está acabado.
Expresse-se. Mas, lembre-se, expressão não significa falta de responsabilidade. Expresse-se de modo inteligente e nada de mal acontecerá a ninguém por sua causa. A pessoa que não causa mal a si próprio não causa mal a ninguém. E a que é capaz de causar mal a si mesmo é de certo modo perigosa. Se não ama nem a si mesmo, você é perigoso; pode fazer mal a alguém. Na verdade, você com certeza fará.
Quando você está triste, quando está depressivo, você faz com que as outras pessoas à sua volta também fiquem tristes e depressivas. Quando você está feliz, você tem vontade de criar uma sociedade feliz, porque a felicidade só pode existir num mundo feliz. Se vive cheio de alegria, você quer que todo mundo viva cheio de alegria - essa é a verdadeira religiosidade. Com a sua alegria, você abençoa toda a existência.
Mas a repressão o torna falso. Não é por meio da repressão que se põe fim à raiva, ao sexo, à ganância, não. Eles ainda existem, só o rótulo foi trocado. Com a repressão vão para o inconsciente e começam a influenciá-lo a partir dali. Vão para os subterrâneos. E, evidentemente, quando estão nos subterrâneos, são mais poderosos. Tudo o que o movimento psicanalítico tenta fazer é trazer à tona o que está nos subterrâneos. Depois que isso se torna consciente, você consegue se libertar.
Os seus pais e a sua sociedade destruíram você, e agora você está destruindo os seus filhos. Isso é um círculo vicioso. Cada geração destrói a que vem depois dela; a menos que a pessoa fique muito alerta, consciente, é inevitável que a destruição aconteça.
Os psicólogos dizem que todas as armas são fálicas. Como você não podia penetrar o corpo de uma mulher, então você penetrou o corpo de alguém com uma espada. A espada é um símbola fálico.
Estar em sintonia com a natureza é ser religioso. Minha definição de religião é estar em sintonia com a natureza. E esse o significado da palavra indiana dharma; ela significa "natureza", natureza intrínseca. Confie na natureza e não a desrespeite. Mas você foi ensinado a desrespeitar a natureza.
Lembre-se, a pessoa que não consegue ficar com raiva também não consegue amar. As rosas só crescem com espinhos. Se você não consegue ferver de raiva em algum momento, também não consegue arder de amor - pois você não consegue arder, não consegue ser quente, você vive gelado. E, se reprimir demais a sua raiva, você vai viver com medo de mergulhar no amor.
Uma pessoa livre é feliz; uma pessoa aprisionada nunca é feliz. Você não nasceu para ser um escravo.
Quando a mente está tomada de emoções, o corpo tem de corresponder a isso; a emoção tem de ser paralela ao movimento corporal. Se a emoção aflora e o corpo não a acompanha, isso significa que o corpo está sofrendo de uma certa inibição. O seu corpo tem sido inibido há séculos. As pessoas são ensinadas a fazer amor sem se mexer; fazer amor como se todo o corpo ficasse imóvel e o amor fosse um acontecimento banal. As mulheres foram ensinadas a se manter quietas, quase mortas, como um cadáver, porque, se a mulher começar a se mexer, o homem pode ficar com medo.
Por causa desse medo, o homem forçou a mulher a permanecer quieta enquanto ele faz amor. Do contrário, a mulher vai começar a fazer movimentos orgásmicos, quase frenéticos, e pode quase enlouquecer. Ela pulará e dançará, fará uma orgia e toda a vizinhança vai ficar sabendo! O homem fica com medo.
O medo é até maior do que o medo da vizinhança. O medo é que, se a mulher de fato fizer movimentos, nenhum homem a saciará - nenhum homem, porque existe uma limitação na energia masculina. O homem só pode ter um orgasmo e a mulher pode ter orgasmos múltiplos: seis, nove, doze. Então o homem ficará quase impotente com qualquer mulher. Qualquer homem, mesmo sendo potente, sempre acaba ficando impotente se a mulher começar a fazer movimentos.
Durante séculos as mulheres esqueceram completamente o que é um orgasmo. Em algumas culturas, até a palavra orgasmo desapareceu. Foi só nas últimas décadas que a palavra ressurgiu. Existem línguas para as quais a palavra orgasmo não pode ser traduzida. Pense em como o corpo está sendo mutilado!
Se você sente medo, o corpo tem de tremer. É como se o vento estivesse soprando e as folhas se agitassem. Quando o medo está soprando, o seu corpo tem de tremer. Essa é a função natural do corpo para acompanhar a emoção. A palavra "emoção" significa movimento. Ela tem de corresponder ao movimento do corpo, do contrário não é emoção.
Portanto, esse é um truque para controlar a emoção: se você controlar o corpo, a emoção será controlada. Por exemplo, se as lágrimas estão aflorando nos seus olhos e você segurá-las, o próprio esforço acabará com o choro e os soluços.
William James tem uma teoria sobre as emoções. Ela é muito famosa, chama-se a teoria James-Lange. Costumamos pensar que uma pessoa sente medo e por causa disso ela corre. James e Lange levantaram a hipótese de que acontece justamente o contrário: a pessoa corre, e é por isso que ela sente medo. Segundo eles, se você parar de correr, o medo desaparece - não corra e, de repente, você verá que não está mais com medo. E num sentido eles estão certos porque corpo e mente são as duas metades de um todo, eles se equilibram. Quando faz amor, a sua mente começa a tecer fantasias e o seu corpo começa a mexer. Se tanto a mente quanto o corpo estão correndo, naturalmente estão funcionando juntos. Se o corpo for, de algum modo, mutilado, eles não correrão mais juntos.
Portanto, se você sente medo ou sente amor ou sente raiva, o corpo tem de acompanhar essa emoção. Cada emoção tem um movimento correspondente no corpo. E essa é uma função natural, portanto não faça disso um problema. Aproveite, permita: não deixe que aconteça nem uma sutil repressão. Por exemplo, se você sentir a sua mão tremer e a mente começar a dizer para ela parar, porque não vai cair bem, você não é nenhum covarde para ficar tremendo - se impedir que a mão trema, você estará se forçando a ser antinatural.
Por isso a minha sugestão é que você coopere com o tremor, pois pouco a pouco verá que o corpo passará a se movimentar de modo sutil e gracioso a cada emoção. Enquanto faz amor, vá à loucura. O amor não deve ser uma coisa local, não só os órgãos genitais devem participar, mas a sua totalidade. Você deve ter não só um orgasmo sexual; precisa ter um orgasmo espiritual.
Todo ato de amor tem de ser uma crucificação e uma ressureição. Desse modo fica tão prazeroso que não há necessidade de repetir a experiência diariamente. As pessoas repetem demais o que elas chamam de fazer amor porque nunca ficam satisfeitas.
Na Índia, o texto mais antigo sobre sexo, o Kama Sutra de Vatsyayana, afirma que, se você fizer amor de modo realmente selvagem, uma vez por ano é suficiente! Isso parece quase impossível para a mente moderna - uma vez por ano? E essas pessoas não eram do tipo que se reprimisse de algum modo. Vatsyayana foi o primeiro sexólogo do mundo, e o primeiro a levar a meditação ao sexo; o primeiro que percebeu a existência dos seus centros mais profundos. Ele está certo. Levado a extremos, o sexo feito uma vez por ano é quase suficiente. Satisfará você a tal ponto que seus efeitos serão sentidos durante meses.
Não transforme os acontecimentos em problemas. Simplesmente seja natural e deixe as coisas acontecerem.
Fonte: Osho, Saúde Emocional: Transforme o Medo, a Raiva e o Ciúme em Energia Criativa, Editora Cultrix, 2008.
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