quarta-feira, agosto 23, 2023
A Perfeição e a Raiva
Não se preocupe com a perfeição. Substitua a palavra "perfeição" por "totalidade". Não pense em termos de ter de ser perfeito, pense em termos de ter de ser inteiro.
A totalidade vai lhe dar uma dimensão diferente.
Esse é o meu ensinamento: o homem deve ser inteiro, deve esquecer sobre ser perfeito. O que quer que esteja fazendo, deve fazê-lo em sua totalidade, não perfeitamente, mas totalmente. E qual é a diferença? Quando uma pessoa fica com raiva, o perfeccionista dirá: "Isso não é bom, não fique com raiva, um homem perfeito nunca fica com raiva". Isso é simplesmente absurdo, porque todos sabem que Jesus ficava irritado. Ele ficava com raiva da religião tradicional, dos sacerdotes, dos rabinos. Ele ficava com tanta raiva que, sozinho, enxotava todos os cobradores de impostos do templo, com um chicote na mão. E gritava no limite de sua voz, e os cobradores ficavam com medo, pois sua raiva era muito intensa, muito passional. Não se trata apenas de um acidente o fato de que as pessoas para as quais ele nasceu tiveram de matá-lo. Ele estava realmente bravo, estava revoltado.
Lembre-se, o perfeccionista vai dizer: "Não fique com raiva". Então o que a pessoa vai fazer? Vai reprimir sua raiva, vai engoli-la, e isso se tornará uma espécie de envenenamento em seu ser. A pessoa pode reprimir a raiva, mas depois ela vai se transformar em uma pessoa irritadiça, e isso é ruim. A raiva como um surto de vem em quando tem sua própria função, tem sua própria beleza, tem sua própria humanidade. Um homem que não é capaz de ter raiva vai ser covarde, não vai ter coragem.
Um homem que não consegue ficar com raiva também não será capaz de amar, pois ambos precisam de paixão, e é a mesma paixão. Um homem que não pode odiar não será capaz de amar, pois eles caminham juntos. Seu amor será frio. E lembre-se: um ódio quente é muito melhor do que um amor frio. Pelo menos é humano, tem intensidade, tem vida, respira.
E um homem que perdeu toda a paixão vai ser chato, insípido, morto, e sua vida como um todo estará imbuída de raiva. Ele não vai expressar isso, ele vai acumular, e ele simplesmente será uma pessoa irritadiça. Qualquer um pode ir ver seus chamados mahatmas e santos, e se certificar de que são pessoas amargas. Eles acham que controlam sua raiva, mas o que uma pessoa pode fazer com uma raiva controlada? Pode apenas engoli-la. Para onde ela vai? Ela pertence à pessoa, é parte dela, e permanecerá contida nela, sem ser expressa.
Sempre que a raiva é expressa, a pessoa se liberta dela. E, depois da raiva, ela pode sentir compaixão novamente, depois que a raiva e a tempestade tiverem ido embora ela poderá sentir o silêncio do amor de novo. Há um ritmo entre o ódio e o amor, entre a raiva e a compaixão. Se uma delas é descartada, a outra desaparecerá. E a ironia é que tudo o que a pessoa tiver abandonado terá apenas engolido. E vai tornar-se parte do seu sistema. A pessoa vai ficar simplesmente irritada sem razão alguma, sua raiva será irracional. Vai aparecer em seus olhos, em sua tristeza, em sua melancolia, em sua seriedade. E, assim, a pessoa se tornará incapaz de celebrar.
Quando digo substituir a perfeição pela totalidade, quero dizer que, quando a pessoa estiver com raiva, que esteja totalmente com raiva. Então, basta ter raiva, raiva pura. E a raiva tem sua beleza. E o mundo será muito melhor quando o homem aceitar a raiva como parte da humanidade, como parte do jogo das polaridades. Não se pode ter leste sem ter o oeste, não se pode ter a noite sem ter o dia, assim como não se pode ter o verão sem ter o inverno.
O homem tem que aceitar a vida em sua totalidade. Há um certo ritmo, há uma polaridade.
Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.
Marcadores: ego, Osho, perfeição, raiva
