terça-feira, junho 11, 2024

 

Zorba, o Buda

Fonte consultada:  Osho, O Livro da sua Vida - Crie o seu próprio caminho para a liberdade, Editora Pensamento-Cultrix, 2019. ISBN: 978-85-316-0975-6

 O filme Zorba, o Grego, tornou-se famoso no passado...

Em 1964 foi lançado o filme Zorba, o Grego, que fez enorme sucesso aqui no Brasil. O personagem principal, o ator mexicano Anthony Quinn (Zorba), gostava de desfrutar sua vida física em abundância. Após esse filme, a marca de cueca masculina Zorba tornou-se praticamente sinônimo de cueca aqui no Brasil, assim como Gillete era sinônimo de lâmina de barbear e Bom Bril era sinônimo de palha de aço.

O meu (Osho) conceito de um novo ser humano na Terra é o de alguém que será Zorba, o Grego, e também Gautama, o Buda:  o novo ser humano será "Zorba, o Buda" - sensual e espiritual. Físico, absolutamente físico - vivendo plenamente no corpo, com todos os seus sentidos, gostando do corpo e de tudo o que o corpo físico torna possível - e, mesmo assim, haverá alí uma grande consciência, um grande testemunho. Zorba, o Buda - como nunca houve antes.

É disso que eu (Osho) estou falando quando me refiro ao encontro entre o Oriente e o Ocidente, o encontro entre o materialismo e a espiritualidade. Esta é a minha idéia de Zorba, o Buda: a união entre o céu e a terra.

Eu quero que não haja nenhuma cisão entre matéria e espírito, entre o mundano e o sagrado, entre este mundo e o outro mundo. Não quero nenhuma cisão, porque toda cisão cria uma cisão em você. E toda pessoa que esteja dividida de si mesma, acaba ficando louca, ensandecida. Estamos vivendo em um mundo louco e insano. Ele só recuperará a sanidade quando essa cisão puder ser desfeita.

A espécie humana sempre viveu ou acreditando na realidade da alma e no caráter ilusório da matéria, ou na realidade da matéria e no caráter ilusório da alma. Mas ninguém se preocupava em olhar a realidade do ser humano. Nós somos as duas coisas. Não somos só espiritualidade - só consciência - nem somos só matéria. Somos uma harmonia perfeita entre matéria e consciência. Ou talvez matéria e consciência não sejam duas coisas, mas só dois aspectos de uma única realidade (energia inteligente): a matéria é o exterior da consciência e a consciência é a interioridade da matéria. Não existiu no passado nem um único filósofo, sábio ou místico religioso que tenha declarado essa unidade; eles eram todos a favor da divisão do ser humano, e consideravam um lado real e o outro, irreal (maya). Isso criou um clima de esquizofrenia no mundo inteiro.

Você não pode viver como se fosse apenas um corpo. Foi isso que Jesus quis dizer quando afirmou, "Não só de pão vive o homem" - mas essa é só uma meia verdade. Você precisa da sua consciência, não pode viver só de pão, é verdade - mas também você não pode viver sem pão. Você tem as duas dimensões no seu ser e ambas têm de ser satisfeitas, tem de ter a mesma oportunidade de crescimento. Porém, o homem não tem sido aceito na sua totalidade.

Isso tem causado muito sofrimento, angústia e uma enorme escuridão; uma noite que já dura milhares de anos e parece não ter fim. Se ouvir apenas o corpo, você se condena a uma existência sem sentido. Se não ouve o corpo, você sofre - fica com fome, fica pobre, fica com sede. Se ouvir apenas a consciência, o seu crescimento ficará desequilibrado. A sua consciência crescerá, mas o seu corpo vai definhar, e não haverá equilíbrio. Mas é no equilíbrio que está a sua saúde, e no equilíbrio que está a inteireza, é no equilíbrio que está a sua alegria, a sua canção, a sua dança.

O materialista preferiu ouvir o corpo e fazer ouvidos moucos para tudo que se refere à realidade da consciência. O resultado final é uma grande ciência, uma grande tecnologia - uma sociedade afluente, abundância de coisas mundanas, terrenas. E, em meio a toda essa abundância, existe um ser humano pobre e sem alma, completamente perdido - sem saber quem ele é, sem saber por que existe, sentindo-se quase um acidente da natureza, uma anomalia.

A menos que a consciência cresça no mesmo ritmo que a riqueza do mundo material, o corpo ficará pesado demais e a alma, debilitada. Você está oprimido pelas suas próprias invenções, pelas suas próprias descobertas. Em vez de criar uma vida bonita para você, elas criaram uma vida que, aos olhos das pessoas inteligentes, não vale a pena viver.

No passado, o Oriente optou por dar ênfase à consciência e condenar a matéria e tudo que fosse material, inclusive o corpo, relegando-os à condição de maya. Consideravam a matéria um fenômeno ilusório, uma miragem no deserto, que só parece existir, mas não tem realidade em si mesma. O Oriente criou um Gautama Buda, um Mahavira, um Patanjali - um longo rol de pessoas de grande consciência, de grande percepção. Mas também criou milhões de pessoas pobres, famintas, morrendo à mingua, como cães - sem comida, sem água para beber, sem roupas, sem teto.

O homem mais rico do mundo ocidental está em busca da sua própria alma e por dentro sente um vazio - sem amor, só volúpia; sem prece, só palavras que ele aprendeu na escola dominical e repete feito um papagaio. Ele não tem noção de espiritualidade, nenhum sentimento pelos outros seres humanos, nenhuma reverência pela vida, pelos pássaros, pelas árvores, pelos animais. Destruir é tão fácil! Hiroshima e Nagasaki nunca teriam acontecido se as pessoas não fossem vistas como meros objetos.

O Ocidente, em sua ânsia por prosperidade material, perdeu sua alma, sua interioridade. Cercado pela ausência de sentido, pelo tédio, pela angústia, ele não consegue encontrar a sua própria humanidade. Todo sucesso da ciência provou ser inútil - pais a casa está abarrotada de coisas, mas o dono da casa não está alí.

Todos os santos e todos os filósofos - tanto espiritualistas quanto os materialistas - são os responsáveis por esse crime hediondo contra a humanidade.

Zorba, o Buda, é a solução. Ele é a síntese da matéria e da alma. É a declaração de que não existe conflito entre a matéria e a consciência, de que podemos ser prósperos nessas duas dimensões. Podemos ter tudo o que o mundo pode oferecer, tudo o que a ciência e a tecnologia podem produzir, e ainda assim podemos ter tudo o que alguém como Buda descobriu em seu mundo interior - as flores do êxtase, a fragrância da divindade, as asas da liberdade absoluta.

Zorba, o Buda, é o novo ser humano, é o rebelde. A rebelião consiste em acabar com a esquizofrenia da humanidade, em acabar com a divisão entre matéria e espírito - em acabar com a idéia de que a espiritualidade é contra o materialismo e que o materialismo é contra a espiritualidade. É um manifesto de que o corpo e a alma vivem em comunhão. É uma declaração de que toda a existência é tanto material quanto espiritual - ou talvez se trate de uma única energia expressando-se de duas maneiras diferentes, como matéria e como consciência. Quando a energia é purificada, ela se expressa como consciência; quando a energia é bruta, grosseira, densa, ela surge como matéria. Mas toda a existência nada mais é que um campo de energia.

Nós podemos ter os dois mundos ao mesmo tempo. Não precisamos renunciar a este mundo para ganhar o outro; nem temos de negar o outro mundo para aproveitar este. Na verdade, contentar-se só com um deles, quando você pode ter os dois, é ser desnecessariamente pobre.

Zorba, o Buda, é a mais rica das possibilidades. Viveremos nossa natureza ao máximo. Não trairemos a terra nem trairemos o céu. Aproveitaremos tudo o que esta terra tem - todas as flores, todos os prazeres - e também buscaremos todas as estrelas do céu. Trataremos toda a existência como a nossa casa.

Tudo o que a existência contém é para nós, e temos que aproveitar isso de todas as maneiras possíveis - sem nenhuma culpa, sem nenhum conflito, sem ter que fazer escolhas. Aproveite indiscriminadamente tudo o que a matéria é capaz de oferecer e rejubile-se com tudo de que a consciência é capaz.

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