domingo, fevereiro 05, 2023

 

Repressão e Transformação


 Fonte: OshoEntregue-se ao amor, Editora Rideel, 2006.

O homem é o único ser que consegue reprimir suas energias - ou que consegue transformá-las. Nenhum outro ser consegue fazer isso. A repressão e a transformação existem como dois aspectos de um fenômeno que o homem pode fazer em relação a si mesmo.

As árvores existem, os animais existem, os pássaros existem, mas não podem fazer nada em relação às suas existências - eles são parte da existência, não podem sair dela. Estão tão envolvidos em suas energias que não podem se separar. O homem pode fazer isso, ele pode fazer qualquer coisa a respeito de si mesmo. Pode observar a si mesmo a distância - pode olhar para suas próprias energias como se elas fossem separadas dele. Ou ele pode reprimi-las ou transformá-las. A repressão apenas significa tentar esconder certas energias que estão presentes - sem permitir que elas tenham seu ser, sem permissão que elas se manifestem. A transformação significa transformar, mudar as energias em direção a uma nova dimensão.

Por exemplo, o sexo está lá. Existe alguma coisa no sexo que faz com que você se envergonhe dele. Essa vergonha não surge apenas de algo que a sociedade ensinou a você. Em todas as partes do mundo muitos tipos de sociedades existem, já existiram, mas nenhuma sociedade humana aceita o sexo com facilidade. Existe algo no fenômeno do sexo que o deixa envergonhado, culpado. O que é?

Primeiro, o sexo mostra a você sua mais profunda dependência. Mostra que mais alguém é necessário para o seu prazer. Sem mais esse alguém, esse prazer não é possível. Então você depende, sua independência é perdida. Isso fere seu ego. Por isso, quanto mais egoísta é uma pessoa, mais contra o sexo ela é. Seus famosos santos são contra o sexo - não porque o sexo é ruim, mas por causa de seus egos. Eles não conseguem aceitar a ideia de tornarem-se dependentes de alguém, implorar por alguma coisa a alguém. O sexo fere o ego, acima de tudo.

Em segundo lugar, no próprio fenômeno do sexo, a possibilidade de rejeição existe - a outra pessoa pode rejeitá-lo. Não é certeza se você será aceito ou rejeitado; o outro pode dizer não. E essa é a rejeição mais profunda que existe, quando você se aproxima de alguém por amor e essa pessoa o rejeita. Essa rejeição cria o medo. O ego diz que é melhor não tentar do que ser rejeitado.

A dependência, a rejeição, a possibilidade de rejeição... e ainda mais profundo, no sexo você se torna como os animais. Isso fere muito o ego humano, porque, então, não há diferença entre um cachorro fazendo amor e você fazendo amor. Qual é a diferença? De repente, você fica como os animais, e todos os pregadores, moralistas, ficam dizendo ao homem: "Não seja um animal! Não seja como os animais!". Essa é a maior condenação possível.

Em nenhuma outra coisa você é tão parecido com os animais quanto no sexo, porque em nenhuma outra coisa você é natural - em todo o resto, você pode ser pouco natural. Isso acontece quando você está comendo. Criamos tanta sofisticação em relação ao ato de comer que você não come como os animais, mas sim em mesas, com boas maneiras à mesa, com a cultura, a etiqueta que você tem ao comer, o que diferencia você dos animais.

Os animais gostam de comer sozinhos. Por isso, a sociedade cria na mente de todas as pessoas que comer sozinho não é bom. Divida, coma com a família, coma com os amigos, convide pessoas. Nenhum animal se interessa por convidados, por amigos, pela família. Sempre que um animal está comendo, ele não quer que ninguém se aproxime; ele quer ficar sozinho. Se um homem quiser comer sozinho, as pessoas dirão que ele parece um animal, que não gosta de dividir. Seu hábito de comer é natural, não sofisticado. Em relação aos alimentos, criamos tanta sofisticação que a fome se tornou menos importante. Nenhum animal se importa com o gosto. A fome é uma necessidade básica - quando a fome é saciada, o animal fica satisfeito. Mas não o homem - como se a fome não fosse o mais importante; como se outra coisa fosse mais importante. Mais importante é o gosto, mais importante são as maneiras, mais importante é como você come, não é o que você come.

Em tudo, o homem já criou seu próprio mundo artificial. Os animais andam pelados - é por isso que não queremos andar sem roupas. E se alguém fica nu, de repente, ele atinge toda nossa sociedade, atinge as raízes. É por isso que existe um antagonismo tão grande contra as pessoas nuas do mundo todo.

Se você andar nu pela rua, não está ferindo ninguém, não está causando violência, é absolutamente inocente. Mas, imediatamente, a polícia virá, a vizinhança inteira vai ficar agitada. Você será preso, apanhará e irá para a cadeia. Mas não fez nada! Um crime acontece quando você faz alguma coisa prejudicial. Você não fez nada. Simplesmente andou nu! Por que a sociedade fica tão brava? A sociedade não fica tão brava nem com um assassino. É estranho. Mas um homem nu... e a sociedade fica completamente irada.

É por que o assassinato ainda é algo humano. Nenhum animal assassina. Eles matam para comer, mas não assassinam. E nenhum animal mata os seres de sua própria espécie, só o homem. Então é humano, a sociedade consegue aceitar. Mas a nudez, a sociedade não consegue aceitar - porque, repentinamente, o homem nu faz com que as pessoas se lembrem que são animais. Mesmo escondido atrás de roupas, o animal está ali, nu, o animal nu está ali, o macaco nu está ali.

Você se opõe ao homem nu não porque ele está nu, mas porque ele o deixa consciente de sua nudez, seu ego é ferido. Vestido, o homem não é um animal. Com seus modos ao comer, com suas maneiras, o homem não é um animal. Com a linguagem, a moralidade, a filosofia, a religião, o homem não é um animal. A coisa mais religiosa que existe é ir a uma igreja, a um templo, rezar. Por que isso é tão religioso? Porque nenhum animal vai à igreja e nenhum animal reza; isso é absolutamente humano. Ir a um templo rezar, isso torna a distinção absoluta, a distinção de que você não é um animal.

Mas o sexo é uma atividade animal. Seja lá como você faz, seja lá como você o esconde, seja lá o que cria ao redor dele, o fato em si permanece animal. E quando você faz sexo, se torna como os animais. Por causa desse fato, muitas pessoas não gostam de sexo. Não podem se tornar totalmente animais, seus egos não permitem isso.

Então ego e sexo, esse é  o conflito. Quanto mais egoísta uma pessoa é, mais contrária ela é ao sexo. Quanto menos egoísta uma pessoa é, mais envolvida ela fica no sexo. Mas até mesmo as menos egoístas sentem uma culpa - sentem menos, mas ainda sentem que alguma coisa está errada. Quando uma pessoa se envolve profundamente no sexo, o ego é perdido, e conforme o ego vai desaparecendo, o medo toma conta de você.

Existe o medo, e por causa desse medo o amor se torna quase impossível. E o medo é real - porque, quando você perde o ego, quase fica maluco; você fica selvagem e qualquer coisa pode acontecer. Reprima, ou permita apenas aquilo que não coloca você em perigo - apenas uma parte  que sempre possa ser controlada - e você permanece no controle.

A repressão existe como uma proteção, como um guarda-costas, como uma medida de segurança, e as religiões têm usado essa medida de segurança. Elas exploraram esse medo do sexo e deixaram você mais medroso. Eles criaram um medo interno. Tornaram o sexo o pecado básico, e eles dizem: a menos que o sexo desapareça, você não conseguirá entrar no reino de Deus. Eles têm razão até certo ponto, mas, ainda assim, estão errados. Eu também digo que, a menos que o sexo desapareça, você não conseguirá entrar no reino de Deus. Mas o sexo desaparece apenas quando você o aceita totalmente - não o reprime, mas o transforma.

O sexo é a energia mais vital. Não lute com ela - será uma perda de vida e de tempo - prefira transformá-la. Mas como fazer isso? Se você entender o medo, então pode entender a pista, o que pode ser feito.

O medo existe porque você sente que o controle será perdido, e quando o controle se perde, você não pode fazer nada. Eu ensino a você um novo controle: o controle de testemunhar, não o controle de uma mente manipuladora, mas o controle de testemunhar. E eu digo a você que esse controle é o máximo possível, e esse controle é tão natural que você nunca sente que está controlando. O controle acontece espontaneamente com o testemunhar.

Movimente-se no sexo, mas seja uma testemunha. A única coisa que se deve lembrar é: eu devo encontrar o processo todo, devo enxergar através dele, devo permanecer uma testemunha, não devo ser inconsciente. Então, não há perigo no que é selvagem; o selvagem é belo. Na verdade, apenas um homem selvagem pode ser belo. Uma mulher que não seja selvagem não pode ser bela - pois quanto mais selvagem, mais viva.

Mas o problema é, não fique inconsciente. Se ficar inconsciente, ficará sob forças inconscientes, ficará sob as forças do karma. Tudo o que você fez no passado está acumulado aqui. Esse condicionamento acumulado pode prendê-lo e levá-lo a certas direções que serão perigosas para você e para os outros. Mas se você permanecer uma testemunha, esse condicionamento anterior não pode interferir.

Portanto, todo o método, todo o processo de se tornar uma testemunha é o processo de transformar a energia sexual. Ao entrar no sexo, permaneça em alerta. Seja lá o que estiver acontecendo, observe, veja tudo, não perca nada. Seja lá o que estiver acontecendo em seu corpo, em sua mente, em sua energia interior, um novo circuito está sendo criado, a eletricidade corporal está se movendo de uma maneira nova, de um novo modo circular; agora a energia corporal se tornou uma só com o parceiro, com a esposa. E agora um circuito interno é criado - você pode senti-lo. Se estiver atento, pode senti-lo. Sentirá que se tornou um veículo de uma energia vital em movimento.

Permaneça em alerta. Logo conseguirá perceber que, quanto mais o circuito é criado, mais os  pensamentos caem; eles caem como folhas amarelas de uma árvore. Os pensamentos caem... a mente fica cada vez mais vazia. Permaneça em alerta e logo verá que você está aqui, mas não existe o ego. Não pode dizer eu. Alguma coisa maior do que você aconteceu. Você e seu parceiro(a) se dissolveram numa energia maior.

Mas essa fusão não deve se tornar inconsciente; caso contrário, você perderá o essencial. Assim, será um belo ato sexual, mas não uma transformação. É belo, não há nada de errado nele, mas não é transformação. E se for inconsciente, você sempre se moverá da mesma maneira. Constantemente, vai querer ter essa experiência. A experiência é bela, mas se tornará uma rotina. E todas as vezes que você a tiver, mais desejo será criado. Quanto mais você a tem, mais a deseja, e você passa a viver em um círculo vicioso. Você não cresce, apenas dá voltas.

Dar voltas é ruim, porque, nesse caso, o crescimento não acontece. A energia é simplesmente desperdiçada. Mesmo que a experiência seja boa, a energia é desperdiçada, porque muito mais era possível. Estava no canto - uma guinada e muito mais seria possível. Com a mesma energia o divino poderia ser alcançado. Com a mesma energia, o êxtase é possível, e você gasta essa energia em experiências momentâneas. E pouco a pouco, essas experiências se tornam tediosas, porque quando alguma coisa é constantemente repetida, ela se torna tediosa. Quando a novidade termina, o tédio aparece.

Se você permanecer em alerta, verá: primeiro, mudanças de energia no corpo; segundo, o sumiço dos pensamentos da mente; e, terceiro, o sumiço do ego do coração. Essas três coisas têm de ser observadas, com cuidado. E quando o terceiro tiver acontecido, a energia sexual se tornará energia meditativa. Você não está mais no sexo. Você pode estar deitado com sua amada, seus corpos unidos, mas você não está mais ali - foi transportado para um novo mundo.

Se você seguir a repressão, será um típico ser humano: falso, superficial, raso por dentro; apenas um boneco, não autêntico, não de verdade. Se você não seguir a repressão, mas a indulgência, ficará como um animal - belo, mais belo do que o tão famoso homem civilizado, mas como os animais - não alerta, não consciente, não consciente da possibilidade de crescimento do potencial humano.

Se você transformar a energia, então se transformará em divino. E lembre-se, quando digo divino, ambas as coisas estão implícitas. O animal selvagem com sua beleza total de ser está lá. Este animal selvagem não é rejeitado e negado. Ele está lá - mais rico, porque está mais alerta. Então, toda a selvageria está lá e a beleza dela, e tudo que a civilização está tentando forçar está lá, mas espontâneo, não forçado. Quando a energia é transformada, a natureza e Deus se encontram dentro de você - a natureza com sua beleza. Deis com a graça total.

Isso é o que significa ser um sábio. Um sábio quer dizer o encontro da natureza e do divino, uma reunião da criatura com o criador, um encontro do corpo com a alma, um encontro daquilo que está abaixo e daquilo que está acima, um encontro da terra e do céu.

Lao Tzu diz: "O Tao acontece quando a terra e o céu se encontram. Esse é o encontro".

Testemunhar é a fonte principal. Mas será difícil se tornar uma testemunha no ato sexual se você não estiver tentando uma testemunha nos outros atos de sua vida. Por isso, tente o dia todo, caso contrário, você vai se decepcionar. Se não conseguir se tornar uma testemunha enquanto anda pela estrada, não tente se enganar, não conseguirá se tornar uma testemunha enquanto estiver fazendo amor. Se estiver andando em uma estrada, um processo tão simples e você não consegue se tornar uma testemunha, você fica inconsciente. Como poderá ser uma testemunha enquanto estiver fazendo amor? O processo é muito profundo, você ficará inconsciente.

Tente - andando na estrada, pense: vou me lembrar que estou andando, andando, andando. Depois de alguns segundos, você terá esquecido. Outra coisa aparece em sua mente, você seguiu outra direção, se esqueceu totalmente; E, de repente, você se lembra: eu me esqueci. Então, se um ato tão pequeno quanto andar não for consciente, vai ser difícil fazer do amor uma meditação consciente.

Então tente com coisas simples, com atividades simples. Enquanto estiver comendo, tente. Enquanto estiver andando, tente. Enquanto estiver conversando, ouvindo, tente. Tente em todos os lugares. Faça disso um constante murmúrio por dentro: deixe que seu corpo e sua mente saibam que você está fazendo um esforço para se manter em alerta; e um dia, durante o amor, o testemunhar acontecerá. E quando acontecer, o êxtase acontecerá - o primeiro contato com o divino terá ocorrido a você. Desse momento em diante, o sexo não será sexo. Mais cedo ou mais tarde, o sexo desaparecerá. Esse desaparecimento dá a você o brahmacharya - e você se torna um celibatário.

Os monges nos mosteiros católicos, ou os monges que seguem o tradicional jainismo, ou os outros tipos de monges são apenas celibatários no modo de dizer, porque a mente deles continua fazendo amor - mais do que a mente das outras pessoas. Para eles o sexo se torna cerebral, que é a pior coisa que pode acontecer, porque é pervertido. Se você pensa em sexo, é preversão. Fazer amor é natural; pensar nisso, estar constantemente envolvido nisso em sua mente, é uma perversão. Os tão famosos monges são seres pervertidos, porque eles escolheram o caminho da repressão, que é o caminho errado, que não leva a lugar nenhum.

A transformação tem de acontecer através do outro, o outro participará dela. A repressão rejeita o outro, é contra o outro. O outro tem de ser destruído. Aceite a vida como ela é e tente ficar atento.

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