Thursday, January 03, 2008

 

Ver Deus

Fonte: Omraam Mikhaël Aïvanhov, Acerca do Invisível, Edições Prosveta, Lisboa, 1988.

"Bem-aventurados os corações puros - dizia Jesus -, pois eles verão Deus". Por que está a visão clara ligada desta forma à pureza? É muito simples; reparai: na época em que as pessoas ainda tinham iluminação com candeeiros de petróleo, era preciso limpar com freqüência a chaminé de vidro para a liberar da camada de fumo que nela se depositava, senão, mesmo que estivesse aceso, o candeeiro não iluminava devidamente. O mesmo se passa com o homem: se permite que em si se depositem camadas de impurezas, estas formam uma barreira entre a luz do mundo divino e ele próprio, e ele deixa de ver. A pureza traz, pois, a visão clara, e porisso Jesus dizia: "Bem-aventurados os corações puros, pois eles verão Deus".

Na realidade, para se ver verdadeiramente Deus com os olhos interiores, a pureza de coração, por si só, não basta. É necessária também a pureza de intelecto, da alma e do espírito. Mas na nossa vida psíquica o trabalho de purificação deve começar pelo coração, pois é no coração, que corresponde ao plano astral, que as impurezas começam por se insinuar: as cobiças, o ciúme, o ódio, o desejo de vingança, etc.

Mas, claro está, "ver" Deus não significa que Ele vai surgir diante dos nossos olhos. Aliás, neste sentido nunca ninguém viu Deus, nenhum santo, nenhum profeta, nenhum apóstolo, nenhum mártir, nenhuma virgem, nenhum patriarca, nenhum Iniciado alguma vez viu Deus. Nem mesmo Moisés viu Deus; contudo, quantas vezes está escrito no Pentateuco que Deus lhe falou! Mas também isso é preciso compreender convenientemente. Não foi o próprio Deus que falou a Moisés, ou a Buda, ou a Zoroastro, ou a Orfeu. Ele falou-lhe por intermédio de grandes Arcanjos, seus mensageiros, pois essas pessoas não poderiam suportar a sua voz nem a sua presença, teriam sido pulverizados. Vós direis: "Mas... e Jesus, ele não viu Deus?". Na sua qualidade de Cristo, sim, podemos dizer que Jesus viu Deus, porque o Cristo - o Filho (Maitreya), está fundido no Pai. Mas o Cristo é um espírito cósmico (como Sai Baba), e se podemos dizer que Jesus, ou um outro grande Iniciado, viu Deus, foi por intermédio do espírito do Cristo ao qual ele se identificou, mas ele nunca O viu com os seus próprios olhos.

Nunca ninguém viu Deus, porque Deus é o infinito, o ilimitado. Podemos sentir a sua presença, sim, podemos mesmo ver as suas manifestações: clarões, projeções de luz, mas não podemos ver o Autor dessas manifestações. É impossível para os olhos físicos ver Deus, muito simplesmente. Para ver um objeto ou um ser é preciso que este tenha uma forma, dimensões, limites, que esteja situado algures no espaço e no tempo. Ora, Deus escapa ao tempo e ao espaço e de Deus só podeis ver reflexos, manifestações dispersas por todo o lado, nas pedras, nas plantas, nos animais e também nos humanos, nos seus gestos de bondade ou de coragem, nas suas obras de arte. E quanto mais puros sois, mais distinguis os sinais de Deus, a vida, o perfume, a música de Deus. Quando vedes o sol, podeis dizer: "Eu vi Deus na sua luz, senti Deus no seu calor e agora estou mais vivo". Mas dizer que se viu Deus e que se falou com Ele, não, só alguns idiotas podem querer convencer-nos de que viram Deus face-a-face e falaram com Ele. Aquilo que é limitado não pode compreender o ilimitado. Aquilo que é pequeno não pode compreender o incomensurável. E quando é que o compreenderá? Quando entrar nele, quando se fundir com ele, quando fizer parte dele. Nesse momento, sim, pode ter finalmente uma noção do incomensurável, do infinito.

Enquanto, na sua consciência, permanecer separado de Deus, o homem não poderá compreender a sua natureza incomensurável e infinita, é preciso que ele se funda, se integre, n'Ele; nessa altura, conhece-l'O-á, porque será Ele, ter-se-á tornado Ele. Enquanto estiver fora d'Ele, não poderá conhecê-l'O. Mas esta fusão não poderá dar-se enquanto o homem não se libertar das suas impurezas... O Senhor é o esplendor, a luz, o incomensurável, e nós estaremos separados d'Ele enquanto tivermos vícios, enquanto formos sombrios, maus. Só eliminando todas as camadas de impurezas que acumulamos em nós é que conseguiremos fundir-nos com Ele, ou seja, "vê-l'O".

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Thursday, December 27, 2007

 

O Olho Espiritual

Fonte: Omraam Mikhaël Aïvanhov, Acerca do Invisível, Edições Prosveta, Lisboa, 1988.

Muitas das infelicidades que acontecem aos humanos advêem de o seu olho interior não os ter prevenido dos perigos que corriam tomando esta ou aquela decisão, lançando-se neste ou naquele empreendimento. Eles partiram tranqüilamente, sem nada ver, e lançaram-se nas dificuldades. Se tivessem sabido desenvolver o seu olho interior, este tê-los-ia avisado, pois este olho, a que por vezes se chama terceira visão, é como um radar: envia ondas que, ao regressar, nos previnem dos obstáculos que estão no nosso caminho. Mas muitas vezes esse radar está avariado porque a vida desordenada que se levou opõe-se ao seu bom funcionamento.

É verdade que existem casos em que este olho espiritual, mesmo desenvolvido, não nos previne: é quando certos acontecimentos são determinados antecipadamente pelo carma, pelos 24 Anciãos, e devem realizar-se obrigatoriamente. Então, mesmo que os vejamos ou os sintamos chegar, não poderemos evitá-los. Mas, a não ser nesses casos, se tivermos sabido preparar-lhe as condições, este olho espiritual está lá para nos ajudar, para nos avisar e, sobretudo, para nos guiar. Sim, mas desde que esteja liberto de todas as camadas opacas, de todos os materiais fluídicos que se depositaram sobre ele. Não se trata de elementos físicos, mas de emanações fluídicas formadas pela própria pessoa, pela sua forma de viver, que se acumulam em seu redor e a impedem de ver claro, como se se tratasse de um nevoeiro ou de uma nuvem de poeira.

Só a pureza permite desenvolver a intuição. É porisso que damos tanta importância à pureza: viver uma vida pura, consumir alimentos puros, respirar ar puro, ter pensamentos puros e sentimentos puros. E se nos referimos sempre ao Sol é porque ele é a imagem da pureza. Sobre a Terra não encontrareis a verdadeira pureza, nem mesmo na água das nascentes ou no cristal da rocha. Só a luz do Sol se aproxima da pureza absoluta, se bem que, quando ele chega até nós, após ter atravessado a atmosfera terrestre, também ela já esteja carregada de numerosas influências que alteraram o seu brilho original (Já tomou seu banho de sol hoje?).

A luz divina é comparável a um rio que nasce nas montanhas: na nascente ele é puro, mas à medida que desce para os vales, para as planícies, recebe toda a espécie de sujidades e detritos nele lançados pelos habitantes dessas regiões, e, quando chega ao mar, que diferença em relação à pureza que tinha na origem! Passa-se mais ou menos o mesmo com os raios do sol: o sol é uma fonte, ele faz jorrar a sua luz, mas, ao circular através do espaço para chegar até nós, os seus raios são obrigados a atravessar regiões poluídas; porisso, quando chegam à Terra já não são tão puros como quando foram emitidos pelo sol. A verdadeira pureza só a encontrareis no Alto, na Fonte. Claro que podereis começar por procurá-la na água de um lago, no céu azul, ou nos cristais de neve, que são um reflexo longínquo, muito longínquo, da pureza celeste; mas a verdadeira pureza só a encontrareis se em cada dia vos elevardes (na vertical, não na horizontal) através do pensamento até as regiões da luz divina.

Todo o destino do homem depende da pureza do seu olho interior. Quando cometeis um erro, quando transgredis as leis divinas, a vossa visão espiritual fica obscurecida, deixais de ser avisados ou guiados, acabais por vos meter em complicações de que não conseguis sair. Tomai consciência, portanto, dessa relação existente entre a vossa conduta quotidiana e a clareza da vossa visão. Aquele que se decide a viver uma vida reta, honesta, nobre, purifica-se; os seus órgãos sutis começam a funcionar, e assim, bem guiado, bem dirigido, ele encontra as fontes, as pradarias, os lagos, as pastagens e as montanhas da sua verdadeira Pátria.

Grandes segredos estão escondidos nesta frase de Jesus: "Se teu olho estiver puro, todo o seu corpo estará puro". Muitos pensaram que se tratava dos olhos do corpo físico, mas do ponto de vista lógico isso é um absurdo: o estado do corpo não depende do estado dos olhos, os olhos físicos não podem purificar nem sujar o corpo, isso não tem sentido; pelo contrário, os olhos é que dependem do estado do corpo e, mais precisamente, da pureza do sangue. Além disso, Jesus não falou dos olhos, mas de um olho: "Se o teu olho estiver puro...". É claro, portanto, que ele não falava dos olhos físicos, mas do olho espiritual que aconselha o homem, que lhe indica por onde passar, a quem se ligar, como agir, como se alimentar no plano físico e sobretudo no plano psíquico, de forma a evitar introduzir no seu sangue, nos seus pensamentos, na sua alma, elementos impuros e nocivos. Esse olho mantém-no num estado de pureza e é nesse sentido que poderemos dizer que o olho age sobre o corpo.

Aquele cujo olho está puro começa verdadeiramente a ver, a sentir, a compreender, e permite que as correntes proveniente do mundo divino entrem no seu corpo e o purifiquem. Quando se tiverem dispersado todas as camadas opacas que podem obscurecê-lo, é este olho que estabelece um contato verdadeiro com o Céu, de forma a deixar passar a luz divina. E como a luz tem sempre um poder purificador, se soubermos verdadeiramente como nos expor aos seus raios, estes serão capazes de expulsar de nós todas as impurezas (Já tomou seu banho de luz hoje?). "Se o teu olho estiver puro, todo o teu corpo estará puro", quer dizer, se o teu olho estiver puro, todo o teu corpo estará na luz.

Portanto, o olho espiritual de que Jesus falava é este órgão ou, se quiserdes, esta faculdade graças à qual podemos ter a visão do Céu e das criaturas que nele habitam. Essas criaturas são como que forjadas de luz, delas emanam perfumes deliciosos, todo o seu ser canta e propaga uma sinfonia indescritível... O segredo para obter esta visão sublime está em trabalhar sem descanso sobre a nossa matéria prima, em nos desembaraçarmos de tudo o que pode obscurecer-nos ou aviltar-nos, em alimentarmos em nós pensamentos puros, sentimentos puros, atividades puras, e um dia teremos a visão clara daquilo que é a vida no Céu e daquilo que ela deve ser sobre a Terra. É através deste olho espiritual, que é o intermediário entre o Céu e nós, que toda essa vida do Céu vem refletir-se na Terra. Pois não é o intelecto, mas sim a contemplação divina, que pode dar solução a todos os problemas que se põem aos humanos. Portanto, é graças à pureza que podemos concretizar a oração de Jesus: "...assim na Terra como no Céu".

Então, se fordes sensatos, razoáveis, se estiverdes atentos, começareis esse trabalho em vós mesmos e cada vez mais a clareza virá, o vosso olho interior se purificará, todas as vendas e impurezas que o envolvem cairão e vós podereis ver, sentir, compreender e contemplar esse mundo divino onde vivemos, de onde viemos e que é a nossa verdadeira pátria; essa pátria de que quase não nos lembramos... Devemos começar desde já a voltar os nossos olhos para esse mundo de esplendor e de perfeição absoluta, devemos desde já comtemplá-lo continuamente para que ele se inscreva, pouco a pouco, nas profundezas do nosso ser e até no nosso corpo físico, a fim de que também este possa vibrar em uníssono com o mundo divino.

Muitas vezes, ouvimos dizer que foi a Igreja que inventou a moral para dominar e explorar o povo crédulo e ignorante. É certo que, em numerosos casos, o clero colocou a religião ao serviço de interesses e de paixões inequivocamente condenáveis. Mas a verdadeira religião e a verdadeira moral não se baseiam no proveito próprio: fundamentam-se numa ciência profunda sobre as causas e as conseqüências de cada pensamento, de cada sentimento, de cada ato. O mal do clero foi não ter procurado explicar as regras que impunha. Dizia-se às pessoas que fizessem isto e aquilo, como se se estivesse a falar para crianças a quem se pede obediência sem nunca se lhes dar explicações. Porisso, à semelhança das crianças, quando puderam elas desobedeceram. Contudo, para bem da sua evolução, essas pessoas deveriam ter sabido que a verdadeira religião, tal como a verdadeira moral, se baseia num conhecimento preciso das grandes leis cósmicas.

De ora em diante, é necessário compreender a importância desta relação entre a vida pura e a clareza da visão espiritual. Quando o vosso olho interior vos dá uma visão correta das coisas, vós sois avisados, protegidos: quando ele sente que correis o risco de vos perder em regiões obscuras, previne-vos de que deveis mudar de direção: sentis uma hesitação, uma inquietação... É a prova de que esse olho vos diz: "Atenção! Vais cair num pântano, não vás mais longe, volta para trás". E, em seguida, quando conseguis regressar ao bom caminho, ele diz-vos: "Agora, sim, estás no bom caminho; segue-o, ele conduzir-te-á ao Templo que brilha no Alto, o templo do Santo-Graal, a Pátria Celeste".

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Wednesday, December 19, 2007

 

A Lei do Choque de Retorno


Pode-se estudar as coisas de vários pontos de vista - físico, químico, astronômico, político, financeiro, etc. - e isto está muito certo, mas enquanto não as estudarmos do ponto de vista mágico, não conheceremos o essencial. Pois é, enquanto não conhecermos a forma como as coisas atuam sobre nós, como elas nos influenciam, não conheceremos o essencial. Ora, tudo atua sobre nós, tudo o que viva na Natureza nos influencia: o sol, a lua, as estrelas, as plantas, as pedras, os animais, etc.

O comportamento dos humanos também é mágico: os olhares, os gestos, as palavras. Infelizmente, são poucos aqueles que estão conscientes dos efeitos que produzem: gesticulam, lançam maus olhares e proferem palavras negativas sem saber que o Cosmos é como uma imensa parede (espelho) que lhe reenvia, como que um eco, cada uma das suas manifestações.

Se andardes a passear numa cadeia de montanhas e vos puserdes a gritar: "Ama-vos", o eco responderá: "Ama-vos... ama-vos... ama-vos". O mesmo se passa com tudo na nossa vida: não só nada permanece sem efeito, mas também, como o demonstra a lei do eco, tudo o que fazeis acaba por recair sobre vós: é aquilo a que também se chama a Lei do Choque de Retorno.

Mas as conseqüências da nossa conduta não se fazem sentir imediatamente (o eco demora um certo tempo para voltar à fonte do eco); primeiro atingem outras pessoas, parentes, amigos, e por vezes até seres muito afastados que não conhecemos e que recebem as ondas emitidas pelos nossos pensamentos, sentimentos e atos.

Falarei agora de outro exemplo: uma experiência feita pelo físico Gravesand. Pendura-se um conjunto de esferas alinhadas de modo a que se toquem umas nas outras. Afasta-se uma das esferas numa estremidade e depois larga-se: ela bate, evidentemente, na esfera vizinha seguinte. Mas nesse momento produz-se algo espantoso: todas as esferas suspensas permanecem imóveis, à exceção da última, na extremidade oposta, que se desloca em certo ângulo da sua posição primitiva na vertical. Eis um fato de importância considerável: é apenas a última esfera que sofre as conseqüências do choque e se desloca, enquanto as outras esferas permanecem imóveis, funcionando simplesmente como transmissoras da perturbação.

Se refletirmos sobre essa lei verificaremos que ela se aplica a um grande número de situações. Cada país, cada sociedade, representa um sistema de esferas ligadas entre si; se um dos seus membros comete um crime, qual será a esfera que se deslocará no final, ou seja, quem pagará pelo erro? A última esfera da série à qual pertence essa sociedade. Mas geralmente ignora-se sempre quem será esta última esfera.

Compreedeis agora a natureza da ligação que existe entre os homens? Pensais que podeis fazer isto ou aquilo sem conseqüências para vós próprios? Sim, de momento talvez não haja conseqüências, mas outros serão afetados, os que representam a última esfera da série. Isto é verdade tanto para o bem como para o mal. A primeira esfera pode dizer: "Bati na minha vizinha e nada aconteceu". Sim, aparentemente nada aconteceu, mas ela não sabe que a última esfera da série foi afetada.

E isto não é tudo, porque a última esfera que recebe o choque afasta-se inicialmente, mas volta a cair, produzindo-se o mesmo efeito inicial mas no sentido inverso, uma vez que as vibrações se propagam novamente de esfera em esfera e agora é a primeira esfera que se afasta e volta a cair. Ela sofre, pois, o choque de retorno.

Isto significa que as nossas infelicidades atuais provêm de erros que cometemos no passado ou até em vidas anteriores: estamos sofrendo agora o choque de retorno. Quem tiver tempo para estudar e verificar, reconhecerá a verdade desta lei.

Quereis que vos amem? Amai, muito simplesmente. Aquele que ama suscita as mesmas forças no Universo e um dia essas forças virão até ele. Mesmo que queira escapar-lhes, não poderá, todo o mundo o amará. São, se quiserdes, as mesmas leis que operam na agricultura.

Pode-se dizer que a agricultura se baseia na lei do choque de retorno: colhe-se aquilo que se semeou. Semeastes um grão de trigo e colhereis dez. Tudo regressa a vós ampliado.

Então, doravante estai atentos não só a tudo o que fazeis, mas também aos vossos pensamentos, aos vossos sentimentos e aos vossos desejos, porque se é verdade que eles talvez comecem por prejudicar os outros, um dia sereis vós os atingidos.

Fonte: Trecho extraído da obra O Livro da Magia Divina, de Omraan Mikhael Aivanhov, publicado pela Revista O Pensamento, pp. 276-277, novembro/dezembro 2007, do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento.

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Thursday, December 06, 2007

 

Graus Superiores da Clarividência

Fonte: Omraam Mikhaël Aïvanhov, Acerca do Invisível, Edições Prosveta, Lisboa, 1988.

Já refletistes sobre o fato de que, para podermos ver tudo o que existe à nossa volta, é preciso que raios luminosos venham incidir sobre os objetos ou sobre os seres para os tornar visíveis? Certas pessoas chamam ao Sol de lâmpada do Universo, para exprimir a idéia de que é graças a ele que o mundo é iluminado e nós vemos tudo o que nos rodeia. E quando não podemos ser iluminados pelo sol, necessitamos de uma outra fonte de luz: lâmpada elétrica, velas, lanternas, faróis, etc.

Portanto, os objetos só são visíveis na medida em que a luz incide sobre eles e os ilumina; é uma lei do mundo físico e é também uma lei do mundo espiritual. Mas no mundo espiritual não existem lâmpadas que possamos acender tal como acendemos a da nossa escada ou a do nosso quarto. Se quisermos ver no mundo espiritual temos de projetar uma luz a partir de nós próprios. Eis o motivo porque só muito poucos seres podem ver no plano espiritual: as pessoas, em geral, esperam que os objetos estejam iluminados, não sabem projetar os raios que lhes permitirão ver. Na realidade, todos os objetos do plano astral, mental, causal, etc., emitem luz, mas as suas emissões não podem ser captadas pelos nossos olhos físicos. Cabe a nós, portanto, desenvolver os nossos órgãos sutis, acender as nossas lâmpadas interiores para projetar raios que, ao incidir sobre a superfície dos objetos ou sobre as criaturas, os tornarão visíveis para nós.

Existem múltiplas formas de visão, a que se dá nomes diferentes consoante os planos a que se aplicam. No nível mais elevado manifesta-se a visão do espírito, a que chamamos intuição. Esta visão não é material, óbvio, e muitas vezes o homem nem tem consciência de que vê. Mas, na realidade, vê. Quando recebe subitamente a revelação de uma verdade superior, divina, é porque conseguiu projetar muito longe, muito alto, raios emitidos por ele próprio que lhe fazem ver, no Universo, leis, correspondências, uma estrutura. É a luz do espírito que ilumina a realidade divina e permite compreendê-la.

A um outro nível, a visão chama-se sensação, pois a sensação provém também de uma espécie de radiação que vós projetais sobre os objetos ou sobre as criaturas. Quando os sentis, vibrais em uníssono com eles, tomais consciência da sua existência, da sua presença, e é como se os vísseis.

Existe, finalmente, uma terceira forma de visão que consiste em apreender a existência, no plano etérico e no plano astral, de luminosidades, de cores, de objetos, de entidades que se deslocam. Mas, em geral, aqueles que têm estas visões não compreendem o que vêem, não sabem interpretá-las, é preciso que alguém os ajude a fazê-lo, ou, se as interpretam, muitas vezes cometem erros. Portanto, essa clarividência não serve de muito, freqüentemente até trava os seres na sua evolução.

Existem, pois, diferentes graus de visão. O grau mais elevado é a intuição, que é simultaneamente uma compreensão e uma sensação do mundo divino. É por aí que há que começar, para depois, armado com esta compreensão e esta sensação superiores, se descer até à visão dos planos etérico e mental a fim de os percorrer e de os estudar.

Na realidade, pode dizer-se que existem duas escolas: uma que ensina a desenvolver a clarividência começando pelos planos inferiores para chegar progressivamente à visão celeste, a outra que ensina primeiro a esforçar-se por chegar à Causa Primordial, à Fonte da vida, ao próprio Deus, para depois se descer à matéria. Na minha opinião, este último método é preferível, comporta menos perigos, pois quando tiverdes o vosso pensamento e o vosso coração concentrados no Senhor, Ele permitir-vos-á conhecer todas as regiões do Universo e nelas trabalhar sem riscos. E mesmo que queirais conhecer o Inferno e os espíritos que lá habitam, o próprio Deus vo-lo mostrará sob a sua proteção.

Vós direis: "Mas por que é que está a falar em conhecer o Inferno?". Para atingir o topo da evolução, os grandes iniciados são obrigados a descer até ao Inferno. Se evitarem o Inferno com receio daquilo que os ameaça, têm lacunas, não possuem o conhecimento total da criação. Claro que, antes de descer, eles deverão ter desenvolvido certas qualidades indispensáveis: o saber, a força, o autodomínio... e sobretudo deverão possuir uma aura poderosa, que os protege. Os espíritos inferiores e mesmo os demônios tremem diante de um Iniciado porque sentem que ele tem o fogo, tem o poder do raio. Porisso mantêm-se à distância enquanto ele percorre essas regiões onde lhe são reveladas a natureza e a manifestação do mal, as leis do karma e os castigos infligidos às criaturas que transgrediram as regras divinas. O próprio Jesus desceu aos infernos, onde libertou almas.

Aqueles que querem desenvolver a clarividência começando pelos planos inferiores por vezes utilizam drogas para excitar certos centros psíquicos, e isso é muito perigoso. Primeiro, porque essas drogas atacam o sistema nervoso, e segundo, porque as criaturas que habitam as regiões dos planos etérico e astral não gostam de ser vistas e observadas, e muitas vezes são bastante hostis para com aqueles que as incomodam. Porisso fazem tudo para os transviar e atormentar a fim de os obrigar a voltar para trás. É assim que milhares de pessoas são vítimas de algumas migalhas de conhecimento que colheram em livros. Aqueles que procuram penetrar nessas regiões sem ter desenvolvido meios de defesa eficazes,como a luz e o autodomínio, não só estão expostos a forças inimigas, como são retardados na sua evolução.

Um vedadeiro Iniciado sabe que se trabalhar incessantemente para se purificar, para desenvolver a sabedoria, o amor, o autodomínio, um dia atingirá o topo. E, uma vez aí chegado, a matéria do seu ser estará de tal forma depurada que se impregnará da quinta-essência da Alma Universal. Esta quinta-essência na qual tudo se registra dá-lhe a possibilidade de ver e de sentir alquilo que ele deseja conhecer. Assim, pelo seu trabalho, ele obteve o poder mas também a clarividência.

Aliás - isso vê-se bem - a clarividência dos médiuns limita-se sempre mais ou menos ao plano astral, é incapaz de penetrar nos mistérios do Universo. Quando se pede a um médium que atinja regiões muito distantes para responder a questões de ordem espiritual, cósmica, a maior parte das vezes ele é incapaz de o fazer. Pois bem, uma clarividência uqe não pode servir para a elevação do ser humano não tem nenhum interesse para um verdadeiro espiritualista. É porisso que ele não se detém nela, e até fecha os olhos quando atravessa as regiões do plano astral.

Compreendei-me bem, pois tudo isto é muito sério: antes de vos lançarder em toda a espécie de experiências psíquicas que podem ser muito perigosas para vós, exercitai-vos primeiro de molde a serdes senhores de vós próprios, a vigiar os vossos desejos, as vossas aspirações. Nessa altura, estareis seguros de que, mesmo expostos a perigos, sabereis defender-vos. Mas se não tiverdes exercitado, sereis vulneráveis e ireis inevitavelmente soltar gritos, lamentando-vos por todo o lado em relação àquilo que vos aconteceu. Eu recebo imensas cartas de pessoas que me contam que são perseguidas por monstros, que vivem no Inferno e, evidentemente, não compreendem como isso lhes aconteceu. No entanto, é simples: ao procurarem penetrar no mundo astral por razões "pouco católicas" - a curiosidade, as cobiças - atraíram entidades que realmente as fazem viver no Inferno, pois o Inferno é exatamente isso: o mundo astral inferior.

Na Escola Divina, ensina-se ao discípulo que ele deve ter como primeira preocupação possuir raízes sólidas, sem as quais ficará exposto aos tremores de terra, aos tornados, aos ciclones. Ora, as verdadeiras raízes do homem estão no Céu, e porisso o discípulo deve, antes de mais nada, ligar-se ao Criador, à pura luz celeste, a fim de fazer penetrar profundamente as suas raízes no mundo divino. Assim, quando ele descer para explorar as outras regiões, terá um ponto de suspensão de tal forma sólido, estará tão bem ligado ao Céu, que nenhuma força hostil será capaz de o derrubar. Sim, o essencial é fazer penetrar profundamente as raízes no Céu.

Começai, pois, por vos desenvolver no mundo do espírito e da alma, e só depois descei ao plano astral para ver os espíritos da Natureza e todas as entidades que nele trabalham. Nessa altura, já não haverá perigo, todos aqueles que não gostam de ser vistos, que não gostam de ser observados, nada podem fazer contra vós: vêem que sois um ser potente, algo formidável, e então, não só não ousam medir forças convosco, como, pelo contrário, começam a obedecer-vos e, graças à sua ajuda, vós podeis empreender grandes trabalhos espirituais.

Sois vós que, através da vossa vida espiritual, deveis projetar a luz que vos permitirá ver os objetos e as criaturas do mundo invisível. Se essa luz estiver obscurecida pelos vossos pensamentos e sentimentos inferiores, apenas vereis aquilo que corresponde a esses pensamentos e a esses sentimentos. A clarividência é dada a cada um em função do seu grau de evolução, e se ainda andais a patinhar nas regiões inferiores do plano astral, apenas encontrareis as entidades que povoam essa região - montes de bichos que grunhem, monstros que se devoram uns aos outros, feras que se despedaçam - e sofrereis.

Não se deve crer que, porque um homem ou uma mulher possuem qualidades mediúnicas, podem ter acesso a todas as regiões do mundo invisível. Não, na clarividência existem níveis que correspondem ao grau de pureza que o clarividente conseguiu atingir: quanto mais se purifica, mais vê as regiões celestes. Não é desejável, pois, tornar-se clarividente se não se for puro e capaz de se dominar.

Se quereis entrar em contato com as entidades celestes, ve o esplendor divino, deveis purificar-vos, alargar a vossa consciência e trabalhar para o mais alto ideal: a fraternidade entre os homens, o Reino de Deus. Nesse momento, as vossas emanações tornar-se-ão puras, as vossas vibrações serão mais sutis, e os espíritos luminosos não só vos deixarão chegar até eles, como virão visitar-vos, pois encontrarão em vós o seu alimento.

Só desenvolvereis a verdadeira clarividência se vos elevardes até ao cume do vosso ser: o vosso Eu superior. Diariamente, pensai que conseguis elevar-vos até ele, que vos identificais com ele: mantendes-vos lá no cimo e de lá mergulhais o vosso olhar no Universo. Como o vosso Eu superior tem a possibilidade de tudo penetrar, de tudo conhecer, pouco a pouco muitas das coisas que vós aprendestes sem vos dardes conta começarão a descer até à vossa consciência, e ficareis maravilhados, extasiados, com tudo aquilo que vos sentireis capazes de descobrir e de compreender.

A melhor visão é aquela que os olhos do espírito vos darão. É claro que, ao princípio, aparentemente, nada vereis, nada apreendereis, mas estareis a preparar o terreno para a verdadeira clarividência.

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