domingo, julho 23, 2023
O Ego
"O fácil é o certo" , Chuang Tzu
O simples não é um desafio para o ego do homem, o difícil é um desafio, o impossível é um grande desafio. O tamanho do ego pode ser conhecido pelo desafio que alguém aceitou por sua ambição, pois ele é mensurável. No entanto, o simples não é atraente para o ego, o simples é a morte do ego.
E o homem escolheu complexidades até mesmo em lugares em que não havia nenhuma complexidade, pela simples razão de que com a complexidade ele pode continuar desenvolvendo e fortalecendo seu ego. Ele continua ficando cada vez mais importante na política, na religião, na sociedade, em todos os lugares.
A psicologia como um todo é orientada para tornar o ego mais forte. Até mesmo aqueles idiotas, os psicólogos, enfatizam que o homem precisa de um ego forte. Assim, a educação é um programa para lhe dar ambição através da punição e da recompensa, para conduzi-lo a uma determinada direção. Os pais desde o princípio têm expectativas muito altas com relação aos filhos. Talvez achem que Alexandre, o Grande, foi enviado para eles, ou que a filha é a reencarnação de Cleópatra. Os pais condicionam os filhos desde o início, dizendo que, a menos que prove a si mesmo, não serve para nada. O homem simples é considerado um simplório.
O homem simples não foi o objetivo da sociedade humana até agora. E o homem simples não pode ser o objetivo, uma vez que o homem nasceu simples! Toda criança é simples, é apenas uma folha em branco. Então os pais começam a escrever nessa folha, escrever o que ela tem que se tornar. Depois, os professores, os padres, os líderes, todos eles seguem enfatizando que ela tem de se tornar alguém, pois, caso contrário, terá desperdiçado sua vida.
A questão é exatamente o oposto.
O homem é um ser. Ele não precisa tornar-se outra pessoa. Esse é o significado da simplicidade: permanecer à vontade com o próprio ser, e não seguir qualquer caminho para tornar-se outra pessoa, que é algo que não tem fim.
Não há momento em que vá pensar: "Agora a minha jornada está completa. Cheguei ao ponto mais alto das minhas ambições." Ninguém, em toda a história da humanidade, foi capaz de fazer isso, pelo simples fato de que o homem está se movendo em círculos. Portanto, uma pessoa está sempre à frente de outra em uma coisa ou outra.
Você pode se tornar presidente dos Estados Unidos, porém, diante de Muhammad Ali, sentir-se inferior. Você não tem aquela força animal. Muhammad Ali pode dar um belo soco no nariz de Ronald Reagan e Reagan vai ficar estirado no chãõ. Você pode se tornar primeiro-ministro de um país, porém, ao defrontar-se com Albert Einstein, vai parecer um pigmeu. Não um primeiro-ministro, mas um pigmeu.
A vida é multidimensional. É impossível que o homem vá em todas as direções e que seja o primeiro em todas elas. É simplesmente impssível, pois a existência não funciona dessa forma.
O ego é a doença do homem.
Os interesses instituídos querem que o homem permaneça doente. A sociedade não quer que o homem seja saudável e inteiro, porque o ser saudável e inteiro é um perigo para os seus interesses preestabelecidos. É por isso que ninguém quer ser simples, ninguém quer ser um zé-ninguém. E toda a minha abordagem é que o homem deve estar à vontade consigo mesmo, que deve aceitar o seu ser.
"Tornar-se" é doença, enquanto "ser" é saúde. No entanto, ser simples, por inteiro, saudável, feliz: você não experimentou isso. A sociedade não lhe permite um único momento para si, portanto, o homem conhece apenas um caminho: o caminho do ego.
Foi dito a você para se tornar Jesus Cristo. Há sociedades que têm como objetivo que todos se tornem um deus. Este mundo é insano! Eles têm que sair de toda essa programação. Aquele que quiser se divertir, relaxar, sentir a paz e a beleza da existência terá que ter descartado esse falso ego.
Não quero tirar mais nada do ser humano. Quero somente tirar-lhe o ego que, de qualquer forma, é apenas uma fantasia. Não é uma realidade, portanto, não estou realmente lhe tirando nada. E quero lhe dar o seu ser. É claro que não preciso dar isso a você: você já o possui! Você apenas precisa ser alertado sobre a realidade e despertado para a imensa beleza da inocência.
Nada está em risco. E o homem está correndo atrás das sombras que nunca será capaz de capturar, esquecendo-se de todos os tesouros que trouxe consigo para o mundo. Antes que seu ego seja satisfeito, a morte vai acabar com o homem. A vida é muito curta, não é para ser destruída nesse tipo de jogo como o ego.
E é apenas uma questão de compreensão.
Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022.
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domingo, janeiro 17, 2010
A Venda de Medo e Preocupação
No entanto, não devemos ter medo de nada, pois somos todos seres imortais! Um ser imortal, por hipótese, não tem medo da morte e de nenhuma circunstância que pode levar à morte, como aquelas que nos são vendidas para nos causar medo, como as citadas acima. O oposto do medo é o amor! Portanto, os manipuladores sociais querem nos incutir medo para nos evitar de amar. Quem realmente ama não tem medo. O amor é a cola do Universo, o elemento agregador de todas as partes do Cosmos. Quando você ama alguém, deseja que essa pessoa esteja sempre próxima de você. Dá vontade de ficar "colada" com essa pessoa, inclusive sexualmente.
Uma das raízes do medo é a noção usual (errada) de que somos uma individualidade separada do resto do Universo, da Natureza, do Todo. Isso nos enfraquece e nos gera medo, pois devemos lutar contra tudo e contra todos para nos manter vivos: "A vida é uma luta!". Partimos, então, para a competição ao invés de irmos na direção da colaboração. Um antigo sábio chinês (Chuang Tzu) dizia: "O simples é o certo". É muito mais simples cooperar do que competir. Portanto, cooperar é o certo e competir é o errado. Para nos incutir medo, nos mostram todos os dias que pessoas morrem e são enterradas nos cemitérios. Mas, nenhuma pessoa morre (pois são todas imortais), apenas perdem seu corpo físico por usarem mal o seu livre-arbítrio. Deus não é sádico e, portanto, não cria os seres humanos para os colocar no "corredor da morte", aguardando execução e enterro no cemitério. Cemitério é local de suicidas. Os suicídios (conscientes e inconscientes) ocorrem por falta de amor por si mesmo e pelo resto da criação divina. Só podemos dar o que temos, inclusive o amor. A prática contínua do amor elimina radicalmente todos os sete pecados capitais/mortais (que nos levam para o cemitério), gerando as sete virtudes capitais...
Na prática, corpo físico e mente não são separáveis. Daí o ditado "mente sã em corpo são". Logo, temos dois tipos de alimentação que afetam nosso corpo físico: a alimentação bucal e a alimentação mental. A alimentação bucal correta nós já sabemos qual é: é o alimento preparado por Deus, sem interferência humana, para os seus filhos (nós!) que é, basicamente, frutas cruas. A alimentação mental venenosa, e portanto prejudicial ao nosso corpo, são todos os pensamentos negativos induzidos pelas más notícias que recebemos diariamente. Essas notícias negativas são o resultado da falta de amor e nos induzem para o mesmo caminho da falta de amor.
Todo o Mal progride (didaticamente) até certo ponto, mas quem tem a palavra final é o Bem. Existem equipes de seres inteligentes e bondosos que supervisionam todo o funcionamento do Universo, inclusive existe uma Equipe de Supervisão individual que acompanha cada um de nós, tentando nos induzir ao bem, mas respeitando nosso livre-arbítrio. Um dos membros de nossa equipe individual de supervisão é conhecido como "Anjo da Guarda"...
Por incrível que pareça, até as más condições atmosféricas e geológicas são consequências da falta de amor. Pense sobre isso (lembre-se do recente terremoto do Haiti, por exemplo)...
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sábado, setembro 05, 2009
Chuang Tsu: O Fácil é Certo!
Mas o nosso ego diz: não, podemos melhorar a natureza, e é porisso que existe a cultura. Qualquer tentativa de melhorar a natureza é cultura, e toda cultura é como uma doença: quanto mais culto for um homem, mais perigoso será. Chuang Tsu não é adepto da cultura. Ele afirma que a natureza é o valor supremo, e a essa natureza suprema ele dá o nome de Tao. Tao significa que a natureza é o que há de supremo e não pode ser aperfeiçoada. Quando se tenta aperfeiçoá-la, ela é mutilada.
É assim que mutilamos nossas crianças. Toda criança nasce no Tao, e então a mutilamos com a sociedade, a civilização, a cultura, a moral, a religião... tratamos de mutilá-la de todos os jeitos. E ela vive, mas não está viva.
Quanto mais culto e civilizado, mais morto. Se quiser ver homens perfeitamente mortos, apesar de vivos, vá visitar os monges nos mosteiros, procure os padres nas igrejas, vá ao encontro do papa no Vaticano. Eles não estão vivos: têm tanto medo da vida, tanto medo da Natureza que trataram de suprimi-las com regras. Já estão no túmulo. Podemos pintar o túmulo, podemos até fazer um túmulo de mármore, muito caro, mas o sujeito lá dentro está morto.
A cultura nos mata, é uma assassina, um veneno que age lentamente: é o suicídio. Chuang Tzu e seu velho mestre, Lao Tzu, são contra a cultura. São a favor da Natureza, da natureza pura. As árvores estão em melhor situação que você, até os pássaros, os peixes do rio estão em melhor situação, pois têm mais vida, dançam mais ao ritmo da natureza.
Você nasceu: que esforço você fez para nascer? Você cresce: que esforço terá feito para crescer? Você respira: que esforço faz para respirar? Tudo se move por conta própria, por que então preocupar-se? Deixe a vida fluir por si mesma, e você estará indo junto. Não lute nem tente ir contra a corrente. Seja uma nuvem branca movendo-se no céu: nenhum objetivo, indo para lugar nenhum, simplesmente flutuando. Esse flutuar é o supremo desabrochar. Idéias do revolucionário Chuang Tzu...
Você esqueceu completamente o que é a natureza. Condenou-a radicalmente. E se quiser condenar a natureza você tem de começar condenando o sexo, pois é dele que emana toda a natureza. A natureza inteira é um transbordamento de energia sexual, de amor. Os pássaros cantam, as árvores florescem: tudo isso é energia sexual explodindo. As flores são símbolos sexuais, o canto dos pássaros é sexual, todo o Tao não passa de energia sexual: a natureza inteira se propaga, se ama, orienta-se para êxtases mais profundos de amor e vida. Portanto, se você quiser destruir a natureza, condene o sexo, condene o amor, erija conceitos morais em torno da vida. Esses conceitos morais, por mais belos que pareçam, serão como túmulos de mármore, e você estará em seu interior. Sua moralidade é uma espécie de morte: antes de ser morto pela morte, você é morto pela sociedade moralista.
Porisso é que a mensagem de Chuang Tzu é uma das mais perigosas, das mais revolucionárias, das mais rebeldes, pois ele afirma: "Deixe a natureza ser! E não lhe atribua meta alguma. Quem é você para criar metas e objetivos? Você é apenas uma partícula minúscula, uma célula atômica. Quem é você para obrigar o Todo a se mover de acordo com a sua vontade?". Esse perigo é maior para as pessoas religiosas, para os puritanos moralistas. Esta mensagem é muito perigosa. Significa romper todas as barreiras, permitir que a natureza se manifeste sem nenhum controle - é mesmo muito perigoso.
Os padres têm medo da saúde porque, para eles, ela é imoral. Você talvez tenha ouvido falar de um pensador alemão do Século XX, muito famoso em sua época - o conde Keyserling. Ele era considerado um grande filósofo religioso, e escreveu em seu diário: a saúde é a coisa mais imoral que existe. Pois saúde é energia, e energia é prazer, contentamento, energia é amor, é sexo, tudo que é natural. Destruir a energia, torná-la fraca e vacilante. Donde tanto jejum - simplesmente para destruir a energia, impedir que se manifeste tanta energia, que comece a transbordar. As pessoas religiosas sempre acharam que a saúde é perigosa. Deixar de ser saudável torna-se, portanto, uma meta espiritual.
Chuang Tzu é muito rebelde. Diz ele: "A natureza, a energia e o êxtase que vêm com o transbordamento, assim como o equilíbrio que se manifesta espontaneamente, são o suficiente". Não é preciso nenhum esforço para isso. Existe tanta beleza acontecendo na natureza sem nenhum esforço: uma rosa é bela sem nenhum esforço, o cuco canta sem nenhum esforço...
Veja a natureza: tudo é tão perfeito. Será possível aperfeiçoar uma rosa? Será possível aperfeiçoar a natureza de alguma forma? Só o homem deu errado em algum momento. Se a rosa é bela sem fazer esforço, por que não o homem? O que há de errado com o homem? Se as estrelas continuam belas sem nenhum esforço, sem posições de ioga, por que não o homem? O homem faz parte da natureza, assim como as estrelas. De modo que Chuang Tzu diz: "Seja natural, e você florescerá". Se se compenetrar desse entendimento cada vez mais profundamente, todo esforço haverá de perder o sentido. Você deixará de estar o tempo todo providenciando coisas para o futuro, passará a viver no aqui e agora, o momento presente será tudo, este momento é a eternidade. E o estado búdico já é uma realidade, você já é um buda. A única coisa que falta é que você ainda não permitiu o seu desabrochar, tão ocupado está em seus projetos.
A flor floresce sem nenhum esforço porque a energia não é dissipada em projetos; a flor não planeja para o futuro, a flor é, aqui e agora. Seja como uma flor, seja como um pássaro, seja como uma árvore, um rio ou o oceano - mas não seja como um homem. Pois o homem, de alguma forma, deu errado.
A natureza é ser natural - natural sem esforço, espontaneamente natural -, eis a essência dos ensinamentos que nos deixou Chuang Tzu. Chuang Tzu é muito especial. Sua singularidade é que ele fala através de absurdos. E é muito significativo o motivo pelo qual ele escolhe o absurdo como forma de expressão: a mente precisa ser calada. Com as coisas racionais, ela não pára de funcionar; ela está sempre indo adiante. Em qualquer coisa lógica que se manifeste a mente encontra o seu alimento. Só o absurdo é capaz de chocar repentinamente a mente - pois isto está fora do seu alcance.
As histórias, os poemas e as declarações de Chuang Tzu eram tão absurdos que as pessoas costumavam simplesmente deixá-lo, pensando que ele era maluco... Os que eram suficientemente corajosos para permanecer a seu lado, constatavam que não era necessária nenhuma outra meditação. Pelo simples fato de ouvir suas afirmações absurdas, a mente pára de funcionar. E é esse o significado principal da meditação. Chuang Tzu fala por absurdos, e a mente não consegue lidar com eles. A mente precisa de coisas razoáveis, racionais, lógicas; esse é o seu território. O absurdo está além do seu alcance.
Os ensinamentos de Chuang Tzu eram muito simples, e todos aqueles que ficaram a seu lado tornaram-se iluminados. Isto é um fenômeno raro. Neste quesito, ele derrotou até mesmo o seu próprio mestre Lao Tzu: algumas pessoas se tornaram iluminadas, mas a maioria dos discípulos de Lao Tzu permaneceu na antiga ignorância. Ele derrotou também Gautama Buda: alguns poucos de seus discípulos tornaram-se iluminados, mas numa proporção muito pequena, pois ele tinha milhares de discípulos, e não mais que uma dúzia deles se tornou iluminada. Todos os discípulos de Chuang Tzu tornaram-se iluminados... ele não os abandonava enquanto não se tivessem iluminado! Ele tanto ficava em cima que as pessoas acabavam decidindo que era melhor tornar-se iluminado. Diariamente, uma nova tortura... a única maneira de escapar disso era tornar-se iluminado.
Duas passagens da vida de Chuang Tzu:
1. A mulher de Chuang Tzu morreu e o imperador veio prestar suas homenagens. Encontrou Chuang Tzu cantando. Sentado sob uma árvore, ele tocava um instrumento e cantava em voz alta. Parecia muito feliz, e sua mulher morrera naquela mesma manhã. O imperador ficou sem graça e disse: "Chuang Tzu, é estranho que você não esteja chorando, mas cantar já é demais. É ir longe demais!".
Chuang Tzu perguntou: "Mas por que eu deveria chorar?"
E o imperador disse: "Parece que você não está sabendo que sua mulher morreu".
Chuang Tzu respondeu: "Claro que a minha mulher morreu. Mas por que eu deveria chorar? Se ela morreu, morreu. E eu nunca imaginei que ela pudesse viver para sempre. Sempre soube que um dia ela haveria de morrer, e esse dia chegou. Algum dia tinha de acontecer. E qualquer dia é bom para morrer; portanto, por que eu não deveria estar cantando? Se eu não pudesse cantar quando vem a morte, não poderia cantar a vida toda, pois a vida é uma contínua morte. A todo momento a morte chega para alguém em algum lugar. A vida é uma contínua morte. Se não puder cantar no momento da morte, simplesmente não poderei cantar nunca.
"A vida e a morte não são coisas diferentes. São a mesma coisa. No momento em que alguém nasce, nasce também a morte com ele. Quando você cresce na vida, está crescendo também na morte, e o que quer que seja conhecido como morte, nada mais é que o apogeu da sua chamada vida. Por que eu então não haveria de cantar? Além do mais, a pobre mulher viveu tantos anos comigo, e eu não teria o direito de cantar um pouco em sinal de gratidão quando ela parte? Que ela vá em paz, harmonia, música e amor. Por que teria eu de chorar?
"Nós só choramos quando esperamos alguma coisa e essa coisa não acontece. Eu nunca imaginei que ela fosse ficar aqui para sempre. Quando não esperamos, quando não desejamos, não podemos ficar insatisfeitos".
No caso de uma pessoa como Chuang Tzu ou Buda, o fato de fracassarem ou terem êxito é imaterial. É irrelevante. Eles estão sempre satisfeitos. A pessoa que está no contentamento não sente nenhuma diferença entre o fracasso e o sucesso. Nem poderia. Já não existe diferença, para essa pessoa. O que quer que aconteça, ela estará satisfeita. Não quer saber se fracassou ou teve êxito, pois não existe o desejo de alcançar determinado resultado, de garantir determinado futuro. O que quer que aconteça, o futuro está garantido. A pessoa está pronta para absorvê-lo, qualquer que ele seja.
2. Sempre que alguém dizia alguma coisa, Chuang Tzu dizia: "Bom, muito bom!". Era um hábito. De modo que às vezes a situação ficava muito esquisita, pois alguém dizia alguma coisa que não era boa e ele sequer ouvia. Limitava-se a dizer: "Bom, muito bom!". Alguém estava dizendo: "Minha mulher morreu", e Chuang Tzu dizia: "Bom, muito bom!", como se não tivesse ouvido. Alguém dizia: "Assaltaram a minha casa durante a noite e levaram tudo". Mas Chuang Tzu continuava dizendo: "Bom, muito bom!".
Certo dia, alguém disse: "Seu filho caiu da árvore e quebrou as duas pernas". E ele: "Bom, muito bom!". As pessoas começaram a pensar, então, que ele não sabia o significado de "bom" - pois se não existe nada ruim, se tudo é bom, estamos atravessando as fronteiras da linguagem convencional. Promoveu-se, então, uma reunião na aldeia, e perguntaram para ele: "Por favor, diga-nos o que quer dizer quando diz 'bom', pois as mais diversas informações têm sido dadas, falando inclusive de desgraças e mortes, e o senhor diz sempre 'bom'. E hoje de manhã seu próprio filho caiu da árvore, quebrando as duas pernas. Ele era o seu arrimo na velhice, seu único arrimo. Era ele que o servia até agora, mas os papeis terão de se inverter. Numa idade tão avançada, é uma infelicidade, mas o senhor disse 'bom'".
Chuang Tzu disse: "Esperem! A vida é uma coisa muito complexa".
E no dia seguinte aconteceu que o país entrou em guerra com o país vizinho, e todos os jovens do sexo masculino eram obrigados a prestar o serviço militar. Só o filho de Chuang Tzu foi poupado, pois estava com as duas pernas quebradas. E eles reconheceram: "O senhor aparentemente tem uma percepção muito profunda das coisas. Disse 'bom', e se revelou que era mesmo 'bom'".
Chuang Tzu respondeu: "Esperem! Não se apressem assim. A vida é muito complexa e as coisas continuam acontecendo!".
O filho acabara de noivar, mas no dia seguinte a família da noiva recusou-se a autorizar o casamento, pois agora já não havia esperança de que ele voltasse a andar; suas pernas estavam muito machucadas. As pessoas então disseram: "Parece que, afinal de contas, não era uma boa coisa".
E Chuang Tzu disse: "Esperem! Não se apressem. A vida é muito paciente".
Passada uma semana, a jovem destinada a ser esposa de seu filho, e que lhe fora negada pela família, morreu subitamente. E os aldeões voltaram a se manifestar: "Mas como é possível?! O senhor tem um percepção incrível! Sabia que ela ia morrer?".
Mas Chuang Tzu insistia: "Esperem! Esperem!".
Chuang Tzu havia dito que tudo é bom quando não temos expectativas (já que a nossa "Equipe de Supervisão" encadeia os eventos da melhor forma possível...). E a vida é infinita, mas a nossa paciência é tão curta...
Fonte:
Osho, Encontro com Pessoas Notáveis, Editora Academia de Inteligência, São Paulo-SP, 2009.
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terça-feira, abril 24, 2007
Chuang Tzu: O Valor do que é Inútil
A vida é dialética, e porisso não é lógica. A lógica significa que o oposto é realmente oposto, e a vida sempre implica o oposto em si mesmo. Na vida, o oposto não é realmente oposto, mas complementar. Sem ele, nada é possível. Por exemplo, a vida existe por causa da morte. Se não houvesse morte, não poderia haver vida. A morte não é o fim e não é inimiga; pelo contrário, por causa da morte, a vida se torna possível. Assim, a morte não está em algum lugar no final; ela está presente aqui e agora. Cada momento tem sua vida e sua morte; senão, a vida seria impossível.
Hui Tzu disse a Chuang Tzu: "Todo o seu ensinamento está centrado no que não tem utilidade".
Chuang Tzu replicou: "Se você não apreciar o que não tem utilidade, não poderá começar a falar sobre o que pode ser usado. Por exemplo, a terra é ampla e vasta, mas, apesar de toda sua extensão, uma pessoa só usa alguns centímetros por vez, sobre os quais fica.
"Agora, suponha que de repente você tire tudo o que essa pessoa não esteja usando nesse momento, de tal modo que, por toda a volta de seus pés, abra-se um enorme abismo e ela fique rodeada pelo vazio, sem nada sólido em lugar nenhum, exceto sob cada um de seus pés. Por quanto tempo ela será capaz de usar o que está usando?"
Hui Tzu respondeu: "Esse espaço deixaria de servir a qualquer propósito".
Chuang Tzu concluiu: "Isso mostra a absoluta necessidade do que supostamente não tem nenhuma utilidade".
Existe a luz, existe a escuridão. Para a lógica, elas são opostas, e a lógica dirá: se houver luz, não poderá haver escuridão; se houver o escuro, não poderá haver luz. Mas a vida diz justamente o contrário; ela diz: se existe escuridão, é porque existe luz; se existe luz, é porque existe escuridão.
Existe silêncio por causa do som; se não houvesse som, você poderia ser silencioso? O oposto é necessário como um pano de fundo. Os que seguem a lógica sempre erram o caminho, porque suas vidas ficam desequilibradas. Eles pensam na luz, e então começam a negar a escuridão; eles pensam na vida, então começam a lutar contra a morte.
Há uma tradição que diz que Deus é luz, e há uma outra que diz que Deus é escuridão. Ambas estão erradas, porque ambas são lógicas, elas negam o oposto. E a vida é tão imensa que ela carrega o oposto em si. O oposto não é negado, mas incluído.
Apenas mentes pequenas são coerentes e, quanto mais estreita for a mente, mais coerente ela é... Quando a mente é vasta, tudo está presente: a luz existe, a escuridão existe, Deus existe e o demônio também existe em toda a sua glória.
Se você entender esse misterioso processo da vida, que avança por meio dos opostos, que é dialético - os opostos ajudam, dão equilíbrio, dão o tom, servem como pano de fundo -, só então você poderá entender Chuang Tzu, porque toda a visão taoísta está baseada na complementariedade dos opostos.
Eles usam duas palavras, yin e yang, que são opostas: masculino e feminino. Pense em um mundo que seja totalmente masculino ou em um mundo que seja totalmente feminino; ele estaria morto.
O oposto é necessário porque o oposto atrai, torna-se um íma, puxa (movimenta) você; o oposto leva você para fora de si mesmo, quebra a sua prisão, deixa você grande. Sempre que o oposto for negado, haverá dificuldade, e é isso que temos feito (negar o feminino); daí haver tantos problemas no mundo.
O ser humano atual tentou criar uma sociedade basicamente masculina, e é porisso que há tantos problemas; a mulher foi negada, foi expulsa. Nos séculos passados, a mulher nunca era vista em lugar nenhum; ela era escondida em aposentos, no fundo da casa, sem nem sequer ter permissão para ficar na sala de estar. Ela não era vista nas ruas, nas lojas... Ela não fazia parte da vida, e o mundo ficou feio, pois como se pode negar o oposto? O mundo ficou desequilibrado, todo o equilíbrio foi perdido; o mundo enloqueceu.
Em muitas culturas, a mulher ainda não tem permissão para participar totalmente da vida; ela ainda não é realmente uma parte, uma parte vital da vida. Os homens participam de grupos voltados para os homens, como clubes exclusivamente masculinos: o mundo dos negócios, a política, grupos científicos... e em todos esses agrupamentos há desequilíbrio. O homem domina, e é porisso que há tanta infelicidade. E, quando um dos pólos opostos domina, há infelicidade porque o outro fica magoado e se vinga. Assim, toda mulher se vinga em casa.
Ao negar o oposto, você cria problemas; e o mesmo acontece em todos os caminhos, em todos os níveis, em todas as dimensões.
Chuang Tzu diz que, se você negar o inútil, então não haverá utilidade no mundo. Se você negar o inútil, a brincadeira, a diversão, não poderá haver nenhum trabalho, nenhuma obrigação. Isso é muito difícil de entender, pois toda a nossa ênfase recai sobre o que é útil.
Se alguém perguntar do que é feita uma casa, você dirá que ela é feita de paredes. E Chuang Tzu diria, assim como seu mestre Lao Tzu, que uma casa não é feita de paredes, mas de portas e janelas. A ênfase deles está na outra parte; eles dizem que as paredes são úteis, mas que o seu uso depende do espaço inútil que fica atrás das paredes. Um cômodo é espaço e não paredes. É claro, o espaço é de graça e as paredes precisam ser compradas. Quando você compra uma casa, o que você compra? As paredes, o material, o visível. Mas você pode viver dentro do material? Você pode viver dentro das paredes? Você terá de viver no quarto, no espaço vazio. Você compra um barco, mas precisa navegar no vazio.
Assim, o que é realmente uma casa? Ela é um vazio cercado por paredes. E o que é uma porta? Não é nada; "porta" significa que não existe nada, nenhuma parede, apenas vazio. Mas você não pode entrar na casa se não houver portas; se não houver nenhuma janela, o sol não entrará, nenhuma brisa soprará. Você estará morto e a sua casa se tornará um túmulo.
Chuang Tzu diz para nos lembrarmos de que a casa é feita de duas coisas: as paredes, o material, o vendável, o que é útil, e o vazio cercado pelas paredes, o que não é útil, o que não pode ser comprado, não pode ser vendido, o que não tem valor econômico. Como você pode vender o vazio? Mas você precisa viver no vazio; se uma pessoa tentar viver apenas nas paredes, ela enlouquecerá, pois isso é impossível. Mas tentamos sempre fazer o impossível; na vida, escolhemos apenas o que é útil.
Você é realmente você mesmo quando está fazendo algo inútil - fazendo uma pintura não para vender, mas apenas para se divertir; cuidando do jardim apenas para se divertir; deitado na praia sem fazer nada, apenas para se divertir; sentado no silêncio ao lado de um amigo, sem fazer nada, apenas por gostar de estar ali.
Muito poderia ser feito nesses momentos, você poderia ir ao shopping, poderia ganhar dinheiro, poderia trocar tempo por dinheiro, poderia aumentar sua conta bancária, pois esses momentos não voltarão e os tolos dizem que tempo é dinheiro. Eles conhecem apenas uma utilidade para o tempo: convertê-lo em mais e mais dinheiro. No final, você morre com uma grande conta bancária, mas por dentro está totalmente pobre, pois a riqueza interior só aparece quando você pode desfrutar o inútil.
O que é meditação? As pessoas perguntam: "Qual é a utilidade da meditação? O que ganhamos com ela? Qual é o seu benefício?" Meditação... e você pergunta sobre seu benefício (utilidade)? Você não pode entendê-la porque a meditação é simplesmente inútil. No momento em que digo "inútil", você se sente pouco à vontade, pois a mente toda se tornou tão utiliária, tão voltada para a comodidade que você sempre espera um resultado. Você não pode acreditar que algo possa ser apenas um prazer em si mesmo.
Inútil significa que você faz a coisa por prazer, sem pensar nos benefícios que ela traz.
Existem dois tipos de pessoas no mundo: os utilitaristas, que se tornam cientistas, engenheiros, médicos; e um outro ramo, o tipo complementar, dos poetas, dos vagabundos - os inúteis, que nada fazem de útil. Mas ambos propiciam o equilíbrio, dão graça ao mundo. Pense em um mundo cheio de cientistas e sem nenhum poeta; ele seria absolutamente feio e não valeria a pena viver nele. Pense em um mundo com todos nas lojas, nos escritórios, nas fábricas, sem nenhum vagabundo; seria o inferno. O vagabundo confere beleza ao mundo.
Dois vagabundos foram presos e o juiz perguntou ao primeiro: "Onde você mora?". O homem respondeu: "O mundo inteiro é o meu lar, o céu é o meu abrigo; vou a todos os lugares e não existem barreiras para mim. Sou uma pessoa livre". E o juiz perguntou ao outro: "E você, onde mora?". O segundo vagabundo disse: "Sou vizinho dele".
Essas pessoas dão beleza ao mundo, trazem uma fragrância. Um Buda é um grande vagabundo, um Mahavira é um vagabundo.
Quando o mundo se torna utilitário demais, você cria muitas coisas, possui muitas coisas, torna-se obcecado por coisas, mas o seu interior se perde, pois o interior só pode florescer quando não existem tensões externas, quando você não está indo a lugar nenhum e está apenas descansando. Então o interior floresce; o mais elevado sempre acontece quando você não está fazendo nada, só o trivial acontece quando você está fazendo alguma coisa.
O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard disse: "Quando comecei a rezar, ia à igreja e falava com Deus. Então, de repente, percebi que falar era inútil. Como posso falar com Deus? A pessoa precisa ficar em silêncio, pois o que eu vou dizer? E o que eu posso dizer que ajudará Deus a saber mais? Ele é onipotente, onipresente e onisciente, então qual é o propósito de contar para ele? Conversei com ele durante anos, então, de repente, percebi que isso era tolice. Então parei de falar e fiquei em silêncio, e depois de muitos anos percebi que até mesmo o silêncio não tinha sentido. Então dei o terceiro passo: passei a ouvir. Primeiro eu falava, depois parei de falar e depois comecei a ouvir".
Ouvir é diferente de apenas ficar em silêncio, pois só ficar silencioso é algo negativo; ouvir é algo positivo. Apenas ficar em silêncio é algo passivo e o ouvir é uma passividade alerta, que espera algo sem nada dizer, mas espera com todo o ser. Ele tem uma intensidade, e Kierkegaard disse: "Quando esse ouvir aconteceu, então pela primeira vez a prece aconteceu".
Mas parece que ouvir é absolutamente inútil, especialmente ouvir o desconhecido; você não sabe onde ele está. O silêncio é inútil, falar parece útil; algo pode ser feito quando se fala, pois falando você faz muitas coisas no mundo. Assim, você acha que, se quiser ser religioso, também terá de fazer alguma coisa.
Mas Chuang Tzu disse: A religião só começa quando você entender a futilidade de todo o fazer e quando tiver mudado para o pólo oposto, o do não fazer, da inatividade, do ficar passivo e tornar-se inútil (para a sociedade).
Chuang Tzu e seu mestre Lao Tzu sempre falavam do inútil e até mesmo louvavam as pessoas inúteis. Chuang Tzu falou sobre um homem, um corcunda. Todos os jovens da cidade foram forçados a entrar no exército porque eram úteis. Apenas um homem, o corcunda, foi deixado para trás por ser inútil. Chuang Tzu disse: Sejam como o corcunda, tão inúteis que não serão massacrados na guerra.
Esses mestres louvam o inútil porque dizem que o útil sempre estará em dificuldades. O mundo usará você, todos estão dispostos a usá-lo, a manipulá-lo, a controlá-l. Se você for inútil, ninguém olhará para você, as pessoas se esquecerão de você, elas o deixarão quieto e em paz, não se importarão com você, não ficarão cientes de que você existe (para aceitar isso, seu ego tem que cair para zero).
Chuang Tzu dizia: Esteja alerta e não seja muito útil, senão as pessoas vão explorar você. Então elas começarão a manipulá-lo e você ficará em dificuldades. E, se você puder produzir coisas, elas o forçarão a produzir por toda a sua vida. Se você puder fazer uma certa coisa, se você for habilidoso, então não poderá ser desperdiçado.
Ele diz que a inutilidade tem a sua própria utilidade intrínseca. Se você puder ser útil para os outros, então terá de viver para os outros. Inútil, ninguém olha para você, ninguém lhe presta atenção, ninguém se importa com o seu ser e você é deixado em paz. Você pode viver no mercado como se estivesse vivendo sozinho no Himalais, e nessa solitude você cresce e toda a sua energia pode se voltar para dentro de você.
Chuang Tzu diz: "Se você não apreciar o que não tem utilidade, não poderá começar a falar sobre o que pode ser usado". O inútil é o outro aspecto do útil. Você só pode falar sobre o útil por causa do inútil; essa é uma parte vital; e se você a abandonar completamente, então nada será útil. As coisas são úteis porque existem coisas inúteis.
A pessoa precisa ir ao pólo oposto, e só então ela rejuvenesce. Durante todo o dia você está acordado e, à noite, adormece. Qual é a utilidade do sono? O sono é uma perda de tempo, e não é pouco tempo. Se você viver até os noventa anos de idade, trinta anos da sua vida terão se passado dormindo, oito horas todos os dias, um terço de cada dia. Qual é a utilidade disso? Mas ao final de todo o dia de trabalho, quando você adormece, você sai do útil e entra no inútil, e é porisso qeu, pela manhã, você se sente tão rejuvenescido, tão vivo, tão aliviado; suas pernas podem dançar, sua mente pode cantar, seu coração pode de novo sentir. Toda a poeira do trabalho foi jogada fora e o espelho está novamente limpo; pela manhã você tem clareza. Como isso acontece? Isso acontece por meio do inútil.
É porisso que a meditação pode lhe dar os maiores vislumbres, porque ela é a coisa mais inútil do mundo. Você não faz coisa nenhuma e simplesmente penetra no silêncio. Ela é mais grandiosa do que o sono, pois no sono você está inconsciente, e tudo o que acontece, acontece inconscientemente. Você pode estar no paraíso, mas não o reconhece. Na meditação você se move conscientemente, e então fica ciente do caminho: como ir do mundo útil do exterior para o mundo inútil do interior. E uma vez conhecido o caminho, a qualquer momento você poderá simplesmente ir para dentro. Sentado num ônibus, você não precisa fazer nada e está simplesmente sentado; viajando de carro, de trem ou de avião, você não está fazendo nada, pois tudo está sendo feito pelos outros; você pode fechar os olhos e entrar no inútil, no interior. E de repente tudo fica em silêncio, tudo fica fresco e você está na fonte de toda a vida.
Mas isso não tem qualquer valor no mundo dos negócios, você não pode vender esse estado, não pode dizer: "Tenho uma grande meditação. Alguém está interessado em comprá-la?. Ninguém estará interessado em comprá-la, ela não é uma mercadoria, ela é inútil.
A parte da terra que é inútil dá suporte à útil, e o inútil é vasto, enquanto o útil é muito pequeno. Isso é verdadeiro em relação a todos os níveis do ser: o inútil é vasto, enquanto o útil é muito pequeno. Se você tentar salvar apenas o útil e se esquecer do inútil, mais cedo ou mais tarde você ficará zonzo. E isso já aconteceu; você já está zonzo, caindo no abismo.
Por todo o mundo, os pensadores têm um problema: a vida, para eles, não tem significado, parece que ela não tem sentido. Pergunte a um Sartre, Marcel, Jaspers, Heidegger; eles dizem que a vida não tem sentido. Por que a vida ficou sem sentido? Isso nunca foi assim. Buda nunca disse isso; Krishna podia dançar, cantar, gostar de si mesmo; Maomé podia orar e agradecer a Deus pela bênção da vida; Chuang Tzu era feliz, tão feliz quanto se pode ser. Essas pessoas nunca disseram que a vida não tinha sentido. O que aconteceu com a mente moderna? Por que a vida parece tão sem sentido?
A terra inteira foi eliminada e você foi deixado somente sobre a parte na qual você está sentado ou em pé. Você está ficando atordoado, por toda sua volta só vê abismo e perigo. Você não pode usar a terra sobre a qual está agora porque só pode usá-la quando o inútil se junta a ela. O inútil precisa estar presente.
O que isso quer dizer? Sua vida se tornou apenas trabalho e nenhuma diversão. A diversão é o inútil, o vasto; o trabalho é o útil, o trivial, o pequeno. Você encheu completamente a sua vida com trabalho. Sempre que você começa a fazer alguma coisa, a primeira pergunta que lhe vem à mente é qual a utilidade daquilo. Se tiver utilidade, você faz.
Numa história, Sartre diz: "O amor é só para os pobres. Meus empregados podem amar por mim". É claro; por que um Henry Ford desperdiçaria seu tempo fazendo amor com uma mulher? Um empregado mal remunerado poderia fazer isso, pois o tempo de Ford é muito mais valioso, e ele poderia usá-lo em algo mais útil.
Observando a mente humana, é possível que no futuro só os empregados façam amor. Quando se pode enviar um empregado, por que se preocupar? Quando tudo é considerado em termos econômicos, quando um Ford ou um Rockefeller pode fazer muito melhor uso do seu tempo, por que deveriam desperdiçá-lo com suas esposas? Para isso eles podem mandar um empregado, e isso será menos problemático.
Parece um absurdo, mas isso já aconteceu em muitas dimensões da vida. Você nunca brinca, seus empregados é que brincam; você nunca é um participante ativo em nenhuma diversão, e os outros fazem isso para você. Você assiste a um jogo de futebol, e nele outras pessoas estão jogando e você está apenas assistindo. Você é um espectador passivo, que não se envolve. Você vai ao cinema e vê os outros fazendo amor, fazendo guerra, violência e tudo o mais; você é apenas um espectador na sua poltrona. Isso é tão inútil que não precisa se preocupar em fazer tudo isso; qualquer outra pessoa pode fazê-lo e você pode apenas observar. Trabalho você faz, mas diversão os outros a fazem por você.
A vida parece não ter sentido porque o sentido surge no equilíbrio entre o útil e o inútil. Você negou completamente o inútil, fechou a porta, e agora só o útil está presente e isso o faz sentir-se sobrecarregado. É um sinal de sucesso ter úlcera aos quarenta anos de idade. Se você tem cinqüenta anos e a úlcera ainda não apareceu, você deve ser um fracassado. O que você tem feito na vida? Você deve ter desperdiçado tempo. Aos cinqüenta, a pessoa deveria ter tido seu primeiro ataque cardíaco e, aos sessenta, a pessoa realmente bem-sucedida morre, sem nunca ter vivido. Não havia tempo para viver, pois ela tinha coisas muito mais importantes para fazer.
Olhe à sua volta, observe as pessoas de sucesso, sejam elas polítcos, professores, pessoas abastadas ou grandes empresários. O que está acontecendo com elas? Não olhe para as coisas que essas pessoas possuem, mas diretamente para elas, pois, se você olhar para as coisas, será enganado. As coisas não têm úlcera, os carrões não tem têm ataque do coração, as casas não são hospitalizadas. Não olhe para as coisas, senão você se iludirá. Olhe para a pessoa destituída de todas as suas posses, olhe diretamente para ela, e então você sentirá a sua pobreza (principalmente de saúde); até um mendigo pode ser uma pessoa rica, até um pobretão pode ser mais rico no que se refere à vida.
O sucesso é um fracasso, e nada é um fracasso maior do que o sucesso, pois a pessoa bem-sucedida perde o domínio sobre a vida e sobre tudo. A pessoa bem-sucedida está na verdade barganhando, jogando fora o real em troca do irreal, jogando fora diamantes interiores em troca de pedrinhas coloridas da praia, juntando pedras e perdendo diamantes. Mas como você olha com os olhos da ambição, você olha para as posses; você nunca olha para o político, mas para o seu cargo, para o poder. Você nunca olha para a pessoa que está sentada ali absolutamente impotente, perdendo tudo sem nem ter um vislumbre do que é o estado de plenitude. Ela comprou o poder, mas, ao comprá-lo, perdeu a si mesma; o ser interior está se perdendo por causa de posses fúteis. Você pode enganar os outros, mas como você será capaz de enganar a si mesmo? No final, você olhará para a sua vida e perceberá que a perdeu por causa do útil.
O inútil precisa estar presente. O útil é como um jardim arrumado e limpo; o inútil é como uma grande floresta intocada, e ela não pode ser arrumada e limpa. A natureza tem a sua própria beleza e, quando tudo fica arrumado e limpo, ela já está morta. O jardim é algo falso; a coisa verdadeira é a floresta. O inútil é como uma grande floresta; o útil é como um belo jardim que você criou à volta da sua casa.
Chuang Tzu enfatizou muito o inútil porque você enfatizou muito o útil. Fora isso, essa ênfase não é necessária, pois serve apenas para lhe dar equilíbrio. Você foi demasiadamente para a esquerda e precisa ser puxado para a direita. Mas lembre-se, por causa dessa grande ênfase, você pode novamente ir para o outro extremo, e isso aconteceu a muitos seguidores de Chuang Tzu. Eles ficaram viciados no inútil, e não era esse o ponto; eles não compreenderam. Cuidado, pois a mente pode ir para o oposto e permenecer a mesma, enquanto a coisa real é a transcendência. Você precisa chegar ao ponto em que possa usar o útil e o inútil, em que possa usar o que tem propósito e o que não tem propósito. Então você está além de ambos, e ambos o servem.
Pessoas como Chuang Tzu são perigosas porque podem ser mal-interpretadas, e há mais possibilidade de haver mal-entendidos do que de haver entendimento correto. A mente diz: "Tudo bem, chega de trabalhar nesta firma, chega de família; serei agora um vagabundo". Isso é entender mal, pois você carregará a mesma mente e ficará viciado em ser um vagabundo. Então você não será capaz de voltar à firma, ao mercado, à família, e ficará com medo disso.
Da mesma maneira, se você se vicia com um remédio, ele poderá se tornar uma nova doença. Primeiro você precisa se livrar da doença, e imediatamente depois você precisa se livrar do remédio, senão ele tomará o lugar da doença e você ficará apegado a ela para sempre.
Lembre-se: o inútil tem a sua própria atração. Se você estiver muito perturbado pelo útil, poderá ir para o outro extremo e perder o equilíbrio.
Um profundo equilíbrio é necessário; deve-se ficar no meio, livre de todos os opostos. Você pode usar o útil e pode usar o inútil; pode usar o que tem propósito e o que não tem propósito e, ainda assim, ficar além dos dois. Você não é usado por eles e se tornou um mestre.
[continua]
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domingo, abril 22, 2007
Chuang Tzu: A Sombra do Jumento
Conta-se que, uma noite, Chuang Tzu estava conversando com seus discípulos e muitos deles estavam dormindo profundamente, como normalmente acontece com os discípulos. Devia ser tarde da noite; eles estavam cansados e Chuang Tzu falava de coisas difíceis, além da capacidade intelectual deles. Quando algo está além de sua capacidade, parece melhor você repousar e dormir do que se importar com o assunto.
De repente, Chuang Tzu ficou ciente de que muitos dos discípulos estavam dormindo profundamente e que era inútil continuar a falar. Eles estavam até roncando, perturbando-o com o ronco. Então ele contou a seguinte parábola: "Certa vez aconteceu de um homem fazer uma peregrinação a um lugar sagrado com o seu jumento. Mas ele era muito pobre e começou a passar muita fome; como o dinheiro tinha acabado, vendeu a um viajante rico (segundo proprietário) o jumento sobre o qual viajava. Mas na tarde seguinte, quando o sol estava muito quente, o primeiro dono do jumento descansou na sombra do animal.
"O segundo proprietário comentou: 'Isso não está certo, pois você me vendeu o jumento'.
"O primeiro proprietário replicou: 'Vendi o jumento, mas não a sombra'."
E, nessa altura, todos os discípulos ficaram alertas; de repente, ninguém estava dormindo, ninguém estava roncando. Quando você fala sobre jumentos, os jumentos imediatamente põem-se a ouvi-lo! Chuang Tzu disse: "Agora volto ao que estava falando..."
Mas todos os discípulos disseram: "Espere! Por favor, termine a história". Agora todos curiosos: "O que aconteceu?"
Chuang Tzu disse: "Essa é uma parábola e não uma história. Vocês estão mais interessados nos jumentos do que em mim". Chuang Tzu parou a história ali, nunca a concluiu, pois ela não precisava ser concluída; ela era apenas uma prova de que a mente humana está mais interessada na estupidez do que nos valores mais elevados; ela está mais interessada em tolices.
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sexta-feira, abril 20, 2007
Chuang Tzu: O Fácil é o Certo
As mentiras são fáceis, a verdade é difícil - este é o condicionamento comum da humanidade.
Mas Chuang Tzu certamente é um homem de imenso discernimento. Ele diz: O fácil é o certo.
Então, por que as pessoas têm tornado o certo tão difícil? Todos os seus santos tornaram o certo muito difícil, e há uma psicologia por trás disso: apenas o difícil é atraente para o seu ego. Quanto mais difícil a tarefa, mais o ego se sentirá desafiado.
Escalar o Everest era difícil; antes de Edmund Hillary ter chegado vivo ao topo, centenas de pessoas morreram na tentativa. Por todo um século, grupos e mais grupos de alpinistas se empenharam, e, quando Edmund Hillary chegou ao topo, não havia nada a ser encontrado! No topo culminante, nem mesmo há espaço suficiente... apenas uma pessoa pode ficar em pé ali. Perguntaram a ele: "O que o estimulou? Sabendo perfeitamente bem que dezenas de alpinistas perderam a vida ao longo de todos esses anos, e os corpos deles nem foram encontrados... por que você tentou realizar esse projeto perigoso?"
Ele respondeu: "Eu precisava tentar, pois isso estava ferindo o meu ego. Sou alpinista, adoro escalar montanhas, e era humilhante o fato de o Everest existir e ninguém ser capaz de chegar ao cume. Não é uma questão de encontrar alguma coisa... Eu me sinto imensamente feliz".
O que é essa felicidade? Você não encontrou nada! A felicidade é que o seu ego ficou mais cristalizado. Você é a primeira pessoa em toda a História que chegou ao ponto culminante do Everest; agora ninguém pode tirar o seu lugar; qualquer um que chegar lá será o segundo, o terceiro... mas você deixou a sua marca na História; você é o primeiro. Você não encontrou nada, mas um profundo alimento para o seu ego.
Todas as religiões tornam o certo difícil porque o difícil é atraente, atraente para o ego. Mas o ego não é a verdade, não é o certo. Você percebe o dilema? O ego só é atraído pelo difícil. Se você quiser que as pessoas sejam santas, precisará tornar muito difícil o seu certo, a sua verdade, a sua disciplina. Quanto mais difícil, mais as pessoas egóicas serão atraídas, serão praticamente puxadas como que por um ímã.
Mas o ego não está certo; ele é a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa, e não pode lhe entregar o certo, a verdade, mas apenas fortalecer-se mais. Em uma simples afirmação, Chuang Tzu está fazendo a afirmação mais fecunda: O fácil é o certo. Porque o ego não sente atração pelo fácil. Se você estiver se movendo na direção do fácil, o ego começará a morrer; e, quando não sobrar nenhum ego, você chegará à sua realidade, ao certo, à verdade.
E a verdade e o certo precisam ser naturais. Fácil significa natural; você pode encontrar o real e o verdadeiro sem esforço. "O fácil é o certo" significa que o natural é o certo, que a ausência de esforço é o certo, que a ausência de ego é o certo.
Comece certo e você estará sendo natural; continue natural e você estará certo.
Esses são os dois lados da mesma moeda. Se, ao começar a viver uma vida certa, você descobrir que ela está difícil, então lembre-se: ela não está certa. Ao viver o certo, sua vida se tornará cada vez mais fácil, cada vez um deixar acontecer, um fluir com a corrente...
É difícil ir contra a corrente, mas seguir com a corrente não é difícil. Assim, escolha as coisas mais fáceis na vida, as coisas mais naturais da vida, e você estará certo; ou, se você quiser começar da outra maneira, lembre-se do critério de que o certo precisa produzir a facilidade em você, o estado de relaxamento em você.
Continue natural e você estará certo. Nem por um momento se esqueça de que o difícil é alimento para o ego e que o ego é a barreira que o torna cego, que o torna surdo, que torna o seu coração difícil de abrir, que faz com que amar, dançar e cantar sejam impossíveis para você.
Continue no fácil. Toda a sua vida deve ser um fenômeno fácil, e então você não estará criando o ego. Você será um ser natural, apenas ordinário, comum. E o ordinário é o mais extraordinário. As pessoas que estão tentando ser extraordinárias não entenderam nada. Seja simplesmente uma pessoa comum, seja simplesmente um joão-ninguém.
Mas todos os seus condicionamentos são tão corruptos... eles o corrompem. Eles dizem: estar no fácil é ser preguiçoso, ser normal é humilhante. Se você não tentar ter poder, prestígio ou respeitabilidade, sua vida não terá sentido; isso foi forçado a entrar na sua mente.
Com essas simples afirmações, Chuang Tzu está tirando todos os seus condicionamentos. Continue natural e você estará certo. Nunca, nem por um momento, sinta-se atraído pelo difícil. O difícil fará de você "alguém", um primeiro-ministro, um presidente, mas não o tornará divino. O fácil é divino.
Não importa se você está acumulando dinheiro ou virtudes, se está ficando respeitável aqui ou respeitável no outro mundo; não importa, o jogo é o mesmo. Não faz diferença se você está se tornando uma celebridade mundialmente famosa ou um santo venerado mundialmente; ambos são viagens do ego.
E todos os gurus costumam tentar lhe ensinar disciplinas difíceis e caminhos árduos para encontrar a verdade; todos eles te dizem: "Pode não ser possível nesta vida, mas mesmo assim comece. Talvez na próxima vida... A jornada é longa, o objetivo é uma estrela distante".
O fácil é o certo. Comece certo e você estará sendo natural. Esse precisa ser o critério. Se você se sente pouco à vontade e tenso, então o que você começou não pode estar certo.
Continue natural e você estará certo.
E a última parte nunca deve ser esquecida. O caminho certo para seguir facilmente é se esquecer do caminho certo - porque até se lembrar disso é um incômodo. O caminho certo para seguir facilmente é se esquecer do caminho certo e se esquecer de que o seguir é fácil. Qual é a necessidade de se lembrar dessas coisas?
Relaxe a um tal ponto que... seja tão natural quanto as árvores e os pássaros. Ao olhar os pássaros, você não acha que um é santo e o outro é pecador; ao olhar as árvores, você não acha que uma é virtuosa e a outra está cheia de maus hábitos. Tudo é natural, tão natural que você nem precisa se lembrar disso.
Chuang Tzu foi um dos homens mais naturais que o mundo já viu. Ele não criou nenhuma disciplina ou doutrina, nem fez nenhuma catequese; ele simplesmente explicou uma coisa: se puder ser natural e simples, como os pássaros e as árvores, você florescerá e terá suas asas abertas no vasto céu.
Você não precisa ser santo. Os santos são muito tensos, mais tensos do que os pecadores. Conheci os dois e, se tivesse de escolher, eu escolheria os pecadores como companhia, e não os santos. Os santos são as piores companhias que existem, pois os seus olhos estão cheios de julgamentos sobre tudo: "Você deveria fazer isso e não aquilo". E eles começam a dominar você, a condená-lo, a humilhá-lo, a insultá-lo, porque o que eles estão fazendo é certo e o que você está fazendo não é certo. Eles envenenaram tão cruelmente a sua natureza que, se procurássemos criminosos de verdade, eles seriam encontrados entre os santos e não entre os pecadores. Os pecadores não fizeram muito mal às pessoas.
Visitei prisões, encontrei criminosos e fiquei surpreso ao ver que, muitas vezes, eles eram as pessoas mais inocentes. Talvez por serem as mais inocentes é que foram pegas; os espertos estão fazendo crimes muito maiores, mas não são pegos. Todas as leis têm brechas, e os espertos encontram primeiro as brechas; os inocentes são pegos porque não têm essa esperteza.
Estamos vivendo em um mundo muito estranho. Os criminosos é que ditam as regras; os criminosos são os políticos; tornam-se presidentes, vice-presidentes, primeiros-ministros, pois, a não ser o criminoso, quem deseja o poder? Um ser humano autêntico quer paz, quer amor, quer que o deixem em paz, quer a liberdade para ser ele mesmo. A própria idéia de dominar os outros é criminosa.
Chuang Tzu está certo: se você sente alguma tensão, lembre-se de que o que você está fazendo não está certo. Relaxe sendo um joão-ninguém, seja natural, torne-se parte deste universo relaxado, tão relaxado que você se esquece de tudo sobre o fácil e de tudo sobre o certo.
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