Saturday, October 16, 2010

 

O Equilíbrio


Perguntaram ao Osho:

É verdade que numa relação muito íntima, quando um "joga" o bom, o compreensivo, o calmo e o relaxado, sobra para o outro ser somente nervoso, tenso e raivoso? Por favor, explique.

Eis a explicação do Osho:

Sim, um certo tipo de equilíbrio sempre acontece num relacionamento. Se um está fazendo o papel do muito calmo, sereno e ponderado, o outro terá de fazer todo o trabalho de ser raivoso, resmungão, miserável e briguento.

Apenas há alguns dias Chaitanya Hari me fez uma pergunta: "Por que Sócrates continuou a viver com sua mulher rabugenta e briguenta, Xantipa?"

Essa pergunta é relevante, pois Chaitanya também está vivendo com uma mulher rabugenta e briguenta, Krishna. Mas lembre-se, Sócrates era responsável por aquela situação. Ele estava fazendo o papel do muito sereno e do muito filosófico. Xantipa não era tão má como parece. Se você entrar na psicologia disso, ela era a vítima de um filósofo. A pobre mulher tinha de fazer todo o trabalho.

E assim é o caso de Krishna! Krishna estava me dizendo "Osho, você acha que esse Chaitanya Hari é um santo?" Ele não é! Ele apenas finge ser! Ora, Chaitanya Hari também é responsável se Krishna se tornar uma Xantipa. Ela sozinha não será responsável.

Existe uma espécie de equilíbrio. Sempre que duas pessoas estão juntas acontece um equilíbrio. Não tente fazer o papel de sereno, do contrário o outro terá de se tornar mais quente do que o necessário. Não tente "jogar" o paraíso, do contrário o outro se tornará o inferno. Seja natural, seja normal. Algumas vezes é bom ficar com raiva, estar triste, ser infernal ou celestial.

Dessa forma ambos permanecem naturais e normais. Um relacionamento normal é um relacionamento céu-inferno. Quando um é, ou finge ser, celestial ou infernal, então não sobra mais nada para o outro. O único papel que sobra é fazer o papel oposto. Isso precisa ser entendido, esse é um dos maiores problemas do mundo.

Certa vez Avicenna, um famoso médico e filósofo árabe, ouvindo sobre a fama espiritual de Abel Hasan Khargani, visitou esse Mestre em Khargani. Quando lá chegou, o Mestre não estava em casa, tendo ido a uma floresta próxima apanhar lenha a pedido de sua esposa.

Quando Avicenna perguntou à esposa onde o Mestre estava, ela respondeu calorosamente: "Por que você quer ver aquele lunático e impostor? Que negócio você tem com ele?" E ela prosseguiu criticando e menosprezando longamente o Mestre e depreciando seu status espiritual.

Avicenna ficou muito perplexo. O que ela dizia contradizia o que ele tinha ouvido previamente, sentindo-se desmotivado a continuar sua busca por ele. Contudo, dando-se conta de ter chegado até ali para ver o Mestre, finalmente decidiu ir até o fim. Ao se dirigir à floresta, ficou pasmo ao ver o Mestre se aproximando dele, retornando da floresta com um grande feixe de lenha em cima das costas de um tigre.

O filósofo, após lhe prestar respeitos, indagou ao Mestre o significado da diferença entre o que lhe foi dito pela sua esposa e o que ele via com seus próprios olhos.

O Mestre respondeu: "Não há nada espantoso nisso. Trata-se de uma mera questão de fadiga. Quando eu aguento e tolero o fardo de sofrer da loba (leia-se 'esposa') em minha casa, então automaticamente esse tigre da floresta carrega meu fardo para mim".

O Mestre Sufi está dizendo: "Há também uma espécie de equilíbrio na existência". Não existe apenas um equilíbrio entre Xantipa e Sócrates, mas também existe um equilíbrio entre esse casal e a existência. Sócrates era imensamente respeitado pelas pessoas; desrespeitado e torturado pela esposa, mas respeitado pelas outras pessoas.

Lembre-se sempre, a vida pode existir somente em equilíbrio; sempre foi assim. Boas mulheres sempre encontram esposos ruins, e bons esposos sempre encontram mulheres ruins, esposas ruins. Isso é tal que não há exceção, não pode haver exceção.

Um homem foi a Sócrates e perguntou: "Sou jovem e gostaria de me casar. Queria a sua sugestão, pois ouvi muitas histórias sobre sua vida de casado. Você é a pessoa mais experiente sobre casamento. Vim para receber seu conselho. O que devo fazer? Está certo casar ou é bom permanecer solteiro? Qual é mais ditoso?".

Sócrates respondeu: "É melhor você se casar".

O jovem disse: "Você me deixa perplexo".

Sócrates replicou: "Não há motivo para ficar perplexo, é simples. Se você arranjar uma mulher como a minha, você se tornará um grande filósofo. Eu tive de me tornar! Isso é pura necessidade! Apenas para sobreviver, tive de me tornar tranquilo, meditativo e silencioso. Isso me ajudou imensamente. E se você tiver uma boa esposa, você será feliz; se tiver uma má esposa, você se tornará filósofo. De ambas as maneiras você será beneficiado. Case-se!".

Portanto, não posso dizer que Sócrates não seja responsável pelo comportamento de Xantipa. Não posso dizer que aquele Mestre Sufi, Abel Hasan Khargani, não seja responsável pelo comportamento de sua esposa.

Por isso, no Oriente, muitos buscadores da verdade permanecem solteiros. Há uma razão para isso. A razão é, a razão fundamental é - não que você não possa atingir a verdade com uma esposa - devido à compaixão, pois se você ficar demasiadamente meditativo vivendo com a esposa, você irá destruir o seu ser. Ela começará a equilibrar essa situação, e então ela se tornará feia e negativa. Se você for todo positividade, ela se tornará negatividade. Então você estará cometendo um crime contra ela, e você será responsável por isso. No Oriente, através dos tempos, buscadores da verdade permaneceram solteiros. É simplesmente devido à compaixão: por que destruir um outro ser humano?

Sócrates era tão silencioso, meditativo e envolvido em sua busca pela verdade que a esposa simplesmente se sentiu negligenciada e ignorada. Ela queria a atenção dele. Posso ver isto acontecendo - ao ela despejar uma chaleira de água quente sobre ele, ela estava simplesmente pedindo por sua atenção. Ele devia ser muito frio, assim dessa forma ela estava tornando-o um pouco mais quente. Ele devia estar numa espécie de desinteresse, e ela estava tentando criar alguma paixão nele. Se ele pudesse ter raiva, então ele poderia amar também.

Mas ele não ficou com raiva. Ele usou isso como uma estratégia: ele ficou ainda mais calmo e sereno e permitiu que aquela água quente queimasse seu corpo, mas ele permaneceu apenas uma testemunha. Ora, isso deve ter deixado a sua esposa ainda mais maluca. Como se pode perdoar tal marido que não pula e revida? Se ele tivesse revidado, ela teria ficado mais calma.

Se você já é casado, é melhor você permanecer normal. Sua busca pela verdade deveria ser interior. Em seu relacionamento com a esposa ou com o esposo, você deveria permanecer um ser humano normal. Do contrário você estará cometendo um crime, um pecado: você destruirá a mulher ou o homem. Então medite enquanto você estiver sozinho. E algumas vezes, se for necessário, fique com raiva! Pode ser apenas de brincadeira, aja assim, mesmo se não for necessário, pois uma vez que você decidiu viver com uma mulher ou com um homem, você tem certas responsabilidades a cumprir. Você algumas vezes precisa também ficar com raiva - essa é sua responsabilidade.

Se Chaitanya Hari não entender isso, então Krishna se tornará uma mulher rabugenta e briguenta, e a metade da responsabilidade desta situação será dele.

Se a pessoa decide estar em um relacionamento, ela dever ter cuidado para não destruir o outro, para não atirá-lo demasiadamente na polaridade. A vida equilibra a si mesma. Se você é todo positivo, o outro se torna todo negativo. Então seja meio a meio, negativo e positivo, ambos. E quando ambos são ambos, há um tipo de relacionamento belo, surge uma beleza; há uma grande música e harmonia. Eles se tornam uma orquestra.

Se isso não estiver acontecendo, é melhor ser solteiro, ficar só. Pelo menos você não perturbará um outro ser humano.

O Oriente está certo: se você é um buscador da verdade, é melhor ficar só. E se você já estiver num relacionamento e a busca pela verdade começou depois, então pelo menos você pode representar. Não há necessidade de ficar realmente com raiva, você pode representar, e isso já servirá. Você pode ser quente algumas vezes, pelo menos você pode mostrar isso - você deve isso ao outro.

Fonte: Osho, A Sabedoria das Areias: Discursos sobre o Sufismo, Editora Gente, 1999. ISBN 85-7312-133-5.

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