segunda-feira, agosto 21, 2023
A Raiz da Neurose
O perfeccionismo é a raiz de toda neurose. A menos que se livre da ideia da perfeição, a humanidade nunca vai ser sã. A própria ideia da perfeição levou toda a humanidade a um estado de loucura. Pensar em termos de perfeição significa pensar em termos de ideologia, objetivos, valores, e o que se deve ou não fazer.
As pessoas têm um determinado padrão a cumprir e, se caírem desse padrão, vão se sentir extremamente culpadas, pecadoras. E o padrão tende a ser definido de maneira tal que as pessoas não consigam alcançá-lo. Se puderem alcançá-lo, não será de muito valor para o ego.
É por isso que a qualidade intrínseca do ideal perfeccionista é que ele deva ser inatingível, pois só então valerá a pena obtê-lo. É possível ver a contradição? E essa contradição cria uma esquizofrenia: as pessoas tentam fazer o impossível, sabendo perfeitamente bem que não vai acontecer, e que não pode acontecer, pela própria natureza das coisas. Se puder acontecer, então não se trata tanto de perfeição, e daí qualquer pessoa pode fazê-lo. Por consequência, não há muito alimento para o ego nisso: o ego não pode mastigar, não pode crescer. O ego precisa do impossível, mas o impossível, por sua própria natureza, não vai acontecer.
Portanto, restam apenas duas opções: a primeita é começar a se sentir culpado. Se a pessoa é inocente, simples, inteligente, vai começar a se sentir culpada, e a culpa é um estado de doença. Não estou aqui para criar culpa em ningém. Todo o meu esforço é para ajudar as pessoas a se livrarem de toda a culpa. No momento em que elas se livram da culpa, irrompe a alegria. E a culpa está enraizada na ideia de perfeição.
A segunda opção é a seguinte: se a pessoa é astuta, então vai se tornar uma hipócrita, vai começar a fingir que obteve a perfeição. Ela enganará os outros e até mesmo tentará enganar a si mesma. Vai começar a viver ilusões, alucinações, e isso é muito profano, muito herege, muito doentio.
Fingir, viver uma vida de pretensões, é muito pior do que a vida de um homem culpado. O homem culpado, pelo menos, é simples, mas o homem que finge, o hipócrita, o santo, o chamado sábio, o mahatma, é um trapaceiro. Ele é basicamente desumano, e é desumano consigo mesmo, porque reprime a si mesmo, uma vez que esta é a única forma de fingir.
Tudo que ele encontrar em si mesmo que vá contra a perfeição terá que ser reprimido. Ele ficará fervendo por dentro, cheio de raiva e de fúria. Sua raiva e fúria virão para fora de várias maneiras - seja com sutileza, seja de forma indireta, elas virão à tona.
Mesmo pessoas agradáveis e boas como Jesus são cheias de raiva, fúria, e são contra coisas tão inocentes. Pode acreditar. Jesus vem acompanhado de seus seguidores, aquele bando de idiotas que chamam de apóstolos. Ele está com fome, todo aquele bando está com fome. Eles chegam a uma figueira, mas não é época de a árvore dar figos. Embora não seja culpa da árvore, Jesus fica tão irritado que condena a figueira, e a amaldiçoa. Ora, como isso é possível? Por um lado, ele diz: "Ame o teu inimigo como a ti mesmo". Por outro lado, ele não pode sequer perdoar uma figueira que não tem frutos porque não é época de dar frutos.
Essa dicotomia, essa esquizofrenia prevalece na humanidade por milhares de anos.
Ele diz "Deus é amor", porém, ainda assim Deus dirige um inferno. Se Deus é amor, a primeira coisa a ser destruída deveria ser o inferno; o inferno deveria ser imediatamente queimado, removido. A própria ideia de inferno vem de um Deus muito ciumento. Mas Jesus nasceu judeu, viveu como judeu, morreu como judeu, e não era cristão, e nunca ouviu a palavra "cristão". E a ideia judaica de Deus não é uma belíssima ideia. O Talmude diz (a declaração é feita nas próprias palavras de Deus): "Sou um Deus ciumento, muito ciumento. Não sou simpático! Não sou seu tio!" Esse Deus é obrigado a criar o inferno. Na verdade, para viver até mesmo no céu com um Deus assim, que não é o tio de ninguém, que não é simpático e que é ciumento, vai ser um inferno. Que tipo de paraíso alguém terá alcançado ao viver com Ele? Haverá uma atmosfera ditatorial e despótica, sem liberdade, sem amor. O ciúme e o amor não podem coexistir.
Assim, até mesmo as ditas pessoas boas causam a infelicidade humana.
Os jainistas dizem que Mahavira nunca transpirava. Como pode um homem perfeito transpirar? Eu posso transpirar, eu não sou um homem perfeito! E a transpiração no verão é tão bela que prefiro escolher a transpiração em vez da perfeição! Afinal, um homem que não transpira simplesmente tem um corpo de plástico, sintético,que não respira, que não é poroso. O corpo inteiro respira, é por isso que o ser humano transpira, e a transpiração é um processo natural para manter a temperatura do corpo constantemente a mesma. Ora, Mahavira deve estar queimando por dentro como o diabo! Como ele vai conseguir manter constante a temperatura de seu corpo? Sem transpiração isso não pode ser feito, é impossível. Os jainistas dizem que, quando uma cobra feriu os pés de Mahavira, não foi sangue mas leite que escorreu de seus pés. Ora, escorrer leite só seria possível se os pés de Mahavira não fossem pés e sim seios, e um homem que tem seios nos pés deveria ser colocado em um circo!
Essa é a ideia de perfeição: um homem perfeito não pode ter uma coisa suja como o sangue, uma coisa maldita como o sangue; deve estar repleto de leite e mel. Mas imagine isso: um homem cheio de leite e mel vai feder! O leite vai coalhar e o mel vai atrair toda espécie de mosquito e mosca,e o homem vai ficar completemente coberto de moscas! Não gosto desse tipo de perfeição.
Mahavira é tão perfeito que não urina, não defeca, pois essas coisas são para os seres humanos imperfeitos. Não se pode imaginar Mahavira sentado em um vaso sanitário, é impossível, mas, então, para onde vai toda a sua merda? Então ele deve ser o homem mais enfezado do mundo. Li em publicações médicas sobre um homem, o caso mais longo de constipação: 18 meses. Mas esses médicos não estão cientes do caso de Mahavira, isso não é nada, quarenta anos! Esse é o período mais longo que qualquer homem foi capaz de controlar seu intestino. Isso é yoga real! O maior caso de constipação em toda a história do homem... e não acho que alguém vai derrotá-lo.
Essas ideias estúpidas foram perpetuadas apenas para fazer a humanidade sofrer. Ao terem essas ideias na mente as pessoas vão se sentir culpadas por tudo.
Amo este mundo porque ele é imperfeito. É imperfeito, e é por isso que ele está crescendo; se fosse perfeito, teria morrido. O crescimento é possível somente se houver imperfeição.
A perfeição significa um ponto final, a perfeição significa a morte definitiva, então não há nenhuma maneira de ir além dela. Gostaria que as pessoas lembrassem sempre que eu sou imperfeito, que todo o universo é imperfeito, e que amar essa imperfeição, alegrar-se com essa imperfeição, é toda a minha mensagem.
Fonte: Osho, O livro do ego: Liberte-se da ilusão, Editora BestSeller, Rio de Janeiro, 2022. ISBN: 978-85-7684-710-6.
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