quarta-feira, agosto 02, 2023

 

A Ausência de Ego


Visto que o ego é uma ficção, há momentos em que a pessoa fica livre dele. Por se tratar de uma ficção, o ego pode ficar presente apenas se a pessoa continuar a mantê-lo. A ficção precisa de bastante manutenção energética. A verdade não precisa de nenhuma manutenção, e é essa a beleza dela. Mas a ficção? É preciso pintá-la constantemente, colocar um suporte aqui e ali, e ela desmorona constantemente. No momento em que a pessoa consegue escorar um lado, o outro começa a desmoronar.

E é isso que as pessoas fazem a vida inteira, ou seja, tentam fazer com que a ficção pareça com a verdade. Ter mais dinheiro, para então poder ter um ego maior, um pouco mais sólido do que o ego do homem pobre. O ego do homem pobre é franzino, ele não pode se dar ao luxo de ter um ego mais robusto. Basta tornar-se o primeiro-ministro ou presidentede um país para que o ego da pessoa infle ao extremo. 

Toda a nossa vida, a busca pelo dinheiro, poder, prestígio, isto e aquilo, não é nada além de uma busca por novas peças de amparo, uma busca por novos apoios, para, de alguma forma, manter a ficção em andamento. E o tempo todo a pessoa sabe que a morte está chegando. O que quer que ela  faça, a morte vai destruir. Mas, mesmo assim, ela continua a ter esperança contra todas as expectativas: talvez todas as outras pessoas morram,  menos ela.

E, de certa maneira, isso é verdade. Nós sempre vemos as outras pessoas morrendo, e nunca nós mesmos, portanto, isso também parece verdadeiro, além de lógico. Essa pessoa morre, aquela pessoa morre, mas nós nunca morremos.Estamos sempre presentes, para sentir pena dos que morreram, vamos ao cemitério para nos despedir deles e, depois,voltamos para casa.

Não se deixe enganar,no entanto, pois todos agem do mesmo jeito.E ninguém é exceção. A morte vem e destrói toda a ficção do nome e da fama do indivíduo. A morte vem e simplesmente apaga tudo, não são deixadas nem mesmo pegadas. O que quer que as pessoas continuem a fazer de suas vidas, não é nada além de escrever sobre a água - nem mesmo na areia, mas sobre a água. Nem mesmo terminam de escrever e ela já se foi.Não podemnem mesmo lê-la, pois, antes que possam lê-la, ela se foi.

Mas as pessoas continuam tentando fazer esses castelos no ar, Como é uma ficção, precisa de constante manutenção, esforço constante, dia e noite. E ninguém pode ser tão cuidadoso durante 24 horas por dia. Então, às vezes, sem que a pessoa perceba, há momentos em que tem um vislumbre da realidade sem que o ego funcione como uma barreira.

Sem a tela do ego, há momentos assim, mas sem que a pessoa perceba, é bom lembrar. Todo mundo, de vez em quando, tem esses momentos.

Por exemplo, toda noite, quando a pessoa cai em sono profundo, e o sono é tão profundo que não pode nem mesmo sonhar, o ego não é mais encontrado, todas as ficções se foram. O sono profundo, sem sonhos, é uma espécie de pequena morte.

No sono sem sonhos, o ego desaparece completamente, porque, quando não há nenhum pensamento, nenhum sonho, como a pessoa pode conduzir uma ficção? Mas o sono sem sonhos é muito pequeno. Em oito horas de  sono saudável não são mais do que duas horas.Mas apenas essas duas horas são revitalizantes. Se a pessoa tem duas horas de sono profundo, sem sonhos, de manhã ela está nova, fresca, viva. A vida tem novamente emoção, o dia parece ser um presente. Tudo parece novo, porque a pessoa está renovada. E tudo parece belo, porque ela está em um lindo espaço.

O que acontece nessas duas horas, quando a pessoa cai em sono profundo, o que Patanjali [e o yoga] chama[m] de sushupti, sono sem sonhos? O ego desaparece. E o desaparecimento do ego revitaliza a pessoa, rejuvenesce-a. Com o desaparecimento do ego, mesmo que em profunda inconsciência, a pessoa tem uma prova de Deus. Patanjali diz que não há muita diferença entre sushupti, sono sem sonhos, e samadhi, o estado supremo do budismo, embora haja uma diferença. A diferença é a consciência. No sono sem sonhos a pessoa está inconsciente, em samadhi, a pessoa está consciente, mas o estado é o mesmo. A pessoa move-se para Deus, move-se para o centro universal. Ela desaparece da periferia e vai para o centro. E apenas esse contato com o centro a rejuvenece.

Como o ego é uma ficção, ele às vezes desaparece. O tempo maior é  o do sono sem sonhos. Portanto, tenha em mente que o sono é muito valioso, e não o perca, de jeito nenhum.

A segunda maior fonte de experiências sem ego é o sexo, o amor. Isso foi destruído pelos padres, eles o condenaram, por isso, não é mais uma experiência tão grandiosa. Esse tipo de condenação, por tanto tempo, condicionou as mentes das pessoas. Mesmo quando estão fazendo amor, no fundo sabem que estão fazendo algo errado. Alguma culpa está à espreita em algum lugar. E isso é assim até mesmo para a geração mais moderna, mais contemporânea, até mesmo para a mais jovem.

Superficialmente, as pessoas podem ter se revoltado contra a sociedade; superficialmente, podem não ser mais conformistas. No entanto, as coisas se aprofundaram, não é uma questão de revoltar-se superficialmente. Podem deixar o cabelo comprido, isso não vai ajudar muito. Podem tornar-se hippies e parar de tomar banho, isso não vai ajudar muito. Podem rejeitar a ordem vigente de todas as formas possíveis que imaginarem, mas isso não vai realmente ajudar, porque as coisas se aprofundaram muito e todas essas são medidas supreficiais.

Por milhares de anos foi dito que o sexo é o maior dos pecados. Isso se tornou parte do sangue, dos ossos e da medula do homem. Assim, mesmo que a pessoa saiba conscientemente que não há nada de errado nisso, o inconsciente a mantém um pouco afastada, com medo, com sentimento de culpa, e ela não consegue se concentrar totalmente nisso.

Se a pessoa consegue desfrutar do ato de amor totalmente, o ego desaparece, porque no clímax, no mais alto clímax do ato de amor, a pessoa é pura energia. A mente não consegue funcionar. É tamanha a explosão de energia que a mente fica desorientada, não sabe mais o que fazer. A mente é perfeitamente capaz de permanecer em funcionamento em situações normais, mas, quando alguma coisa muito nova e muito vital acontece, ela para. E o sexo é o que há de mais vital.

Se a pessoa puder se aprofundar no ato sexual, o ego desaparece. Essa é a beleza de se fazer amor, que é outra fonte de um vislumbre de Deus, assim como o sono profundo, mas muito mais valioso, porque, no sono profundo, a pessoa fica inconsciente. Ao fazer amor, ela fica consciente, porém, sem a mente.

Por isso, a grande ciência do Tranta tornou-se possível. Patanjali e o yoga trabalharam nas linhas do sono profundo. Escolheram esse caminho para transformar o sono profundoem um estado consciente, de modo quea pessoa saiba quem ela é, e saiba que está no centro. O tantra escolheu o ato de amor como uma janela em direção a Deus.

O caminho do yoga é muito longo, porque transformar o sono inconsciente em consciência é muito árduo, e pode levar muitas vidas...

Mas o tantra escolheu um caminho muito mais curto, o mais curto, e muito mais agradável também! O ato de fazer amor pode abrir a janela. Tudo o que é preciso é desarraigar os condicionamentos que os padres incutiram nas pessoas. Os padres os incutiram nas pessoas para que eles pudessem se tornar mediadores e agentes entre elas e Deus, de modo que o contato direto das pessoas fosse cortado. Claro que as pessoas precisariam de alguém para conectá-las, e assim o padre se tornaria poderoso. E o padre foi poderoso ao longo dos séculos.

Quem quer que coloque as pessoas em contato com o poder, o poder real, vai se tornar poderoso. Deus é o poder real, a fonte de todos os poderes. O padre permaneceu muito poderoso ao longo dos tempos, mais poderoso do que os reis. Agora, o cientista tomou o lugar do padre, porque, agora, ele sabe como conectá-las com a natureza. Mas o padre tem que desconectá-las primeiro, de modo que nenhuma linha privada individual permaneça entre elas e Deus. Ele estragou as fontes interiores das pessoas.Ele tornou-se muito poderoso, mas toda a humanidade ficou sem desejo sexual, sem amor, cheia de culpa.

É preciso abandonar essa culpa completamente. Ao fazer amor, a pessoa deve pensar em oração, meditação, Deus. Ao fazer amor, deve queimar incenso, entoar um mantra, cantar, dançar. O quanto há que ser um templo, um lugar sagrado. E o ato sexual não pode ser uma coisa apressada. A pessoa deve se aprofundar nele, saboreá-lo da forma mais lenta e mais graciosa possível. E ela vai se surpreender, Ela tem a chave.

Deus não enviou as pessoas ao mundo sem chaves. Mas essas chaves têm de ser usadas, as pessoas têm de colocá-las na fechadura e virá-las.

O amor é um outro fenômeno, um dos que tem maior potencial, no qual o ego desaparece e você permanece consciente, completamente consciente, pulsante, vibrante. Você não é mais um indivíduo, está perdido na energia do todo.

Depois, aos poucos, deve-se deixar que isso se torne o próprio modo de vida. O que acontece no auge do amor tem de se tornar a disciplina da pessoa, não apenas uma experiência, mas uma disciplina. Então, o que quer que a pessoa esteja fazendo ou por onde quer que esteja cominhando... no início da manhã, com o sal nascente, tenha o mesmo sentimento, a mesma fusão com a existência. Deitada no chão, o céu cheio de estrelas, tenha a mesma fusão novamente. Deitada na terra, sinta-se como pertencente à terra.

Pouco a pouco, o ato sexual deve lhe dar a pista de como é estar apaixonado pela existência em si. E, então, o ego é conhecido como uma ficção, é usado como uma ficção. E se a pessoa faz uso dele como uma ficção, não há nenhum perigo.

Existem alguns outros momentos em que o ego escapa da sua própria vontade. Em momentos de grande perigo, por exemplo. Digamos que a pessoa esteja dirigindo e, de repente, vê que vai acontecer um acidente. Ela perde o controle do carro e parece que não há nenhuma possibilidade de se salvar. Vai colidir com a árvore ou com o caminhão que se aproxima, ou vai cair no rio, isso é absolutamente certo. Nesses momentos, o ego desaparece de repente.

É por isso que há uma grande atração para se envolver em situações perigosas. As pessoas escalam o Evereste. Trata-se de uma meditação profunda, embora elas possam não compreender isso. O montanhismo é de grande importância. Escalar montanhas é perigoso e, quanto mais perigoso, mais bonito. Os indivíduos têm vislumbres, grandes vislumbres de ausência de ego. Sempre que o perigo está próximo, a mente para. A mente consegue pensar somente quando a pessoa não está em perigo, pois não há nada a dizer em perigo. O perigo torna as pessoas espontâneas e, nessa espontaneidade, elas de repente sabem que não são o ego.

Se a pessoa tem um coração estético, então a beleza vai abrir as portas. Basta que uma pessoa olhe uma linda mulher ou um belo homem que passa, apenas por um único momento, um flash de beleza e, de repente, o ego desaparece.

Ou ver uma flor de lótus na lagoa, ou ver o pôr do sol ou um pássaro voando, qualquer coisa que acione a sensibilidade interior, qualquer coisa que possua a pessoa, por um momento, de forma tão profunda que ela esquece de si própria, e, nesse caso, também o ego escapa. É uma ficção, e a pessoa tem que conduzi-la. Se ela esquecer por um momento, o ego escapa.

E é bom que haja uns poucos momentos em que o ego escapa e a pessoa tem um vislumbre da verdade e do real. É devido a esses vislumbres que a religião não morreu. Não é por causa dos padres, pois eles fizeram de tudo para matá-la. Aqueles que vão à igreja, à mesquita e ao templo, não vão por causa dos chamados religiosos. Eles não são religiosos, são impostores.

A religião não morreu por causa de alguns momentos que acontecem mais ou menos com quase todos. É preciso observá-los mais, absorver mais o espírito daqueles momentos, permitir mais momentos como aqueles, criar espaços par que aqueles momentos aconteçam mais vezes. Esse é o verdadeiro caminho para buscar a Deus.

Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.



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terça-feira, novembro 30, 2010

 

O Problema é a Mente

"Todas as más ações nascem na mente, e é também por meio da mente que elas podem desaparecer", Thich Nhat Hanh em Ensinamentos Sobre o Amor (Editora Sextante, 2005)

O problema-raiz de todos os problemas é a nossa própria mente.

Assim, a primeira coisa a ser compreendida é o que vem a ser a nossa mente, de que maneira ela é feita, se é uma entidade ou apenas um processo, se é substancial ou apenas um ideal. A não ser que você conheça a natureza da mente, você não poderá resolver nenhum dos problemas de sua vida.

Você pode tentar duramente, mas, se tentar resolver problemas isolados, individuais, você estará votando no fracasso - isso é absolutamente certo. Porque, na realidade, não existe problema individual: a mente é o problema. Resolver este ou aquele problema de nada adiantará porque a raiz deles permanece intocada.

É tal como cortar os galhos de uma árvore, podando as folhas, sem desenraizá-la. Novas folhas virão, novos galhos brotarão - até mais do que antes. A poda ajuda a árvore a se tornar mais espessa e forte. A menos que você saiba como arrancá-la pela raiz, sua luta será injustificada, tola. Destruirá a você mesmo, não a árvore.

Lutando, desperdiçará a sua energia, seu tempo, sua vida, e a árvore continuará tornando-se cada vez mais forte, mais espessa, mais densa. E você ficará surpreendido com o que vai acontecendo. Você trabalha tão duramente, tentando resolver este e aquele problema, e eles continuam crescendo, aumentando. E mesmo quando você consegue que um problema seja resolvido, dez outros, subitamente, ocupam o seu lugar.

Não tente resolver problemas individuais, isolados - eles não existem: a própria mente é o problema. A mente, porém, está oculta subterraneamente; por isso eu a chamo raiz, ela não é aparente. Em qualquer ocasião em que você se depara com um problema, ele está acima do solo; você pode vê-lo, por isso você é iludido por ele.

Lembre-se sempre: o visível jamais é a raiz. A raiz sempre permanece invisível, a raiz está sempre oculta. Nunca lute contra o visível, pois estará lutando contra as sombras. Será em vão, não poderá haver nenhuma transformação na sua vida. Os mesmos problemas aflorarão novamente, novamente e novamente. Observe sua própria vida e verá o que eu quero dizer. Não estou falando de teoria alguma sobre a mente, mas sobre a "artificialidade" da mente. Este é o fato: é preciso resolver a mente.

As pessoas vêm a mim e perguntam: "Como obter uma mente pacífica?" E eu lhes respondo: "Não existe tal coisa, mente pacífica. Jamais ouvi falar disso".

A mente nunca é pacífica. A "não-mente" é paz. A mente, em si mesma, nunca pode ser pacífica. A própria natureza da mente é estar tensa, confusa. A mente nunca pode ser clara, nem ter certeza, porque a mente é, por natureza, confusão, nevoeiro. A clareza é possível sem a mente - portanto, nunca tente obter uma mente silenciosa. Se o fizer, desde o início, você estará se movendo num plano impossível.

Assim, a primeira coisa a compreender é a natureza da mente e, só então, algo poderá ser feito.

Se você observar, jamais encontrará uma outra entidade parecida com a mente. Ela não é uma coisa, é apenas um processo; não é uma coisa, é como uma multidão. Pensamentos individuais existem, mas seu movimento é tão rápido que você não pode ver as brechas entre eles. Esses intervalos não podem ser vistos porque você não está consciente e alerta; você precisa de uma visão interior mais profunda. Quando seus olhos puderem ver profundamente, verá, subitamente, um pensamento, outro pensamento e ainda outro pensamento - mas não verá a mente.

Pensamentos reunidos, milhões de pensamentos, dão-lhe a ilusão de que a mente existe: como uma multidão, milhões de pessoas em pé, em multidão; há tal coisa, multidão? Você pode encontrar uma multidão separada dos indivíduos que ali estão? Mas eles estão reunidos e a reunião faz com que você sinta que existe algo que é multidão - mas só indivíduos existem.

Este é o primeiro olhar interior para a mente. Observe e encontrará pensamentos, mas nunca você deparará com a mente. E, se isso se tornar uma experiência sua, se isso se tornar um fato de seu próprio conhecimento, então, subitamente, muitas coisas começarão a se modificar.

Observe a mente e veja onde ela está, o que é. Sentirá pensamentos flutuando e intervalos. E, se observar por bastante tempo, verá que os intervalos existem em maior número do que os pensamentos, porque cada pensamento precisa estar separado de outro pensamento. De fato, cada palavra precisa estar separada de outra palavra. Quanto mais profundamente você for, mais e maiores brechas encontrará. Um pensamento flutua e, então, surge uma brecha onde não existe pensamento. Então surge outro pensamento e outra brecha se segue.

Se você estiver inconsciente, não poderá ver os intervalos, as brechas. Você saltará de um pensamento a outro e nunca verá a brecha. Se você se tornar consciente, verá cada vez mais brechas. Se você se tornar perfeitamente consciente, então, milhares de intervalos serão revelados a você.

Observe as nuvens: as nuvens movem-se e podem ser tão densas que você não consegue ver o céu azul através delas. A vasta extensão azul do céu está perdida e você está coberto pelas nuvens. Então, continue a observar: uma nuvem se move e outra ainda não chegou ao seu campo de visão - subitamente, há um ponto sem nuvem na vastidão azul do céu.

O mesmo acontece interiormente: você é a vastidão isolada do céu azul, e os pensamentos são nuvens pairando em torno de você, entrando em você. Mas os intervalos existem, o céu existe. Ter um vislumbre do céu é o que se chama satori; tornar-se o céu é samadhi. De satori a samadhi, todo o processo é uma profunda visão interior para a mente; nada mais.

Em primeiro lugar: a mente não existe como uma entidade; apenas os pensamentos existem.

Em segundo lugar: os pensamentos existem separados de você; eles não são ligados à sua natureza. Eles vêm e vão - e você permanece, você persiste. Você é como o céu azul: nunca vem, nunca vai, está sempre ali.

As nuvens (pensamentos) podem ir e vir, são fenômenos momentâneos, não são eternas. Mesmo que você tentasse se agarrar a um pensamento, você não o poderia reter por muito tempo. Ele tem de ir, tem seu próprio nascimento e morte. Os pensamentos não são seus, não lhe pertencem. Chegam como visitantes, hóspedes, mas não são o hospedeiro.

Observe profundamente e você se tornará o hospedeiro e terá os pensamentos como hóspedes. Como hóspedes, eles são belos; mas se você esquece completamente que é o hospedeiro, eles se tornam os hospedeiros e você fica em confusão. Isso é o inferno. Você é o dono da casa, a casa lhe pertence, mas os hóspedes se tornam os donos. Receba-os, cuide deles, mas não se identifique com eles; senão, eles se farão senhores.

A mente torna-se problema porque você tomou os pensamentos tão profundamente, dentro de você, que esqueceu por completo a distância, o fato de eles serem visitantes, de irem e virem. Lembre-se, sempre, do que é duradouro: o que é a sua natureza, seu Tao. Fique sempre atento ao que nunca vem e nunca se vai, tal como o céu. Mude a gestalt: não faça dos visitantes o seu foco; permaneça enraizado no hospedeiro. Os visitantes vão e vêm.

Há, naturalmente, bons e maus visitantes, mas você não precisa preocupar-se com eles. Um bom hospedeiro trata todos os hóspedes da mesma maneira, sem fazer distinções. Um bom hospedeiro é apenas um bom hospedeiro: quando um mau pensamento surge, ele trata o mau pensamento da mesma forma como trataria um bom pensamento. Não é de sua competência julgar o pensamento bom ou mau.

O que você está fazendo quando distingue este pensamento como bom e aquele como mau? Você está trazendo o bom pensamento para mais junto de você, e empurrando para longe o mau pensamento. Mais cedo ou mais tarde, você estará identificado com o bom pensamento, que passará a ser o hospedeiro. E qualquer pensamento, quando se torna hospedeiro, cria sofrimento - porque não é a verdade. O pensamento é um simulador, e você se identifica com ele. A identificação é doença.

Gurdjieff costumava dizer que só uma coisa é necessária: não se identificar com o que vem e vai. A manhã vem, depois dela vem o meio-dia, vem a tarde, e todos se vão. Chega a noite e, novamente, a manhã. Você permanece - não como você, porque isso também é um pensamento, mas como pura percepção. Não o seu nome, porque isso também é um pensamento, não sua forma, porque isso também é um pensamento; não seu corpo, porque um dia compreenderá que também ele é um pensamento. Apenas pura percepção, sem nome, sem forma: somente a pureza, somente o que não tem forma nem nome, somente o próprio fenômeno de estar consciente - só isso é duradouro.

Se você se torna identificado, torna-se mente. Se se torna identificado, torna-se corpo. Se você se torna identificado, torna-se um nome e uma forma e, então, o hospedeiro está perdido. Você esquece o eterno e o momentâneo torna-se o importante. O momentâneo é o mundo, o eterno é Divino.

Esta é a segunda visão interior a ser obtida: a de que você é o hospedeiro e os pensamentos são os hóspedes.

O terceiro passo, se você continuar observando, depressa será compreendido. O terceiro passo diz que os pensamentos são estrangeiros, intrusos, estranhos. Nenhum pensamento é seu. Eles sempre vêm de fora; você é apenas uma passagem para eles. Um pássaro entra numa casa por uma das portas, e sai, voando, por uma outra. É exatamente assim que os pensamentos vêm e saem de você.

Você continua a pensar que os pensamentos são seus. Não só isso; também luta pelos seus pensamentos, dizendo: "Este é o meu pensamento, esta é a verdade". Discute, debate, argumenta, tenta provar que "isto é o meu pensamento". Nenhum pensamento é seu, nenhum pensamento é original - todos os pensamentos são empréstimos. E não são apenas de segunda mão, porque antes que os fizesse milhões de pessoas já reivindicaram esses mesmos pensamentos. O pensamento é algo tão exterior como um objeto.

O grande físico Eddington disse, algures, que, quanto mais profundamente se entra por um assunto, mas se vai compreendendo que as coisas são pensamentos. Eddington pode estar certo, quando diz que as coisas se parecem mais e mais com pensamentos, à proporção que nos aprofundamos, mas, por outro lado, eu gostaria de dizer-lhe que, se você se aprofundar em si mesmo, os pensamentos parecerão coisas, cada vez mais. Na verdade, são dois aspectos do mesmo fenômeno: uma coisa é um pensamento e um pensamento é uma coisa.

Quando digo que um pensamento é uma coisa, o que eu estou querendo dizer? Quero dizer que você pode lançar seu pensamento, tal como lança um objeto - uma pedra, por exemplo. Você pode ferir uma pessoa com um pensamento, tal como o faria com um objeto. Pode matar uma pessoa por meio do pensamento, tal como se atirasse um punhal. Você pode dar seu pensamento como uma dádiva ou como uma infecção. Pensamentos são coisas, são forças, mas não lhe pertencem. Vêm, permanecem durante algum tempo com você e depois o deixam. O Universo todo está cheio de pensamentos e coisas. As coisas são somente a parte física dos pensamentos, e os pensamentos são a parte mental das coisas.

Nossa mente é estruturada pelo meio social em que vivemos, geralmente de forma distorcida. Devido a isso, o uso da mente normalmente ocorre de forma inadequada. Nossa sociedade está organizada de uma forma em que se enfatiza a competição, ao invés da colaboração entre os habitantes. A mente, atuando dessa forma competitiva, irá tornar a nossa vida um inferno, ao invés de a tornar um paraíso.

Pelo fato de os pensamentos serem coisas, muitos milagres acontecem. Se uma pessoa pensa constantemente em você e em seu bem-estar, isso virá porque essa pessoa estará continuamente lançando forças benéficas sobre você. É por isso que as bênçãos são úteis, auxiliadoras. Se você puder ser abençoado por alguém que atingiu a não-mente, a bênção será verdadeira, porque um homem que nunca usa pensamentos acumula a energia do pensamento, de forma que, o que quer que ele diga, será algo verdadeiro.

Na tradição oriental, antes de uma pessoa começar a aprender a não-mente, ensinam-se técnicas, dando muita ênfase ao fato de que ela deve deixar de ser negativa, porque, uma vez atingida a não-mente, se a tendência dessa pessoa permanece negativa, ela pode tornar-se uma força perigosa. Antes que a não-mente seja atingida, a pessoa deve tornar-se absolutamente positiva. Aí reside toda a diferença entre a magia branca e a magia negra.

A magia negra nada mais é do que um homem que acumulou energia de pensamento sem, primeiro, rejeitar sua negatividade. E a magia branca nada mais é do que um homem que obteve muita energia de pensamento e baseou seu eu total numa atitude positiva. A mesma energia, possuindo negatividade, torna-se negra. Idêntica energia, com positividade, torna-se branca. Um pensamento é uma grande força; é uma coisa.

Muitas vezes você pensa sobre alguém e esse alguém aparece. Você pensa que se trata de uma coincidência. Não é uma coincidência. Na verdade, não existe isso a que chamam coincidência; tudo tem sua causa. Seus pensamento não cessam de construir um mundo em torno de você.

Seus pensamentos são coisas, portanto, tenha cuidado com eles. Maneje-os cuidadosamente. Se você não estiver muito consciente, você pode criar sofrimento para você mesmo e para os outros - e você já fez isso. E, lembre-se, quando você cria sofrimento para alguém, inconscientemente está, ao mesmo tempo, criando sofrimento para você mesmo - porque um pensamento é uma espada de dois gumes. Você se corta, simultaneamente, quando corta alguma outra pessoa.

Sua mente é uma tagarela.
Você está irradiando coisas, desnecessariamente.
Você está destruindo pessoas em torno de você.
Está destruindo a você próprio.
Você é um perigo - constantemente irradiando coisas negativas.

E muitas coisas estão acontecendo por sua causa. E isso é, também, uma grande rede: o mundo inteiro, a cada dia, está se fazendo mais sofredor, porque é sempre maior o número de pessoas que vivem na terra, e elas irradiam cada vez maior volume de pensamentos negativos.

[continua]

Fonte: Osho, Tantra: A Suprema Compreensão, Editora Cultrix, 1992.

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