segunda-feira, dezembro 06, 2010

 

A Raiva


Dentro de nós existem muitos venenos, incluindo a cobiça, a raiva e a ilusão. O Buda fez a seguinte pergunta: "Como a raiva pode surgir em quem não tem raiva?" A principal causa do surgimento da raiva é a sua semente que já existe dentro de nós mesmos. Duas pessoas podem escutar as mesmas palavras e ver as mesmas coisas e apenas uma delas ficar com raiva. Palavras e acontecimentos simplesmente estimulam o que já está dentro de nós. Se não houver sementes de raiva na nossa consciência armazenadora, esse sentimento não poderá surgir.

Antes de tudo precisamos saber dominar a nossa própria ira para sermos capazes de ajudar as outras pessoas a fazerem o mesmo. Quando as chamas da raiva se acendem, a tendência é atacarmos quem regou as sementes desse sentimento que temos dentro de nós. É como encontrarmos nossa casa em chamas e, em vez de procurararmos apagar as chamas, sairmos em busca da pessoa que acreditamos ter ateado o fogo. Discutir só faz regar nossas sementes de raiva. Quando esse sentimento se manifesta, deveríamos nos voltar para dentro de nós mesmos e usar a energia da atenção plena para abraçá-lo, suavizá-lo e iluminá-lo. Certamente não passamos a nos sentir melhor fazendo a outra pessoa sofrer também. Essa maneira de pensar é perigosa. A outra pessoa poderá responder de um modo ainda mais grosseiro, e a raiva irá aumentar progressivamente. De acordo com o que foi ensinado pelo Buda, quando a raiva surge, temos que fechar os olhos e ouvidos, retornar para nós mesmos e procurar a fonte interior desse sentimento. Transformar a raiva não serve apenas para nossa libertação pessoal. Se conseguirmos fazer isso, todos os que vivem ao nosso redor e até mesmo os que estão mais distantes se beneficiarão dessa nossa conduta.

O Buda relacionou sete motivos para nos livrarmos da raiva:

1. A raiva nos deixa feios. Se nos olharmos no espelho quando estivermos com raiva, certamente iremos fazer alguma coisa para parecermos mais bonitos.
2. A raiva nos faz sofrer.
3. Somos incapazes de nos desenvolver ou florescer.
4. Não conseguimos prosperar em termos materiais e espirituais. Perdemos qualquer riqueza ou felicidade que tenhamos tido.
5. Passamos a ser conhecidos apenas por nossa raiva.
6. Perdemos os amigos, porque eles receiam ser estraçalhados pela bomba que existe em nós.
7. Nós nos tornamos um fantasma faminto, incapazes de fazer parte de um sangha leve e alegre.

Quando estamos com raiva, nosso rosto parece um bomba pronta para explodir. Neste caso devemos fechar os olhos e ouvidos, voltarmo-nos para dentro de nós mesmos e apagarmos as chamas. Sorrir, mesmo que precisemos fazer um grande esforço. O sorriso relaxa centenas de pequenos músculos e deixa o rosto mais atraente. Não importa onde estejamos, temos que nos sentar e nos observar a fundo. Se a nossa concentração ainda não estiver estável, poderemos sair e praticar a meditação andando. O essencial é regarmos a semente da atenção plena e deixá-la surgir na nossa mente consciente.

Fonte: Thich Nhat Hanh, Ensinamentos sobre o Amor, Editora Sextante, 2005. ISBN 85-7542-180-8.

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quinta-feira, outubro 14, 2010

 

Atenção e Sensibilidade


Você não pode ser sensível apenas em uma dimensão. A sensibilidade pertence à totalidade de seu ser, ou seja: você é sensível em todas as dimensões.

Seja mais perceptivo e aumente sua capacidade de observação. Se estiver andando sob o sol e sentir os raios de sol em seu rosto, seja sensível a seu toque sutil. E preste atenção também no momento em que a luz interna o atingir.

Quando você estiver sentado em um parque, sinta a grama, o verde a seu redor, a diferença na umidade, o cheiro da terra. Se você não conseguir, você não terá acesso a seus próprios sentimentos quando eles começarem a acontecer.

Sinta o que está a seu redor, este é o caminho mais fácil. Se não conseguir estabelecer um conexão com o exterior, você não poderá sentir o seu interior. Seja mais poético e menos pragmático em sua vida. Às vezes não custa nada ser sensível.

Ao tomar banho, você sentiu bem a água? O banho faz parte de sua rotina: cinco minutos e mais nada. Fique embaixo do chuveiro e deixe que a água caia sobre você durante alguns minutos. Isso pode se transformar em uma experiência profunda, porque a água é vida. Se não conseguir sentir a água caindo em você, não conseguirá perceber suas próprias marés internas.

A vida nasceu no mar e 90% de seu corpo é feito de água. Vá nadar no mar e sinta a água em volta de seu corpo. Logo você saberá que faz parte do mar e que seu ser interior pertence ao mar. Quando a lua estiver no céu e o oceano acenar com suas ondas em resposta, seu corpo também responderá (marés externa e interna). Seu desafio é sentir essa emoção. Se você não for capaz de sentir uma coisa tão simples, será difícil você conquistar algo tão sutil quanto a meditação.

Como você pode sentir amor? Todos estão sofrendo. Eu vi milhares de pessoas em profunda dor. O sofrimento é por causa do amor. As pessoas querem amar e querem ser amadas, mas o problema é que, se você amá-las de fato, elas não poderão sentir isso. Continuarão perguntando: "Você me ama?" O que fazer, então? Se você disser que sim, elas não acreditarão porque não podem senti-lo. Se disser que não, elas se sentirão feridas.

Se você não puder sentir os raios de sol, a chuva, a grama ou o mundo externo que o cerca, então não poderá sentir coisas mais profundas, como amor e compaixão. Raiva, violência e tristeza são emoções muito evidentes, cruas, fáceis de serem alcançadas. Mas o caminho que nos leva para dentro é sutil, e quanto mais sutil sua meditação se tornar, mais sutis serão os sentimentos. É preciso estar preparado.

A meditação não é uma coisa que você faz durante uma hora e depois deixa de lado. De fato, toda a vida tem que ser meditativa. Somente então você começará a sentir as coisas. E quando digo que toda a vida deve ser meditativa, não estou sugerindo que você deve ficar sentado meditando durante 24 horas por dia - NÃO!

Você pode ser sensível onde quer que esteja e a sensibilidade lhe trará algo em retorno. Pense menos, sinta mais. Volte a sentir as coisas. Viva de acordo com seu coração, e não de acordo com sua mente. Brinque um pouco, sorria, chore, cante, faça algo espontaneamente. Relaxe seu corpo, sua respiração e mova-se como se fosse novamente uma criança.

Esqueça-se da alma e viva totalmente no corpo, porque o grau de sensibilidade que você tem com o seu corpo determina sua relação com a sua alma. Lembre-se disso. Pare de dar voltas ao redor do corpo e reassuma seu lugar. Todos têm medo de estar no corpo. A sociedade criou o medo e agora o medo está profundamente enraizado.

Retorne para o seu corpo, movimente-se novamente como um animal inocente. Observe os animais saltando e correndo e imite-os: salte e corra com eles. Esta é a senha para voltar a seu corpo e recomeçar a sentir os raios do sol, a chuva e o vento.

Você só vai conseguir sentir o que está acontecendo dentro de si mesmo quando sua capacidade de prestar atenção ao que ocorrer ao seu redor estiver funcionando de forma plena.

Fonte: Osho, Uma farmácia para a alma, Editora Sextante, 2006. ISBN 85-7542-218-9.

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quinta-feira, junho 17, 2010

 

A Atenção


Todos falam sobre seu próprio sofrimento. Por que há tanta ênfase nisso? Por que dar tanta atenção a seu próprio sofrimento? Lembre-se do ditado: "Aquilo em que você presta muita atenção irá crescer". A atenção é um alimento. Se você der atenção a algo, fará com que isso cresça ainda mais.

Os biólogos dizem que uma criança cresce mais se for amada porque, através do amor, ela recebe mais atenção. Mesmo uma planta crescerá mais se lhe for dada uma grande atenção. Se for negligenciada, contudo, levará mais tempo para se desenvolver, ainda que todo o resto lhe seja dado: solo adequado, fertilizantes, chuva, sol. É um fato científico, observado e comprovado. Se você amar a planta, prestar muita atenção nela, falar com ela, se algumas vezes disser a ela "Eu te amo", então ela crescerá mais rapidamente.

A atenção é uma vitamina. O que há de mais vital na existência é atenção. Se ninguém o amar, você vai começar a murchar. Se ninguém lhe der atenção, a morte vai se instalar: você passará a querer morrer. Mas, se alguém lhe der atenção, você tornará a viver. A atenção é a vida, é o impulso de vida.

Se ninguém o amar, você irá cometer suicídio por não ser capaz de amar a si mesmo. Se você fosse capaz disso, se fosse capaz de dar atenção a si mesmo, você não precisaria da atenção de mais ninguém. Um buda pode viver sozinho neste planeta, mas não você. Se você ficar sozinho, irá cometer suicídio imediatamente. Você irá pensar: "Qual o sentido? Por que devo continuar vivo? Quem irá me amar? Quem eu irei amar?"

Fonte: Osho, Osho de A a Z: Um dicionário espiritual do aqui e agora, Editora Sextante, 2004.

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