terça-feira, novembro 02, 2010

 

As Virtudes do Egoísmo


Pensa-se que o egoísmo só possui características negativas. No entanto, se você não for egoísta, você não será altruísta, lembre-se. Se você não for egoísta, não será abnegado, lembre-se. Somente uma pessoa profundamente egoísta pode ser altruísta. Mas isso precisa ser entendido, pois parece um paradoxo.

O que significa ser egoísta? O primeiro ponto básico é ficar centrado em si mesmo. O segundo, é sempre procurar pela própria felicidade. Se você ficar centrado em si mesmo, você será egoísta em tudo o que fizer. Você pode servir pessoas, mas fará isso somente porque sente prazer, porque gosta de fazer isso; você se sente feliz e bem-aventurado ao fazer isso e faz porque quer fazer. Você não está fazendo uma obrigação, não está servindo à humanidade. Você certamente não é um grande mártir e não está se sacrificando. Esses são todos termos sem sentido para você. Você está simplesmente feliz à sua própria maneira, você se sente bem com isso. Você vai ao hospital e serve os enfermos de lá, ou vai aos pobres e os serve, mas você adora fazer isso. É assim que você cresce. No fundo, você se sente alegre, silencioso e feliz consigo mesmo.

Uma pessoa autocentrada está sempre procurando a sua própria felicidade. E esta é a beleza: quanto mais você procurar a sua própria felicidade, mais você ajudará os outros a serem felizes. Porque essa é a única maneira de ser feliz neste mundo. Se todos à sua volta forem infelizes, você não poderá ser feliz, porque o ser humano não é uma ilha. Ele é parte de um vasto continente. Se você quiser ser feliz, precisará ajudar quem o cerca a ser feliz. Então, e somente então, você poderá ser feliz.

Você precisa criar uma atmosfera de felicidade à sua volta. Se todos forem infelizes, como você poderá ser feliz? Você será certamente afetado; você não é uma pedra, mas um ser muito delicado, muito sensível. Se todos à sua volta estiverem infelizes, a infelicidade deles o afetará. A infelicidade é tão contagiosa quanto qualquer doença. A bem-aventurança também é contagiosa como qualquer doença. Se você ajudar os outros a serem felizes, no final você se ajudará a ser feliz. Uma pessoa que está profundamente interessada em sua própria felicidade, sempre estará interessada também na felicidade dos outros, mas não por causa deles. No fundo, ela estará interessada nela mesma, e por isso ela ajuda. Se for ensinado a todos no mundo a serem egoístas, todo o mundo será feliz e a infelicidade será impossível.

Se você quiser ser saudável, não poderá viver permanentemente entre enfermos. Como você poderá ser saudável? Será impossível, é contra as leis da natureza. Você precisa ajudar os outros a serem saudáveis. Na saúde, sua saúde se torna possível. Por isso, quando você sabe o caminho da saúde, naturalmente você sente um grande impulso para divulgar esse caminho para todos.

Ensine a todos a serem egoístas - o altruísmo cresce a partir daí. Em última instância, o altruísmo é egoísmo. No começo ele pode parecer altruísmo, mas no final, ele satisfaz você. E então, a felicidade pode ser multiplicada; tanto quanto for a quantidade de pessoas felizes à sua volta, essa mesma felicidade recai sobre você. Você pode ficar soberbamente feliz.

E uma pessoa feliz está tão satisfeita que deseja ficar em paz para ser feliz. Ela quer que sua própria privacidade seja preservada, quer viver com as flores, com a poesia e com a música. Por que ela deveria se importar em ir para guerras, ser morta e matar os outros? Por que ela deveria ser assassina e suicida? Somente pessoas altruístas podem fazer isso, porque elas nunca conheceram a bem-aventurança que é possível a elas. Elas nunca tiveram experiência do que é ser, do que é celebrar. Elas nunca dançaram, nunca respiraram a vida, nunca conheceram um vislumbre divino; todos esses vislumbres vêm de uma profunda felicidade, de uma profunda saciedade e contentamento.

Uma pessoa apenas altruísta não tem raiz, não tem centro; ela está numa profunda neurose. Ela vai contra a natureza e não pode ser saudável e inteira. Ela está lutando contra a corrente da vida, do ser, da existência - está tentando ser altruísta. Ela não pode ser altruísta, pois somente uma pessoa egoísta pode ser altruísta.

Quando se tem felicidade, pode-se compartilhá-la; quando não se tem, como compartilhá-la? Para compartilhar, em primeiro lugar a pessoa precisa tê-la. Uma pessoa altruísta está sempre séria, no fundo está doente, em angústia. Ela perdeu sua própria vida. E lembre-se, sempre que você perde sua vida, você se torna assassino, suicida. Sempre que uma pessoa vive infeliz, ela tem vontade de destruir (a si e aos outros).

A infelicidade é destrutiva; a felicidade é criativa. Existe somente uma criatividade, e essa é a da bem-aventurança, do contentamento, do deleite. Quando você está em deleite, deseja criar algo (um filho?), talvez um brinquedo para crianças, talvez um poema, uma pintura, uma canção, qualquer coisa. Sempre que você estiver muito encantado com a vida, como expressar isso? Você cria algo, uma coisa ou outra. Mas, quando você está infeliz, você deseja esmagar e destruir algo. Neste caso, você gostaria de ser um político, um soldado, gostaria de criar alguma situação na qual possa ser destrutivo.

É por isso que, de vez em quando, emergem guerras em algum lugar no mundo. Trata-se de uma grande doença. E todos os políticos ficam falando sobre paz - eles preparam a guerra e falam de paz. Na verdade, eles dizem: "Estamos preparando a guerra para preservar a paz". Muito irracional! Se você estiver preparando a guerra, como poderá preservar a paz? Para preservar a paz, a pessoa deveria preparar a paz, óbvio.

Por isso, no mundo inteiro a nova geração (os jovens) é um grande perigo para o sistema vigente. Ela está interessada somente em ser feliz, está interessada no amor, na meditação, na música, na dança... No mundo inteiro, os políticos estão muito alertas. A nova geração não está interessada em política, direita ou esquerda. Não, ela de maneira nenhuma está interessada nisso. Ela não é comunista, não pertence a nenhum ismo.

A pessoa feliz pertence a si mesma. Por que ela deveria pertencer a alguma organização? Esse é o caminho da pessoa infeliz, pertencer a alguma organização, a alguma multidão. Por não ter raiz dentro de si mesma, ela não pertence... e isso lhe dá uma ansiedade muito profunda; ela sente que deveria pertencer. Ela cria um pertencer substituto; ela se afilia a um partido político, a uma sociedade secreta, a um partido revolucionário ou a qualquer coisa, como uma religião. Agora ela sente que pertence: existe uma multidão na qual ela está enraizada.

A pessoa deveria estar enraizada nela mesma, pois essas raízes se estendem da pessoa para a existência. Se você pertencer a uma multidão, pertencerá a um beco sem saída; a partir daí, não será possível nenhum desenvolvimento adicional. Aí é o fim, o final da estrada.

Portanto, eu não lhe ensino a ser altruísta, pois sei que, se você for egoísta, naturalmente você será altruísta. Se você não for egoísta, significa que você perdeu a si mesmo; agora você não pode entrar em contato com mais ninguém, pois o contato básico (com você mesmo) está faltando, perdeu-se o primeiro passo.

Esqueça-se do mundo, da sociedade, das utopias, de Karl Marx. Esqueça-se de tudo isso. Você estará aqui (no mundo físico) somente por alguns anos. Desfrute, deleite-se, seja feliz, dance e ame. E a partir do seu amor e da sua dança, a partir de seu profundo egoísmo, você começará um transbordar de energia. E, então, você será capaz de compartilhar com os outros.

Eu costumo dizer, o amor é uma das coisas mais egoístas que existem.

Fonte: Osho, Amor, Liberdade e Solitude, Editora Cultrix, 2006. ISBN 978-85-316-0913-8.

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