sábado, junho 02, 2007

 

Osho e Tantra: Saraha, o Fundador do Tantra - 4

[continuação]

O instruído precisa ir ao vital, o falso precisa ir ao real. Saraha perguntou à mulher cheia de vida se ela fazia arcos e flechas profissionalmente, e a mulher deu uma risada, uma risada selvagem, e disse: "Seu brâmane estúpido! Você deixou o Veda, mas agora está adorando os dizeres de Buda. Então, qual é o sentido disso? Você mudou de livros, mudou sua filosofia, mas permanece o mesmo homem estúpido."

Saraha ficou chocado; ninguém jamais falara com ele dessa maneira; apenas uma mulher inculta poderia falar dessa maneira. E o modo como ela riu era muito pouco civilizado, muito primitivo, mas muito vivo. Ele estava se sentindo atraído; ela era um grande ímã e ele era um pedaço de ferro. Então ela disse: "Você acha que é um budista? O significado de Buda pode ser conhecido só através da ação, e não através de palavras e de livros. Você já não está no ponto de dar um basta? Você já não está saturado de tudo isso? Não desperdice mais tempo nessa busca inútil. Venha e me siga!". E ele a seguiu...

Ele a viu no mercado sem olhar para a esquerda nem para a direita (com o arco e a flecha), mas exatamente no meio. Pela primeira vez, ele entendeu o que Buda quis dizer com "estar no meio", evitando os extremos. Primeiro ele tinha sido um filósofo, agora ele se tornara um antifilósofo, indo de um extremo a outro. Primeiro ele estava venerando uma coisa, e agora estava venerando justamente o oposto, mas a veneração continuava.

Você pode se mover da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, mas isso não irá ajudar. Você será como um pêndulo, movendo-se da esquerda para a direita, da direita para a esquerda... Você já observou isso? E dessa forma, o relógio segue em frente e o mundo segue em frente.

Estar no meio significa que o pêndulo vai ficar pendurado bem no meio, sem ir para a direita nem para a esquerda. Então o relógio pára, o mundo pára; não há mais tempo e surge o estado de não-tempo. O meio é o ponto a partir do qual a transcendência acontece. Pense a respeito disso. Uma pessoa correndo atrás de dinheiro é louca, louca por dinheiro; o dinheiro é o seu deus. Um dia ou outro, esse deus fracassa, e isso é inevitável. O dinheiro não pode ser o deus; ele era a sua ilusão. Um dia você chega ao ponto em que percebe que não existe nenhum deus no dinheiro, que não existe nada nele e que você desperdiçou a sua vida. Então você se volta contra ele e toma a atitude oposta, passando a ser contra o dinheiro e nem mesmo tocando em dinheiro. Mas você esta obcecado nas duas atitudes. Agora você é contra o dinheiro, mas a sua obsessão permanece. Você se moveu da esquerda para a direita, mas o dinheiro ainda está no centro da sua consciência.

Você pode mudar de um desejo a outro; era muito mundano e agora se tornou espiritual; mas você continua o mesmo, a doença persiste.

Buda diz que ser mundano é ser mundano, e que ser espiritual é também ser mundano; venerar o dinheiro é ser louco, e ser contra o dinheiro é ser louco; procurar o poder é tolice, e fugir dele também o é.

A mulher disse para Saraha: "Você só pode aprender através da ação." Esta é novamente uma mensagem budista: ser total na ação é estar completamente livre da ação. O carma (karma) é criado porque você não está totalmente envolvido em seus atos; se você estiver totalmente na ação, ela não deixará marcas.

Faça qualquer coisa na sua totalidade, e ela estará terminada, e você não irá carregar a sua memória psicológica. Fazendo qualquer coisa de uma maneira incompleta, ela ficará pendurada em você, seguindo em frente... ela se torna uma ressaca. A mente quer continuar, quer fazê-la e completá-la, tem uma grande tentação de completar coisas. Complete qualquer coisa, e a mente se vai; se você continuar a fazer as coisas com totalidade, um dia subitamente descobrirá que a mente não está presente.

A mente é o passado acumulado de todas as ações incompletas. Você queria amar uma mulher e não amou, e agora essa mulher está morta; você queria ir ao seu pai e pedir perdão por tudo o que você fez, por tudo o que fez que o deixou magoado, mas agora ele está morto. Agora a ressaca ficará com você como um fantasma, agora você é impotente. O que fazer, a quem ir, como pedir perdão? Você queria ser gentil com um amigo mas não pôde porque você se fechou, e agora o amigo deixou de ser amigo e isso o magoa; você começa a se sentir culpado e se arrepende. E dessa maneira as coisas seguem em frente.

Faça qualquer ação com totalidade e você se livra dela e não olha mais para trás, pois não há nada lá para ver. Você não tem ressacas e simplesmente segue em frente. Seus olhos estão limpos do passado, sua visão não está anuviada. Nessa clareza, a pessoa vem a saber o que é a realidade.

Você está tão preocupado... com todas as suas ações incompletas. Você é como um depósito de lixo, uma coisa incompleta aqui, uma outra incompleta ali... nada está completo. Você observou isso? Você já completou alguma coisa, ou tudo está simplesmente incompleto? Nós insistimos em deixar de lado uma coisa e começamos uma outra, e antes que essa seja completada, começamos uma terceira. Ficamos com um fardo cada vez maior, e carma é justamente isso. Carma significa ação incompleta. Seja total e estará livre.

A mulher que fazia arcos e flechas estava totalmente absorta no que fazia, e foi porisso que ela parecia tão luminosa, tão bela. Ela era uma mulher comum, mas sua beleza não era deste mundo. A beleza vinha de sua absorção total na ação; a beleza vinha porque ela não era de extremos; a beleza vinha porque ela estava no meio, equilibrada. A partir do equilíbrio vem a graça. Pela primeira vez Saraha entendeu: a meditação é isso!

Fechar um olho e abrir o outro é também um símbolo budista. Buda diz que metade do cérebro raciocina e que a outra metade intui. O cérebro é dividido em duas partes, em dois hemisférios. O lado esquerdo mantém a faculdade da razão, da lógica, do pensamento discursivo, da análise, da filosofia, da teologia... palavras e mais palavras, argumentos, silogismos e inferências; portanto, o lado esquerdo do cérebro é aristotélico. O lado direito é intuitivo, poético; dele vem a inspiração, a visão, a consciência a priori, o conhecimento a priori. Nesta situação você não argumenta, mas simplesmente você sabe; não que você infira, mas simplesmente se dá conta. Este é o significado do conhecimento a priori, ele simplesmente está ali. A verdade é conhecida pelo lado direito do cérebro; a verdade é inferida pelo lado esquerdo. Inferência é apenas inferência, e não experiência.

[continua]

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