sábado, janeiro 28, 2023

 

O Problema de Deus

 

Fonte: Osho, Liberdade, A Coragem de Ser Você Mesmo, Editora Pensamento-Cultrix.


Existe uma frase profética de Friedrich Nietzche: "Deus está morto e o homem está livre". Ele teve uma grande clareza de visão. Pouquíssimas pessoas são capazes de entender a profundidade do que ele disse. Trata-se de um marco na história da consciência.

Se existe um Deus, o homem nunca pode ser livre - essa é uma impossibilidade. Deus e a liberdade do homem não podem coexistir, pois o próprio significado de Deus é que ele é o criador; então nós somos reduzidos a marionetes. E, se ele pode nos criar, então ele pode nos destruir a qualquer momento. Ele nunca pediu para nos criar - ele não é obrigado a pedir para nos destruir. Ele nos cria ou nos destrói por puro capricho. Como você pode ser livre? Você não é livre nem para existir. Nem mesmo para nascer você tem liberdade, nem mesmo para morrer você a tem - e entre essas duas escravidões, você acha que a sua vida pode ser livre?

Deus tem de morrer para que a liberdade do ser humano seja resgatada.

A escolha é clara; não há como entrar num acordo. Com Deus, o homem continuará sendo um escravo e a liberdade, uma palavra vazia. Apenas sem Deus a liberdade começa a fazer sentido.

Mas a afirmação de Nietzsche é só uma parte; ninguém tentou concluí-la. Ela parece completa, mas as aparências enganam. Nietzsche não estava a par de que existem religiões no mundo que não têm nenhum Deus - contudo, nem nessas religiões o homem é livre. Ele não conheceu o Budismo, o Jainismo, o Taoísmo - as mais profundas de todas as religiões. Pois em nenhuma delas existe um Deus.

Pela mesma razão Lao-Tzu, Mahavira e Gautama Buda negaram Deus - pois eles podiam perceber que, com Deus, o homem não passa de uma marionete. Com ele, todos os esforços para atingir a iluminação ficariam sem sentido; você não é livre, como pode ficar iluminado? Existe alguém onipotente, todo-poderoso - ele pode acabar com a sua iluminação. Ele pode destruir qualquer coisa!

Mas Nietzsche não se deu conta de que existem religiões destituídas de um Deus. Durante milhares de anos existiram pessoas que compreenderam que a existência de Deus é a maior barreira para a liberdade do homem - elas eliminaram Deus. Mesmo assim, o homem não é livre.

O que eu estou querendo que você entenda é que o mero fato de Deus estar morto não é suficiente para tornar o homem livre. Você terá de fazer com que mais uma coisa morra - a religião.

É por isso que eu digo que a religião também tem de morrer; ela tem de ir pelo mesmo caminho de Deus. E temos de criar uma religiosidade destituída de Deus e de religião, que não tenha ninguém "lá em cima" que seja mais poderoso do que você e nenhuma religião organizada para criar diferentes tipos de prisão - cristãs, muçulmanas, hindus, budistas. Belas prisões...

Com Deus e a religião mortos, uma outra coisa morre automaticamente - o sacerdócio, o líder, as diferentes formas de líder religioso. Ele passa a não ter função. Não existe nenhuma religião organizada em que ele possa ser um papa ou um shankaracharya ou um aiatolá. Ele não tem nenhum Deus a quem representar; a sua função deixa de existir.

Buda, Mahavira, Lao Tzu descartaram Deus assim como Friedrich Nietzsche - sem saber, sem perceber que, se a religião continuar existindo mesmo sem Deus, o sacerdote arranjará um jeito de manter o homem na servidão. E ele tem que fazer isso.

Por isso, para completar a descoberta de Friedrich Nietzsche, a religião tem de morrer. Não há razão para existir uma religião organizada caso não exista nenhum Deus. Para quem a religião organizada vai existir? As igrejas, os templos, as mesquitas, as sinagogas têm de desaparecer. E com isso os rabinos e os bispos e todos os tipos de líderes religiosos ficam simplesmente sem trabalho, passam a ser inúteis. Mas uma tremenda revolução acontece: o homem passa a ser absolutamente livre.

Antes que eu possa comentar a respeito das implicações dessa liberdade, você tem de entender: se a descoberta de Friedrich Nietzsche estiver completa, então que tipo de liberdade os seres humanos poderão ter? Deus está morto, o homem está livre... livre para que? A liberdade dele será como a de qualquer outro animal.

Não é correto chamar isso de liberdade - é licenciosidade. Não é liberdade porque não traz consigo nenhuma responsabilidade, nenhuma consciência. Não ajudará o homem a se elevar a ser algo superior ao que ele é na sua escravidão. A menos que a liberdade leve você a ficar acima do que você era na escravidão, ela não tem sentido. É impossível que a sua liberdade possa levá-lo abaixo da sua escravidão, pois a escravidão tem uma certa disciplina, tem uma certa moralidade, tem certos princípios. Ela tem uma certa religião organizada para cuidar de você, para deixá-lo com medo do castigo e do inferno, para mantê-lo ávido por recompensas e pelo céu, e para mantê-lo um pouco acima do animal selvagem, que tem liberdade, mas uma liberdade que não faz dele um ser superior. Ela não confere a ele nenhuma qualidade que você possa apreciar.

Nietzsche não fazia idéia de que não basta dar liberdade... além de não bastar, é perigoso. Pode reduzir o homem à animalidade. Em nome da liberdade, ele pode se perder e deixar de alcançar estados de consciência mais elevados.

Quando digo que Deus está morto, quero dizer que a religião como um corpo organizado está morta - o homem fica livre para ser ele mesmo. Pela primeira vez ele fica livre para explorar o âmago do seu ser sem nenhum impedimento. Ele fica livre para mergulhar nas profundezas do seu ser, voar até as alturas da sua consciência. Não há ninguém para atrapalhá-lo; a sua liberdade é completa. Mas essa liberdade só é possível se - com Deus passando a não existir mais, a religião passando a existir mais, a liderança religiosa passando a não existir mais - , pudermos salvar algo que eu chamo a qualidade da religiosidade, de modo que só essa religiosidade esteja viva. E a religiosidade está em perfeita harmonia com a liberdade humana; ela promove o crescimento humano.

Quando me refiro à "religiosidade" quero dizer que o homem, do jeito que é, não basta. Ele pode ser mais, pode ser muito mais. Seja o que for, ele é apenas uma semente. Ele não sabe o potencial que carrega dentro de si.

A religiosidade simplesmente significa um desafio para crescer, um desafio para que a semente chegue ao auge da sua expressão, para que ela exploda em milhares de flores e libere a fragrância que estava escondida dentro dela. Essa fragrância eu chamo de religiosidade. Ela não tem nada a ver com as chamadas religiões, não tem nada a ver com Deus, não tem nada a ver com o sacerdócio; ela tem algo a ver com você e com as suas possibilidades de crescimento.

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