sábado, setembro 05, 2009
Chuang Tsu: O Fácil é Certo!
"O fácil é certo. Comece certo e tudo será fácil. Continue no fácil, e você estará certo. O modo certo de estar no fácil é esquecer o caminho certo. E esquecer que o fluxo é fácil", Chuang Tsu
O construtor da Natureza (Deus) não é sádico, não se diverte nos dando problemas complicados para resolver. Sabendo disso, Chuang Tsu nos exorta para sermos natural. Tudo que não seja natural deve ser evitado. Nada faça que não seja natural. A natureza é o suficiente e não podemos melhorá-la.
Mas o nosso ego diz: não, podemos melhorar a natureza, e é porisso que existe a cultura. Qualquer tentativa de melhorar a natureza é cultura, e toda cultura é como uma doença: quanto mais culto for um homem, mais perigoso será. Chuang Tsu não é adepto da cultura. Ele afirma que a natureza é o valor supremo, e a essa natureza suprema ele dá o nome de Tao. Tao significa que a natureza é o que há de supremo e não pode ser aperfeiçoada. Quando se tenta aperfeiçoá-la, ela é mutilada.
É assim que mutilamos nossas crianças. Toda criança nasce no Tao, e então a mutilamos com a sociedade, a civilização, a cultura, a moral, a religião... tratamos de mutilá-la de todos os jeitos. E ela vive, mas não está viva.
Quanto mais culto e civilizado, mais morto. Se quiser ver homens perfeitamente mortos, apesar de vivos, vá visitar os monges nos mosteiros, procure os padres nas igrejas, vá ao encontro do papa no Vaticano. Eles não estão vivos: têm tanto medo da vida, tanto medo da Natureza que trataram de suprimi-las com regras. Já estão no túmulo. Podemos pintar o túmulo, podemos até fazer um túmulo de mármore, muito caro, mas o sujeito lá dentro está morto.
A cultura nos mata, é uma assassina, um veneno que age lentamente: é o suicídio. Chuang Tzu e seu velho mestre, Lao Tzu, são contra a cultura. São a favor da Natureza, da natureza pura. As árvores estão em melhor situação que você, até os pássaros, os peixes do rio estão em melhor situação, pois têm mais vida, dançam mais ao ritmo da natureza.
Você nasceu: que esforço você fez para nascer? Você cresce: que esforço terá feito para crescer? Você respira: que esforço faz para respirar? Tudo se move por conta própria, por que então preocupar-se? Deixe a vida fluir por si mesma, e você estará indo junto. Não lute nem tente ir contra a corrente. Seja uma nuvem branca movendo-se no céu: nenhum objetivo, indo para lugar nenhum, simplesmente flutuando. Esse flutuar é o supremo desabrochar. Idéias do revolucionário Chuang Tzu...
Você esqueceu completamente o que é a natureza. Condenou-a radicalmente. E se quiser condenar a natureza você tem de começar condenando o sexo, pois é dele que emana toda a natureza. A natureza inteira é um transbordamento de energia sexual, de amor. Os pássaros cantam, as árvores florescem: tudo isso é energia sexual explodindo. As flores são símbolos sexuais, o canto dos pássaros é sexual, todo o Tao não passa de energia sexual: a natureza inteira se propaga, se ama, orienta-se para êxtases mais profundos de amor e vida. Portanto, se você quiser destruir a natureza, condene o sexo, condene o amor, erija conceitos morais em torno da vida. Esses conceitos morais, por mais belos que pareçam, serão como túmulos de mármore, e você estará em seu interior. Sua moralidade é uma espécie de morte: antes de ser morto pela morte, você é morto pela sociedade moralista.
Porisso é que a mensagem de Chuang Tzu é uma das mais perigosas, das mais revolucionárias, das mais rebeldes, pois ele afirma: "Deixe a natureza ser! E não lhe atribua meta alguma. Quem é você para criar metas e objetivos? Você é apenas uma partícula minúscula, uma célula atômica. Quem é você para obrigar o Todo a se mover de acordo com a sua vontade?". Esse perigo é maior para as pessoas religiosas, para os puritanos moralistas. Esta mensagem é muito perigosa. Significa romper todas as barreiras, permitir que a natureza se manifeste sem nenhum controle - é mesmo muito perigoso.
Os padres têm medo da saúde porque, para eles, ela é imoral. Você talvez tenha ouvido falar de um pensador alemão do Século XX, muito famoso em sua época - o conde Keyserling. Ele era considerado um grande filósofo religioso, e escreveu em seu diário: a saúde é a coisa mais imoral que existe. Pois saúde é energia, e energia é prazer, contentamento, energia é amor, é sexo, tudo que é natural. Destruir a energia, torná-la fraca e vacilante. Donde tanto jejum - simplesmente para destruir a energia, impedir que se manifeste tanta energia, que comece a transbordar. As pessoas religiosas sempre acharam que a saúde é perigosa. Deixar de ser saudável torna-se, portanto, uma meta espiritual.
Chuang Tzu é muito rebelde. Diz ele: "A natureza, a energia e o êxtase que vêm com o transbordamento, assim como o equilíbrio que se manifesta espontaneamente, são o suficiente". Não é preciso nenhum esforço para isso. Existe tanta beleza acontecendo na natureza sem nenhum esforço: uma rosa é bela sem nenhum esforço, o cuco canta sem nenhum esforço...
Veja a natureza: tudo é tão perfeito. Será possível aperfeiçoar uma rosa? Será possível aperfeiçoar a natureza de alguma forma? Só o homem deu errado em algum momento. Se a rosa é bela sem fazer esforço, por que não o homem? O que há de errado com o homem? Se as estrelas continuam belas sem nenhum esforço, sem posições de ioga, por que não o homem? O homem faz parte da natureza, assim como as estrelas. De modo que Chuang Tzu diz: "Seja natural, e você florescerá". Se se compenetrar desse entendimento cada vez mais profundamente, todo esforço haverá de perder o sentido. Você deixará de estar o tempo todo providenciando coisas para o futuro, passará a viver no aqui e agora, o momento presente será tudo, este momento é a eternidade. E o estado búdico já é uma realidade, você já é um buda. A única coisa que falta é que você ainda não permitiu o seu desabrochar, tão ocupado está em seus projetos.
A flor floresce sem nenhum esforço porque a energia não é dissipada em projetos; a flor não planeja para o futuro, a flor é, aqui e agora. Seja como uma flor, seja como um pássaro, seja como uma árvore, um rio ou o oceano - mas não seja como um homem. Pois o homem, de alguma forma, deu errado.
A natureza é ser natural - natural sem esforço, espontaneamente natural -, eis a essência dos ensinamentos que nos deixou Chuang Tzu. Chuang Tzu é muito especial. Sua singularidade é que ele fala através de absurdos. E é muito significativo o motivo pelo qual ele escolhe o absurdo como forma de expressão: a mente precisa ser calada. Com as coisas racionais, ela não pára de funcionar; ela está sempre indo adiante. Em qualquer coisa lógica que se manifeste a mente encontra o seu alimento. Só o absurdo é capaz de chocar repentinamente a mente - pois isto está fora do seu alcance.
As histórias, os poemas e as declarações de Chuang Tzu eram tão absurdos que as pessoas costumavam simplesmente deixá-lo, pensando que ele era maluco... Os que eram suficientemente corajosos para permanecer a seu lado, constatavam que não era necessária nenhuma outra meditação. Pelo simples fato de ouvir suas afirmações absurdas, a mente pára de funcionar. E é esse o significado principal da meditação. Chuang Tzu fala por absurdos, e a mente não consegue lidar com eles. A mente precisa de coisas razoáveis, racionais, lógicas; esse é o seu território. O absurdo está além do seu alcance.
Os ensinamentos de Chuang Tzu eram muito simples, e todos aqueles que ficaram a seu lado tornaram-se iluminados. Isto é um fenômeno raro. Neste quesito, ele derrotou até mesmo o seu próprio mestre Lao Tzu: algumas pessoas se tornaram iluminadas, mas a maioria dos discípulos de Lao Tzu permaneceu na antiga ignorância. Ele derrotou também Gautama Buda: alguns poucos de seus discípulos tornaram-se iluminados, mas numa proporção muito pequena, pois ele tinha milhares de discípulos, e não mais que uma dúzia deles se tornou iluminada. Todos os discípulos de Chuang Tzu tornaram-se iluminados... ele não os abandonava enquanto não se tivessem iluminado! Ele tanto ficava em cima que as pessoas acabavam decidindo que era melhor tornar-se iluminado. Diariamente, uma nova tortura... a única maneira de escapar disso era tornar-se iluminado.
Duas passagens da vida de Chuang Tzu:
1. A mulher de Chuang Tzu morreu e o imperador veio prestar suas homenagens. Encontrou Chuang Tzu cantando. Sentado sob uma árvore, ele tocava um instrumento e cantava em voz alta. Parecia muito feliz, e sua mulher morrera naquela mesma manhã. O imperador ficou sem graça e disse: "Chuang Tzu, é estranho que você não esteja chorando, mas cantar já é demais. É ir longe demais!".
Chuang Tzu perguntou: "Mas por que eu deveria chorar?"
E o imperador disse: "Parece que você não está sabendo que sua mulher morreu".
Chuang Tzu respondeu: "Claro que a minha mulher morreu. Mas por que eu deveria chorar? Se ela morreu, morreu. E eu nunca imaginei que ela pudesse viver para sempre. Sempre soube que um dia ela haveria de morrer, e esse dia chegou. Algum dia tinha de acontecer. E qualquer dia é bom para morrer; portanto, por que eu não deveria estar cantando? Se eu não pudesse cantar quando vem a morte, não poderia cantar a vida toda, pois a vida é uma contínua morte. A todo momento a morte chega para alguém em algum lugar. A vida é uma contínua morte. Se não puder cantar no momento da morte, simplesmente não poderei cantar nunca.
"A vida e a morte não são coisas diferentes. São a mesma coisa. No momento em que alguém nasce, nasce também a morte com ele. Quando você cresce na vida, está crescendo também na morte, e o que quer que seja conhecido como morte, nada mais é que o apogeu da sua chamada vida. Por que eu então não haveria de cantar? Além do mais, a pobre mulher viveu tantos anos comigo, e eu não teria o direito de cantar um pouco em sinal de gratidão quando ela parte? Que ela vá em paz, harmonia, música e amor. Por que teria eu de chorar?
"Nós só choramos quando esperamos alguma coisa e essa coisa não acontece. Eu nunca imaginei que ela fosse ficar aqui para sempre. Quando não esperamos, quando não desejamos, não podemos ficar insatisfeitos".
No caso de uma pessoa como Chuang Tzu ou Buda, o fato de fracassarem ou terem êxito é imaterial. É irrelevante. Eles estão sempre satisfeitos. A pessoa que está no contentamento não sente nenhuma diferença entre o fracasso e o sucesso. Nem poderia. Já não existe diferença, para essa pessoa. O que quer que aconteça, ela estará satisfeita. Não quer saber se fracassou ou teve êxito, pois não existe o desejo de alcançar determinado resultado, de garantir determinado futuro. O que quer que aconteça, o futuro está garantido. A pessoa está pronta para absorvê-lo, qualquer que ele seja.
2. Sempre que alguém dizia alguma coisa, Chuang Tzu dizia: "Bom, muito bom!". Era um hábito. De modo que às vezes a situação ficava muito esquisita, pois alguém dizia alguma coisa que não era boa e ele sequer ouvia. Limitava-se a dizer: "Bom, muito bom!". Alguém estava dizendo: "Minha mulher morreu", e Chuang Tzu dizia: "Bom, muito bom!", como se não tivesse ouvido. Alguém dizia: "Assaltaram a minha casa durante a noite e levaram tudo". Mas Chuang Tzu continuava dizendo: "Bom, muito bom!".
Certo dia, alguém disse: "Seu filho caiu da árvore e quebrou as duas pernas". E ele: "Bom, muito bom!". As pessoas começaram a pensar, então, que ele não sabia o significado de "bom" - pois se não existe nada ruim, se tudo é bom, estamos atravessando as fronteiras da linguagem convencional. Promoveu-se, então, uma reunião na aldeia, e perguntaram para ele: "Por favor, diga-nos o que quer dizer quando diz 'bom', pois as mais diversas informações têm sido dadas, falando inclusive de desgraças e mortes, e o senhor diz sempre 'bom'. E hoje de manhã seu próprio filho caiu da árvore, quebrando as duas pernas. Ele era o seu arrimo na velhice, seu único arrimo. Era ele que o servia até agora, mas os papeis terão de se inverter. Numa idade tão avançada, é uma infelicidade, mas o senhor disse 'bom'".
Chuang Tzu disse: "Esperem! A vida é uma coisa muito complexa".
E no dia seguinte aconteceu que o país entrou em guerra com o país vizinho, e todos os jovens do sexo masculino eram obrigados a prestar o serviço militar. Só o filho de Chuang Tzu foi poupado, pois estava com as duas pernas quebradas. E eles reconheceram: "O senhor aparentemente tem uma percepção muito profunda das coisas. Disse 'bom', e se revelou que era mesmo 'bom'".
Chuang Tzu respondeu: "Esperem! Não se apressem assim. A vida é muito complexa e as coisas continuam acontecendo!".
O filho acabara de noivar, mas no dia seguinte a família da noiva recusou-se a autorizar o casamento, pois agora já não havia esperança de que ele voltasse a andar; suas pernas estavam muito machucadas. As pessoas então disseram: "Parece que, afinal de contas, não era uma boa coisa".
E Chuang Tzu disse: "Esperem! Não se apressem. A vida é muito paciente".
Passada uma semana, a jovem destinada a ser esposa de seu filho, e que lhe fora negada pela família, morreu subitamente. E os aldeões voltaram a se manifestar: "Mas como é possível?! O senhor tem um percepção incrível! Sabia que ela ia morrer?".
Mas Chuang Tzu insistia: "Esperem! Esperem!".
Chuang Tzu havia dito que tudo é bom quando não temos expectativas (já que a nossa "Equipe de Supervisão" encadeia os eventos da melhor forma possível...). E a vida é infinita, mas a nossa paciência é tão curta...
Fonte:
Osho, Encontro com Pessoas Notáveis, Editora Academia de Inteligência, São Paulo-SP, 2009.
Mas o nosso ego diz: não, podemos melhorar a natureza, e é porisso que existe a cultura. Qualquer tentativa de melhorar a natureza é cultura, e toda cultura é como uma doença: quanto mais culto for um homem, mais perigoso será. Chuang Tsu não é adepto da cultura. Ele afirma que a natureza é o valor supremo, e a essa natureza suprema ele dá o nome de Tao. Tao significa que a natureza é o que há de supremo e não pode ser aperfeiçoada. Quando se tenta aperfeiçoá-la, ela é mutilada.
É assim que mutilamos nossas crianças. Toda criança nasce no Tao, e então a mutilamos com a sociedade, a civilização, a cultura, a moral, a religião... tratamos de mutilá-la de todos os jeitos. E ela vive, mas não está viva.
Quanto mais culto e civilizado, mais morto. Se quiser ver homens perfeitamente mortos, apesar de vivos, vá visitar os monges nos mosteiros, procure os padres nas igrejas, vá ao encontro do papa no Vaticano. Eles não estão vivos: têm tanto medo da vida, tanto medo da Natureza que trataram de suprimi-las com regras. Já estão no túmulo. Podemos pintar o túmulo, podemos até fazer um túmulo de mármore, muito caro, mas o sujeito lá dentro está morto.
A cultura nos mata, é uma assassina, um veneno que age lentamente: é o suicídio. Chuang Tzu e seu velho mestre, Lao Tzu, são contra a cultura. São a favor da Natureza, da natureza pura. As árvores estão em melhor situação que você, até os pássaros, os peixes do rio estão em melhor situação, pois têm mais vida, dançam mais ao ritmo da natureza.
Você nasceu: que esforço você fez para nascer? Você cresce: que esforço terá feito para crescer? Você respira: que esforço faz para respirar? Tudo se move por conta própria, por que então preocupar-se? Deixe a vida fluir por si mesma, e você estará indo junto. Não lute nem tente ir contra a corrente. Seja uma nuvem branca movendo-se no céu: nenhum objetivo, indo para lugar nenhum, simplesmente flutuando. Esse flutuar é o supremo desabrochar. Idéias do revolucionário Chuang Tzu...
Você esqueceu completamente o que é a natureza. Condenou-a radicalmente. E se quiser condenar a natureza você tem de começar condenando o sexo, pois é dele que emana toda a natureza. A natureza inteira é um transbordamento de energia sexual, de amor. Os pássaros cantam, as árvores florescem: tudo isso é energia sexual explodindo. As flores são símbolos sexuais, o canto dos pássaros é sexual, todo o Tao não passa de energia sexual: a natureza inteira se propaga, se ama, orienta-se para êxtases mais profundos de amor e vida. Portanto, se você quiser destruir a natureza, condene o sexo, condene o amor, erija conceitos morais em torno da vida. Esses conceitos morais, por mais belos que pareçam, serão como túmulos de mármore, e você estará em seu interior. Sua moralidade é uma espécie de morte: antes de ser morto pela morte, você é morto pela sociedade moralista.
Porisso é que a mensagem de Chuang Tzu é uma das mais perigosas, das mais revolucionárias, das mais rebeldes, pois ele afirma: "Deixe a natureza ser! E não lhe atribua meta alguma. Quem é você para criar metas e objetivos? Você é apenas uma partícula minúscula, uma célula atômica. Quem é você para obrigar o Todo a se mover de acordo com a sua vontade?". Esse perigo é maior para as pessoas religiosas, para os puritanos moralistas. Esta mensagem é muito perigosa. Significa romper todas as barreiras, permitir que a natureza se manifeste sem nenhum controle - é mesmo muito perigoso.
Os padres têm medo da saúde porque, para eles, ela é imoral. Você talvez tenha ouvido falar de um pensador alemão do Século XX, muito famoso em sua época - o conde Keyserling. Ele era considerado um grande filósofo religioso, e escreveu em seu diário: a saúde é a coisa mais imoral que existe. Pois saúde é energia, e energia é prazer, contentamento, energia é amor, é sexo, tudo que é natural. Destruir a energia, torná-la fraca e vacilante. Donde tanto jejum - simplesmente para destruir a energia, impedir que se manifeste tanta energia, que comece a transbordar. As pessoas religiosas sempre acharam que a saúde é perigosa. Deixar de ser saudável torna-se, portanto, uma meta espiritual.
Chuang Tzu é muito rebelde. Diz ele: "A natureza, a energia e o êxtase que vêm com o transbordamento, assim como o equilíbrio que se manifesta espontaneamente, são o suficiente". Não é preciso nenhum esforço para isso. Existe tanta beleza acontecendo na natureza sem nenhum esforço: uma rosa é bela sem nenhum esforço, o cuco canta sem nenhum esforço...
Veja a natureza: tudo é tão perfeito. Será possível aperfeiçoar uma rosa? Será possível aperfeiçoar a natureza de alguma forma? Só o homem deu errado em algum momento. Se a rosa é bela sem fazer esforço, por que não o homem? O que há de errado com o homem? Se as estrelas continuam belas sem nenhum esforço, sem posições de ioga, por que não o homem? O homem faz parte da natureza, assim como as estrelas. De modo que Chuang Tzu diz: "Seja natural, e você florescerá". Se se compenetrar desse entendimento cada vez mais profundamente, todo esforço haverá de perder o sentido. Você deixará de estar o tempo todo providenciando coisas para o futuro, passará a viver no aqui e agora, o momento presente será tudo, este momento é a eternidade. E o estado búdico já é uma realidade, você já é um buda. A única coisa que falta é que você ainda não permitiu o seu desabrochar, tão ocupado está em seus projetos.
A flor floresce sem nenhum esforço porque a energia não é dissipada em projetos; a flor não planeja para o futuro, a flor é, aqui e agora. Seja como uma flor, seja como um pássaro, seja como uma árvore, um rio ou o oceano - mas não seja como um homem. Pois o homem, de alguma forma, deu errado.
A natureza é ser natural - natural sem esforço, espontaneamente natural -, eis a essência dos ensinamentos que nos deixou Chuang Tzu. Chuang Tzu é muito especial. Sua singularidade é que ele fala através de absurdos. E é muito significativo o motivo pelo qual ele escolhe o absurdo como forma de expressão: a mente precisa ser calada. Com as coisas racionais, ela não pára de funcionar; ela está sempre indo adiante. Em qualquer coisa lógica que se manifeste a mente encontra o seu alimento. Só o absurdo é capaz de chocar repentinamente a mente - pois isto está fora do seu alcance.
As histórias, os poemas e as declarações de Chuang Tzu eram tão absurdos que as pessoas costumavam simplesmente deixá-lo, pensando que ele era maluco... Os que eram suficientemente corajosos para permanecer a seu lado, constatavam que não era necessária nenhuma outra meditação. Pelo simples fato de ouvir suas afirmações absurdas, a mente pára de funcionar. E é esse o significado principal da meditação. Chuang Tzu fala por absurdos, e a mente não consegue lidar com eles. A mente precisa de coisas razoáveis, racionais, lógicas; esse é o seu território. O absurdo está além do seu alcance.
Os ensinamentos de Chuang Tzu eram muito simples, e todos aqueles que ficaram a seu lado tornaram-se iluminados. Isto é um fenômeno raro. Neste quesito, ele derrotou até mesmo o seu próprio mestre Lao Tzu: algumas pessoas se tornaram iluminadas, mas a maioria dos discípulos de Lao Tzu permaneceu na antiga ignorância. Ele derrotou também Gautama Buda: alguns poucos de seus discípulos tornaram-se iluminados, mas numa proporção muito pequena, pois ele tinha milhares de discípulos, e não mais que uma dúzia deles se tornou iluminada. Todos os discípulos de Chuang Tzu tornaram-se iluminados... ele não os abandonava enquanto não se tivessem iluminado! Ele tanto ficava em cima que as pessoas acabavam decidindo que era melhor tornar-se iluminado. Diariamente, uma nova tortura... a única maneira de escapar disso era tornar-se iluminado.
Duas passagens da vida de Chuang Tzu:
1. A mulher de Chuang Tzu morreu e o imperador veio prestar suas homenagens. Encontrou Chuang Tzu cantando. Sentado sob uma árvore, ele tocava um instrumento e cantava em voz alta. Parecia muito feliz, e sua mulher morrera naquela mesma manhã. O imperador ficou sem graça e disse: "Chuang Tzu, é estranho que você não esteja chorando, mas cantar já é demais. É ir longe demais!".
Chuang Tzu perguntou: "Mas por que eu deveria chorar?"
E o imperador disse: "Parece que você não está sabendo que sua mulher morreu".
Chuang Tzu respondeu: "Claro que a minha mulher morreu. Mas por que eu deveria chorar? Se ela morreu, morreu. E eu nunca imaginei que ela pudesse viver para sempre. Sempre soube que um dia ela haveria de morrer, e esse dia chegou. Algum dia tinha de acontecer. E qualquer dia é bom para morrer; portanto, por que eu não deveria estar cantando? Se eu não pudesse cantar quando vem a morte, não poderia cantar a vida toda, pois a vida é uma contínua morte. A todo momento a morte chega para alguém em algum lugar. A vida é uma contínua morte. Se não puder cantar no momento da morte, simplesmente não poderei cantar nunca.
"A vida e a morte não são coisas diferentes. São a mesma coisa. No momento em que alguém nasce, nasce também a morte com ele. Quando você cresce na vida, está crescendo também na morte, e o que quer que seja conhecido como morte, nada mais é que o apogeu da sua chamada vida. Por que eu então não haveria de cantar? Além do mais, a pobre mulher viveu tantos anos comigo, e eu não teria o direito de cantar um pouco em sinal de gratidão quando ela parte? Que ela vá em paz, harmonia, música e amor. Por que teria eu de chorar?
"Nós só choramos quando esperamos alguma coisa e essa coisa não acontece. Eu nunca imaginei que ela fosse ficar aqui para sempre. Quando não esperamos, quando não desejamos, não podemos ficar insatisfeitos".
No caso de uma pessoa como Chuang Tzu ou Buda, o fato de fracassarem ou terem êxito é imaterial. É irrelevante. Eles estão sempre satisfeitos. A pessoa que está no contentamento não sente nenhuma diferença entre o fracasso e o sucesso. Nem poderia. Já não existe diferença, para essa pessoa. O que quer que aconteça, ela estará satisfeita. Não quer saber se fracassou ou teve êxito, pois não existe o desejo de alcançar determinado resultado, de garantir determinado futuro. O que quer que aconteça, o futuro está garantido. A pessoa está pronta para absorvê-lo, qualquer que ele seja.
2. Sempre que alguém dizia alguma coisa, Chuang Tzu dizia: "Bom, muito bom!". Era um hábito. De modo que às vezes a situação ficava muito esquisita, pois alguém dizia alguma coisa que não era boa e ele sequer ouvia. Limitava-se a dizer: "Bom, muito bom!". Alguém estava dizendo: "Minha mulher morreu", e Chuang Tzu dizia: "Bom, muito bom!", como se não tivesse ouvido. Alguém dizia: "Assaltaram a minha casa durante a noite e levaram tudo". Mas Chuang Tzu continuava dizendo: "Bom, muito bom!".
Certo dia, alguém disse: "Seu filho caiu da árvore e quebrou as duas pernas". E ele: "Bom, muito bom!". As pessoas começaram a pensar, então, que ele não sabia o significado de "bom" - pois se não existe nada ruim, se tudo é bom, estamos atravessando as fronteiras da linguagem convencional. Promoveu-se, então, uma reunião na aldeia, e perguntaram para ele: "Por favor, diga-nos o que quer dizer quando diz 'bom', pois as mais diversas informações têm sido dadas, falando inclusive de desgraças e mortes, e o senhor diz sempre 'bom'. E hoje de manhã seu próprio filho caiu da árvore, quebrando as duas pernas. Ele era o seu arrimo na velhice, seu único arrimo. Era ele que o servia até agora, mas os papeis terão de se inverter. Numa idade tão avançada, é uma infelicidade, mas o senhor disse 'bom'".
Chuang Tzu disse: "Esperem! A vida é uma coisa muito complexa".
E no dia seguinte aconteceu que o país entrou em guerra com o país vizinho, e todos os jovens do sexo masculino eram obrigados a prestar o serviço militar. Só o filho de Chuang Tzu foi poupado, pois estava com as duas pernas quebradas. E eles reconheceram: "O senhor aparentemente tem uma percepção muito profunda das coisas. Disse 'bom', e se revelou que era mesmo 'bom'".
Chuang Tzu respondeu: "Esperem! Não se apressem assim. A vida é muito complexa e as coisas continuam acontecendo!".
O filho acabara de noivar, mas no dia seguinte a família da noiva recusou-se a autorizar o casamento, pois agora já não havia esperança de que ele voltasse a andar; suas pernas estavam muito machucadas. As pessoas então disseram: "Parece que, afinal de contas, não era uma boa coisa".
E Chuang Tzu disse: "Esperem! Não se apressem. A vida é muito paciente".
Passada uma semana, a jovem destinada a ser esposa de seu filho, e que lhe fora negada pela família, morreu subitamente. E os aldeões voltaram a se manifestar: "Mas como é possível?! O senhor tem um percepção incrível! Sabia que ela ia morrer?".
Mas Chuang Tzu insistia: "Esperem! Esperem!".
Chuang Tzu havia dito que tudo é bom quando não temos expectativas (já que a nossa "Equipe de Supervisão" encadeia os eventos da melhor forma possível...). E a vida é infinita, mas a nossa paciência é tão curta...
Fonte:
Osho, Encontro com Pessoas Notáveis, Editora Academia de Inteligência, São Paulo-SP, 2009.
Marcadores: Chuang Tzu, ego, fácil, Osho, sexo
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Genial!
Como é seu costume.
http://www.esnips.com/doc/fce6722c-e139-4c5b-b634-69cdf76a6d6f/Hand%20Clow,%20B%E1rbara%20-%20Cosmolog%EDa%20Pleyadiana
Recomendaram-me este livro ontem. Conhece?
Fiquei com muita curiosidade de o ler.
abraço
Como é seu costume.
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Recomendaram-me este livro ontem. Conhece?
Fiquei com muita curiosidade de o ler.
abraço
Baixei esse livro e irei lê-lo posteriormente. Parece tratar de temas interessantes... Obrigado pela crítica elogiosa ao blog.
Um grande abraço, Rui.
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Um grande abraço, Rui.
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