terça-feira, agosto 08, 2023

 

Os três Eus

Há três pessoas dentro de cada um: uma delas é o eu-1, essa é a personalidade. A palavra personalidade vem do grego "persona". No teatro grego os atores costumavam usar máscaras, e a voz viria da máscara. Sona significa voz, som, e per significa "através da máscara". Não se conhece a verdadeira face, ou seja, quem é o ator na realidade. Há uma máscara, e através da máscara vem a voz. Parece que a voz está vindo da máscara, mas não se conhece a verdadeira face. A palavra "personalidade" é bonita, e vem do teatro grego.

E foi isso o que aconteceu. No teatro grego eles tinham apenas uma máscara. O homem atual tem muitas, são máscaras sobre máscaras, como camadas de uma cebola. Se descartar uma máscara, há outra, e se puser de lado essa, há outra. E é possível prosseguir, cavando cada vez mais. É de surpreender quantas faces o homem carrega. O homem as vem coletando ao longo de vidas. E todas elas são úteis, porque é preciso mudar muitas vezes.

Quando o chefe está conversando com seu funcionário, não pode ter a mesma cara de quando fala com o chefe dele. E ambos podem estar presentes na mesma sala: quando olha para o funcionário, o chefe tem que usar uma máscara, e quando olha para o patrão, tem que usar outra. Ele muda continuamente. Torna-se praticamente automático, de modo que a pessoa não precisa mudar, pois a cara muda por si. Quando olha para o patrão, ela está sorrindo, e quando olha para o funcionário, o sorriso desaparece, e ela adota uma postura rígida, tão rígida quanto o patrão em relação a ela.

Em um único momento a pessoa pode mudar sua fisionomia muitas vezes. É preciso ficar muito alerta para saber quantas caras se possui. Inúmeras. Não podem ser contabilizadas.

Esse é o primeiro "eu" do indivíduo, a pessoa falsa. Ou chame-a de ego. O ego foi dado às pessoas pela sociedade, é um presente da sociedade, ou seja, do político e do padre, do pai e do pedagogo. Eles deram ao indivíduo muitas faces, exatamente para tornar sua vida suave. Eles tiraram sua verdade, e lhe deram um substituto. E, devido a essas faces substitutas, o indivíduo não sabe quem ele é. E não pode saber, pois as faces mudam tão rapidamente e são tantas que ele não pode confiar em si mesmo. Ele não sabe exatamente qual a face é a dele. Na verdade, nenhuma dessas faces é dele.

E as pessoas zen dizem: "A menos que você conheça sua face original, não vai saber o que significa Buda", pois Buda é a face original da pessoa.

O homem nasceu um Buda e está vivendo uma mentira.

Esse presente social tem que ser abandonado. Não importa se o indivíduo é cristão, hindu ou muçulmano, essa face tem que ser abandonada, porque essa não é sua verdadeira face. Essa face lhe foi dada por outros, e o indivíduo foi condicionado por ela. Nem sequer lhe perguntaram, nem sequer lhe foi solicitado. Foi-lhe imposta à força, de forma violenta.

Todos os pais são violentos e todos os sistemas educacionais são violentos. Isso acontece porque eles não prestam atenção às crianças. Eles têm ideias preestabelecidas, já sabem o que é certo. E eles ensinam o "certo" às crianças. Elas se contorcem, gritam por dentro, mas são indefesas. A criança é tão indefesa e tão delicada que pode ser moldada de qualquer forma. E é o que a sociedade faz. Antes que a criança fique bem forte, já está debilitada de várias maneiras. Paralisada, envenenada.

O dia em que alguém quiser tornar-se religioso vai ter que abandonar as religiões. O dia que alguém quiser se relacionar com Deus, vai ter que descartar todas as ideologias sobre Deus. O dia que alguém quiser saber quem ele é, vai ter que descartar todas as respostas que lhe foram dadas. Tudo o que é emprestado tem que ser destruído.

Se a pessoa acredita nas escrituras sagradas, vai continuar sem a verdade. A verdade está na pessoa, e tem que ser encontrada nela. "Ver a natureza e tornar-se Buda. Apontar direto para o coração humano". A pessoa não tem que ir a lugar algum. E, aonde quer que vá, permanecerá a mesma. Então qual é o sentido? Pode ir para o Himalaia que não vai mudar nada. Ela vai carregar consigo mesma tudo o que tem, tudo o que ela se tornou, tudo que tem feito. Ela vai carregar toda a sua artificialidade. E suas faces sintéticas, seu conhecimento emprestado, suas escrituras vão continuar apegando-se a ela. Mesmo sentada em uma caverna no Himalaia, a pessoa não vai estar sozinha. Os professores estarão presentes ao seu redor, além dos padres, dos políticos, dos pais e de toda a sociedade. Pode não ser tão visível, mas a sociedade vai estar presente, aglomerada dentro da pessoa. E ela vai continuar a ser cristã, hindu ou muçulmana. E vai continuar a repetir palavras como um papagaio. Isso não vai mudar, não pode mudar.

Aonde quer que o homem vá, ele vai ser ele mesmo, seja no céu ou no Himalaia. Não pode ser de outra forma. O mundo não está fora do homem, pois o homem é o mundo. Portanto, aonde quer que ele vá, deve levar seu mundo com ele.

A verdadeira mudança não tem que ser de lugar, a verdadeira mudança não tem que ser externa, a verdadeira mudança tem que ser interior. E o que eu quero dizer com verdadeira mudança? Não quero dizer que o homem tem que melhorar a si mesmo, pois a melhoria é, mais uma vez, uma mentira.

A melhoria significa que a pessoa vai continuar a polir sua personalidade. Isso pode resultar em algo belo, mas é bom lembrar que quanto mais belo, mais perigoso, porque será mais difícil descartar.

É por isso que às vezes acontece de um pecador se tornar um santo. Mas as pessoas denominadas respeitadas nunca se tornam santas. Não podem se tornar santas, pois elas têm personalidades muito valiosas, muito rebuscadas, muito polidas, e fazem tanto investimento na personalidade que sua vida como um todo é uma espécie de polimento. Agora fica caro demais descartar essas belas personalidades. Um pecador pode largá-las, pois não tem nenhum investimento nisso. Mas como é possível a uma pessoa respeitável largar a personalidade de forma tão fácil? A personalidade tem pago a ela tão bem, tem gerado tantos lucros! Torna-a cada vez mais respeitada, faz com que ela galgue posições cada vez mais altas e com que esteja em vias de chegar ao auge do sucesso. É muito difícil para essa pessoa deixar de prosseguir nessa escalada para o sucesso. É uma escalada sem fim, e que a pessoa segue continuamente para sempre.

Alguém disse a Henry Ford, quando ele estava em seu leito de morte, momento em que ele ainda planejava algumas novas indústrias, alguns novos empreendimentos:

- O senhor está morrendo. E os médicos dizem que não vai sobreviver mais do que poucos dias. Não estão nem certos sobre isso, o senhor pode morrer hoje ou amanhã. Agora, por que? E o senhor fez isso a vida inteira. E tem tanto dinheiro, mais do que é capaz de gastar, mais do que é capaz de usar seja para o que for. É um dinheiro inútil! Por que o senhor continua aumentando suas empresas?

Por um momento Henry Ford parou seu planejamento e respondeu:

- Ouça. Não posso parar. Isso é impossível. Apenas a morte vai me fazer parar, eu não posso parar. Enquanto eu estiver vivo, continuarei chegando a um degrau superior. Sei que isso não faz sentido, mas não posso parar!

Quando a pessoa é bem-sucedida no mundo, é difícil parar. Quando está ficando mais rica, assim como quando está ficando famosa, é difícil parar. Quando mais refinada a personalidade, mais ela se apega à pessoa.

Então, não quero dizer que as pessoas tenham de melhorar a si mesmas. Nenhum dos grandes mestres, de Buda a Hakuin, falou para melhorar. Cuidado com os chamados "livros de autoajuda". O mercado nos Estados Unidos está cheio desses livros: cuidado, pois a melhoria não vai levar ninguém a lugar algum. O problema não é a melhora, e sim o fato de que, através da melhora, a mentira será aperfeiçoada. A personalidade será aperfeiçoada, uma vez que vai se tornar mais polida, vai se tornar mais sutil, vai se tornar mais valiosa, vai se tornar mais preciosa, mas essa não é a transformação.

A transformação não vem através das melhorias, mas através do abandono total da personalidade.

 A mentira não pode tornar-se a verdade. Não há como melhorar a mentira de modo que ela venha a se tornar uma verdade. Vai continuar a ser sempre uma mentira. Vai se parecer cada vez mais com a verdade, mas vai permanecer como a mentira. E quanto mais se parece com a verdade, mais a pessoa será absorvida por ela, enraizada nela. A mentira pode se parecer tanto com a verdade que a pessoa pode até mesmo tornar-se alheia ao fato de que se trata de uma mentira.

A mentira diz ao indivíduo: "Busque a verdade. Melhore seu caráter, sua personalidade. Busque a verdade, torne-se isso, torne-se aquilo." A mentira segue oferecendo a você novos programas: "Faça isso, e então tudo vai dar certo e você vai ser feliz para sempre. Faça isso, faça aquilo. Isso não deu certo? Não se preocupe, tenho outros planos para você." A mentira continua a oferecer planos, e a pessoa continua passando de um plano para outro, e desperdiçando sua vida.

A busca pela verdade também sai da mentira. Será difícil compreender, mas tem de ser compreendido. A busca pela verdade vem da própria mentira. É a forma com que a mentira se protege, ela até mesmo oferece à pessoa a busca da verdade. Agora, como a pessoa pode ficar brava com a própria personalidade? E como a pessoa pode chamá-la de mentira? Ela impulsiona a pessoa, força-a, empurra-a para buscar a verdade.

Mas a busca significa partir. E a verdade está aqui, enquanto a mentira empurra a pessoa para ir até lá. E a verdade é agora, enquanto a mentira diz "depois" e "lá". A mentira sempre fala do passado ou do futuro, nunca do presente. E a verdade é o presente. Neste exato momento. É aqui e agora...

Então, o primeiro "eu" é a mentira, o ato, ou seja, a pseudo-personalidade que cerca a pessoa. A face pública, a falsidade. É uma fraude. A sociedade impôs isso ao homem e  ele passou a cooperar com isso. É preciso abandonar essa cooperação com a mentira social, porque o homem só é ele mesmo quando se encontra totalmente despido. Todas as roupas são sociais. Todas as ideiase todas as identidades que ele acha que são suas, mas que na verdade são sociais, são dadas por outras pessoas. E essas outras pessoas, ou seja, a sociedade, têm seus motivos para dar essas idéias e identidades a cada um dos indivíduos. É uma exploração sutil.

A verdadeira exploração não é econômica ou política, a verdadeira exploração é psicológica. É por isso que todas as revoluções até agora fracassaram. Até o momento nenhuma revolução foi bem-sucedida. O motivo? O fato de não terem olhado para a forma de exploração mais profunda, que é a psicológica. Continuam a mudar apenas coisas superficiais. A sociedade capitalista torna-se comunista, mas não faz nenhuma diferença. A democracia torna-se ditatorial,a socieade ditatorial torna-se democrática, mas não ocorre nenhuma diferença. Estas são apenas mudanças superficiais, como uma camuflagem, mas a estrutura, no fundo, permanece a mesma.

O que é a exploração psicológica? A exploração psicológica é aquela na qual nenhum indivíduo tem permissão de ser ele mesmo, ninguém é aceito como si mesmo, ninguém é respeitado. Como alguém pode respeitar as pessoas se não as aceita como elas são? Se alguém impõe coisas às pessoas e depois as respeita, na verdade está respeitando suas próprias imposições. Ele não as respeita como elas são, não as respeita em sua nudez. Não as respeita em sua naturalidade, não as respeita em sua espontaneidade, não as respeita em seus sorrisos verdadeiros e em suas lágrimas verdadeiras. Ele respeita apenas falsidade, pretensões, ações. Os atos das pessoas, isso ele respeita.

Esse eu-1 tem de ser completamente descartado. Freud ajudou bastante a humanidade a ter consciência da pseudo-personalidade, da mente consciente. A revolução dele é muito mais profunda do que a revolução do Marx, sua revolução é muito mais profunda do que qualquer outra revolução. Ela vai fundo, apesar de não ir longe o suficiente.

Esta revolução chega até o segundo "eu", ou seja, o eu-2. É o eu reprimido, o eu instintivo, o eu inconsciente. É tudo o que a sociedade não permitiu, é tudo o que a sociedade forçou dentro do ser de cada um e trancou lá dentro. Ele vem apenas nos sonhos, vem apenas em forma de metáforas, vem somente quando a pessoa está bêbada, vem somente quando a pessoa não está sob seu próprio controle. Caso contrário, o eu-2 fica longe da pessoa. E é mais autêntico, não é falso.

Freud fez muito para que o homem tivesse consciência disso. E as psicologias humanistas e, particularmente, os grupos de crescimento, encontros e outros, ajudaram muito a tornar o homem consciente de tudo o que está gritando dentro dele, tudo o que está reprimido, esmagado. E esta é a sua parte vital. Essa é a sua vida real, sua vida natural. As religiões a condenaram como sua parte animal, como uma fonte do pecado. Não é a fonte do pecado, e sim a fonte da vida. E não é inferior ao consciente. É mais profundo do que o consciente, com certeza, mas não inferior ao consciente.

E não há nada errado se essa parte é animal. Os animais são belos, assim como as árvores. Eles ainda vivem nus em sua simplicidade absoluta. Eles ainda não foram destruídos pelos padres e pelos políticos, eles ainda são parte de Deus. Só o homem se desviou. O homem é o único animal anormal na face da terra, contrário a todos os animais que são simplesmente normais. Daí a alegria, a beleza, a saúde. Daí a vitalidade. Quem nunca viu isso? Quando um pássaro está voando, quem nunca sentiu inveja? Quem não viu isso em um veado correndo rápido na floresta? Quem não sentiu inveja da vitalidade, da alegria pura, da energia?

Crianças: quem já não sentiu inveja? Talvez o fato de sentir tanta inveja seja o motivo para as pessoas condenarem a infantilidade. E as pessoas seguem condenando. Montague está certo quando diz que, em vez de dizer às pessoas "Não seja infantil", deve-se passar a dizer "Não seja metido a adulto". Ele está certo, eu concordo.

A criança é bela, enquanto o adulto é o que representa a feiura. O adulto não é mais um fluxo, ele está bloqueado em muitos aspectos. Ele está congelado, é chato e está morto. Perdeu o ânimo, perdeu o entusiasmo, ele está simplesmente se arrastando. Ele está entediado, não tem nunhum senso de mistério. Nunca se surpreende, esqueceu a linguagem da admiração. O mistério desapareceu dele. Ele tem explicações, o mistério não está mais presente. Consequentemente, ele perdeu a poesia, a dança e tudo o que é valioso, e tudo o que dá sentido e significado à vida, tudo o que dá sabor à vida.

Esse segundo "eu" é  muito mais valioso do que o primeiro. É aí que sou contra todas as religiões, é nesse ponto que sou contra todos os sacerdotes, pois eles agarram o primeiro, o mais superficial. Vá para o segundo "eu". Mas o segundo "eu" não é o fim, e é aí que Freud falha em não ir além. E é aí que a psicologia humanista também é limitada, e apesar de ir um pouco mais fundo do que Freud, ainda não se aprofunda o suficiente para encontrar o terceiro "eu".

Há um terceiro "eu", o eu-3. O verdadeiro eu, a face original, que está além do eu-1 e do eu-2, além de ambos. O transcendental. O estado de Buda. É o puro estado de consciência indivisivel.

O primeiro "eu" é social, o segundo "eu" é natural e o terceiro "eu" é divino.

E é bom lembrar que não estou dizendo que o primeiro "eu" não é de todo útil. Se o terceiro "eu" existe, então o primeiro "eu" pode ser muito bem-utilizado. Se o terceiro "eu" existe, então o segundo "eu" pode muito bem ser utilizado. Mas somente se o terceiro "eu" existir. Se o centro funciona bem, então a periferia também está boa, e a circunferência também está com bom funcionamento. Porém, sem o centro, e apenas com a circunferência, é um tipo de morte.

É o que aconteceu com o homem. É por isso que no Ocidente tantos pensadores acham que a vida não tem sentido. Ela não é sem sentido. A questão é que o homem perdeu o contato com a fonte de onde vem o sentido.

É como se uma árvore tivesse perdido o contato com as próprias raízes. Agora não nasce nenhuma flor. Agora a folhagem começa a desaparecer, as folhas caem e não nasce nenhuma nova. E o suco para de fluir, a seiva não existe mais. A árvore fica morimbunda, a árvore está morrendo.

E a árvore pode começar a filosofar, a árvore pode tornar-se existencialista, um Sartre ou outra pessoa, e pode começar a dizer que não há flores na vida. Que a vida não tem flores, que não há aroma, que não há pássaros. E a árvore pode até começar a dizer que sempre foi assim e que os antigos apenas se iludiam de que havia flores, apenas imaginavam que elas existiam. "Sempre foi assim, a primavera nunca chegou, as pessoas apenas fantasiaram. Esses Budas simplesmente imaginam, fantasiam que as flores desabrocham, que existe uma grande alegria e que os pássaros vêm na luz do sol. Não há nada. Tudo é escuridão, tudo é obra do acaso, e não há nenhum sentido". A árvore pode dizer isso.

E a questão não é o fato de não haver sentido, de não haver mais flores, de as flores não exitirem, de o aroma ser uma fantasia, mas a simples realidade de que a árvore perdeu o contato com as próprias raízes.

A menos que esteja enraizada em seu estado de Buda, a pessoa não vai desabrochar. Não vai cantar, não vai saber o que é celebração. E como é possível conhecer Deus sem conhecer a celebração? Se a pessoa esqueceu como dançar, como é que pode rezar? Se a pessoa esqueceu como cantar e como amar, então Deus está morto. Não que Deus esteja morto. Deus está morto dentro da pessoa, apenas nela. Sua árvore está seca, a seiva desapareceu. Ela vai ter que encontrar as raízes novamente. Onde encontrar essas raízes? As raízes têm de ser encontradas aqui e agora.

Eu Sou !

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.


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