terça-feira, janeiro 17, 2023
O Jogador
Fonte: Osho, O Livro do Homem, Ícone Editora, 2000. ISBN 85-274-0616-0
O que significa viver perigosamente?
Viver perigosamente significa viver. Se você não vive perigosamente você não vive.
Você floresce apenas no perigo. Você nunca floresce na segurança; apenas na insegurança.
Se você começa a obter segurança, você se torna uma água parada. Então sua energia não está mais circulando. Então você está receoso, porque ninguém sabe como ir em direção ao desconhecido. E por que correr risco? - o conhecido é mais seguro. Então você se torna obcecado pelo familiar. Você continua ficando farto com isto, você fica entediado com isto, você se sente miserável, mas isso ainda parece familiar e confortável. Pelo menos é conhecido. O desconhecido cria um tremor em você. Qualquer idéia em relação ao desconhecido e você começa a se sentir inseguro.
Há apenas dois tipos de pessoas no mundo. As pessoas que querem viver confortavelmente... Elas estão procurando a morte, elas querem um túmulo confortável. E as pessoas que querem viver. Elas escolhem viver perigosamente, porque a vida só floresce quando há risco.
Você já escalou montanha?
Quanto mais alto você escala, mais frescor você sente, mais jovem você se sente. Quanto maior o perigo de cair, quanto maior o abismo, mais vivo você fica... entre a vida e a morte, quando você está apenas pendurado entre a vida e a morte. Então não há tédio, então não há poeira do passado, hão há desejo pelo futuro. Então o momento presente é muito cruciante, como uma chama. É suficiente. Você vive no aqui e agora... ou surfando ou esquiando: onde quer que haja risco de perder a vida, há um tremendo regozijo porque o risco de perder a vida o faz tremendamente vivo. É por isso que as pessoas são atraídas por esportes perigosos.
As pessoas escalam montanhas. Alguém perguntou a Hillary: "Por que você tentou escalar o Everest? Por que?" Hillary disse: "Porque é um constante desafio."
Era arriscado, muitas pessoas morreram antes. Por quase sessenta, setenta anos, grupos de pessoas têm ido lá, e era quase morte certa. Mas as pessoas ainda continuam indo. Qual era a atração?
Alcançando o mais alto, indo para longe da vida estável, da rotina, você se torna selvagem novamente, você se torna novamente parte do mundo animal. Você vive como um tigre ou um leão ou como um rio. Você novamente voa como um pássaro em direção aos céus, cada vez mais distante. E a cada momento, a segurança, o saldo bancário, a esposa, o marido, a família, a sociedade, a igreja, a respeitabilidade - vão se desvanecendo, tornando-se mais e mais distantes. Você se torna só.
É por isso que as pessoas são tão interessadas em esportes. Mas isto também não é realmente um perigo porque você pode se tornar muito hábil.
Você pode aprender, você pode ser treinado. É um risco calculado. Você pode treinar para escalar e pode tomar todas as precauções. Ou dirigindo, dirigindo em alta velocidade. Você pode ir a cento e sessenta quilômetros por hora. É perigoso, é emocionante. Mas você pode se tornar realmente habilidoso, e o perigo é só para os que estão de fora; não para você. E mesmo se houver, é ínfimo.
Mas estes riscos são apenas riscos físicos, apenas o corpo está envolvido.
Quando digo a você, viva perigosamente, eu quero dizer para não arriscar-se apenas no aspecto físico, mas no psicológico, e finalmente no espiritual. Religiosidade é um risco espiritual. Vai a alturas de onde pode não haver retorno.
Quando eu digo viver perigosamente, quero dizer para não viver a vida da respeitabilidade ordinária, comum - você é prefeito de uma cidade, ou um membro de cooperativa. Isto não é vida. Ou você é um ministro, ou você tem uma boa profissão e está ganhando bem e o dinheiro continua acumulando no banco e tudo está indo perfeitamente bem.
Simplesmente veja - você está morrendo e nada está acontecendo.
As pessoas podem respeitar você, e quando você morrer, um grande cortejo lhe seguirá. Bom, isso é tudo. E nos jornais sua foto será publicada e haverá editoriais, e então as pessoas esquecerão de você. E você viveu toda sua vida só por essas coisas.
Observe - uma pessoa pode perder a vida toda para coisas comuns, mundanas. Ser espiritual significa compreender que não deveria ser dada muita importância a estas pequenas coisas. Eu não estou dizendo que estas coisas não têm significado. Eu estou dizendo que são significativas, mas não tanto quanto você imagina.
Dinheiro é necessário. É uma necessidade. Mas dinheiro não é o objetivo e não pode ser o objetivo. Uma casa é necessária, certamente. É uma necessidade. Eu não sou um ascético e não quero que vocês destruam suas casas e fujam para o Himalaia. A casa é necessária - mas a casa é necessária para vocês.
Não interpretem mal.
Como vejo pessoas, a coisa toda tem estado às avessas. Elas vivem como se fossem necessárias para a casa. Elas continuam trabalhando para a casa. Como se elas fossem necessárias para o saldo bancário - elas simplesmente continuam acumulando dinheiro e então elas morrem. E elas não viveram. Elas não tiveram nenhum momento de vibração, uma vida transbordante. Elas estavam apenas aprisionadas na segurança, na familiaridade, na respeitabilidade.
Então se você se sente entediado, é natural. As pessoas vêm até mim e elas dizem que se sentem muito entediadas. Elas estão enjoadas. O que fazer? Elas acham que é só repetir um mantra, e elas se tornarão vivas novamente. Não é tão fácil.
Elas terão que mudar todo o padrão de vida.
Ame, mas não ache que amanhã a mulher estará disponível para você. Não espere isso. Não reduza a mulher em esposa.
Então você está vivendo perigosamente.
Não reduza o homem em marido, porque um marido é uma coisa feia. Deixe seu homem ser seu homem e sua mulher ser sua mulher. E não faça seu amanhã um prognóstico. Não espere nada e esteja pronto para tudo. É o que quero dizer quando digo para viver perigosamente. O que fazemos?
Nós nos apaixonamos por uma mulher e imediatamente nós começamos a ir para a corte, ou ao escritório de registro, ou para a igreja para se casar. Eu não estou dizendo para não se casar. É uma formalidade. Bom, satisfaz a sociedade. Mas no fundo da sua mente, nunca possua uma mulher. Nunca por um momento diga: "Você pertence a mim" - porque, como pode uma pessoa pertencer a você? E quando você começar possuir a mulher, ela começará possuir você. Então ambos não estão mais se amando. Vocês estão apenas esmagando e matando um ao outro, paralisando um ao outro.
Ame - mas não reduza seu amor em casamento. Trabalhe - o trabalho é uma necessidade - mas não deixe o trabalho tornar-se sua única vida.
A brincadeira deveria fazer parte da sua vida, seu ponto central.
O trabalho deveria ser um meio para a brincadeira. Trabalhe no escritório e trabalhe na fábrica e trabalhe na loja, mas apenas para divertir, uma oportunidade para brincar. Não deixe sua vida ser reduzida apenas a uma rotina de trabalho - porque o objetivo da vida é a brincadeira.
Brincar significa fazer algo com fim em si mesmo.
Você vem até a mim para meditar, e você leva a meditação também como um trabalho. Você pensa que alguma coisa tem que ser feita para alcançar Deus. Isto é um absurdo!
Meditação não pode ser feita dessa maneira. Você tem que brincar, você tem que levar como uma brincadeira. Quando você desfruta, a meditação progride. Quando você leva como um trabalho, como uma obrigação a ser feita - porque você tem que fazer, você tem que alcançar moksha, nirvana, a libertação - então novamente você tem trazido suas tolices para o mundo da brincadeira.
Meditação é brincadeira. Você desfruta com o fim em si mesmo.
Se você desfruta muito mais coisas com o fim em si mesmo, você estará mais vivo. É claro, sua vida será sempre um risco, perigoso. Mas isto é como a vida tem que ser. O risco faz parte. De fato a melhor parte é o risco. A mais bela parte é o risco. E cada momento é um risco. Você talvez não esteja consciente. Você inspira, você expira. Há risco. Mesmo expirando, quem sabe se a respiração voltará ou não? Não é certo, não há garantia.
Mas existem umas poucas pessoas para quem toda religião é segurança. Mesmo se elas falarem em Deus, elas falam em Deus como a suprema segurança. Se elas pensam em Deus, elas pensam somente porque elas estão receosas. Se elas vão rezar e meditar, estão indo a fim de serem registradas como boas pessoas no livro de Deus.
"Se houver um Deus, ele saberá que eu era um assíduo frequentador da igreja, um fiel assíduo. Eu posso reivindicar isto." Mesmo suas preces são um meio.
Viver perigosamente significa viver a vida como se cada momento fosse seu próprio fim. Cada momento tem seu próprio valor intrínseco. E você não está receoso. Você sabe que a morte existe e você aceita o fato da morte existir, e você não está se escondendo da morte.
Na verdade, você vai e se depara com a morte. Você desfruta daqueles momentos de encontro com a morte - fisicamente, psicologicamente, espiritualmene.
Desfrutar esses momentos onde você entrou diretamente em contato com a morte, onde a morte se torna quase uma realidade, é o que eu me refiro quando digo para viver perigosamente.
O Amor traz você cara a cara com a morte. A meditação traz você cara a cara com a morte. Ir a um mestre é ir de encontro com a própria morte.
Estes que são corajosos, vão impetuosamente. Eles buscam todas oportunidades de perigo. Toda sua filosofia de vida não é aquela das companhias de seguros. Sua filosofia de vida é aquela de um alpinista, de um piloto de asa-delta, de um surfista. E não é só nos mares do lado de fora, que eles surfam; eles surfam em seus mares internos. E não não é só lá fora que escalam Alpes e Himalaias; eles buscam os picos internos.
Mas lembre-se de uma coisa - nunca se esqueça da arte do risco, nunca. Sempre permaneça capaz de arriscar. E onde quer que você possa encontrar uma oportunidade de arriscar, nunca perca, e você nunca será um perdedor.
O risco é a única garantia de estar realmente vivo.
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