sexta-feira, dezembro 17, 2010
As Trevas e o Carma
"Não lute contra coisas inexistentes, pois você será certamente derrotado"
Fonte: Osho, Tantra: A Suprema Compreensão, Editora Cultrix, 1992.
As trevas é uma das coisas mais misteriosas da existência - e sua vida está ligada a essa questão. Precisamos entender a natureza das trevas, porque da mesma natureza é o sono, da mesma natureza é a morte e da mesma natureza é toda a ignorância.
A primeira coisa a ser entendida é que as trevas não existem, não têm qualquer existência. É mais misteriosa a treva do que a luz, pois ela não tem absolutamente existência - pelo contrário, ela não passa de ausência de luz. Não existe trevas em lugar algum, você não as pode encontrar, elas não têm existência em si mesmas; acontece, simplesmente, que a luz não está presente.
Se há luz, não há trevas; se não há luz, as trevas aparecem. A treva é a ausência de luz, e não a presença de alguma outra coisa. Por isso é que a luz vai e vem, mas a treva permanece. Não existe, mas permanece. Você pode criar a luz, pode destruir a luz, mas você não pode criar a treva e não pode destruir a treva
A segunda coisa que você compreenderá, se contemplar a treva, é que por causa da sua não-existência, você nada pode fazer com ela. E, se você tentar fazer algo, você será derrotado. As trevas não podem ser derrotadas, pois como podemos derrotar algo que não existe? E, se você for derrotado por ela pensará: "Isso é muito poderoso, pois derrotou-me". Mas isso será absurdo! As trevas não têm qualquer poder, como pode uma coisa que não existe ter poder? Você não é derrotado pelas trevas e seu poder, você é derrotado por sua insensatez. Em primeiro lugar, você começou a lutar - e isso foi algo insensato. Como você pode lutar contra alguma coisa que não existe? Lembre-se: você tem estado lutando com muitas coisas que não existem, como com as trevas.
A moralidade, como um todo, luta contra as trevas, por isso é estúpida. O todo da moralidade, incondicionalmente, é uma luta com as trevas, uma luta contra algo que não existe.
O ódio não é real, é apenas a ausência do amor.
A cólera não é real, é apenas a ausência da compaixão.
A ignorância não é real, é apenas a ausência do estado de Buda, da Iluminação.
Toda moralidade continua lutando com o que não é. Um moralista jamais poderá ter sucesso, é impossível que o tenha. Terá que ser derrotado, pois todo o seu esforço é insensato.
E essa é a diferença entre religião verdadeira e moralidade: a moralidade tenta lutar contra as trevas e a religião tenta acordar a luz que está escondida no seu interior. Não se preocupe com as trevas, mas, simplesmente, tente encontrar a sua luz íntima. Desde que a luz ali esteja, as trevas desaparecerão. Desde que a luz ali esteja, você não precisará fazer nada em relação às trevas - elas, simplesmente, não existirão.
Esta é a segunda coisa: nada pode ser feito contra as trevas, diretamente. Se você deseja fazer algo com as trevas, você terá de fazer algo com a luz, e as trevas já ali não estarão - mas você não pode simplesmente ligar e desligar as trevas, não pode trazê-las de algures, não pode expulsá-las. Se quiser fazer alguma coisa com as trevas, deve fazê-lo por intermédio da luz, deve procurar um caminho indireto.
Nunca lute com as coisas que não existem. A mente é tentada a lutar, e a atenção é perigosa: desperdiçará as suas energias, sua vida e você se desgastará. Não se deixe tentar pela mente; veja, simplesmente, se algo tem existência real, ou se é apenas uma ausência. Se é uma ausência, não a combata, mas procure a coisa da qual ela é a ausência - e você estará, então, na pista certa.
A terceira coisa sobre as trevas é que elas estão profundamente envolvidas na sua existência de milhões de maneiras.
Sempre que você está encolerizado, sua luz interior desaparece. Na verdade, você está encolerizado porque a sua luz desapareceu, as trevas entraram. Você só pode estar encolerizado quando você está inconsciente; você não pode conscientemente encolerizar-se. Tente isso: ou você perde a consciência e a cólera se instala, ou você permanece consciente e a cólera não aparece - você não pode estar encolerizado conscientemente. O que significa isso? Significa que a natureza da consciência é exatamente igual à da luz e que a natureza da cólera é exatamente igual à das trevas. Se tem a luz, não pode ter as trevas; se você está consciente, não pode estar colérico.
As pessoas procuram-me constantemente e perguntam como fazer par não se encolerizarem. Estão fazendo a pergunta errada: quando se faz uma pergunta errada dificilmente se consegue obter a resposta certa. Faça, primeiro, a pergunta certa. Não pergunte como afastar as trevas, não pergunte como afastar as preocupações, a angústia, a ansiedade, a cólera. Analise sua mente e veja, antes de mais nada, por que elas existem ali. Elas existem ali porque você não está consciente o bastante; portanto, faça a pergunta certa: como ser cada vez mais consciente, ter cada vez maior percepção? Se perguntar como fazer para não se encolerizar, você será vítima de algum moralista. E, se perguntar como fazer para estar mais consciente, de forma que a cólera não possa existir, de forma que a ganância não possa existir, então você estará no caminho certo, então você se tornará um investigador religioso.
A moralidade é uma moeda falsa, engana as pessoas, não é, absolutamente, religião. A verdadeira religião não tem nada a ver com a moralidade, porque a religião nada tem a ver com as trevas. Ela é um esforço positivo para o despertar. Ela não se preocupa com o seu caráter. O que você faz não tem importância; você não pode mudar seu caráter. Pode enfeitar, mas não mudar. Pode colori-lo de muitas e belas maneiras, pode pintá-lo, mas não pode mudá-lo.
Pode ocorrer somente uma transformação, uma revolução; e a revolução não virá por estar relacionada com o seu caráter, com os seus atos, com aquilo que você faz, mas por estar relacionada com o seu ser. Ser é um fenômeno positivo: desde que o ser esteja alerta, desperto, consciente, as trevas desaparecem, subitamente - pois o ser é da natureza da luz.
A quarta coisa diz que o sono é tal qual as trevas. Não é por acaso que você tem dificuldade de adormecer quando existe luz ao seu redor; é que é simplesmente natural. As trevas têm afinidade com o sono, por isso é tão fácil dormir à noite. As trevas envolventes criam o ambiente adequado no qual você pode adormecer muito facilmente.
O que acontece durante o sono? Você perde gradualmente a consciência. Até que, durante um certo intervalo, você sonha; o sonhar é um estado de meia-consciência, exatamente o estado central, tendendo para a inconsciência total. Do estado desperto você está seguindo para a inconsciência total. No meio do caminho existe o sonho, e sonhos significam, apenas, que você está meio desperto, meio adormecido. Por isso é que, se você sonha continuamente, durante toda a noite, você sente-se cansado pela manhã. E, se não puder sonhar, então também se sentirá cansado, porque os sonhos existem por uma certa razão.
Durante as horas em que você está desperto, você acumula muitas coisas, pensamentos, sentimentos, assuntos incompletos, suspensos na mente. Você vê uma bela mulher no seu caminho e, subitamente, surge o desejo em você. Mas você é um homem de caráter, de maneiras, civilizado, de modo que você repele o desejo, não quer vê-lo, continua com o seu trabalho - e um desejo incompleto permanece suspenso em sua mente. Ele precisa completar-se, de outra maneira você não poderá adormecer profundamente, porque ele virá de volta, uma e mais vezes. E dirá: "Ouça! Aquela mulher é realmente bela, seu corpo tem encantos. E você é um tolo, o que está fazendo aqui? Procure-a. Você perdeu uma oportunidade!"
O desejo suspenso não permitirá que você adormeça. Então a mente cria um sonho: você está de novo no caminho, a bela mulher passa, mas dessa vez você está só e não há civilização alguma ao seu redor. Não há necessidade de maneiras, nenhuma etiqueta é exigida. Você é como um animal, natural; não há em você moralidade. Aquele é o seu mundo particular, não há policiamento que ali possa entrar, não há juiz que ali possa julgar. Você está, simplesmente, a sós e terá um sonho sexual. O sonho completa o desejo suspenso e, então, você adormece. Mas, se sonhar continuadamente, você também se sentirá cansado.
Nos Estados Unidos, existem muitos laboratórios de sonhos; nesses laboratórios, descobriu-se este fenômeno: se uma pessoa não puder sonhar, depois de três semanas ela ficará louca. É possível acordar alguém, repetidamente, logo que comece a sonhar, porque há sinais visíveis quando se começa a sonhar: as pálpebras, particularmente, começam a mover-se rapidamente, o que significa que a pessoa está tendo um sonho; quando não sonha, as pálpebras permanecem em repouso. Isso acontece porque quando se sonha, os olhos funcionam. Acorde-se a pessoa, repita-se isso durante toda a noite, sempre que ela comece a sonhar - dentro de três semanas ela enlouquecerá.
O sono não parece ser tão necessário. Se você acordar uma pessoa, quando ela não estiver sonhando, ela se sentirá cansada, mas não enlouquecerá. Que significa isso? Significa que os sonhos são uma necessidade para nós. Somos tão iludidos, toda a nossa existência é feita de tanta ilusão (de tantas mentiras) - o que os hindus chamam de maya - que os sonhos se fazem muito necessários. Sem sonhos você não pode existir: os sonhos são o seu alimento, os sonhos são a sua força; sem sonhos, você enlouqueceria. Os sonhos o desligam da loucura e, assim que esse desligamento acontece, você adormece.
Do estado desperto você passa ao sonho, e do sonho passa ao sono. Durante toda a noite, uma pessoa normal passa por oito ciclos de sonhos; entre dois desses ciclos há alguns momentos de sono profundo. No sono profundo toda a consciência desaparece, tudo é inteiramente escuro. Mas você ainda está na fronteira, pois qualquer emergência o despertará: se a casa se incendeia, você volta à sua consciência desperta; ou, se você é mãe e seu filho começa a chorar, você corre rapidamente para o despertar - de forma que você permanece na fronteira. Penetra nas trevas profundas, mas permanece na fronteira.
Na morte, você cai exatamente no centro. A morte e o sono são similares, a qualidade é a mesma. No sono, todos os dias você entra nas trevas, nas trevas completas; torna-se completamente inconsciente, cai num estado exatamente oposto ao estado de Buda. Um Buda está totalmente desperto o tempo todo, ao passo que, a cada noite, você tomba totalmente adormecido, em trevas absolutas.
No Gita, Krishna diz a Arjuna que, mesmo quando todos estão bem adormecidos, o iogue permanece acordado. Isso não significa que ele nunca dorme: ele dorme, mas só seu corpo é que o faz, seu corpo descansa. Ele não tem sonhos porque não tem desejos; se não tem desejos, não pode tê-los incompletos. E ele não dorme, como você - mesmo no mais profundo descanso a consciência dele é clara, sua consciência arde como uma chama.
Todas as noites, quando você adormece, você entra em profunda inconsciência, em coma. Na morte, você entra em coma ainda mais profundo. Todas essas situações são como as trevas e, por isso, você tem medo da escuridão. Porque ela se parece com a morte. E há pessoas que também têm medo de dormir, porque o sono também se parece com a morte.
Conheci muitas pessoas que queriam dormir, mas não conseguiam. Quando tentei compreender-lhes as mentes, percebi que elas eram, basicamente, temerosas. Diziam desejar dormir porque estavam fatigadas, mas bem no fundo receavam o sono - e isso é que criava toda a perturbação. Noventa por cento das insônias referem-se ao temor ao sono. Você tem medo. Tem medo da escuridão, tem também medo de dormir; e esse medo se relaciona ao medo da morte.
Se você compreender que tudo é escuridão e que a sua natureza interior é a luz, as coisas começarão a se modificar. Então não haverá mais sono para você, apenas repouso; então não haverá mais morte para você, apenas uma mudança de roupagem, de corpos, uma mudança de vestuário. Mas isso só poderá acontecer se você compreender a sua flama interior, sua natureza, seu mais íntimo ser.
Você não pode destruir a sua luz interior, porque as trevas não podem ser agressivas. Elas não existem: como pode, aquilo que não existe, ser agressivo? As trevas não podem destruir a luz. Mesmo uma chama pequena as trevas não podem destruir; não podem saltar sobre a luz, não podem entrar em conflito com ela - como podem as trevas destruir uma chama?
Mas as pessoas continuam pensando em termos de conflito: pensam que as trevas estão contra a luz. Isso é absurdo! As trevas não podem estar contra a luz. As trevas não podem estar contra a luz: não há luta, há, simplesmente, ausência: pura ausência, pura impotência - portanto, como pode a treva atacar?
Você continua, dizendo: "Que posso eu fazer? Eu tive uma crise de cólera" - isso é impossível; "Tive uma crise de ganância" - isso é impossível. A ganância não pode atacar, a cólera não pode atacar: elas são da natureza das trevas, e seu ser é luz; assim, a simples possibilidade não existe. A cólera surge apenas porque a sua chama (luz) interior foi completamente esquecida, você se tornou inteiramente olvidado dela, não sabe que ela existe. Esse esquecimento é que pode amortalhá-la, mas não as trevas.
Assim, a escuridão verdadeira é o seu esquecimento, que, por sua vez, chama a cólera, a ganância, a sensualidade, o ódio, o ciúme. Mas não são eles que o atacam. Lembre-se: você foi o primeiro a enviar o convite e eles o aceitaram. Eles não podem atacar e, com o seu convite, eles vieram como hóspedes, como convidados. Você pode ter esquecido que lhes fez o convite; pode esquecer, porque esqueceu a você mesmo, pode esquecer tudo. Esquecimento: eis a real escuridão.
E, no esquecimento, tudo acontece: você é como um ébrio, se esqueceu inteiramente de você mesmo, de quem é, de para onde vai, de por que vai. Você perdeu todas as direções; o seu próprio senso de direção já não existe mais; é um ébrio. Por isso é que todos os ensinos religiosos básicos insistem na auto-recordação. O esquecimento é a doença; assim, a auto-recordação deve ser o antídoto necessário.
Não lhe imponho nenhuma disciplina, não lhe digo: "Faça isso e não faça aquilo". Minha disciplina é muito fácil. Minha disciplina consiste no fazer o que se deseja - mas fazê-lo com auto-recordação: faça com que se lembre do que está fazendo. Ao caminhar, lembre-se de que está caminhando. Não será preciso verbalizar, porque a verbalização não ajudará, pois poderá tornar-se uma distração. Não precisa andar, dizendo intimamente "estou andando", porque, se disser "estou andando, estou andando", esse "estou andando" será o seu esquecimento, e, então, você não conseguirá recordar. Lembre-se, simplesmente: não há necessidade de verbalizar as suas ações.
Eu verbalizo porque estou falando com você; mas quando estiver andando, recorde, simplesmente, o fenômeno, o andar; cada passo deve ser dado com plena consciência. Comer, comendo. Não estabeleça o que comer e o que não comer. Coma o que quiser, mas com auto-recordação do que está comendo. E depressa você verá que se tornou impossível fazer muitas coisas.
Com auto-recordação, você não pode comer carne, é impossível. É impossível ser violento, se você recordar. É impossível prejudicar seja quem for porque, quando recorda a você próprio, você vê, subitamente, que a mesma luz, a mesma chama está ardendo em toda parte, dentro de cada corpo, de cada unidade. Quanto mais conhecer a sua natureza interior, mais penetrará a do outro. Como poderá matar para comer? Comer carne tornar-se-á simplesmente impossível. Não que você faça disso uma prática; seria falso, se fosse uma prática. Será falso se empenhar em não ser ladrão; você continuará a ser ladrão; encontrará formas sutis de sê-lo; se praticar a não-violência, atrás dela estará escondida a sua violência.
Não, a religião não pode ser praticada. A moralidade pode ser praticada e, por isso, cria hipócritas, cria rostos falsos. A religião cria seres autênticos; não pode ser praticada. Como você pode praticar o ser? Torne-se simplesmente mais consciente, e as coisas começarão a se modificar. Torne-se mais da natureza da luz, simplesmente, e as trevas desaparecerão.
Durante milhões de vidas, por muitas eras, você permaneceu nas trevas; mas não se sinta deprimido nem desesperançado com isso, porque, mesmo tendo estado nas trevas durante milhões de vidas, neste exato momento você pode alcançar a luz, eliminando as trevas.
Observe: suponha que uma casa ficou fechada durante cem anos, no escuro; você entra nela e acende uma luz. Por acaso a escuridão dirá: "Eu tenho cem anos e esta luz mal acaba de nascer"? Dirá a escuridão: "Não vou desaparecer. Você terá de acender uma luz durante, pelo menos, cem anos e só então desaparecerei"? Não; mesmo uma pequena luz acabada de nascer é suficiente para dispersar uma escuridão muito antiga. Será que, em cem anos, a escuridão se fez inveterada? Mas não, a escuridão não pode ter-se feito inveterada, porque ela não existe. Ela apenas espera pela luz - no momento em que a luz penetra, a escuridão desaparece; ela não pode resistir, porque ela não tem existência positiva.
Há quem venha a mim, dizendo: "Você diz que a Iluminação súbita é possível. Então, o que acontece com as nossas vidas passadas e nossos passados karmas?" Nada. Eles são da mesma natureza da escuridão. Você pode ter sido um assassino, você pode ter sido um ladrão, assaltante, você pode ter sido um Hitler, um Gengis Khan, ou até pior, não faz qualquer diferença. Desde que você se recorde de você mesmo, a luz se fará presente e todo o passado imediatamente desaparecerá; não permanecerá mais nem por um só momento. Se você matou, isso não significa que você seja um assassino. Você matou porque não estava consciente de você mesmo, não estava consciente do que fazia.
Conta-se que Jesus disse, na cruz: "Perdoai-lhes, Pai, porque eles não sabem o que fazem". Com isso ele estava dizendo: "Eles não são da natureza da luz, não se recordam de si próprios. Eles estão agindo em completo esquecimento (de quem são), movem-se e tropeçam na escuridão. Perdoai-lhes; eles não são responsáveis pelo que quer que façam". Como pode uma pessoa que não se recorda de si própria ser responsável por algo?
Ser responsável significa recordar.
Seja o que for que você tenha feito, digo-lhe, não se preocupe. Aconteceu porque você não estava consciente, estava na ignorância. Acenda uma chama interior, procure-a, busque-a, ela existe - e, de um momento para outro, todo o passado desaparecerá, como se tudo tivesse acontecido num sonho. Na verdade, seu passado foi realmente um sonho, porque você não estava consciente. Todos os karmas aconteceram em sonho; são da mesma matéria com que são feitos os sonhos.
Você não precisa esperar que seus karmas sejam esgotados - caso contrário, você terá de esperar por toda a eternidade. Mesmo então, você não poderá sair da roda porque, simplesmente, não poderá apenas esperar pela eternidade; você estará fazendo muitas coisas, nesse entretempo, e, então, gerará mais karma e o círculo jamais se completará. Você se moverá continuamente e, continuamente fará coisas e novas coisas o ligarão a outras coisas futuras - e, então, onde estará o fim? Não, não há necessidade. Simplesmente, faça-se consciente e, de súbito, todos os seus karmas tombam. Num só momento de intensa consciência, todo o passado desaparece, torna-se refugo.
Essa é uma das coisas mais fundamentais que o Oriente descobriu. O Cristianismo não pode entendê-la. Continua a pensar em termos de julgamento, Dia do Juízo Final, quando todos deverão ser julgados pelos seus atos. Se assim fosse, Cristo ter-se-ia enganado quando disse: "Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem". Onde ficaria esse perdão? Os judeus não podem entender isso (Lei de Talião: "Olho por olho, dente por dente"); os muçulmanos também não podem entender isso (vide o Jihad, a Guerra Santa).
Os hindus penetraram no âmago do problema: o problema não é o agir, o problema é ser. Desde que você compreenda seu ser interior e a luz, você já não será deste mundo. O que quer que tenha acontecido no seu passado foi apenas um sonho. Por isso dizem os hindus que todo este mundo é um sonho; só você não é um sonho, só o sonhador não é um sonho. À exceção de você, tudo mais é um sonho.
Observe a beleza desta verdade: só o sonhador não é um sonho; o sonhador não pode ser um sonho porque, de outra maneira, o sonho não poderia existir. Pelo menos alguém, o sonhador, tem de ser um fenômeno real.
Durante o dia você está acordado e faz várias coisas: vai à loja, vai ao mercado, trabalha numa fazenda, ou numa fábrica, faz milhões de coisas. À noite, quando adormece, você se esquece de tudo isso, tudo desaparece e um novo mundo tem início - o mundo do sonho. E, agora, os cientistas dizem que você deve dar ao sonho o mesmo tempo que dá ao estado desperto. O mesmo número de horas que você passa acordado deve passar dormindo. Em sessenta anos, se vinte anos forem devotados ao trabalho, que você realiza acordado, vinte anos também deverão ser devotados ao sonho, dormindo. O mesmo tempo, exatamente o mesmo tempo, deve ser devotado ao sonho. Assim, o sonho não é menos real e necessário, tem o mesmo valor.
À noite você sonha e se esquece de seu mundo desperto. Em profundo sono, você esquece tanto o seu mundo desperto, como o seu mundo de sonho. Pela manhã, novamente no seu mundo desperto, que voltou a existir, você se esquece de seu sonho e de seu sono. Mas uma coisa permanece continuadamente: VOCÊ. Quem recorda os sonhos? Pela manhã, quem diz: "Sonhei na noite passada"? Pela manhã, quem é que diz: "Na noite passada dormi bem, profundamente, sem sonhar"? Quem?
Para que isso ocorra, deve haver uma testemunha que permanece a seu lado, que sempre fica de lado, observando. O despertar vem, o sonho vem, o sono vem e, no entanto, alguém está sempre a seu lado observando. Só isso é real, porque existe em todos os estados. Outros estados desaparecem, mas essa presença (testemunha) permanece em todos os estados; é a única coisa permanente em você.
Alcance essa testemunha cada vez mais. Torne-se mais e mais alerta, torne-se mais e mais uma testemunha, um espectador. Tudo o mais é sonho; só o sonhador é a verdade. Ele precisa ser verdadeiro; se não o for, como acontecerão os sonhos? Ele é a base. As ilusões só acontecerão se ele ali estiver.
E, desde que você se recorde, você começará a rir. Que tipo de vida existe sem a recordação? Você é um ébrio, passando de um estado a outro, sem saber o porquê, vagando sem direção.
Há três abordagens possíveis da realidade: uma é a abordagem empírica, a abordagem da mente científica, feita com base na experimentação com o mundo objetivo e, a não ser que algo seja provado pela experiência, não é aceito. A outra abordagem é a da mente lógica. Essa não realiza experiências; pensa, simplesmente, argumenta, encontra os prós e contras, e, só pelo esforço mental, raciocinando, conclui. E a terceira abordagem é a metafórica, a abordagem da poesia e da religião. Essas três abordagens existem: três dimensões através das quais procura-se chegar à realidade.
A ciência não pode ir além do objeto, porque a própria abordagem cria essa limitação. A ciência não pode ir além do exterior, porque as experiências só são possíveis com o que é externo. A filosofia e a lógica não podem ir além do subjetivo, porque são esforços da mente, trabalhos da mente. Não é possível dissolver a mente, não é possível a ninguém ir além da mente. A ciência é objetiva, a lógica e a filosofia são subjetivas. A religião e a poesia vão além: são pontes de ouro que ligam o objeto à substância. E, então, tudo se transforma num caos - criativo, naturalmente. Na verdade, não há criatividade se não houver caos. Tudo se torna indiscriminado e as divisões desaparecem.
Podemos dizer que a ciência é a abordagem do dia, em pleno meio-dia; tudo é claro, distinto, delimitado e você pode ver bem o outro. A lógica é a abordagem da noite; é o tatear no escuro apenas com a mente, sem qualquer apoio experimental, apenas usando o pensamento. A poesia e a religião são abordagens crepusculares, estão exatamente no meio.
É por isso que a poesia fala por metáforas; e a religião é a poesia definitiva, a religião também fala por metáforas. Lembre-se, as metáforas não devem ser tomadas literalmente, senão você perde o propósito. Quando digo "luz interior", não pense em termos literais. Quando digo "luz interior", faço uma metáfora. Algo é indicado, mas não é demarcado ou definido. Algo que tem a natureza da luz, mas não é exatamente a luz - eis a metáfora.
A religião fala por metáforas; não pode falar de outra maneira, não há outra maneira. Se estive num outro mundo onde vi flores que não existem nesta terra, e chego junto de você para falar dessas flores que deverei fazer? Terei de usar metáforas e símiles. Direi "como rosas" - mas não eram rosas. Se assim não fosse, por que diria "como rosas", se simplesmente poderia dizer "rosas"? Mas não se trata de rosas, aquelas flores têm uma qualidade diferente.
"Tal como" significa que estou tentando ligar meu conhecimento do outro mundo a seu conhecimento deste mundo - daí os símiles, as metáforas. Você conhece rosas, mas não conhece as flores de um outro mundo. Eu as conheço e tento transmitir-lhe algo daquele mundo; por isso digo que as flores são tal como rosas. Não se zangue comigo, quando chegar àquele mundo e não encontrar rosas; não me arraste a um tribunal, porque jamais tive a intenção de ser literal. Apenas a qualidade da rosa é indicada, apenas um gesto, um dedo apontando para a lua. Não agarre o dedo, ele é irrelevante; olhe para a lua e esqueça o dedo. Esse é o significado da metáfora: não se agarre à metáfora.
A religião fala por metáforas; não há outra forma, porque a religião fala de um outro mundo, o mundo do além. Tente encontrar símiles neste mundo, use palavras impróprias, mas essas palavras impróprias são as únicas disponíveis, de forma que temos de usá-las.
A religião precisa de confiança. A confiança pode fazer com que a faculdade de duvidar da mente (algo que caracteriza os seres humanos, diferentemente dos animais) adormeça; é algo parecido com a hipnose. Assim, quando as pessoas lhe dizem "Esse homem, esse Osho, hipnotinou-o", elas têm razão, de certa forma: se você confia em mim, está como que hipnotizado. Apesar de bem acordado, você deixou que sua razão se desvanecesse - e agora a imaginação funciona com sua capacidade total; agora você está numa situação perigosa.
Se der oportunidade à imaginação, você poderá imaginar toda sorte de coisas: a kundalini chegando, os chakras estão se abrindo. Toda sorte de coisas você poderá imaginar, e elas acontecerão com você. E são tão belas - mas não são verdadeiras. Assim, quando você confiar numa pessoa, mesmo confiando deve ter consciência da sua imaginação. Confie, mas não se torne uma vítima da imaginação. O que quer que esteja sendo dito aqui é metafórico. E recorde-se, sempre, de que todas as experiências são imaginação. De todas as experiências, digo eu, incondicionalmente - só o experimentador é a verdade.
Assim, seja qual for a sua experiência, não lhe dê muita atenção e nem comece a gabar-se dela. Lembre-se, apenas, de que tudo quanto é experimentado é ilusório; só aquele que realiza a experiência é verdadeiro. Atente para a testemunha; focalize a testemunha, e não as experiências. Por mais belas que sejam, todas as experiências são semelhantes ao sonho e é preciso que se vá além delas.
Assim, se a religião é poética, temos de falar metaforicamente. O discípulo que confia profundamente pode, facilmente, ser vítima da imaginação - é preciso estar sempre bem alerta. Confie, ouça as metáforas, mas recorde-se de que são apenas metáforas. Confie; muitas coisas começarão a acontecer, mas lembre-se: tudo é imaginação, menos você. E tem de chegar a um ponto no qual não há experiências, onde só existe o experimentador, silenciosamente.
Só a testemunha, a consciência, permenece observando tudo. Todas as experiências desaparecem e só o próprio cenário de todas as experiências permanece. Você permanece; tudo o mais está perdido. Lembre-se, porque você confia em mim, que falo por metáforas - e, então, a imaginação é possível. Imaginazione: cuidado com essa doença.
A primeira coisa a ser entendida é que as trevas não existem, não têm qualquer existência. É mais misteriosa a treva do que a luz, pois ela não tem absolutamente existência - pelo contrário, ela não passa de ausência de luz. Não existe trevas em lugar algum, você não as pode encontrar, elas não têm existência em si mesmas; acontece, simplesmente, que a luz não está presente.
Se há luz, não há trevas; se não há luz, as trevas aparecem. A treva é a ausência de luz, e não a presença de alguma outra coisa. Por isso é que a luz vai e vem, mas a treva permanece. Não existe, mas permanece. Você pode criar a luz, pode destruir a luz, mas você não pode criar a treva e não pode destruir a treva
A segunda coisa que você compreenderá, se contemplar a treva, é que por causa da sua não-existência, você nada pode fazer com ela. E, se você tentar fazer algo, você será derrotado. As trevas não podem ser derrotadas, pois como podemos derrotar algo que não existe? E, se você for derrotado por ela pensará: "Isso é muito poderoso, pois derrotou-me". Mas isso será absurdo! As trevas não têm qualquer poder, como pode uma coisa que não existe ter poder? Você não é derrotado pelas trevas e seu poder, você é derrotado por sua insensatez. Em primeiro lugar, você começou a lutar - e isso foi algo insensato. Como você pode lutar contra alguma coisa que não existe? Lembre-se: você tem estado lutando com muitas coisas que não existem, como com as trevas.
A moralidade, como um todo, luta contra as trevas, por isso é estúpida. O todo da moralidade, incondicionalmente, é uma luta com as trevas, uma luta contra algo que não existe.
O ódio não é real, é apenas a ausência do amor.
A cólera não é real, é apenas a ausência da compaixão.
A ignorância não é real, é apenas a ausência do estado de Buda, da Iluminação.
Toda moralidade continua lutando com o que não é. Um moralista jamais poderá ter sucesso, é impossível que o tenha. Terá que ser derrotado, pois todo o seu esforço é insensato.
E essa é a diferença entre religião verdadeira e moralidade: a moralidade tenta lutar contra as trevas e a religião tenta acordar a luz que está escondida no seu interior. Não se preocupe com as trevas, mas, simplesmente, tente encontrar a sua luz íntima. Desde que a luz ali esteja, as trevas desaparecerão. Desde que a luz ali esteja, você não precisará fazer nada em relação às trevas - elas, simplesmente, não existirão.
Esta é a segunda coisa: nada pode ser feito contra as trevas, diretamente. Se você deseja fazer algo com as trevas, você terá de fazer algo com a luz, e as trevas já ali não estarão - mas você não pode simplesmente ligar e desligar as trevas, não pode trazê-las de algures, não pode expulsá-las. Se quiser fazer alguma coisa com as trevas, deve fazê-lo por intermédio da luz, deve procurar um caminho indireto.
Nunca lute com as coisas que não existem. A mente é tentada a lutar, e a atenção é perigosa: desperdiçará as suas energias, sua vida e você se desgastará. Não se deixe tentar pela mente; veja, simplesmente, se algo tem existência real, ou se é apenas uma ausência. Se é uma ausência, não a combata, mas procure a coisa da qual ela é a ausência - e você estará, então, na pista certa.
A terceira coisa sobre as trevas é que elas estão profundamente envolvidas na sua existência de milhões de maneiras.
Sempre que você está encolerizado, sua luz interior desaparece. Na verdade, você está encolerizado porque a sua luz desapareceu, as trevas entraram. Você só pode estar encolerizado quando você está inconsciente; você não pode conscientemente encolerizar-se. Tente isso: ou você perde a consciência e a cólera se instala, ou você permanece consciente e a cólera não aparece - você não pode estar encolerizado conscientemente. O que significa isso? Significa que a natureza da consciência é exatamente igual à da luz e que a natureza da cólera é exatamente igual à das trevas. Se tem a luz, não pode ter as trevas; se você está consciente, não pode estar colérico.
As pessoas procuram-me constantemente e perguntam como fazer par não se encolerizarem. Estão fazendo a pergunta errada: quando se faz uma pergunta errada dificilmente se consegue obter a resposta certa. Faça, primeiro, a pergunta certa. Não pergunte como afastar as trevas, não pergunte como afastar as preocupações, a angústia, a ansiedade, a cólera. Analise sua mente e veja, antes de mais nada, por que elas existem ali. Elas existem ali porque você não está consciente o bastante; portanto, faça a pergunta certa: como ser cada vez mais consciente, ter cada vez maior percepção? Se perguntar como fazer para não se encolerizar, você será vítima de algum moralista. E, se perguntar como fazer para estar mais consciente, de forma que a cólera não possa existir, de forma que a ganância não possa existir, então você estará no caminho certo, então você se tornará um investigador religioso.
A moralidade é uma moeda falsa, engana as pessoas, não é, absolutamente, religião. A verdadeira religião não tem nada a ver com a moralidade, porque a religião nada tem a ver com as trevas. Ela é um esforço positivo para o despertar. Ela não se preocupa com o seu caráter. O que você faz não tem importância; você não pode mudar seu caráter. Pode enfeitar, mas não mudar. Pode colori-lo de muitas e belas maneiras, pode pintá-lo, mas não pode mudá-lo.
Pode ocorrer somente uma transformação, uma revolução; e a revolução não virá por estar relacionada com o seu caráter, com os seus atos, com aquilo que você faz, mas por estar relacionada com o seu ser. Ser é um fenômeno positivo: desde que o ser esteja alerta, desperto, consciente, as trevas desaparecem, subitamente - pois o ser é da natureza da luz.
A quarta coisa diz que o sono é tal qual as trevas. Não é por acaso que você tem dificuldade de adormecer quando existe luz ao seu redor; é que é simplesmente natural. As trevas têm afinidade com o sono, por isso é tão fácil dormir à noite. As trevas envolventes criam o ambiente adequado no qual você pode adormecer muito facilmente.
O que acontece durante o sono? Você perde gradualmente a consciência. Até que, durante um certo intervalo, você sonha; o sonhar é um estado de meia-consciência, exatamente o estado central, tendendo para a inconsciência total. Do estado desperto você está seguindo para a inconsciência total. No meio do caminho existe o sonho, e sonhos significam, apenas, que você está meio desperto, meio adormecido. Por isso é que, se você sonha continuamente, durante toda a noite, você sente-se cansado pela manhã. E, se não puder sonhar, então também se sentirá cansado, porque os sonhos existem por uma certa razão.
Durante as horas em que você está desperto, você acumula muitas coisas, pensamentos, sentimentos, assuntos incompletos, suspensos na mente. Você vê uma bela mulher no seu caminho e, subitamente, surge o desejo em você. Mas você é um homem de caráter, de maneiras, civilizado, de modo que você repele o desejo, não quer vê-lo, continua com o seu trabalho - e um desejo incompleto permanece suspenso em sua mente. Ele precisa completar-se, de outra maneira você não poderá adormecer profundamente, porque ele virá de volta, uma e mais vezes. E dirá: "Ouça! Aquela mulher é realmente bela, seu corpo tem encantos. E você é um tolo, o que está fazendo aqui? Procure-a. Você perdeu uma oportunidade!"
O desejo suspenso não permitirá que você adormeça. Então a mente cria um sonho: você está de novo no caminho, a bela mulher passa, mas dessa vez você está só e não há civilização alguma ao seu redor. Não há necessidade de maneiras, nenhuma etiqueta é exigida. Você é como um animal, natural; não há em você moralidade. Aquele é o seu mundo particular, não há policiamento que ali possa entrar, não há juiz que ali possa julgar. Você está, simplesmente, a sós e terá um sonho sexual. O sonho completa o desejo suspenso e, então, você adormece. Mas, se sonhar continuadamente, você também se sentirá cansado.
Nos Estados Unidos, existem muitos laboratórios de sonhos; nesses laboratórios, descobriu-se este fenômeno: se uma pessoa não puder sonhar, depois de três semanas ela ficará louca. É possível acordar alguém, repetidamente, logo que comece a sonhar, porque há sinais visíveis quando se começa a sonhar: as pálpebras, particularmente, começam a mover-se rapidamente, o que significa que a pessoa está tendo um sonho; quando não sonha, as pálpebras permanecem em repouso. Isso acontece porque quando se sonha, os olhos funcionam. Acorde-se a pessoa, repita-se isso durante toda a noite, sempre que ela comece a sonhar - dentro de três semanas ela enlouquecerá.
O sono não parece ser tão necessário. Se você acordar uma pessoa, quando ela não estiver sonhando, ela se sentirá cansada, mas não enlouquecerá. Que significa isso? Significa que os sonhos são uma necessidade para nós. Somos tão iludidos, toda a nossa existência é feita de tanta ilusão (de tantas mentiras) - o que os hindus chamam de maya - que os sonhos se fazem muito necessários. Sem sonhos você não pode existir: os sonhos são o seu alimento, os sonhos são a sua força; sem sonhos, você enlouqueceria. Os sonhos o desligam da loucura e, assim que esse desligamento acontece, você adormece.
Do estado desperto você passa ao sonho, e do sonho passa ao sono. Durante toda a noite, uma pessoa normal passa por oito ciclos de sonhos; entre dois desses ciclos há alguns momentos de sono profundo. No sono profundo toda a consciência desaparece, tudo é inteiramente escuro. Mas você ainda está na fronteira, pois qualquer emergência o despertará: se a casa se incendeia, você volta à sua consciência desperta; ou, se você é mãe e seu filho começa a chorar, você corre rapidamente para o despertar - de forma que você permanece na fronteira. Penetra nas trevas profundas, mas permanece na fronteira.
Na morte, você cai exatamente no centro. A morte e o sono são similares, a qualidade é a mesma. No sono, todos os dias você entra nas trevas, nas trevas completas; torna-se completamente inconsciente, cai num estado exatamente oposto ao estado de Buda. Um Buda está totalmente desperto o tempo todo, ao passo que, a cada noite, você tomba totalmente adormecido, em trevas absolutas.
No Gita, Krishna diz a Arjuna que, mesmo quando todos estão bem adormecidos, o iogue permanece acordado. Isso não significa que ele nunca dorme: ele dorme, mas só seu corpo é que o faz, seu corpo descansa. Ele não tem sonhos porque não tem desejos; se não tem desejos, não pode tê-los incompletos. E ele não dorme, como você - mesmo no mais profundo descanso a consciência dele é clara, sua consciência arde como uma chama.
Todas as noites, quando você adormece, você entra em profunda inconsciência, em coma. Na morte, você entra em coma ainda mais profundo. Todas essas situações são como as trevas e, por isso, você tem medo da escuridão. Porque ela se parece com a morte. E há pessoas que também têm medo de dormir, porque o sono também se parece com a morte.
Conheci muitas pessoas que queriam dormir, mas não conseguiam. Quando tentei compreender-lhes as mentes, percebi que elas eram, basicamente, temerosas. Diziam desejar dormir porque estavam fatigadas, mas bem no fundo receavam o sono - e isso é que criava toda a perturbação. Noventa por cento das insônias referem-se ao temor ao sono. Você tem medo. Tem medo da escuridão, tem também medo de dormir; e esse medo se relaciona ao medo da morte.
Se você compreender que tudo é escuridão e que a sua natureza interior é a luz, as coisas começarão a se modificar. Então não haverá mais sono para você, apenas repouso; então não haverá mais morte para você, apenas uma mudança de roupagem, de corpos, uma mudança de vestuário. Mas isso só poderá acontecer se você compreender a sua flama interior, sua natureza, seu mais íntimo ser.
Você não pode destruir a sua luz interior, porque as trevas não podem ser agressivas. Elas não existem: como pode, aquilo que não existe, ser agressivo? As trevas não podem destruir a luz. Mesmo uma chama pequena as trevas não podem destruir; não podem saltar sobre a luz, não podem entrar em conflito com ela - como podem as trevas destruir uma chama?
Mas as pessoas continuam pensando em termos de conflito: pensam que as trevas estão contra a luz. Isso é absurdo! As trevas não podem estar contra a luz. As trevas não podem estar contra a luz: não há luta, há, simplesmente, ausência: pura ausência, pura impotência - portanto, como pode a treva atacar?
Você continua, dizendo: "Que posso eu fazer? Eu tive uma crise de cólera" - isso é impossível; "Tive uma crise de ganância" - isso é impossível. A ganância não pode atacar, a cólera não pode atacar: elas são da natureza das trevas, e seu ser é luz; assim, a simples possibilidade não existe. A cólera surge apenas porque a sua chama (luz) interior foi completamente esquecida, você se tornou inteiramente olvidado dela, não sabe que ela existe. Esse esquecimento é que pode amortalhá-la, mas não as trevas.
Assim, a escuridão verdadeira é o seu esquecimento, que, por sua vez, chama a cólera, a ganância, a sensualidade, o ódio, o ciúme. Mas não são eles que o atacam. Lembre-se: você foi o primeiro a enviar o convite e eles o aceitaram. Eles não podem atacar e, com o seu convite, eles vieram como hóspedes, como convidados. Você pode ter esquecido que lhes fez o convite; pode esquecer, porque esqueceu a você mesmo, pode esquecer tudo. Esquecimento: eis a real escuridão.
E, no esquecimento, tudo acontece: você é como um ébrio, se esqueceu inteiramente de você mesmo, de quem é, de para onde vai, de por que vai. Você perdeu todas as direções; o seu próprio senso de direção já não existe mais; é um ébrio. Por isso é que todos os ensinos religiosos básicos insistem na auto-recordação. O esquecimento é a doença; assim, a auto-recordação deve ser o antídoto necessário.
Não lhe imponho nenhuma disciplina, não lhe digo: "Faça isso e não faça aquilo". Minha disciplina é muito fácil. Minha disciplina consiste no fazer o que se deseja - mas fazê-lo com auto-recordação: faça com que se lembre do que está fazendo. Ao caminhar, lembre-se de que está caminhando. Não será preciso verbalizar, porque a verbalização não ajudará, pois poderá tornar-se uma distração. Não precisa andar, dizendo intimamente "estou andando", porque, se disser "estou andando, estou andando", esse "estou andando" será o seu esquecimento, e, então, você não conseguirá recordar. Lembre-se, simplesmente: não há necessidade de verbalizar as suas ações.
Eu verbalizo porque estou falando com você; mas quando estiver andando, recorde, simplesmente, o fenômeno, o andar; cada passo deve ser dado com plena consciência. Comer, comendo. Não estabeleça o que comer e o que não comer. Coma o que quiser, mas com auto-recordação do que está comendo. E depressa você verá que se tornou impossível fazer muitas coisas.
Com auto-recordação, você não pode comer carne, é impossível. É impossível ser violento, se você recordar. É impossível prejudicar seja quem for porque, quando recorda a você próprio, você vê, subitamente, que a mesma luz, a mesma chama está ardendo em toda parte, dentro de cada corpo, de cada unidade. Quanto mais conhecer a sua natureza interior, mais penetrará a do outro. Como poderá matar para comer? Comer carne tornar-se-á simplesmente impossível. Não que você faça disso uma prática; seria falso, se fosse uma prática. Será falso se empenhar em não ser ladrão; você continuará a ser ladrão; encontrará formas sutis de sê-lo; se praticar a não-violência, atrás dela estará escondida a sua violência.
Não, a religião não pode ser praticada. A moralidade pode ser praticada e, por isso, cria hipócritas, cria rostos falsos. A religião cria seres autênticos; não pode ser praticada. Como você pode praticar o ser? Torne-se simplesmente mais consciente, e as coisas começarão a se modificar. Torne-se mais da natureza da luz, simplesmente, e as trevas desaparecerão.
Durante milhões de vidas, por muitas eras, você permaneceu nas trevas; mas não se sinta deprimido nem desesperançado com isso, porque, mesmo tendo estado nas trevas durante milhões de vidas, neste exato momento você pode alcançar a luz, eliminando as trevas.
Observe: suponha que uma casa ficou fechada durante cem anos, no escuro; você entra nela e acende uma luz. Por acaso a escuridão dirá: "Eu tenho cem anos e esta luz mal acaba de nascer"? Dirá a escuridão: "Não vou desaparecer. Você terá de acender uma luz durante, pelo menos, cem anos e só então desaparecerei"? Não; mesmo uma pequena luz acabada de nascer é suficiente para dispersar uma escuridão muito antiga. Será que, em cem anos, a escuridão se fez inveterada? Mas não, a escuridão não pode ter-se feito inveterada, porque ela não existe. Ela apenas espera pela luz - no momento em que a luz penetra, a escuridão desaparece; ela não pode resistir, porque ela não tem existência positiva.
Há quem venha a mim, dizendo: "Você diz que a Iluminação súbita é possível. Então, o que acontece com as nossas vidas passadas e nossos passados karmas?" Nada. Eles são da mesma natureza da escuridão. Você pode ter sido um assassino, você pode ter sido um ladrão, assaltante, você pode ter sido um Hitler, um Gengis Khan, ou até pior, não faz qualquer diferença. Desde que você se recorde de você mesmo, a luz se fará presente e todo o passado imediatamente desaparecerá; não permanecerá mais nem por um só momento. Se você matou, isso não significa que você seja um assassino. Você matou porque não estava consciente de você mesmo, não estava consciente do que fazia.
Conta-se que Jesus disse, na cruz: "Perdoai-lhes, Pai, porque eles não sabem o que fazem". Com isso ele estava dizendo: "Eles não são da natureza da luz, não se recordam de si próprios. Eles estão agindo em completo esquecimento (de quem são), movem-se e tropeçam na escuridão. Perdoai-lhes; eles não são responsáveis pelo que quer que façam". Como pode uma pessoa que não se recorda de si própria ser responsável por algo?
Ser responsável significa recordar.
Seja o que for que você tenha feito, digo-lhe, não se preocupe. Aconteceu porque você não estava consciente, estava na ignorância. Acenda uma chama interior, procure-a, busque-a, ela existe - e, de um momento para outro, todo o passado desaparecerá, como se tudo tivesse acontecido num sonho. Na verdade, seu passado foi realmente um sonho, porque você não estava consciente. Todos os karmas aconteceram em sonho; são da mesma matéria com que são feitos os sonhos.
Você não precisa esperar que seus karmas sejam esgotados - caso contrário, você terá de esperar por toda a eternidade. Mesmo então, você não poderá sair da roda porque, simplesmente, não poderá apenas esperar pela eternidade; você estará fazendo muitas coisas, nesse entretempo, e, então, gerará mais karma e o círculo jamais se completará. Você se moverá continuamente e, continuamente fará coisas e novas coisas o ligarão a outras coisas futuras - e, então, onde estará o fim? Não, não há necessidade. Simplesmente, faça-se consciente e, de súbito, todos os seus karmas tombam. Num só momento de intensa consciência, todo o passado desaparece, torna-se refugo.
Essa é uma das coisas mais fundamentais que o Oriente descobriu. O Cristianismo não pode entendê-la. Continua a pensar em termos de julgamento, Dia do Juízo Final, quando todos deverão ser julgados pelos seus atos. Se assim fosse, Cristo ter-se-ia enganado quando disse: "Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem". Onde ficaria esse perdão? Os judeus não podem entender isso (Lei de Talião: "Olho por olho, dente por dente"); os muçulmanos também não podem entender isso (vide o Jihad, a Guerra Santa).
Os hindus penetraram no âmago do problema: o problema não é o agir, o problema é ser. Desde que você compreenda seu ser interior e a luz, você já não será deste mundo. O que quer que tenha acontecido no seu passado foi apenas um sonho. Por isso dizem os hindus que todo este mundo é um sonho; só você não é um sonho, só o sonhador não é um sonho. À exceção de você, tudo mais é um sonho.
Observe a beleza desta verdade: só o sonhador não é um sonho; o sonhador não pode ser um sonho porque, de outra maneira, o sonho não poderia existir. Pelo menos alguém, o sonhador, tem de ser um fenômeno real.
Durante o dia você está acordado e faz várias coisas: vai à loja, vai ao mercado, trabalha numa fazenda, ou numa fábrica, faz milhões de coisas. À noite, quando adormece, você se esquece de tudo isso, tudo desaparece e um novo mundo tem início - o mundo do sonho. E, agora, os cientistas dizem que você deve dar ao sonho o mesmo tempo que dá ao estado desperto. O mesmo número de horas que você passa acordado deve passar dormindo. Em sessenta anos, se vinte anos forem devotados ao trabalho, que você realiza acordado, vinte anos também deverão ser devotados ao sonho, dormindo. O mesmo tempo, exatamente o mesmo tempo, deve ser devotado ao sonho. Assim, o sonho não é menos real e necessário, tem o mesmo valor.
À noite você sonha e se esquece de seu mundo desperto. Em profundo sono, você esquece tanto o seu mundo desperto, como o seu mundo de sonho. Pela manhã, novamente no seu mundo desperto, que voltou a existir, você se esquece de seu sonho e de seu sono. Mas uma coisa permanece continuadamente: VOCÊ. Quem recorda os sonhos? Pela manhã, quem diz: "Sonhei na noite passada"? Pela manhã, quem é que diz: "Na noite passada dormi bem, profundamente, sem sonhar"? Quem?
Para que isso ocorra, deve haver uma testemunha que permanece a seu lado, que sempre fica de lado, observando. O despertar vem, o sonho vem, o sono vem e, no entanto, alguém está sempre a seu lado observando. Só isso é real, porque existe em todos os estados. Outros estados desaparecem, mas essa presença (testemunha) permanece em todos os estados; é a única coisa permanente em você.
Alcance essa testemunha cada vez mais. Torne-se mais e mais alerta, torne-se mais e mais uma testemunha, um espectador. Tudo o mais é sonho; só o sonhador é a verdade. Ele precisa ser verdadeiro; se não o for, como acontecerão os sonhos? Ele é a base. As ilusões só acontecerão se ele ali estiver.
E, desde que você se recorde, você começará a rir. Que tipo de vida existe sem a recordação? Você é um ébrio, passando de um estado a outro, sem saber o porquê, vagando sem direção.
Há três abordagens possíveis da realidade: uma é a abordagem empírica, a abordagem da mente científica, feita com base na experimentação com o mundo objetivo e, a não ser que algo seja provado pela experiência, não é aceito. A outra abordagem é a da mente lógica. Essa não realiza experiências; pensa, simplesmente, argumenta, encontra os prós e contras, e, só pelo esforço mental, raciocinando, conclui. E a terceira abordagem é a metafórica, a abordagem da poesia e da religião. Essas três abordagens existem: três dimensões através das quais procura-se chegar à realidade.
A ciência não pode ir além do objeto, porque a própria abordagem cria essa limitação. A ciência não pode ir além do exterior, porque as experiências só são possíveis com o que é externo. A filosofia e a lógica não podem ir além do subjetivo, porque são esforços da mente, trabalhos da mente. Não é possível dissolver a mente, não é possível a ninguém ir além da mente. A ciência é objetiva, a lógica e a filosofia são subjetivas. A religião e a poesia vão além: são pontes de ouro que ligam o objeto à substância. E, então, tudo se transforma num caos - criativo, naturalmente. Na verdade, não há criatividade se não houver caos. Tudo se torna indiscriminado e as divisões desaparecem.
Podemos dizer que a ciência é a abordagem do dia, em pleno meio-dia; tudo é claro, distinto, delimitado e você pode ver bem o outro. A lógica é a abordagem da noite; é o tatear no escuro apenas com a mente, sem qualquer apoio experimental, apenas usando o pensamento. A poesia e a religião são abordagens crepusculares, estão exatamente no meio.
É por isso que a poesia fala por metáforas; e a religião é a poesia definitiva, a religião também fala por metáforas. Lembre-se, as metáforas não devem ser tomadas literalmente, senão você perde o propósito. Quando digo "luz interior", não pense em termos literais. Quando digo "luz interior", faço uma metáfora. Algo é indicado, mas não é demarcado ou definido. Algo que tem a natureza da luz, mas não é exatamente a luz - eis a metáfora.
A religião fala por metáforas; não pode falar de outra maneira, não há outra maneira. Se estive num outro mundo onde vi flores que não existem nesta terra, e chego junto de você para falar dessas flores que deverei fazer? Terei de usar metáforas e símiles. Direi "como rosas" - mas não eram rosas. Se assim não fosse, por que diria "como rosas", se simplesmente poderia dizer "rosas"? Mas não se trata de rosas, aquelas flores têm uma qualidade diferente.
"Tal como" significa que estou tentando ligar meu conhecimento do outro mundo a seu conhecimento deste mundo - daí os símiles, as metáforas. Você conhece rosas, mas não conhece as flores de um outro mundo. Eu as conheço e tento transmitir-lhe algo daquele mundo; por isso digo que as flores são tal como rosas. Não se zangue comigo, quando chegar àquele mundo e não encontrar rosas; não me arraste a um tribunal, porque jamais tive a intenção de ser literal. Apenas a qualidade da rosa é indicada, apenas um gesto, um dedo apontando para a lua. Não agarre o dedo, ele é irrelevante; olhe para a lua e esqueça o dedo. Esse é o significado da metáfora: não se agarre à metáfora.
A religião fala por metáforas; não há outra forma, porque a religião fala de um outro mundo, o mundo do além. Tente encontrar símiles neste mundo, use palavras impróprias, mas essas palavras impróprias são as únicas disponíveis, de forma que temos de usá-las.
A religião precisa de confiança. A confiança pode fazer com que a faculdade de duvidar da mente (algo que caracteriza os seres humanos, diferentemente dos animais) adormeça; é algo parecido com a hipnose. Assim, quando as pessoas lhe dizem "Esse homem, esse Osho, hipnotinou-o", elas têm razão, de certa forma: se você confia em mim, está como que hipnotizado. Apesar de bem acordado, você deixou que sua razão se desvanecesse - e agora a imaginação funciona com sua capacidade total; agora você está numa situação perigosa.
Se der oportunidade à imaginação, você poderá imaginar toda sorte de coisas: a kundalini chegando, os chakras estão se abrindo. Toda sorte de coisas você poderá imaginar, e elas acontecerão com você. E são tão belas - mas não são verdadeiras. Assim, quando você confiar numa pessoa, mesmo confiando deve ter consciência da sua imaginação. Confie, mas não se torne uma vítima da imaginação. O que quer que esteja sendo dito aqui é metafórico. E recorde-se, sempre, de que todas as experiências são imaginação. De todas as experiências, digo eu, incondicionalmente - só o experimentador é a verdade.
Assim, seja qual for a sua experiência, não lhe dê muita atenção e nem comece a gabar-se dela. Lembre-se, apenas, de que tudo quanto é experimentado é ilusório; só aquele que realiza a experiência é verdadeiro. Atente para a testemunha; focalize a testemunha, e não as experiências. Por mais belas que sejam, todas as experiências são semelhantes ao sonho e é preciso que se vá além delas.
Assim, se a religião é poética, temos de falar metaforicamente. O discípulo que confia profundamente pode, facilmente, ser vítima da imaginação - é preciso estar sempre bem alerta. Confie, ouça as metáforas, mas recorde-se de que são apenas metáforas. Confie; muitas coisas começarão a acontecer, mas lembre-se: tudo é imaginação, menos você. E tem de chegar a um ponto no qual não há experiências, onde só existe o experimentador, silenciosamente.
Só a testemunha, a consciência, permenece observando tudo. Todas as experiências desaparecem e só o próprio cenário de todas as experiências permanece. Você permanece; tudo o mais está perdido. Lembre-se, porque você confia em mim, que falo por metáforas - e, então, a imaginação é possível. Imaginazione: cuidado com essa doença.
Fonte: Osho, Tantra: A Suprema Compreensão, Editora Cultrix, 1992.
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sábado, outubro 23, 2010
Meditações do Osho - 45
A pessoa religiosa vive sem o ego. Ela sabe que "Sou parte do todo, uma parte intrínseca do todo, não um ser separado". Saber isso, saber que "Não sou separado do todo", traz uma tremenda liberdade, traz vastidão: todo o céu é seu. Você não se identifica mais com um pequenino ego.
Somos vastos, mas ficamos confinados em espaços pequenos; é por isso que existe tanta amargura. É como forçar um oceano a caber numa gota de orvalho. Somos pássaros, com asas, e precisamos de todo o céu, mas estamos engaiolados. Ninguém nos colocou na gaiola: a ironia é que nós mesmos nos engaiolamos. Somos a prisão, somos o prisioneiro e somos o carcereiro - não há mais ninguém. É por isso que os místicos dizem que é tudo um sonho (maya). Quando você acorda, percebe algo assim: "Que estranho. Eu estava sendo perseguido por um leão, mas eu era o leão e eu mesmo me perseguia - e eu era também o espectador, a testemunha de toda a cena!". Assim é a vida, como um sonho.
Agora é a hora... Se as crianças têm brincadeiras tolas, elas podem ser perdoadas. Elas precisam errar o caminho, precisam cometer erros. Mas, quando você cresce, não pode ser perdoado. E o ego é a mais tola de todas as brincadeiras, porque é contra a realidade, é contra a existência. Criamos nossas próprias prisões com nossa imaginação, nosso desejo, nossa memória, nossa ambição, nosso ciúme. E tudo isso cria estruturas sutis à nossa volta. A totalidade dessas estruturas se chama ego. De agora em diante, conscientize-se disso e aos poucos saia daí.
Fonte: Osho, Meditações para a Noite, Verus Editora, Campinas-SP, 2006.
Marcadores: ego, maya, meditação, Osho, sonho
terça-feira, março 18, 2008
Nossos 2 Tipos de Sonhos
Gurdjieff nos informa que temos dois tipos de sonhos. O primeiro tipo é aquele que temos quando vamos dormir; este tipo não tem maiores conseqüências, pois seus problemas (pesadelos, por exemplo) terminam quando acordamos do nosso período normal de sono. O segundo tipo de sonho é aquele que temos após acordarmos de nosso período normal de sono; este "sonhar acordado" é um sonho hipnótico que nos molda todos os atos que temos, no chamado "período de vigília"; esta situação hipnótica nos foi impingida desde o nosso nascimento pela sociedade que nos cerca, começando pelos pais e, posteriormente, se estendendo para os amigos, professores, parentes, conhecidos, grande mídia, etc.
Você pode pensar que estou exagerando neste aspecto, e que você possui um total livre arbítrio para enfrentar o seu meio livremente. Mas não é bem assim. Tome, por exemplo, o nosso sentido da visão. Nós não enxergamos com os olhos: a informação visual passa a existir para nós apenas após sua decodificação por um lugar do cérebro (local totalmente escuro! Uma câmara escura...) chamado de córtex visual. Porém, durante o trajeto dos olhos até o córtex visual, a informação luminosa sofre uma edição (uma auto-censura) de acordo com os conceitos que aceitamos como verdadeiros desde o nosso nascimento (nossos pré-conceitos). Essa edição das imagens visuais pode ser bastante severa. Quem assistiu o filme "Quem somos nós?", por exemplo, irá lembrar-se do fato ocorrido com os índios, quando da chegada de Cristóvão Colombo na América: os índios não conseguiam ver, inicialmente, as enormes caravelas de Colombo, estacionadas próximas da praia! Os índios nunca tinham visto uma caravela e, porisso, não conseguiam enxergá-las, apesar de estarem em frente às suas vistas; a edição visual era total no trajeto entre os olhos e o córtex cerebral desses índios. Esse tipo de acontecimento continua ocorrendo rotineiramente hoje em dia conosco; alguém que não acredita, piamente, em discos voadores, pode ter dificuldade em os enxergar, apesar de estarem na sua presença. Certos objetos conhecidos, que tenham um buraco ocasional, podem ser enxergados sem esse buraco, devido a essa nossa edição visual; um editor/revisor pode detectar facilmente erros ortográficos que um escritor tinha certeza que não existiam na sua redação (pois o escritor realmente vê as palavras erradas, escritas por ele, da forma certa); etc etc.
Quando conseguimos acordar de nossos sonhos hipnóticos (e de nossos sonhos normais do período normal de sono) podemos passar a ter o que é conhecido como sonhos lúcidos, em que a realidade que nos cerca passa a ser percebida de uma forma mais real, consciente e verdadeira. Algo parecido com a vivência de um desdobramento astral consciente.
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