quarta-feira, agosto 02, 2023
A Ausência de Ego
Visto que o ego é uma ficção, há momentos em que a pessoa fica livre dele. Por se tratar de uma ficção, o ego pode ficar presente apenas se a pessoa continuar a mantê-lo. A ficção precisa de bastante manutenção energética. A verdade não precisa de nenhuma manutenção, e é essa a beleza dela. Mas a ficção? É preciso pintá-la constantemente, colocar um suporte aqui e ali, e ela desmorona constantemente. No momento em que a pessoa consegue escorar um lado, o outro começa a desmoronar.
E é isso que as pessoas fazem a vida inteira, ou seja, tentam fazer com que a ficção pareça com a verdade. Ter mais dinheiro, para então poder ter um ego maior, um pouco mais sólido do que o ego do homem pobre. O ego do homem pobre é franzino, ele não pode se dar ao luxo de ter um ego mais robusto. Basta tornar-se o primeiro-ministro ou presidentede um país para que o ego da pessoa infle ao extremo.
Toda a nossa vida, a busca pelo dinheiro, poder, prestígio, isto e aquilo, não é nada além de uma busca por novas peças de amparo, uma busca por novos apoios, para, de alguma forma, manter a ficção em andamento. E o tempo todo a pessoa sabe que a morte está chegando. O que quer que ela faça, a morte vai destruir. Mas, mesmo assim, ela continua a ter esperança contra todas as expectativas: talvez todas as outras pessoas morram, menos ela.
E, de certa maneira, isso é verdade. Nós sempre vemos as outras pessoas morrendo, e nunca nós mesmos, portanto, isso também parece verdadeiro, além de lógico. Essa pessoa morre, aquela pessoa morre, mas nós nunca morremos.Estamos sempre presentes, para sentir pena dos que morreram, vamos ao cemitério para nos despedir deles e, depois,voltamos para casa.
Não se deixe enganar,no entanto, pois todos agem do mesmo jeito.E ninguém é exceção. A morte vem e destrói toda a ficção do nome e da fama do indivíduo. A morte vem e simplesmente apaga tudo, não são deixadas nem mesmo pegadas. O que quer que as pessoas continuem a fazer de suas vidas, não é nada além de escrever sobre a água - nem mesmo na areia, mas sobre a água. Nem mesmo terminam de escrever e ela já se foi.Não podemnem mesmo lê-la, pois, antes que possam lê-la, ela se foi.
Mas as pessoas continuam tentando fazer esses castelos no ar, Como é uma ficção, precisa de constante manutenção, esforço constante, dia e noite. E ninguém pode ser tão cuidadoso durante 24 horas por dia. Então, às vezes, sem que a pessoa perceba, há momentos em que tem um vislumbre da realidade sem que o ego funcione como uma barreira.
Sem a tela do ego, há momentos assim, mas sem que a pessoa perceba, é bom lembrar. Todo mundo, de vez em quando, tem esses momentos.
Por exemplo, toda noite, quando a pessoa cai em sono profundo, e o sono é tão profundo que não pode nem mesmo sonhar, o ego não é mais encontrado, todas as ficções se foram. O sono profundo, sem sonhos, é uma espécie de pequena morte.
No sono sem sonhos, o ego desaparece completamente, porque, quando não há nenhum pensamento, nenhum sonho, como a pessoa pode conduzir uma ficção? Mas o sono sem sonhos é muito pequeno. Em oito horas de sono saudável não são mais do que duas horas.Mas apenas essas duas horas são revitalizantes. Se a pessoa tem duas horas de sono profundo, sem sonhos, de manhã ela está nova, fresca, viva. A vida tem novamente emoção, o dia parece ser um presente. Tudo parece novo, porque a pessoa está renovada. E tudo parece belo, porque ela está em um lindo espaço.
O que acontece nessas duas horas, quando a pessoa cai em sono profundo, o que Patanjali [e o yoga] chama[m] de sushupti, sono sem sonhos? O ego desaparece. E o desaparecimento do ego revitaliza a pessoa, rejuvenesce-a. Com o desaparecimento do ego, mesmo que em profunda inconsciência, a pessoa tem uma prova de Deus. Patanjali diz que não há muita diferença entre sushupti, sono sem sonhos, e samadhi, o estado supremo do budismo, embora haja uma diferença. A diferença é a consciência. No sono sem sonhos a pessoa está inconsciente, em samadhi, a pessoa está consciente, mas o estado é o mesmo. A pessoa move-se para Deus, move-se para o centro universal. Ela desaparece da periferia e vai para o centro. E apenas esse contato com o centro a rejuvenece.
Como o ego é uma ficção, ele às vezes desaparece. O tempo maior é o do sono sem sonhos. Portanto, tenha em mente que o sono é muito valioso, e não o perca, de jeito nenhum.
A segunda maior fonte de experiências sem ego é o sexo, o amor. Isso foi destruído pelos padres, eles o condenaram, por isso, não é mais uma experiência tão grandiosa. Esse tipo de condenação, por tanto tempo, condicionou as mentes das pessoas. Mesmo quando estão fazendo amor, no fundo sabem que estão fazendo algo errado. Alguma culpa está à espreita em algum lugar. E isso é assim até mesmo para a geração mais moderna, mais contemporânea, até mesmo para a mais jovem.
Superficialmente, as pessoas podem ter se revoltado contra a sociedade; superficialmente, podem não ser mais conformistas. No entanto, as coisas se aprofundaram, não é uma questão de revoltar-se superficialmente. Podem deixar o cabelo comprido, isso não vai ajudar muito. Podem tornar-se hippies e parar de tomar banho, isso não vai ajudar muito. Podem rejeitar a ordem vigente de todas as formas possíveis que imaginarem, mas isso não vai realmente ajudar, porque as coisas se aprofundaram muito e todas essas são medidas supreficiais.
Por milhares de anos foi dito que o sexo é o maior dos pecados. Isso se tornou parte do sangue, dos ossos e da medula do homem. Assim, mesmo que a pessoa saiba conscientemente que não há nada de errado nisso, o inconsciente a mantém um pouco afastada, com medo, com sentimento de culpa, e ela não consegue se concentrar totalmente nisso.
Se a pessoa consegue desfrutar do ato de amor totalmente, o ego desaparece, porque no clímax, no mais alto clímax do ato de amor, a pessoa é pura energia. A mente não consegue funcionar. É tamanha a explosão de energia que a mente fica desorientada, não sabe mais o que fazer. A mente é perfeitamente capaz de permanecer em funcionamento em situações normais, mas, quando alguma coisa muito nova e muito vital acontece, ela para. E o sexo é o que há de mais vital.
Se a pessoa puder se aprofundar no ato sexual, o ego desaparece. Essa é a beleza de se fazer amor, que é outra fonte de um vislumbre de Deus, assim como o sono profundo, mas muito mais valioso, porque, no sono profundo, a pessoa fica inconsciente. Ao fazer amor, ela fica consciente, porém, sem a mente.
Por isso, a grande ciência do Tranta tornou-se possível. Patanjali e o yoga trabalharam nas linhas do sono profundo. Escolheram esse caminho para transformar o sono profundoem um estado consciente, de modo quea pessoa saiba quem ela é, e saiba que está no centro. O tantra escolheu o ato de amor como uma janela em direção a Deus.
O caminho do yoga é muito longo, porque transformar o sono inconsciente em consciência é muito árduo, e pode levar muitas vidas...
Mas o tantra escolheu um caminho muito mais curto, o mais curto, e muito mais agradável também! O ato de fazer amor pode abrir a janela. Tudo o que é preciso é desarraigar os condicionamentos que os padres incutiram nas pessoas. Os padres os incutiram nas pessoas para que eles pudessem se tornar mediadores e agentes entre elas e Deus, de modo que o contato direto das pessoas fosse cortado. Claro que as pessoas precisariam de alguém para conectá-las, e assim o padre se tornaria poderoso. E o padre foi poderoso ao longo dos séculos.
Quem quer que coloque as pessoas em contato com o poder, o poder real, vai se tornar poderoso. Deus é o poder real, a fonte de todos os poderes. O padre permaneceu muito poderoso ao longo dos tempos, mais poderoso do que os reis. Agora, o cientista tomou o lugar do padre, porque, agora, ele sabe como conectá-las com a natureza. Mas o padre tem que desconectá-las primeiro, de modo que nenhuma linha privada individual permaneça entre elas e Deus. Ele estragou as fontes interiores das pessoas.Ele tornou-se muito poderoso, mas toda a humanidade ficou sem desejo sexual, sem amor, cheia de culpa.
É preciso abandonar essa culpa completamente. Ao fazer amor, a pessoa deve pensar em oração, meditação, Deus. Ao fazer amor, deve queimar incenso, entoar um mantra, cantar, dançar. O quanto há que ser um templo, um lugar sagrado. E o ato sexual não pode ser uma coisa apressada. A pessoa deve se aprofundar nele, saboreá-lo da forma mais lenta e mais graciosa possível. E ela vai se surpreender, Ela tem a chave.
Deus não enviou as pessoas ao mundo sem chaves. Mas essas chaves têm de ser usadas, as pessoas têm de colocá-las na fechadura e virá-las.
O amor é um outro fenômeno, um dos que tem maior potencial, no qual o ego desaparece e você permanece consciente, completamente consciente, pulsante, vibrante. Você não é mais um indivíduo, está perdido na energia do todo.
Depois, aos poucos, deve-se deixar que isso se torne o próprio modo de vida. O que acontece no auge do amor tem de se tornar a disciplina da pessoa, não apenas uma experiência, mas uma disciplina. Então, o que quer que a pessoa esteja fazendo ou por onde quer que esteja cominhando... no início da manhã, com o sal nascente, tenha o mesmo sentimento, a mesma fusão com a existência. Deitada no chão, o céu cheio de estrelas, tenha a mesma fusão novamente. Deitada na terra, sinta-se como pertencente à terra.
Pouco a pouco, o ato sexual deve lhe dar a pista de como é estar apaixonado pela existência em si. E, então, o ego é conhecido como uma ficção, é usado como uma ficção. E se a pessoa faz uso dele como uma ficção, não há nenhum perigo.
Existem alguns outros momentos em que o ego escapa da sua própria vontade. Em momentos de grande perigo, por exemplo. Digamos que a pessoa esteja dirigindo e, de repente, vê que vai acontecer um acidente. Ela perde o controle do carro e parece que não há nenhuma possibilidade de se salvar. Vai colidir com a árvore ou com o caminhão que se aproxima, ou vai cair no rio, isso é absolutamente certo. Nesses momentos, o ego desaparece de repente.
É por isso que há uma grande atração para se envolver em situações perigosas. As pessoas escalam o Evereste. Trata-se de uma meditação profunda, embora elas possam não compreender isso. O montanhismo é de grande importância. Escalar montanhas é perigoso e, quanto mais perigoso, mais bonito. Os indivíduos têm vislumbres, grandes vislumbres de ausência de ego. Sempre que o perigo está próximo, a mente para. A mente consegue pensar somente quando a pessoa não está em perigo, pois não há nada a dizer em perigo. O perigo torna as pessoas espontâneas e, nessa espontaneidade, elas de repente sabem que não são o ego.
Se a pessoa tem um coração estético, então a beleza vai abrir as portas. Basta que uma pessoa olhe uma linda mulher ou um belo homem que passa, apenas por um único momento, um flash de beleza e, de repente, o ego desaparece.
Ou ver uma flor de lótus na lagoa, ou ver o pôr do sol ou um pássaro voando, qualquer coisa que acione a sensibilidade interior, qualquer coisa que possua a pessoa, por um momento, de forma tão profunda que ela esquece de si própria, e, nesse caso, também o ego escapa. É uma ficção, e a pessoa tem que conduzi-la. Se ela esquecer por um momento, o ego escapa.
E é bom que haja uns poucos momentos em que o ego escapa e a pessoa tem um vislumbre da verdade e do real. É devido a esses vislumbres que a religião não morreu. Não é por causa dos padres, pois eles fizeram de tudo para matá-la. Aqueles que vão à igreja, à mesquita e ao templo, não vão por causa dos chamados religiosos. Eles não são religiosos, são impostores.
A religião não morreu por causa de alguns momentos que acontecem mais ou menos com quase todos. É preciso observá-los mais, absorver mais o espírito daqueles momentos, permitir mais momentos como aqueles, criar espaços par que aqueles momentos aconteçam mais vezes. Esse é o verdadeiro caminho para buscar a Deus.
Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.
Marcadores: beleza, ego, Osho, Patanjali, perigo, samadhi, sexo, sonhos, sono, sushupti, Tantra, yoga
segunda-feira, janeiro 09, 2012
Sociedade e Alegria
A sociedade tem criado uma mente repressiva, uma mente negativa em relação à vida, uma mente contrária à alegria. A sociedade é muito contrária ao sexo. Por que a sociedade é tão contrária ao sexo? - porque se você permite que as pessoas tenham prazer sexual, não consegue transformá-las em escravos. É impossível - uma pessoa alegre não pode ser transformada em um escravo. Esse é o truque. Apenas as pessoas tristes podem ser escravas. Uma pessoa alegre é livre; tem um tipo de independência de si mesma.
Você não pode recrutar pessoas alegres para a guerra. Impossível. Por que elas deveriam ir para a guerra? Mas se uma pessoa reprimiu sua sexualidade, ela está pronta para ir à guerra porque não consegue gostar da vida. Ela se tornou incapaz de gostar, assim é incapaz de ser criativa. Agora, ela só consegue fazer uma coisa: destruir. Todas as suas energias se tornaram venenosas e destrutivas. Está pronta para ir à guerra - não apenas pronta, mas está esperando para ir. Ela quer matar, quer destruir. Na verdade, enquanto destruir seres humanos, ela sentirá uma grande alegria de entrada. Essa entrada poderia ser no amor, e teria sido bela. Quando você penetra no corpo de uma mulher ao fazer amor, é uma coisa. É espiritual. Mas quando as coisas dão errado e você penetra o corpo de alguém com uma espada, é feio, é violento, é destrutivo. Mas você está procurando um substituto para a penetração.
Se a sociedade pode ter total liberdade em relação à alegria, ninguém será destrutivo. As pessoas que amam de modo bonito nunca são destrutivas. E as pessoas que puderem amar de maneira bonita e ter a alegria de viver não serão competitivas. Esses são os problemas.
É por isso que as pessoas primitivas não são tão competitivas. Elas estão aproveitando suas vidas. Quem se importa em ter uma casa maior? Quem se importa em ter mais dinheiro no banco? Para que? Você está feliz com sua mulher ou com seu homem e está tendo alegria na vida. Quem quer se sentar no mercado de trabalho por horas e horas, dia após dia, ano após ano, esperando que, um dia, tenha um bom dinheiro na conta para poder se aposentar e viver a vida? Esse dia nunca chegará. Não poderá chegar, porque durante toda a sua vida, você se manteve um cético.
Lembre-se de que as pessoas de negócios são céticas. Elas dedicaram tudo ao dinheiro. Mas um homem que conhece o amor, a emoção do amor e o êxtase dele não será competitivo. Ele será feliz se puder ter seu pão de cada dia. É esse o sentido da oração de Jesus: "O pão nosso de cada dia dai-nos hoje". Isso é mais do que suficiente. Mas Jesus parece tolo. Ele deveria ter pedido: "Dai-nos uma conta bancária com mais dinheiro". Ele só pede o pão de cada dia? Um homem alegre nunca pede mais do que isso. A alegria é muito compensadora.
Apenas os seres não-realizados são competitivos, porque eles pensam que a vida não é aqui, é lá. "Eu preciso chegar a Brasília para me tornar o presidente", ou à Casa Branca para me tornar isso ou aquilo. "Preciso chegar lá, a alegria está lá" - porque eles sabem que não existe alegria aqui. Por isso, eles não param. Estão sempre tentando, e nunca alcançam. E o homem que conhece a alegria, está aqui. Por que ele deveria ir a Brasília? Para quê? Ele está muito feliz onde está. Suas necessidades são muito pequenas. Ele não tem desejos. Certamente tem necessidades, mas não desejos. As necessidades podem ser realizadas, os desejos, nunca. As necessidades são naturais, os desejos são pervertidos.
Essa sociedade toda depende de uma coisa, e é a repressão sexual; caso contrário, a economia será destruída, sabotada.
A guerra desaparecerá, e com ela todo o arsenal de guerra, e a política se tornará sem sentido, e os políticos não serão mais importantes. O dinheiro não terá valor se as pessoas puderem amar. Como elas não podem amar, o dinheiro torna-se o substituto, o dinheiro torna-se o amor delas. Então existe uma estratégia sutil. O sexo deve ser reprimido, caso contrário, toda a estrutura da sociedade desabará.
Apenas o amor solto no mundo trará a revolução adequada. O comunismo não deu certo, o fascismo não deu certo, o capitalismo não deu certo. Todos os "ismos" falharam porque, no fundo, todos eles reprimem o sexo. Neste ponto, não há diferença - nenhuma diferença entre Washington e Moscou, Beijing e Délhi - nenhuma diferença. Todos eles concordam com uma coisa: que o sexo tem de ser controlado, que as pessoas não têm a permissão de ter uma alegria inocente no sexo. Para mudar o equilíbrio, vem o tantra; o tantra é um remédio, por isso ele enfatiza tanto o sexo. As tão conhecidas religiões dizem que o sexo é pecado, e o tantra diz que o sexo é o único fenômeno sagrado. O tantra é um remédio. O zen não é um remédio. O zen é o estado em que a doença já desapareceu - e é claro, com a doença, o remédio também. Quando você está curado de sua doença, você não continua carregando a prescrição e o frasco de remédio por aí. Você os joga fora. Eles vão para o cesto de lixo.
A sociedade comum é contra o sexo. O tantra vem pra ajudar a humanidade, para devolver o sexo à humanidade. E quando o sexo é devolvido, o zen aparece. O zen não tem qualquer atitude. O zen é saúde pura.
Fonte: Osho, Entregue-se ao amor, Editora Celebris, 2006. ISBN 85-89219-59-3.
Marcadores: alegria, Osho, sexo, sociedade, Tantra, Zen
quinta-feira, janeiro 27, 2011
Os Loucos
Existe um método do Tantra que consiste em olhar para o espaço, para o céu, sem nada ver. Olhar com os olhos vazios. Olhando e, ainda assim, não procurando algo para ver: apenas um olhar vazio.
Às vezes você vê um olhar vazio nos olhos de um louco - os loucos e os sábios parecem-se, em certos aspectos. Um louco olha para o seu rosto, mas você percebe que ele não está olhando para você. Ele apenas olha através de você, como se você fosse feito de vidro transparente. Você apenas está no caminho dele, mas ele não está olhando com interesse para você. Para ele, você é transparente. ele olha para além de você, através de você. Olha sem olhar para você; o para não está presente, o louco simplesmente olha.
Olhe para o céu sem procurar algo, porque se você procurar algo será possível que surja uma nuvem: "algo" significa uma nuvem, "nada" significa a vasta extensão do azul-celeste. Não procure nenhum objeto. Se você procurar um objeto, o próprio ato de olhar criará o objeto; uma nuvem aparecerá e, então, você olhará para ela. Não olhe para as nuvens. Mesmo que haja nuvens, não olhe para elas - olhe, simplesmente. Deixe que elas flutuem, pois elas estão ali. Até que chega um momento em que você se sincroniza com esse olhar tipo não-olhar: as nuvens desaparecem para você, só o vasto céu permanece. Isso é difícil, porque seus olhos estão focalizados e sincronizados para olhar as coisas.
Olhe para uma criança pequena, no dia em que ela nasce. Ela tem os mesmos olhos de um sábio - ou de um louco: soltos e flutuantes, sem se focarem em nada em especial. Ela pode trazer ambos os olhos para o centro, deixar que eles flutuem para os cantos opostos, seus olhos ainda não estão fixos. Seu sistema é líquido, seu sistema nervoso ainda não é uma estrutura, tudo é flutuante. Assim, uma criança olha as coisas sem olhar, é o olhar de um louco. Observe a criança: o mesmo olhar é necessário a você porque você deve conseguir, de novo, uma infância.
Observe um louco, porque o louco é alguém que saiu fora da sociedade. A sociedade significa o mundo fixo dos papéis, dos jogos estabelecidos. Um louco é louco porque agora ele não tem papel fixo, saiu de seu papel (esperado), é um perfeito desaparecido. Um sábio também é um perfeito desaparecido, em uma dimensão diferente. Ele não é louco; na realidade, é a única possibilidade de sanidade pura. Mas o mundo inteiro é louco, fixo - por isso o sábio também parece louco. Observe um louco: esse é o olhar necessário.
Nos reinos da antiguidade, sempre era colocado um louco na corte do rei: ele era chamado de "Bobo da corte" (ou Coringa) e tinha liberdade para falar e fazer o que quizesse, algo que ninguém mais da corte tinha (essa liberdade de se exprimir). Isso era algo sábio, pois a opinião do Bobo era independente da corte e poderia apontar direções de ações não cogitadas pela realeza.
Nas antigas escolas de sabedoria do Tibete havia sempre um louco, só para que os inquiridores pudessem observar seus olhos. O louco era muito importante. Procuravam-no porque um mosteiro de prestígio não podia existir sem um louco. Ele tornava-se objeto a ser observado. Os inquiridores observavam o homem, seus olhos, e, então, tentavam olhar para o mundo como o louco olhava. Eram, aqueles dias, muito belos.
No Oriente, os loucos nunca sofreram como sofrem no Ocidente. No Oriente eles eram valorizados, um louco era algo especial. A sociedade cuidava dele, respeitava-o, porque o louco tem certas características de sábio, certas características de criança. Ele é diferente da chamada sociedade, da cultura, da civilização; saiu para fora de tudo isso. Naturalmente, caiu. Um sábio se evade para cima, um louco, para baixo - essa é a diferença - mas ambos se evadem da sociedade convencional. E tem similaridades. Observe um louco e, então, tente deixar que seus olhos permaneçam fora de foco, como eles.
Fonte: Osho, Tantra: A Suprema Compreensão, Editora Cultrix, 1992. ISBN 85-316-0364-1.
Marcadores: bobo, coringa, crianças, loucura, olhar, Osho, sábio, Tantra
quinta-feira, janeiro 20, 2011
A Ejaculação
Quando um homem ejacula, emitindo esperma e sêmen, durante uma relação sexual ou através da masturbação, ele perde uma quantidade significativa de energia, desvitalizando-se (esta é uma das causas de o homem viver menos que mulher, em todos os países do mundo). Com essa queda energética corporal, podem surgir vários sintomas orgânicos negativos, como cansaço e até alergias [1] com características semelhantes a uma gripe. Certas mulheres também são alérgicas ao sêmen masculino, principalmente quando ele é colocado fora do tubo vaginal. Tanto o Taoismo como a Gnose (assim como o Tantra) são favoráveis à prática da atividade sexual sem ejaculação, como já vimos anteriormente neste blog. Veja este artigo [1] relacionado a este tema:
Isso é o que diz um estudo holandês, publicado no Journal of Sexual Medicine.
Segundo o artigo, os homens com a chamada Síndrome da Doença Pós-orgásmica têm febre, nariz vermelho, cansaço e dor nos olhos logo após a ejaculação.
O autor diz que os homens afetados pela síndrome não tinham sintomas quando se masturbavam sem ejaculação. Mas, se o sêmen era emitido, eles se sentiam doentes em poucos minutos.
Foram analisados 45 homens com essa doença, dos quais 33 fizeram um teste de alergia usando uma forma diluída do próprio sêmen. Desses, 88% tiveram uma reação positiva, indicando uma resposta autoimune.
Segundo a alergista Ana Paula Castro, a alergia a sêmen é bem conhecida, mas apenas em mulheres. Os resultados deste estudo, portanto, são novos e surpreendem. "Trata-se de uma doença autoimune, sem causa conhecida, já que o corpo reage a uma substância produzida por ele mesmo".
Um segundo estudo tratou dois voluntários com a terapia da hipossensibilização, também conhecida como imunoterapia, com injeções de seu próprio sêmen. Os resultados mostraram que em até três anos os pacientes tiveram uma redução dos sintomas da síndrome.
Esta doença ainda é pouco conhecida, apesar de já ser documentada desde 2002.
Referência:
[1] Jornal Folha de S. Paulo, Seção Saúde, pg. C10, 20 de janeiro de 2011.
Marcadores: alergia, ejaculação, energia sexual, esperma, Gnose, Holanda, orgasmo, sêmen, sexo, síndrome, Tantra, taoismo
segunda-feira, dezembro 27, 2010
O Sangue na Cabeça
A meditação nada mais é do que o retorno ao lar, só para descansar um pouco, lá dentro. Não é o cantarolar de um mantra, não é sequer uma oração. É apenas a volta ao lar e a tomada de um pequeno repouso. Não ir a parte alguma é meditação, só o estar onde você está é meditação. Não há outro "onde" - só o estar onde você está, apenas ocupando o espaço onde você está. O desejo leva-o a longas viagens, no tempo e no espaço - o desejo nunca o leva ao lar que é seu: ele está sempre a levá-lo para algum outro lugar.
A mente, quando tomada por algum desejo, procura encontrar um objetivo, e com isso oculta a Luz.
Por isso você está perdendo - por estar fora, está perdendo, procurando você está perdendo, investigando está perdendo, tentando alcançar está perdendo. Nada é necessário da sua parte - o Divino já lhe deu tudo quanto se pode ser dado. Não somos mandados ao mundo como mendigos, mas como imperadores. Olhe um pouco para dentro. Por alguns momentos não vá a parte alguma, nada deseje, não pense no futuro, não pense no passado, fique apenas aqui e agora e, de repente, lá está - sempre esteve - e você começa a sorrir.
Na meditação procura-se silenciar a mente, no mar de pensamentos sempre presente. Porém, existe dois tipos de silêncio totalmente diferentes: o silêncio dos tolos e o silêncio dos sábios.
A consciência integral é como o oceano. E sua mente não é apenas sua: sua mente é parte da mente coletiva. Em torno de você há um oceano de consciência. Tal como os peixes no oceano, nós somos peixes na consciência - dentro e fora, deste lado e daquele, acima e abaixo, ali está o oceanos nos rodeando, ali estão as ondas (pensamentos) do oceano. Quem você é para perturbar isso? Quem você é para fazer com que isso se torne quieto e silencioso? Como você pode fazê-lo?
Assim, sempre que uma pessoa se torna interessada demais e ansiosa por acalmar a mente, acaba criando muitas perturbações para si própria. Pois isso não é possível! E quando você tenta realizar algo impossíve, você acaba ficando frustrado. Pensa, então ingenuamente, em mil e uma causas que impedem de acontecer o que você deseja. O simples fato é que não pode acontecer! O Tantra diz: Observe! Não é da sua conta que os pensamentos subam ou desçam, apareçam ou desapareçam. Eles vêm por sua própria iniciativa e vão por sua própria iniciativa. Por que se envolver demasiadamente com eles? Quem é você para acalmá-los? Eles não lhe pertencem, pertencem ao vasto oceano que o rodeia. Você não está ali, eles é que estão. Um dia você não mais existirá, mas eles permanecerão.
Agora a Ciência concorda com isso: cada pensamento é uma onda. É por isso que um rádio emite pensamentos. Eles passam através das paredes, das colinas, dos nossos corpos, nada os impede de passar. Algo que é emitido em Nova York você ouve aqui. Atualmente, os cientistas investigam a possibilidade de podermos captar pensamentos do passado, já que os pensamentos nunca morrem. As ondas de pensamento de Jesus devem estar algures, chegando a alguma estrela do firmamento. Se pudermos captá-las, poderemos novamente ouví-lo.
Os pensamentos formam um oceano em torno de nós; existem independentes de nós - portanto, sejamos apenas testemunhas deles. Assim, o verdadeiro problema não está nos pensamentos, mas em ser perturbados por eles. Não lute contra os pensamentos, torne-se simplesmente uma testemunha e, então, você não será afetado. Esse será um silêncio mais rico; lembre-se que o Tantra prefere sempre as experiências mais ricas. É possível criar o silêncio pobre que você encontra num cemitério. Pode forçar tanto a sua mente que todo o seu sistema nervoso se torna paralisado. Então não haverá pensamentos, porque um sistema nervoso muito delicado é necessário para recebê-los. O oceano ali estará, mas você não será receptivo, pois sua receptividade perdeu-se.
Isso é o que está acontecendo com muitos iogues - os chamados iogues. Eles insistem em embotar seu sistema nervoso. Comem menos, de forma que pouca energia vai ter ao cérebro. No jejum, a energia disponibilizada não vai para o cérebro, pois o corpo necessita dela em primeiro lugar (para processar a limpeza orgânica). Vivem eles de tal maneira que, aos poucos, todo o seu sistema cerebral se torna paralisado, obtuso. Sentam-se numa só postura, monótona, repetem um mantra, monótono. Se durante alguns anos alguém repetir continuamente um mantra, é natural que o seu sistema nervoso se torne inerte, pois na ausência de novas sensações a vitalidade orgânica se perde.
Na verdade, tal homem não se tornou silencioso - tal homem tornou-se mais estúpido, mais idiota. E ele terá um olhar estúpido, que é o que existe nos rostos de muitos e muitos iogues. Você não verá neles inteligência, verá algo inerte, morto, petrificado. Esses iogues não chegam ao silêncio - apenas perderam seus cérebros, anularam-se completamente, morreram. Nada acontece no seu interior, porque nada pode acontecer sem o funcionamento de um delicado sistema nervoso - muito delicado, muito receptivo, muito sensível.
Assim, este deveria ser o nosso critério: se vir no rosto de um iogue algo radiante, inteligência, percepção, sensibilidade - como se alguma coisa houvesse florescido dentro dele - esse iogue realmente realizou-se. Só então aconteceu o silêncio correto. Do contrário, alguém pode estar silencioso - as pessoas estúpidas são silenciosas, os idiotas são perfeitamente silenciosos, porque não podem pensar - mas que tipo de silêncio é esse?
Um idiota não é um iogue. Um idiota simplesmente nasceu de tal forma que o seu sistema cerebral não está funcionando corretamente. Você pode fazer o mesmo com o seu próprio cérebro, jejuando e praticando posturas iogues, ficando de cabeça para baixo durante horas. Quando você fica de cabeça para baixo durante horas, você mata o seu sistema nervoso, porque seu cérebro existe apenas se, a cada minuto, ele recebe a quantidade certa de energia e de sangue, uma vez que os nervos são muito delicados, pequenos e frágeis. Eles nem sequer podem ser vistos a olho nu. Seu cabelo, por exemplo, parece mukito fino, mas não é. Se você colocar dez mil nervos um sobre o outro, só então eles atingirão a grossura de um fio de cabelo. Assim, se o sangue corre muito depressa e com muito volume, o sangue destrói os nervos; é como uma inundação.
O ser humano desenvolveu o seu cérebro, algo que nenhum animal o fez, porque o homem ergue-se constantemente sobre os pés. Devido a isso é que menos sangue consegue subir à cabeça, pois isso vai contra a força da gravidade, a gravitação. A gravitação puxa o sangue para baixo e é por isso que só uma pequena parcela do sangue atinge a cabeça a cada momento. De outra forma, aquele sistema sutil não poderia existir. Os animais não o podem ter porque eles andam sobre quatro patas e, como consequência, seus cérebros ficam no mesmo nível do resto do seu corpo. Se você ficar de cabeça para baixo por um só minuto, isso pode ser bom, ou mesmo por um só segundo, isso pode ser bom, já que apenas age como um bom banho. O sangue apenas alcança um ponto profundo e já desce, porque você volta logo à sua posição normal: nesse caso ele limpa a região que ele atinge. Mas se você faz a sirsharana durante vários minutos seguidos, ou durante horas seguidas, isso matará todo o seu sistema cerebral. O fluxo será grande demais, o cérebro não pode resistir.
Os iogues encontraram muitas formas de destruir o cérebro. Quando ele está destruído você não pode ver o oceano - mas o oceano existe e os pensamentos existem. É como se o seu rádio-receptor estivesse quebrado. Não pense que as transmissões não estão passando pela sala onde você está, porque elas estão. É o seu mecanismo receptor que não está mais funcionando. Conserte o rádio, ligue-o - e imediatamente ele começará a captá-las.
O cérebro é exatamente igual a um centro receptor. Se você o destrói, ele fica silencioso, mas esse não é o silêncio do Tantra. E eu não ensino esse silêncio - ele é como a morte. Você não vai a parte alguma por meio dele - você está é desperdiçando a sua vida. E um instrumento muito sutil, que pode fazê-lo perfeitamente inteligente, um instrumento que pode ser tão perceptivo a ponto de permiti-lo festejar toda a celebração da existência, você o destruiu.
Portanto, cuidado com as posições invertidas (de cabeça para baixo) do ioga...
Fonte: Osho, Tantra: A Suprema Compreensão, Editora Cultrix, 1992.
Marcadores: iogues, meditação, Osho, pensamento, silêncio, Tantra
segunda-feira, maio 24, 2010
O Tantra é Ciência, e não Filosofia
O Tantra, como o Ioga, são práticas que visam a nossa evolução e iluminação. Tradicionalmente, no Tantra inicia-se com a atividade sexual, por ela constituir-se em um impulso normal em todo o ser humano. No entanto, a atividade sexual tântrica é executada de uma forma diferente do sexo praticado usualmente. No sexo usual, após a penetração inicial a excitação é continuamente aumentada, através de movimentos, o que leva a um pico de excitação no qual ocorre o orgasmo (ejaculação masculina), seguido de uma queda brusca da excitação masculina (com a correspondente queda de energia do corpo). No sexo tântrico, após a penetração inicial procura-se manter constante a excitação inicial (evitando a ejaculação e a correspondente perda de energia) e, algo fundamental, procura-se focar a mente no aqui e agora (no presente), não deixando ela se estressar com os problemas do passado e nem se estressar com as preocupações do futuro. O foco contínuo no estado presente prazeroso (sexo) tem o poder de ir dissolvendo as nossas tensões (o estresse) somatizadas em nosso corpo, devido aos nossos problemas do passado e do futuro.
Com a diminuição das tensões (estresse), vai surgindo um estado de maior relaxamento, uma maior energização do corpo (pois as tensões bloqueiam o fluxo de energia) e, como consequência, uma diminuição das doenças presentes no corpo. Com o tempo, a atividade sexual tântrica vai se transmutando para um estado amoroso e, posteriormente, para um estado meditativo que pode levar ao samadhi (iluminação). O interessante é que o estado amoroso entre os parceiros sexuais vai, com o tempo, se expandindo para abarcar toda a humanidade. Esta é a condição de um Mestre. Com isso, podem sumir todas as doenças e guerras.
Desde o nosso nascimento, somos treinados pela sociedade para reprimir os nossos sentimentos naturais. Ao conseguirmos fazer a repressão de nossos sentimentos naturais, nos tornamos automaticamente hipócritas, pois sentimos algo mas fazemos algo diferente desse sentimento natural, algo que seja aceito socialmente e moralmente. Ao vivermos permanentemente na hipocrisia, iremos aumentando nossos sofrimentos, dores e doenças, podendo chegar até à loucura e à morte. Todo moralista é um hipócrita gerador de sofrimentos, pois alardeia um ideal humano que não consegue ser implementado por um "pecador" usual (nós!).
Portanto, o Tantra sugere que não devemos reprimir a nossa parte inferior, gerando hipocrisia, pois a nossa parte superior está apoiada nesta parte inferior e precisamos de ambas para ter uma vida holística. É como uma escada que precisa ser galgada desde sua parte inferior até a sua parte superior, pois ambas as partes estão vinculadas e são aspectos divinos necessários para a nossa evolução.
Marcadores: amor, hipocrisia, holismo, iluminação, meditação, repressão, sexo, Tantra
quarta-feira, setembro 17, 2008
O Caminho do Tantra
A palavra "tantra" significa técnica, método, caminho. Tantra é uma ciência e não uma filosofia. A filosofia solicita o intelecto - não exige qualquer transformação; mas, para entender o tantra é necessária uma profunda transformação. A menos que ocorra uma mudança interna o tantra não pode ser compreendido. Ele não é um fenômeno intelectual: é algo experimental e para que esta experiência ocorra precisamos estar receptivos.
Toda filosofia está relacionada à mente. Apenas a cabeça é necessária. Todavia, no Tantra, é necessária uma totalidade - é um desafio profundo. É como alguém que pergunta: "O que é o amor?" A filosofia pode discutir e argumentar sobre o assunto, mas sem o conhecimento experimental, a verdade sobre o amor nunca poderá ser revelada. A verdade é que somente a experiência nos transforma.
Certa vez, um discípulo foi a um mestre tântrico e lhe perguntou: "Mestre, o que é o amor?" Não posso lhe responder, mas posso ajudá-lo a descobrí-lo e sentí-lo e, quando você vivenciá-lo, certamente você saberá o que é o amor - respondeu o mestre.
O tantra não lhe dá resposta alguma - mas ensina o método, a técnica para se alcançar a resposta. O homem e a mulher não são diferentes apenas fisicamente, mas, psicologicamente. A mente feminina significa receptividade, entrega e amor. Este é o princípio fundamental no caminho; não se trata apenas de receber um ensinamento, e sim torná-lo parte de você para que ele possa crescer em você.
O tantra está escrito numa linguagem amorosa. A linguagem lógica e argumentativa (racional) está relacionada à mente, ao ego. A linguagem do amor significa que há um verdadeiro interesse em quem recebe os ensinamentos. No tantra o que é dito nem sempre é o mais importante - mas como é dito que é o essencial. Há uma comunhão.
O clima fundamental no tantra é estarmos com a mente aberta. O tantra diz: "Quando estamos apaixonados, o único tempo que existe é o presente. O agora é tudo", e nos convida a abrirmos as nossas mentes e corações para estes ensinamentos que são como declarações de amor.
O tantra afirma que a condição que se nasce neste mundo é de inconsciência. Mas como podemos nos tornar conscientes? Só de pensarmos em sairmos do inconsciente e irmos ao consciente, estaremos já pensando em termos de dualidade. Depois de pensarmos, passamos a nos mover na dualidade e, assim, nunca alcançamos o Supremo. O convite do tantra, do Zen e dos mestres é para irmos além da dualidade.
Jesus disse: "Deus é amor". O significado destas palavras de Jesus nos indica que o amor é a única experiência que nos aproxima de Deus, do Divino. Em momentos de amor, a unicidade é sentida, daí o desejo pelo sexo. Inconscientemente o que se busca é o sentimento de unicidade - mas ele não é sexual: é interior. Durante o ato sexual, os corpos podem ter uma sensação ilusória de se tornarem um. Em alguns momentos, uma unicidade física é sentida. Porém, se ficarmos apenas nesta sensação, continuamos a sentir um anseio pela unicidade, que só pode ser sentida quando saímos do sexo físico e passamos a nos mover no amor, num plano mais elevado - daí a dualidade se dissolve e passamos a ter um vislumbre do amor absoluto (Bhairava), do sagrado.
No tantra, não se trata de estar amando, e sim de sermos amorosos. O tantra é um convite para que sejamos o amor. O tantra nos ensina a buscar um método e aplicá-lo no sentido de mudar a estrutura de nossa mente.
Na Índia o tantra é visto como um método de Yoga, porém existe uma diferença fundamental entre o yoga tradicional e o tantra. No yoga tradicional o praticante passa por uma rigorosa disciplina. No yoga tantra é exatamente o oposto: a pessoa se abandona ao prazer - porém com consciência. Certamente, ambos a levarão ao Supremo. O praticante do tantra compreende que o caminho é a entrega - não vem do esforço. O florescimento é possível sem qualquer luta ou conflito (Deus não é sádico...).
A mensagem do tantra é: "Não viva uma vida reprimida; do contrário, você simplesmente não viverá. Viva uma vida de expressão, de criatividade, de alegria. Viva do modo como Deus gostaria que você vivesse; viva de maneira natural".
Aceitar-se como você é. Uma aceitação profunda. Não há outro meio de transcender senão através do renascimento e utilizando a si mesmo. Porisso a energia sexual é utilizada de maneira consciente. Em momento algum o tantra é contra a energia sexual, contra o desejo sexual - ao contrário, o tantra nos ensina a utilizá-la no sentido de transformá-la. Jamais se pensa em termos de inimizade contra esta energia. A energia sexual é um fenômeno natural que pode ser usada como um bloqueio ou um degrau de libertação.
Mas o homem tem utilizado esta energia de maneira destrutiva. Refém dos desejos sexuais (incentivados pela sociedade) e sem nenhuma consciência a respeito dessa energia, o homem a dissipa, afetando assim a saúde de seu corpo. Porisso o yoga tradicional é muito mais aceito para a mente ocidental comum - pois a própria disciplina exigida "sugere" uma luta contra o desejo sexual e esta cria um centro em você - daí a atração.
O tantra tornou-se um caminho difícil de ser percorrido - pois como entrar no desejo sem ser arrastado por ele? Como estar sempre consciente dentro do ato sexual? A mente comum fica com medo. Os mestres dizem: "Por causa da mente sexualmente reprimida, ela tornou-se sexualmente faminta".
Um dos ensinamentos básicos do tantra orienta o caminhante a observar qual a postura que se tem em relação ao sexo. Naturalmente cada ser tem suas próprias convicções - mas, para o tantra, o sexo é um dos fenômenos naturais. Apenas isso! Não existe pecado, isto ou aquilo - apenas um fenômeno natural. Esta aceitação do sexo como algo natural é que gera a possibilidade de crescimento.
Porisso existe a orientação de revermos nossa visão sobre o sexo e a própria energia sexual. Muitas vezes passamos pelo sexo com uma atitude repressiva, culpada, com pressa ou cheia de expectativas. Sua mente pode ter sido orientada a entrar no sexo desta maneira. Muitas pessoas tentam evitá-lo e isto acaba criando mais atração pelo sexo. E, o mais perigoso, é que destruímos a possibilidade de compreendê-lo.
[continua]
Fonte:
Abílio Lima, Palestra "O Caminho do tantra", Campinas-SP, 13.09.08.
http://vitaovi-abilio.blogspot.com/
Marcadores: Tantra
sábado, junho 02, 2007
Osho e Tantra: Saraha, o Fundador do Tantra - 4
O instruído precisa ir ao vital, o falso precisa ir ao real. Saraha perguntou à mulher cheia de vida se ela fazia arcos e flechas profissionalmente, e a mulher deu uma risada, uma risada selvagem, e disse: "Seu brâmane estúpido! Você deixou o Veda, mas agora está adorando os dizeres de Buda. Então, qual é o sentido disso? Você mudou de livros, mudou sua filosofia, mas permanece o mesmo homem estúpido."
Saraha ficou chocado; ninguém jamais falara com ele dessa maneira; apenas uma mulher inculta poderia falar dessa maneira. E o modo como ela riu era muito pouco civilizado, muito primitivo, mas muito vivo. Ele estava se sentindo atraído; ela era um grande ímã e ele era um pedaço de ferro. Então ela disse: "Você acha que é um budista? O significado de Buda pode ser conhecido só através da ação, e não através de palavras e de livros. Você já não está no ponto de dar um basta? Você já não está saturado de tudo isso? Não desperdice mais tempo nessa busca inútil. Venha e me siga!". E ele a seguiu...
Ele a viu no mercado sem olhar para a esquerda nem para a direita (com o arco e a flecha), mas exatamente no meio. Pela primeira vez, ele entendeu o que Buda quis dizer com "estar no meio", evitando os extremos. Primeiro ele tinha sido um filósofo, agora ele se tornara um antifilósofo, indo de um extremo a outro. Primeiro ele estava venerando uma coisa, e agora estava venerando justamente o oposto, mas a veneração continuava.
Você pode se mover da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, mas isso não irá ajudar. Você será como um pêndulo, movendo-se da esquerda para a direita, da direita para a esquerda... Você já observou isso? E dessa forma, o relógio segue em frente e o mundo segue em frente.
Estar no meio significa que o pêndulo vai ficar pendurado bem no meio, sem ir para a direita nem para a esquerda. Então o relógio pára, o mundo pára; não há mais tempo e surge o estado de não-tempo. O meio é o ponto a partir do qual a transcendência acontece. Pense a respeito disso. Uma pessoa correndo atrás de dinheiro é louca, louca por dinheiro; o dinheiro é o seu deus. Um dia ou outro, esse deus fracassa, e isso é inevitável. O dinheiro não pode ser o deus; ele era a sua ilusão. Um dia você chega ao ponto em que percebe que não existe nenhum deus no dinheiro, que não existe nada nele e que você desperdiçou a sua vida. Então você se volta contra ele e toma a atitude oposta, passando a ser contra o dinheiro e nem mesmo tocando em dinheiro. Mas você esta obcecado nas duas atitudes. Agora você é contra o dinheiro, mas a sua obsessão permanece. Você se moveu da esquerda para a direita, mas o dinheiro ainda está no centro da sua consciência.
Você pode mudar de um desejo a outro; era muito mundano e agora se tornou espiritual; mas você continua o mesmo, a doença persiste.
Buda diz que ser mundano é ser mundano, e que ser espiritual é também ser mundano; venerar o dinheiro é ser louco, e ser contra o dinheiro é ser louco; procurar o poder é tolice, e fugir dele também o é.
A mulher disse para Saraha: "Você só pode aprender através da ação." Esta é novamente uma mensagem budista: ser total na ação é estar completamente livre da ação. O carma (karma) é criado porque você não está totalmente envolvido em seus atos; se você estiver totalmente na ação, ela não deixará marcas.
Faça qualquer coisa na sua totalidade, e ela estará terminada, e você não irá carregar a sua memória psicológica. Fazendo qualquer coisa de uma maneira incompleta, ela ficará pendurada em você, seguindo em frente... ela se torna uma ressaca. A mente quer continuar, quer fazê-la e completá-la, tem uma grande tentação de completar coisas. Complete qualquer coisa, e a mente se vai; se você continuar a fazer as coisas com totalidade, um dia subitamente descobrirá que a mente não está presente.
A mente é o passado acumulado de todas as ações incompletas. Você queria amar uma mulher e não amou, e agora essa mulher está morta; você queria ir ao seu pai e pedir perdão por tudo o que você fez, por tudo o que fez que o deixou magoado, mas agora ele está morto. Agora a ressaca ficará com você como um fantasma, agora você é impotente. O que fazer, a quem ir, como pedir perdão? Você queria ser gentil com um amigo mas não pôde porque você se fechou, e agora o amigo deixou de ser amigo e isso o magoa; você começa a se sentir culpado e se arrepende. E dessa maneira as coisas seguem em frente.
Faça qualquer ação com totalidade e você se livra dela e não olha mais para trás, pois não há nada lá para ver. Você não tem ressacas e simplesmente segue em frente. Seus olhos estão limpos do passado, sua visão não está anuviada. Nessa clareza, a pessoa vem a saber o que é a realidade.
Você está tão preocupado... com todas as suas ações incompletas. Você é como um depósito de lixo, uma coisa incompleta aqui, uma outra incompleta ali... nada está completo. Você observou isso? Você já completou alguma coisa, ou tudo está simplesmente incompleto? Nós insistimos em deixar de lado uma coisa e começamos uma outra, e antes que essa seja completada, começamos uma terceira. Ficamos com um fardo cada vez maior, e carma é justamente isso. Carma significa ação incompleta. Seja total e estará livre.
A mulher que fazia arcos e flechas estava totalmente absorta no que fazia, e foi porisso que ela parecia tão luminosa, tão bela. Ela era uma mulher comum, mas sua beleza não era deste mundo. A beleza vinha de sua absorção total na ação; a beleza vinha porque ela não era de extremos; a beleza vinha porque ela estava no meio, equilibrada. A partir do equilíbrio vem a graça. Pela primeira vez Saraha entendeu: a meditação é isso!
Fechar um olho e abrir o outro é também um símbolo budista. Buda diz que metade do cérebro raciocina e que a outra metade intui. O cérebro é dividido em duas partes, em dois hemisférios. O lado esquerdo mantém a faculdade da razão, da lógica, do pensamento discursivo, da análise, da filosofia, da teologia... palavras e mais palavras, argumentos, silogismos e inferências; portanto, o lado esquerdo do cérebro é aristotélico. O lado direito é intuitivo, poético; dele vem a inspiração, a visão, a consciência a priori, o conhecimento a priori. Nesta situação você não argumenta, mas simplesmente você sabe; não que você infira, mas simplesmente se dá conta. Este é o significado do conhecimento a priori, ele simplesmente está ali. A verdade é conhecida pelo lado direito do cérebro; a verdade é inferida pelo lado esquerdo. Inferência é apenas inferência, e não experiência.
[continua]
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sexta-feira, maio 18, 2007
Osho e Tantra: Saraha, o Fundador do Tantra - 3
Você pode nem ter ouvido o nome de Saraha, mas ele é o fundador do Tantra e um dos maiores benfeitores da humanidade. Ele nasceu dois séculos depois de Buda. O Tantra converteu o Tibete, e Saraha é o seu fundador, assim como Bodhidharma é o fundador do Zen. Bodhidharma conquistou a China, a Coréia, o Japão... Saraha conquistou o Tibete.
Algumas coisas sobre a vida de Saraha. Ele nasceu em Vidarbha, que é parte do estado de Maharashtra, na Índia. Ele era filho de um brâmane muito instruído que estava na corte do rei. Ele tinha 4 irmãos, todos grandes eruditos. Saraha, no entanto, era o caçula e o mais inteligente deles. Saraha renunciou a tudo e se tornou um sannyasin, um buscador, discípulo de Sri Kirti.
O rei ficou chocado com isso, porque Saraha era brâmane; se ele quisesse se tornar um sannyasin, deveria se tornar um sannyasin hindu, mas em vez disso ele escolheu um mestre budista, Sri Kirti. A primeira coisa que Sri Kirti disse a Saraha foi: "Esqueça-se de tudo sobre o Veda; esqueça toda a sua aprendizagem, toda aquela tolice." Foi difícil para Saraha, mas ele abandonou toda a sua aprendizagem e se tornou novamente inculto.
Esta é uma das maiores renúncias... É fácil renunciar à riqueza, é fácil renunciar a um grande reino, mas renunciar ao conhecimento é uma das coisas mais difíceis do mundo. Em primeiro lugar, como renunciar? O conhecimento está no seu interior; você pode fugir do seu reino, pode ir para o Himalaia, pode distribuir a sua riqueza, mas como pode renunciar ao seu conhecimento? É muito doloroso voltar a ser ignorante; essa é a maior austeridade que existe, tornar-se novamente ignorante, tornar-se novamente inocente como uma criança. Mas Saraha conseguiu e ele passou a ter a fama de um grande meditador.
Saraha teve uma visão de que uma mulher do mercado seria a sua professora. Primeiro, uma mulher, e segundo, no mercado! O Tantra floresceu no mercado, no meio da vida. Ele não é uma atitude de negação, mas de completa positividade. O Tantra nunca foi machista; para entrar no Tantra você precisará da cooperação de uma mulher sábia. A mulher que Saraha encontrou fazia arcos e flechas e, portanto, era da casta mais baixa da Índia. Isto também é simbólico: o instruído precisa ir ao vital, o falso precisa ir ao real.
O terceiro ponto a ser lembrado sobre o Tantra é que ele diz: quanto mais culta e mais civilizada for uma pessoa, menor a possibilidade dessa pessoa ter uma transformação tântrica. Quanto menos civilizada, quanto mais primitiva, mas viva é a pessoa. Quanto mais você fica civilizado, mais fica falso e artificial. Ao ficar muito refinado, você perde suas raízes na terra, fica com medo do mundo confuso e começa a fazer pose como se não fosse do mundo. O Tantra diz que para encontrar a pessoa real você precisará ir às raízes. Os que ainda não são civilizados nem instruídos nem cultos são mais vivos, têm mais vitalidade. No mundo daqueles que ainda são primitivos há a possibilidade de começar a crescer; você cresceu numa direção errada; eles ainda não cresceram e podem escolher a direção certa; eles têm mais potencial, não têm nada para desfazer e podem agir diretamente.
[continua]
terça-feira, maio 15, 2007
Osho e Tantra: O Encontro da Terra com o Céu - 2
Você já observou como uma árvore cresce? Como ela tateia e se dirige para cima? Que método ela segue? Da semente vem o broto, e então, muito lentamente, ele começa a subir. A árvore vem da profundidade da terra e começa a subir ao céu, da raiz ao tronco, galho, folha, flor e fruto... É isso que também acontece com a sua árvore da vida. Não há diferença entre o sagrado e o profano.
A Serpente é o Salvador
O sexo é tão sagrado quanto o Samadhi, o mais baixo e o mais elevado são partes de um só continuum. O degrau mais baixo da escada é parte dela tanto quanto o degrau mais alto; eles não estão divididos em lugar nenhum. E, se você negar o mais baixo, nunca será capaz de alcançar o mais alto.
Não é para você se sentir culpado em relação ao sexo; ele é a sua vida, ele está onde você está. Como você pode evitá-lo? Se o evitar, você será falso, não autêntico, não verdadeiro; se você o evitar, se o reprimir, você não será capaz de se mover para cima, pois a energia necessária para isso estará reprimida através dele.
Assim, quando a sua sexualidade começa a se mover, esse é um bom sinal; mostra que você foi contactado, que algo se agitou em você, que algo se tornou um movimento em você, que você não é mais um reservatório estagnado, que você começou a fluir em direção ao oceano.
Certamente o oceano está distante; ele virá no final, mas, se você impedir esse pequeno reservatório enlameado de fuir, nunca alcançará o oceano.
A serpente e o salvador não são dois, mas um só. Na verdade, há uma antiga tradição que diz que, quando Deus criou Adão e Eva, e lhes disse para não irem até a Árvore do Conhecimento nem para comerem o seu fruto, depois de dizer isso Deus se transformou na serpente. Ele se enrolou em volta da árvore e seduziu Eva a comer o seu fruto. O próprio Deus tornou-se a serpente.
Os cristãos ficarão muito chocados com esta história, mas só Deus pode fazer uma coisa dessa, e ninguém mais. De onde a serpente pôde vir? E, sem a ajuda de Deus, como a serpente poderia convencer Eva? Na verdade, tudo já havia sido decidido de antemão. Deus queria que o ser humano se extraviasse, pois só se extraviando é que a pessoa amadurece; Deus queria que o ser humano pecasse, pois apenas através do pecado a pessoa pode um dia chegar à santidade. Não existe outra maneira.
É porisso que Deus disse: "Não coma o fruto desta árvore!" Esta é uma psicologia simples...Se os cristãos estivessem certos, isto significaria que Deus é um psicólogo pior que Freud. Esta é uma psicologia simples: se você proíbe alguém de fazer algo, esse algo se torna mais atraente, mais magnético. Se você diz: "Não faça isso!", pode estar certo de que isso será feito. Todos os pais sabem disso, e Deus é o pai supremo. Ele não sabia disso?
Há uma história:
Num belo entardecer de primavera, Freud foi caminhar num parque com sua esposa e sua filha. Eles não prestaram atenção à criança, e, quando o sino tocou avisando que era hora de fechar o parque e que todos deveriam sair, a esposa de Freud disse: "Mas onde está a nossa filha? Ela desapareceu!" E o parque era muito grande.
Freud perguntou: "Diga-me uma coisa: você a proibiu de ir a algum lugar?"
E ela respondeu: "Sim, eu lhe disse para não chegar perto da fonte."
E Freud disse: "Então vamos lá. Se o meu entendimento estiver certo, ela está lá na fonte." E ela estava lá!
A mulher ficou perplexa e perguntou: "Como você descobriu que ela estava aqui?"
E Freud respondeu: "Essa é uma psicologia simples, e todos os pais deveriam conhecê-la."
Não, não posso confiar na interpretação dos cristãos, porque ela faz com que Deus pareça muito tolo. Ele deve ter planejado isso, sabendo perfeitamente bem que, se Adão fosse proibido de comer a fruta, se lhe fosse dito, comandado e ordenado, se uma ordem absoluta fosse dada: "Nunca toque no fruto desta árvore!", então era absolutamente certo que ele o comeria.
Mas Adão foi o primeiro homem e ainda não estava ciente dos caminhos dos homens. Ele foi a primeira criança e deve ter sido uma criança obediente, e pessoas obedientes também existem. Então Deus deve ter esperado alguns dias, mas como Adão não foi à árvore, Deus decidiu tornar-se uma serpente e tentar através da mulher, porque, quando não se pode fazer nada com o homem, a maneira correta é ir sempre através da mulher... Ele deve ter tentado através da mulher, deve ter falado com ela, e foi bem-sucedido!
É porisso que eu digo que a serpente e o salvador são um só.
E, no Oriente, a serpente nunca esteve a serviço do demônio, mas sempre a serviço de Deus. No Oriente, esta é a simbologia: a serpente está dentro de você, enrolada no centro sexual. Ela é chamada de kundalini, a serpente enrolada. Ela está lá, adormecida, no nível mais baixo, nas raízes. A árvore da vida á a sua espinha dorsal, que sustenta a sua vida; ela é o seu tronco. Ela nutre você, sua energia corre através dela, e a serpente está deitada lá na raiz.
Quando algo o instiga, também instiga a serpente, porque essa é a sua energia, é onde a sua energia está. Assim, quando isso acontece, não se preocupe, não se sinta culpado. Nunca se sinta culpado de nada! Tudo o que acontece é bom, e o ruim não acontece e não pode acontecer, pois o mundo está repleto de divindade. Como o mau pode acontecer? O mau deve ser a nossa interpretação errada.
O sexo e a superconsciência são a mesma energia. A serpente e o salvador não são dois; há uma ligação entre o mais baixo e o mais elevado, há uma seqüência que leva de um ao outro, uma maneira de vida, uma maneira de amar, natural e inevitável como a maneira de uma árvore crescer.
Não há diferença entre o sagrado e o profano, nenhuma diferença entre o amor divino e o humano; trata-se de uma continuidade. Seu amor e o amor divino são dois extremos do mesmo fenômeno, da mesma energia. É verdade que o seu amor é confuso demais, cheio demais de outras coisas, como o ódio, a raiva, o ciúme, a possessividade, mas ainda é ouro; misturado com lama, mas ainda assim é ouro. Você precisa passar pelo fogo, e tudo o que não for ouro desaparecerá e apenas o ouro permanecerá.
Aceite a si mesmo, pois apenas através da aceitação a transformação é possível, e não de outra maneira. Se você começar a se sentir culpado, você se tornará repressivo.
Se você for aos templos tântricos de Khajuraho e konarak, na Índia, notará que nas suas paredes externas há esculturas com todos os tipos de posturas sexuais, homens e mulheres fazendo amor em muitas posturas. Todas as paredes estão repletas de sexo. Quem os visita fica chocado e começa a pensar: "Que obscenidade!" Essa pessoa quer condenar, quer baixar os olhos, quer sair correndo, mas isso não acontece por causa dos templos, e sim por causa dos nossos sacerdotes e de seus venenos dentro de você.
Quando você começa a entrar no templo, as figuras vão ficando cada vez mais esparsas e a qualidade do amor começa a mudar, o sexo vai desaparecendo e os casais nem se tocam. Entre mais ainda, e os casais desaparecem...
Na parte mais íntima do templo, que no Oriente se chama gharba, o útero, não há uma única figura. A multidão se foi, os "muitos" se foram. O templo está completamente no escuro, em silêncio, calmo e quieto. Não existe sequer a figura de um deus; ele é vazio, é um nada.
O recanto mais íntimo é nada, e a parte externa é um carnaval de sexo; o recanto mais íntimo é meditação, é samadhi, e a parte externa é sexualidade. Isso é o retrato de toda a vida do ser humano. Mas lembre-se: se você destruir as paredes externas, destruirá também o santuário interior, porque o silêncio e a escuridão mais íntimos não podem existir sem as paredes externas, o centro do ciclone não pode existir sem o ciclone, o centro não pode existir sem a circunferência. Eles estão juntos!
A maneira do Tantra não é a da sensualidade cega, e também não é apenas espiritualidade, mas é "ambas/e". O Tantra não acredita na filosofia do "esse ou aquele", mas na filosofia do "ambas/e". Ele não rejeita nada e transforma tudo.
Apenas os covardes rejeitam; e, se você rejeitar algo, você será na mesma medida mais pobre, pois algo foi deixado sem ser transformado. Uma parte de você permanecerá sem se desenvolver, permanecerá infantil, e sua maturidade nunca será total.
É por causa disso que falo de Epícuro e de Buda juntos. Epícuro é aquele que fica com a parede externa do templo tântrico; ele está certo até onde ele vai, mas não vai longe o suficiente; simplesmente dá uma volta por fora do templo e vai para casa. Ele não está ciente de que perdeu a própria essência do templo. Aquelas paredes externas são apenas paredes externas para dar sustentação ao santuário interior.
Buda representa aquele que entra no santuário interior, senta-se ali e, nesse silêncio ele permanece, mas se esquece das paredes externas. E, sem as paredes externas, não há santuário interior.
Para mim, ambos estão desequilibrados, estão pela metade; algo foi rejeitado e algo foi escolhido. Eles não tiveram a atitude da ausência de escolha. Eu digo para aceitar tudo, o exterior e o interior, o fora e o dentro, e você será a pessoa mais rica sobre a terra.
O Tantra é a maneira da inteireza, nem obsessão pelo mundo nem se retirar dele. Ele é estar no mundo de uma maneira leve, com um sorriso leve, é ter uma atitude de diversão. Ele não leva as coisas a sério e tem um coração leve e ri; ele é desavergonhadamente terreno e infinitamente do outro mundo. No Tantra, o céu e a terra se encontram; ele é o encontro de polos opostos.
As figuras nos templos tântricos são sexualmente ativas, mas não estão obcecadas pelo sexo, nem contra nem a favor. Ambos os extremos são obsessões, pois contra ou a favor simplesmente significa que as coisas não são mais naturais. Quando as coisas são naturais, você nem é a favor nem contra.
Você é contra ou a favor do sono? Se você for a favor, você torna-se artificial; se você for contra, tornou-se artificial. A pessoa não é contra nem a favor do sono; ele é simplesmente natural, assim como o sexo. E, quando o sexo é aceito naturalmente, ele começa a se elevar. Então, um dia, espontaneamente, o botão se transforma numa flor, sem que você precise fazer coisa alguma... simplesmente deixe a energia se movimentar, deixe a seiva fluir e o botão se tornará uma flor.
Os tempos tântricos da Índia representam uma das atitudes mais holísticas em relação à vida, na qual tudo é aceito, pois tudo é divino.
Para mim, o estágio final de um ser humano não é ser um santo nem ser como um Buda, mas ser como Shiva Nataraj, Shiva - O Dançarino. Buda entrou muito fundo, mas a parede exterior ficou faltando, a parede exterior é negada. Shiva contém tudo, todas as contradições, o todo da existência, sem escolher. Ele vive no âmago mais profundo do santuário e, também, dança diante das paredes externas.
A menos que o sábio possa dançar, algo está faltando. A vida é uma dança, e você precisa participar dela. E, quanto mais silencioso você fica, mais profunda é a sua participação. Nunca se retire da vida, seja verdadeiro para com ela, esteja comprometido com ela, seja sempre completamente pela vida.
Quando você alcança o âmago mais profundo do templo, isso acontece: não há mais razão para você dançar, você pode ficar ali em silêncio. Como Buda diz: "Quando você atinge a iluminação, então há dois caminhos abertos: ou você pode se tornar um arhata, que se retira para a outra margem, ou pode se tornar um bodhisattva, que permanece nesta margem." Na verdade, quando você se ilumina, não há razão para permanecer nesta margem; mas Buda diz que, por amor aos outros, você cria uma tal compaixão em si mesmo, que pode demorar-se um pouco mais e ajudar as outras pessoas.
Para o Tantra, este é o supremo: tornar-se deus e, ainda assim, ser parte deste mundo. Quando você puder voltar ao mundo com uma garrafa de vinho na mão, o supremo está alcançado.
[continua]
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domingo, maio 13, 2007
Osho e Tantra: Introdução - 1
[1] Osho, TANTRA: O Caminho da Aceitação, Editora Cultrix, 2005.
O princípio básico do Tantra, revolucionário e rebelde, é que o mundo não está dividido em inferior e superior, mas que ele é uma só peça. O inferior e o superior estão de mãos dadas; o superior contém o inferior e o inferior contém o superior. O superior está oculto no inferior; portanto, o inferior não precisa ser negado, não precisa ser condenado, não precisa ser destruído ou morto. O inferior precisa ser transformado, ter permissão de se mover para cima, e dessa maneira o inferior se torna o superior.
Outra maneira de dizer isso é que não existe uma distância intransponível entre o demônio e Deus; o demônio está carregando Deus no fundo do seu coração. Uma vez que esse coração comece a funcionar, o demônio se torna Deus. Na verdade, a palavra demônio vem da mesma raiz que a palavra divino; ele é o divino ainda não evoluído. Não é que o demônio esteja contra o divino, não que o demônio esteja tentando destruir o divino. O demônio não é o inimigo, mas apenas a semente. O divino é a árvore completamente florescida, e o demônio é a semente, mas a árvore começa com a semente. A semente não é contra a árvore; na verdade, a árvore não pode existir se a semente não existir. E a árvore não está contra a semente; elas estão em uma profunda amizade, elas estão juntas.
Veneno e néctar são duas fases da mesma energia, e assim é a vida e a morte, e assim é com tudo: dia e noite, amor e ódio, sexo e superconsciência. O Tantra diz para nunca condenar nada, pois a atitude de condenação é destrutiva. Ao condenar algo, você nega a so mesmo as possibilidades que se tornariam disponíveis a você, se você tivesse encorajado o inferior a evoluir. Não condene a lama, pois o lótus está oculto na lama; use a lama para produzir o lótus. É claro que a lama ainda não é o lótus, mas pode vir a ser. Uma pessoa criativa ajudará a lama a liberar seu lótus, de tal modo que o lótus possa ser manifesto.
Um novo tipo de ser humano está lutando para nascer, uma nova consciência está batendo à porta. E o futuro irá ser do Tantra, porque agora as atitudes dualistas não podem mais conservar o poder sobre a mente humana. Essas atitudes dualistas atuaram por séculos e mutilaram os seres humanos e os fizeram sentir-se culpados; elas não tornaram as pessoas livres, mas prisioneiras; elas também não fizeram as pessoas felizes, mas infelizes. Elas condenaram tudo - da comida ao sexo. O amor é condenado, o corpo é condenado, a mente é condenada. Elas não deixaram um único centímetro para você ficar e tiraram tudo, e você foi deixado sem chão, simplesmente sem chão.
Este estado não pode mais ser tolerado, e o Tantra pode lhe dar uma nova perspectiva.
[continua]
