sábado, agosto 19, 2023

 

A palavra Ideal


A palavra ideal é uma palavra suja para mim. Eu não tenho ideais. Os ideais deixam as pessoas loucas. Foram ideais que transformaram o mundo inteiro em um grande hospício.

O ideal quer dizer que o homem não é aquilo que deveria ser.

O ideal cria tensão, ansiedade, angústia, divide o homem e torna-o esquizofrênico. Além disso, o ideal está no futuro, enquanto o homem está aqui no presente. E como o homem pode viver se ele não for o ideal? Primeiro ser o ideal, e, depois, começar a viver; mas isso nunca acontece. Isso não pode acontecer, pela própria natureza das coisas.

Os ideais são impossíveis, e é por isso que são ideais. Eles levam o homem à loucura e o deixam insano. Depois vem a condenação, pois ele nunca alcança o ideal. Cria-se a culpa. Na verdade, isso é o que os padres e os políticos fazem: eles querem criar a culpa nas pessoas. Para criar a culpa eles usam ideais, esse é o mecanismo.

Digamos que eu afrime que ter dois olhos não é suficiente, é preciso ter três olhos. É preciso abrir o terceiro olho! Leia Lobsang Rampa: abra seu terceiro olho! E agora faça um esforço, dessa e daquela forma, fique de cabeça para baixo e repita um mantra. Mas o terceiro olho não abre, e, agora, a pessoa começa a se sentir culpada, está faltando alguma coisa... ela não é a pessoa certa. Torna-se depressiva. Esfrega com força o terceiro olho, e ele não abre.

Cuidado com todo esse absurdo. Os dois olhos que cada indivíduo tem são lindos. E se algumas pessoas têm apenas um único olho, perfeito. Basta qeu elas se aceitem como são. Deus as fez perfeitas, ele não deixou nada incompleto em ninguém. E se sentem que algo está incompleto, então é porque faz parte da perfeição. Elas são perfeitamente imperfeitas. Deus sabe melhor do que ninguém: somente na imperfeição existe crescimento, somente na imperfeição existe fluxo, somente na imperfeição algo é possível. Se as pessoas fossem simplesmente perfeitas, estariam mortas como uma rocha. Daí não haveria nada acontecendo, daí nada poderia acontecer. Se é que vocês me entendem, eu gostaria de lhes dizer: Deus também é perfeitamente imperfeito, pois, do contrário, já estaria morto há muito tempo. Não teria esperado Friedrich Nietzsche declarar que "Deus está morto".

O que esse Deus estaria fazendo se ele fosse perfeito? Não poderia fazer nada, não poderia ter nenhuma liberdade para fazer algo. Não poderia crescer, não haveria nenhum lugar para onde ir. Ele ficaria simplesmente preso lá. Não poderia nem mesmo cometer suicídio, pois, quando se é perfeito, não se faz coisas como essa.

É preciso que cada um se aceite como é.

E não estou interessado em nenhuma sociedade ideal, de jeito nenhum. Não estou interessado em indivíduos ideais.

Não tenho interesse em qualquer forma de idealismo.

E, para mim, a sociedade não existe, existem apenas indivíduos. A sociedade é só uma estrutura funcional, utilitária. Não se tem domínio sobre a sociedade. Alguém já conseguiu ter domínio sobre a sociedade? Alguém já conseguiu ter domínio sobre a humanidade? Alguém já conseguiu ter domínio sobre o cristianismo, o hinduísmo, o islamismo? Não, é sempre possível dominar o indivíduo, o indivíduo sólido, concreto.

Mas as pessoas pensaram em como melhorar a sociedade, em como fazer uma sociedade ideal. No entanto, essas pessoas provaram ser um desastre. Elas provocaram um grande prejuízo, uma vez que, em função de sua sociedade ideal, destruíram o autorrespeito e criaram a culpa em todo mundo.

Todo mundo é culpado, ninguém parece ser feliz da meneira que é. É possível criar culpa por qualquer coisa e, uma vez criada a culpa, a pessoa se torna poderosa. Aquele que cria a culpa no outro torna-se poderoso em relação a ele, portanto, é bom lembrar dessa estratégia, porque, depois, apenas o primeiro poderá redimir o segundo da culpa. Depois, o segundo terá que ir até o primeiro. O padre antes cria a culpa para que depois os fiéis tenham que ir à igreja. Daí, então, os fiéis têm de ir e confessar "Eu cometi esse pecado", e o padre os perdoa em nome de Deus. Primeiro o padre cria a culpa em nome de Deus e, depois, ele perdoa as pessoas em nome de Deus!

Os padres criam a culpa, e, depois, perdoam as pessoas em nome de Deus. Transformam as pessoas em pecadoras, e depois dizem: "Agora venham para Cristo, ele é o salvador".

Não há ninguém lá para salvar as pessoas, porque, em primeiro lugar, elas não cometeram nenhum pecado. Elas não precisam ser salvas.

Não tenho interesse por nenhuma sociedade ideal. Por favor, abandonem esse sonho, pois isso tem criado grandes pesadelos no mundo. Lembrem-se: nada pode acontecer agora em termos políticos. A política está morta. Não importa em quem votem, se de direita ou de esquerda, façam isso sem ilusões. É necessário renunciar à ideia de que algum sistema pode ser o salvador, seja o comunismo, o fascismo ou o gandhismo. Nenhuma sociedade pode salvar as pessoas, e nenhuma socieade pode ser uma sociedade ideal. E não há nenhum salvador, seja Cristo, Krishna ou Rama. É preciso simplesmente abandonar esse absurdo que as pessoas carregam sobre a culpa e o fato de serem pecadoras.

Coloque toda a sua energia na dança para celebrar a vida. E daí, então, o homem é ideal, aqui e agora, mas não que seja necessário tornar-se ideal.

Estamos vivendo na era da liberdade total. Atingimos a maioridade.

A humanidade não é mais infantil, está mais madura. Estamos vivendo em um período muito socrático, porque as pessoas estão fazendo todas as perguntas importantes sobre a vida. Não comecem a desejar e ansiar por algum futuro ideal, ideia, perfeição.

Abandone todos os ideais e viva o aqui e agora.

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.

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