Monday, January 29, 2018

 

A Cura pela Água - 2

Trechos deste livro [1] de Louis Kuhne (1835-1901)

Os depósitos de substâncias estranhas quase sempre começam numa parte do corpo e nela são sempre mais fortes do que na parte oposta; e esta é sempre o lado em que costumamos dormir, já que essas substâncias obedecem à lei da gravidade. São as substâncias estranhas que produzem a doença. As substâncias estranhas não deveriam encontrar-se no corpo, pelo menos em sua forma presente, porque as substâncias nutritivas não obedecem à ação da gravidade no corpo. O corpo tende a expulsar as referidas substâncias estranhas, seja por meio de úlceras ou chagas abertas ou por suores abundantes e erupções. A doença consiste na presença de matérias estranhas no corpo.

Existem dois caminhos diferentes pelos quais as substâncias estranhas (mórbidas) podem introduzir-se no corpo: via nariz até os pulmões e no estômago através da boca. Nesses dois caminhos existem guardas, mas os mesmos não são de todo insubornáveis, pois que às vezes eles deixam passar substâncias que não deveriam entrar no corpo. Os guardas do ar são o nariz e do estômago é a língua. O alimento dos pulmões não está tão desfigurado como aquele do estômago, já que mesmo hoje em dia preferimos, em geral, o ar puro (o que não ocorre com os alimentos inseridos pela boca).

É muito difícil determinar que quantidade de alimento um estômago doente pode suportar. Tomemos como exemplo uma maçã, que é um alimento completamente sadio para um doente. Às vezes apenas uma maçã faz bom proveito a um doente fraco, ao passo que duas maçãs pode ser-lhe prejudicial. O fato é que todo excesso é um veneno para o corpo. Nunca devemos esquecer que tudo o que entra no estômago tem que ser digerido (o que requer dispêndio de energia). Tudo o que é excessivo é também um veneno e converte-se em substância estranha ao corpo; por conseguinte, a maior temperança no comer e no beber são a base de uma saúde duradoura (não é só o peixe que morre pela boca...). 

Chamo as substâncias de estranhas porque simplesmente não pertencem ao corpo. O corpo tenta libertar-se delas por vias destinadas para esse objetivo. As substâncias estranhas passam diretamente dos pulmões ao ar via expiração. O intestino expulsa para fora aquelas que se encontram no estômago e aquelas que passaram para o sangue são eliminadas por meio do suor, da urina e da expiração; isto é, pela pele, pelos rins e pelos pulmões.

O corpo está sempre disposto a reparar as consequências de nossas faltas. Se exigimos que nosso corpo execute um grande trabalho de eliminação, ele não poderá cumpri-lo totalmente e, então, ele se verá obrigado a alojar em si mesmo as substâncias estranhas inseridas nele. Longe de servir para o desenvolvimento do corpo, elas nada mais fazem senão prejudicá-lo, visto que dificultam a circulação do sangue e com isso a nutrição. As substâncias se depositam aos poucos em determinados lugares, sobretudo nas proximidades dos órgãos de excreção, em cuja direção rumam. Logo que isso se inicia, o depósito faz rápidos progressos, se não se modifica logo o modo de vida. Então se apresentam as primeiras alterações das formas. O corpo já está enfermo, mas a sua enfermidade ainda não causa dor, crônica ou latente. Desenvolve-se tão lentamente que o doente não se apercebe e somente depois de algum tempo sentem-se alterações desagradáveis. Não sente mais apetite, não pode mais trabalhar como antes, o espírito se perturba. Não obstante isto, tal estado é suportável por tanto tempo quanto funcionem os órgãos de excreção, conquanto os intestinos, os rins e os pulmões mantenham sua atividade e a pele transpire suficientemente. Mas, tão logo se enfraquecem tais funções, apresenta-se grande mal-estar no estado do corpo. 

O depósito de substâncias estranhas começa nas proximidades dos órgãos de excreção, mas continua depois pelas partes mais distantes, principalmente em direção às partes superiores do corpo. É muito raro conseguir acompanhar o desenvolvimento da doença desde o início, já que, em sua maioria, as pessoas já nascem com uma carga de substâncias mórbidas e é esta a razão por que quase nenhuma criança deixa de passar pelas doenças chamadas da infância, as quais são um processo de purificação, visto que o corpo se esforça por libertar-se, desta forma, das substâncias estranhas que contém.

As substâncias que mormente se depositam no baixo-ventre invadem finalmente o corpo inteiro e impedem o desenvolvimento regular dos órgãos. Embora os órgãos se ajudem, em parte aumentando seu volume, com isso não podem desenvolver-se em toda a sua perfeição, visto que a substâncias estranhas sempre usurpam o lugar das substâncias nutritivas. Logo que se impeça a circulação adequada do sangue, a nutrição sofre completamente e os órgãos encolhem-se por causa das substâncias estranhas ali depositadas. 

Em toda fermentação pululam pequenos organismos vegetais; as substâncias em fermentação passam por transformações notáveis e ganham muito em volume. Toda fermentação produz calor; quanto mais violenta, mais alta a elevação de temperatura. Os pequenos organismos da fermentação não podem desenvolver-se mais do que em um terreno adequado. Havendo substâncias estranhas no corpo, basta um impulso esterno adequado para colocá-las em fermentação. Uma dessas causas ocasionantes é a mudança brusca do tempo (donde provèm os resfriados). Tenho observado que a fermentação começa sempre no baixo-ventre. Frequentemente produz a diarréia e cessa com ela. Muitas vezes, principalmente quando há prisão de ventre, o corpo não consegue reagir e, então, a fermentação invade todas as partes em que se depositaram as substâncias estranhas. A fermentação busca a saída pelo alto; então percebemos em primeiro lugar os sintomas nas partes superiores, apresentando-se as dores de cabeça (enxaqueca). A fermentação produz calor, elevando a temperatura no interior. Este é o estado conhecido com o nome de febre. A febre é uma fermentação que se produz no corpo. A fermentação é uma decomposição, uma transformação, ou espécie de putrefação, na qual se desenvolvem pequenos organismos vegetais chamados bacilos. O ato da fermentação ou da decomposição altera a forma primitiva da massa inicial. Toda doença aguda é destinada à expulsão das substâncias estranhas.

As substâncias estranhas em fermentação tendem a dilatar-se e oprimem-se contra a pele que encerra o corpo. Essa pressão encontra a resistência da pele. Isso produz um friccionamento que desenvolve calor. Esse é o calor conhecido com febre. As substâncias em fermentação podem encontrar uma saída e desprenderem-se do corpo com o suor. Com este expediente, o interior do corpo fica mais descarregado; a pressão da pele e o calor diminuem imediatamente. 

Antes da percepção do calor, durante dias, semanas ou meses inteiros pode-se observar uma sensação ao que parece totalmente oposta, isto é, de frio. No entanto, a explicação é muito simples. O frio se produz quando o depósito de substâncias estranhas é tão considerável que o sangue já não consegue chegar com facilidade até as extremidades (pés e mãos). Nesta situação, o sangue se comprime mais nas partes internas, onde se produz grande calor. 

Este depósito dura algum tempo, até que as substâncias acumuladas se põem a fermentar por qualquer das causas mencionadas, isto é, em consequência de mudança de temperatura ambiente, de sacudidas externas ou forte emoção. Os vasos sanguíneos se obstruem parcialmente sobretudo em suas ramificações mais tênues, de modo que o sangue não pode circular até a camada exterior da pele. Daqui provém a frialdade nas extremidades e o frio no corpo inteiro. 

O corpo recobra a saúde tão logo regride o ato da fermentação. Não se pode imaginar uma infecção misteriosa causada por bacilos sem que já existam substâncias estranhas ao corpo. Não se trata, pois, de matar os bacilos e, sim, de afastar as causas da fermentação, ou seja, as substâncias estranhas. Então estes pequenos monstros, que tanto terror têm incutido nos espíritos fracos, desaparecem espontaneamente.

Quanto menores os seres, mais difícil de destruí-los diretamente. É o que acontece principalmente com os bacilos. Para afastá-los é inútil querer destruí-los com medicamentos; colimaríamos melhor nosso objetivo, se procurássemos excluir a sua causa, isto é, expulsando do corpo as substâncias estranhas. 

A natureza age em grande escala: da mesma forma age ela em pequena escala, porque suas leis são uniformes. Da mesma forma que os insetos, os mosquitos, os carnívoros e os animais que se alimentam de carniça só se encontram, vivem e subsistem nas regiões em que acham terreno conveniente e pereceriam se não dispusessem desse terreno propício, de igual modo é impossível a existência de febre sem o depósito de substâncias estranhas no corpo: o ato de fermentação, a que damos o nome de febre, só pode produzir-se quando no corpo existem substâncias estranhas. 

Para curar a febre, deve-se tornar a pele permeável, deixando que o corpo transpire. Quando o suor aparece, as substâncias em fermentação encontram saída e diminui a grande tensão, da mesma forma que o calor da febre. O suor, no entanto, não elimina totalmente a causa da doença. Na maior parte do tempo a fermentação atinge apenas uma parte das substâncias depositadas no corpo.; as outras substâncias que ainda não entraram em movimento, e que aumentam com novos depósitos, constituem um foco permanente de febre que só precisa duma ocasião favorável para eclodir de novo. Deve-se, portanto, expulsar estas substâncias que ainda se encontram no corpo. Para esse fim introduzi os banhos derivativos (com água fria), de esfregadura do tronco e de assento, os quais serão descritos posteriormente. Estes banhos incitam o corpo a expulsar, de maneira natural, as substâncias mórbidas que se acham nele. 

Em todos os doentes apresentam-se alterações das formas naturais do corpo. Estas alterações são produzidas por substâncias estranhas. A presença destas substâncias estranhas no corpo constitui a doença. Estas substâncias estranhas são substâncias que o corpo não pode empregar e que nele permanecem em consequência duma digestão insuficiente. 

As substâncias estranhas são putrecíveis (decomponíveis) e constituem o terreno em que pode desenvolver-se uma fermentação (bacilos). A fermentação começa no baixo-ventre, onde está depositada a maior parte das substâncias estranhas, mas continua subindo rapidamente pelo corpo. O estado morboso se transforma, produzem-se dores e, em seguida, febre. 

Não existe mais do que uma única causa da doença, não há mais do que uma doença que se manifesta por diferentes sintomas. Rigorosamente falando, não podemos distinguir diferentes doenças, mas somente diferentes sintomas morbosos. Portanto, há uma unicidade das doenças, não existindo mais do que uma única doença (acúmulo de substâncias estranhas).
 
Referência:
[1] Louis Kuhne, Cura pela Água: A Nova Ciência de Curar, Hemus Editora, 7ª Edição, 1996.

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