terça-feira, agosto 15, 2023

 

O Ideal

O homem deve olhar para a realidade, e não se prender a tradições, não deve se deslocar para o passado. Quando a pessoa está morrendo, vem alguém e diz o consolo: "Não tenha medo, a alma é imortal". Ora, você está morrendo!

Ouvi a história de um judeu que, ao sofrer um ataque cardíaco, caiu em uma estrada e estava morrendo. Uma multidão se juntou, e alguns buscavam por uma pessoa religiosa, algum padre, porque o homem estava morrendo. Surgiu um padre católico, sem saber quem era a pessoa. Ele chegou perto do moribundo e perguntou:

- Você acredita? Você declara que acredita na Santa Trindade, ou seja, no Deus Pai, em seu filho Jesus Cristo e no Espírito Santo?

O judeu moribundo abriu os olhos e disse:

- Estou morrendo e ele está falando em enigmas. Agora, o que devo fazer com a Santa Trindade? Estou morrendo. Que absurdo é esse que você está falando?

Um homem está morrendo e você o consola dizendo que a alma é imortal. Esses consolos não vão ajudar. Uma pessoa está infeliz e alguém lhe diz: "Não fique infeliz. É apenas psicológico". De que isso adianta? Isso vai fazer com que ele fique ainda mais infeliz. Essas teorias não são de muita ajuda. Elas foram inventadas para confortar, para iludir. 

Essa é a forma como a humanidade está sofrendo. É preciso dar ouvidos ao sofrimento. É preciso olhar para dentro do problema, e não tentar encontrar uma solução fora dele. Basta olhar diretamente para o problema que a solução sempre será encontrada. Examine a pergunta, não peça a resposta.

Existencialmente, deixe a pergunta ficar lá como uma flecha que perfura o coração, "Quem sou eu?", e acompanhe a pergunta.

E não tenha pressa de responder a isso, porque, ao responder, essa resposta, provavelmente, terá vindo de outra pessoa, algum padre, algum político, alguma tradição. Não se deve responder a partir da própria memória, porque a memória é toda emprestada. A memória é como um computador, completamente sem vida. A sua memória não tem nada a ver com o saber. Ela foi alimentada. Portanto, quando alguém perguntar "Quem sou eu?", e sua memória disser "Você é uma grande alma", você deve ficar alerta. Trata-se de uma armadilha. É preciso descartar todo esse lixo, pois é tudo podridão.

Não tem como perguntar ao próprio pai: "Quem sou eu?". Ele próprio não sabe quem ele é. Não tem como perguntar ao avô ou ao bisavô. E não se deve perguntar! Não se deve perguntar à mãe, à sociedade, à cultura, à civilização.

Deve-se perguntar ao âmago mais profundo. Se a pessoa realmente quiser saber a resposta, deve buscar em seu interior, e é a partir dessa experiência interior que a mudança acontece. Você pergunta: "Como posso mudar isso?". Você não pode mudar isso. Primeito é preciso encarar sua realidade, e é exatamente esse confronto que vai mudar você.

A menos que surja alguma experiência nas pessoas, alguma experiência de vida que transforme seu ser e elas voltem a ser jovens novamente, com vivacidade de novo, nada será de valor algum.

Portanto, não pergunte aos outros. Essa é a primeira lição a ser aprendida. Cada um deve perguntar a si mesmo. E, então, lembre-se também de evitar aquelas respostas que os outros já colocaram lá e que virão à tona. A questão é de cada um, de modo que a resposta de ninguém mais pode ser útil.

A questão é de cada um, e a resposta também tem que ser de cada um.

Buda bebeu e está satisfeito. Jesus bebeu e está em êxtase. Eu bebi, mas de que forma isso vai ajudar a sede de seja lá quem for? Cada um terá de beber por si.

Ouvi uma história sobre dois vagabundos que estavam sentados debaixo de uma árvore, conversando. Um deles disse:

- Cheguei a esse estado porque nunca ouvi o conselho de ninguém.

- Irmão, eu cheguei até aqui porque segui o conselho de todo mundo, disse o outro.

A jornada tem que ser de cada um. A realidade não pode ser evitada.

Teorizações não ajudam em nada. As pessoas devem esquecer as teorias e dar ouvidos ao fato em si. Está infeliz? Então a infelicidade tem que ser analisada. Está com raiva? Esta raiva tem que ser avaliada. Então, esqueça o que os outros dizem a respeito, e faça uma análise por si mesmo. É a sua vida, e você tem que vivê-la. Não peça emprestado. Nunca seja de segunda mão. Deus ama as pessoas que são de primeira mão. Ele nunca soube amar cópias. O homem tem que ser de primeira mão, ser original, ser único, ser individual. ser ele mesmo, e analisar seus problemas.

E há somente uma coisa que posso dizer às pessoas: que no problema está escondida a solução. O problema é apenas uma semente. Se a pessoa entrar fundo nela, a solução vai brotar a partir dela. Sua ignorância é a semente. Se entrar profudamente nela, o conhecimento vai florescer a partir dela. O calafrio, o congelamento, é o problema? Entre nele e o calor vai surgir dele.

Na verdade, tudo é dado ao homem, tanto a pergunta quanto a resposta, tanto o problema quanto a solução, tanto a ignorância quanto o conhecimento. É preciso apenas que cada um olhe para dentro de si.

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.

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